maxresdefault

“O criador do espelho envenenou a alma humana.”
Fernando Pessoa – Livro do Desassosego

Uma pergunta ao espelho.

Giordana Bonifácio

Diga-me, gêmeo de Narciso, quem sou eu? Quem é esta pessoa debaixo de sete véus de dúvidas e ilusões? Diga-me, de quem são estes olhos indecisos, estes lábios secos e este rosto, de quem é? Não me enxergo nessa penumbra… Já é noite? Quanto tempo estou aqui? Coisa estranha esta de ficar perdido em si mesmo… Ainda mais quando não se sabe quem na realidade você se tornou. Em que curva, nesta vida, perdi o rumo? Ainda escrevo muito. Mas não tanto quanto antes. Queria compreender-me. Nunca consegui. Fui juntando recortes de vida para construir a minha própria. Acontece que, no fim, eu já não era o mesmo. Sou como uma estátua de cera muito semelhante a alguém. Mas, na verdade, só mais um ninguém. Quem vai me ouvir, se gritar? Quem vai me acalentar se eu chorar? Já não me basto. Sou um rei em cheque. Preciso de defesas. Onde está meu valente cavalo? Meu sagaz bispo, aonde foi? Parece-me que estou abandonado frente à solidão dos meus pensamentos. Quem diria que seria assim o meu fim. Ainda que não seja mesmo o fim, gostaria que a vida houvesse se feito de forma diversa. As coisas ficaram muito estranhas de uns tempos para cá. Seria muito pedir outro final para o meu personagem? Quem é o autor idiota desta vida cheia de som e fúria e sem sentido algum? Posso escrever uma lista de insatisfações que fui acumulando na minha história. Esta tão curta e tão longa caminhada, dependendo do ponto de vista do observador. Tudo é relativo. Menos a mágoa que ainda mora nesse coração triste. Fui escrevendo cartas para ninguém com a firme esperança de ser colhida neste mar de desilusões. Vou dizer o que me aflige: eu ainda estou aqui! Meus caros, eu ainda estou aqui! Mas ninguém me vê. Ou, se veem, ignoram-me. Qual a importância de mais um marionete neste teatro de bonecos? Posso chover neste papel? É que não sei mais por onde seguir, procuro-me nas minhas mil versões de mim. Porém, dei-me conta que continuo rascunho. Estou com minhas rasuras bem marcadas. Quem virá me passar a limpo? Há mapas que ensinem o caminho mais rápido para o meu coração? Razão, minha, cara amiga, por que me abandonastes?
Ó tempo, meu velho companheiro, quantos anos seguimos juntos? Parece-me que é o único que permanece comigo. O seu tique-taque segue as batidas do meu coração. Somos colegas solitários nesse mundo tão repleto de dor e nada. Sabem, homens são partículas de sonhos desfeitos. Minúsculas desimportâncias neste mundo em que tudo parece mais necessário que você. Eu fui compondo meu próprio réquiem, mas ninguém se aventura a escutar. Pois as pessoas não querem mais ouvir músicas tristes. Há uma ensurdecedora alegria nos dias de hoje que me deixa perplexo. Os sorrisos espelham-se nas redes sociais. Felicidade fabricada. Não me valho destes mecanismos artificiais, para fazer-me mais agradável aos demais. As fotos não são mais imagens do real, são composições tratadas digitalmente para fazer menos humanos os homens. Como se fossem necessárias máquinas para isto. A humanidade já é desumana. O egoísmo faz das pessoas menos irmãs e mais Caim. E minha imagem restou desfocada demais nesta sociedade de aparências. Não sei dizer belas mensagens de otimismo e autoajuda. Talvez, o que escreva não ajude a ninguém. Muito provável, porque ninguém o lê mesmo. E meus relatos ficam restritos ao papel, a espera de leitores que nunca chegam. Muitas vezes questionei se devo continuar a regar um sonho que não dá frutos. Mas o que seria de mim se não escrevesse? Se nem com o auxílio torto das palavras consigo me compreender… Vejam, o tempo abriu, faz um belo amanhecer lá fora. O espelho olha-me inquisitivo. O que posso dizer-lhe meu irmão? Não me compreendo o bastante para suprir todas as suas dúvidas. Estamos ambos perdidos, neste mundo em que GPS’s já podem ser acessados pelo celular. Só não se encontra quem não se quer encontrar. Ou quem não o pode.
Vá querido diário, diga-me o resumo desta novela, pois perdi capítulos essenciais para se compreender a trama desta “soap opera”. Quando vou saber quem sou? Pois não quero mais ficar na expectativa de algo que nunca acontece. Aliás, eu até arquivei uma dezena de sonhos envelhecidos. Coisas que gostaria muito, mas que hoje já não me são essenciais. Alguns dirão que é resignação, prefiro outra palavra: resiliência. Eram coisas bobas, que nunca acontecerão. Por isso, desisti delas. Estão na letra P de “perda de tempo”. Serviram-me como tábua de salvação quando precisei, mas, agora, posso descartá-las, sem medo de desfazer-me de algo que algum dia venha fazer-me falta. Agora tenho outros propósitos. Ainda que não esteja bem certo de quais sejam. Sou um complexo de ouroboros. Nada tem fim ou começo. Se querem lógica, procurem um livro de raciocínio lógico. Não sou obrigado a explicar-me. Tentem compreender-me nas entrelinhas. Suaves ondas fervem nas areias límpidas de algum lugar. Vão e vêm fazendo os caranguejos que minha mãe chamava de “marias-farinhas” correrem atrás do alimento que aparece e esconde-se no ritmo das marés. Uma dessas ondas, leva consigo uma carta que escrevi há muito, muito tempo atrás, e desperdicei no oceano. Coloquei dentro de uma garrafa uma imagem de mim. Uma carta que me descrevia quando não me via, mas, ainda assim, pensava que me compreendia. Eu era jovem e tolo. Agora, a idade ameaça-me e a morte já me ronda funesta. Sem saber, fiz um documento histórico, que me seria muito útil hoje. Mas ninguém recuperou este pedaço de mim que se perdeu para sempre no oceano. Não me recordo do que escrevi. Será que guardei naquelas palavras a imagem que não consigo ver no espelho? Será que alguém me encontrou despejado pelas ondas, como um náufrago exausto, em uma praia? Será que me guarda como um amuleto, um guardião de bons sonhos como aqueles fabricados pelos índios? Será que se me visse, conseguiria me reconhecer?
Eu mudei tanto nestes últimos anos. Era tão estúpido. Cria em milagres, cria em mim, e também cria nos homens. Fui desenganado pela experiência. Aprendi muita coisa. Mas ainda sou insipiente nas mais importantes. Continuo a procurar a minha melhor imagem, mas a face fria de Narciso mostra-me um rosto envelhecido que não identifico. Este não ou eu. Por onde andará minha imagem, lançada no mar, a versão mais genuína de mim? Estou andando às cegas por um labirinto sob a ameaça de um feroz Minotauro. Esta que foi uma obra genial de Dédalus, só foi vencida por Teseu, com auxílio de uma apaixonada Ariadne. Mas, no meu caso, um novelo é muito pouco para fazer-me encontrar a saída de meus problemas. Vivo numa confusão de sons e sensações, como um recém-nascido após o parto. Por que o mundo continua a impressionar-me tanto? Quem sou eu, se o que fora, não posso resgatar e o que serei é uma dúvida atroz? Fui me perdendo ao longo dos anos. Esqueci-me de quem era… E meu eu futuro depende de encontrar àquela mensagem perdida no mar. Não há um retrato naquela garrafa que deve estar escurecida pelos anos sob o contato do sal do mar. Mas uma mensagem que me designa por completo, ainda que dela não me recorde. Sou o que fui, e o que era é muito mais sublime do que serei se não for quem era. Pois no passado encontramos nossa verdadeira feição. Não é das criancinhas o reino dos céus? Eu não sou este que me imputa, ó espelho! Não quero ser este espírito frio de olhos tristes e coração gelado. Quero ter a inocência, a alegria e o fulgor da infância, quando a vida não era só uma reprise batida da Sessão da Tarde. A minha maior dor é ter de restar aqui repleto de questões, sem entender o mundo e sem me entender. Tenho certeza que estou neste mundo de “sparring” da vida, que não se cansa de bater-me. Sou como um vidro quebrado cujas partes não mais se juntam. É tudo que me sobrou de mim: uma antiguidade empoeirada e rachada, sem uso algum, esquecida num sótão escuro. Passei a vida inteira a tentar ser. Ainda que ser seja algo impossível, um sonho que arquivei para um uso futuro, mas que sempre fui, ainda que fosse o avesso do que deveria ser. Mas ainda sou. Sei que sou. Ainda vou me achar…

Anúncios
Categorias: Uncategorized | Deixe um comentário

Navegação de Posts

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: