pimenta

Todo o homem saudável consegue
ficar dois dias sem comer
– sem a poesia, jamais.
Charles Baudelaire

Poesia, o tempero da vida.

Giordana Bonifácio

Poesia é tempero sim, deixa a vida mais apetitosa. Apimenta o romance, adoça os lábios e elogios. Ainda faz mansos os brios. Acrescenta-se que deixa menos insossa a manhã de segunda-feira e melhor a semana inteira. Um poema faz nascerem sorrisos nos rostos outrora tristonhos. É magia pura. Uma pitada de amor, duas gotas de lágrimas de alegria, uma pétala de um feliz bem-me-quer e eis que surge uma poesia, exótico sabor de beleza e harmonia. Não importa se é poema de versos brancos ou lilases ou poesia que dança feliz na métrica e rima. O que vale é a arte, brincar com as palavras e fazer mais colorido este mundo tão cinza. “A Terra é azul”, poetizou o astronauta, do espaço, o mundo. Pintou um mundo “blue” com uma cor ardente ainda que fria. Quem diria que tal poder a palavra teria? “Por que poesia?” Questionaria o cético. “Por que, não?” O poeta em sua sabedoria responderia. “Não se comem sonetos”, retrucaria a dona de casa. O escritor, jamais vencido, em causa própria advogaria: “não alimenta o corpo a poesia, mas a alma que, sem a arte, definharia”. Ruge a esfinge seu terrível enigma: “que seria do homem sem as Musas de Hesíodo ou sem a Ilíada de Homero? Só seria menos belo? Ou até o passado a sua falta modificaria?” Não é charada de difícil resolução. Se queres saber é muito simples: a literatura nasceu poesia e depois se desenvolveu. Fez-se contos e romances, crônicas até. Quem diria que seria o gérmen desta sexta arte, que se produz pelo jogo de palavras. Letra e música fazem mais bonita à canção. Mal sabes que o compositor criou poesia que depois a guitarra musicou. “Rock and Roll é também poesia?” Pergunta o jovem perplexo. “Sim, caro rapaz, pois caso o contrário, na música, não haveria harmonia.” Diz resoluto o rockstar em sua mansão à beira-mar.
Mas que maçada, a tevê não responde nada! Por isso, o livro esquecido e negligenciado faz-se tão importante. A televisão busca a audiência acima da cultura. Não respeita o legado histórico dos escritores cuja arte fulgura. Pobre Cervantes que será de ti esquecido nas estantes? Infeliz és, Baudelaire, trocado por uma revista Marie Claire. Nem me fale de ti, Dante. Por que seria teu Inferno tão importante? Então mundo pós-moderno, a poesia é quem pode fazer-te mais terno! Computação gráfica faz do cinema mais real, mas sabes o que faz a poesia bem mais legal? Tu és quem pinta todo o cenário e escolhe o elenco. O poeta só se encarrega do roteiro. Por isso, há obras que rodam o mundo inteiro. A garota de Vinícius fez famosa Ipanema, existe obra mais carioca da gema? Carlos Drumond foi grande poeta, espanta-me que poucos tenham acesso a sua poesia tão seleta. Quem diria que, aos poucos, as pessoas fossem esquecendo a poesia? Camões, hoje, também morreria na miséria. Os Lusíadas seria o nome de novela da Globo e a audiência confundiria nosso amado Luís com António Lobo (outro autor português com “memória de elefante”). Que se fariam dos Gigantes do Quixote, convertidos em normais moinhos de vento? E Poe com seu corvo agourento? Quem hoje o conheceria a contento? Poesia, cominho da vida, coloral dos molhos servidos no presente, abra dos homens as fechadas mentes, pois sequer conseguem pensar autonomamente. Sabem toda programação da tevê, mas nunca abriram sequer um livro para ler. Queria eu poder saber o que é certo, mas hoje nas letras vivemos num imenso deserto. Porém, ainda há oásis onde água se pode beber e matar imensa sede de saber. Mas vão secando aos poucos as fontes outrora viçosas. E as palavras murcham como velhas rosas. Coisa triste, a sexta arte muito mal ainda resiste. Ninguém mais se importa, nem se comoveriam se, por um simples acaso, Rimbaud renascido lhes batesse a porta. Ah, mundo o que seria do seu agrado? Talvez um poema de Adélia Prado? Que insossa é esta realidade, pois as pessoas não sabem sequer das histórias de Sherazade.
Terríveis são estes novos tempos, onde os livros são considerados apenas contratempos. A poesia afoga-se em agonia no mar do esquecimento. Não é fato que invento. Podem estar certos, os caminhos da literatura são incertos. Pois os leitores são cada vez mais raros enquanto os livros, (que horror!) estão, a cada dia, mais caros! O que será da arte da palavra, da construção perfeita das frases e orações, se não mais conquistam, dos homens, os corações? A querida lua que costumava encantar os poetas, perdeu seu brilho? Será que o trem da vida saiu dos trilhos? Perdidos os passageiros tomam diversas direções. Não que seja errado gostar de games ou memes, mas que tal lembrar de ler um pouco.? Ouvir a voz do poeta, que de tanto cantar em vão, já está ficando rouco? Não precisa ler desvairadamente, mas que tal um poema pela manhã? Outro, talvez, à tarde de um livro que te agrade? Não há necessidade de uma overdose, mas nesse caso é um vício não prejudicial. Na verdade, aumenta sobremaneira seu potencial. Se queres ler, toma um bom livro de Neruda, que ao romance muito ajuda. Que tal Florbela, cujos sonetos à vida revela? Ou quem sabe um tanto do Desassossego de Pessoa? Será que tal nome bem aos teus ouvidos soa? Esteja certo, após começar a ler, sempre vás querer ter um bom livro por perto. Poesia? Por que não? Lê Caramuru de Santa Rita Durão. Não há mais divino prazer do que o do homem que lê. Não é um passatempo tão somente. Mas uma promissora semente. Pobres são aqueles hipnotizados por imagens, se tão mais afortunados são os que conseguem as palavras domar. E suas naus cruzam fácil este revolto mar. Pois navegar e preciso, ainda que ainda estejas indeciso. Se queres saber, a poesia é o sal da vida. Portanto, se ambicionas um delicioso repasto, abre tua janela para mundos mais vastos.
Se ainda que todo este discurso não tenha a ti comovido, abre bem teus ouvidos. Se não ousares pensar, na vida sempre irás penar. Aqui deixei claros os “motivos da rosa”, nessa longa e saborosa prosa. O homem é o que lê e não o que vê. Se nada lês, nadas és. E no mundo da sabedoria nunca colocará sequer os pés. Procura aprimorar-te, sei que quando iniciares a ler, não cansarás dessa velha nova arte. Pois a poesia é tão fina especiaria, que torna especial a mais estranha iguaria. O paladar do leitor é mais refinado. Os homens com gostos mais apurados buscam por sabores diversificados. Assim, procuram a poesia. Não é para menos que os sonetos de Shakespeare são duma suma perfeição que anestesia. Faz menor a dor da lida. Ainda que muito sofrida. Mas, mesmo que seja “difícil defender, só com palavras, a poesia,” busquei fazê-lo neste presente momento, trazendo a arte da escrita para o centro da berlinda. Mas como de início destacou-se, a poesia não restou estanque. Não é político para ficar só no palanque. Fez-se música da poesia, fez-se cinema desta alegoria e as artes todas se mesclaram numa fantástica fantasia. Se queres saber, a vida é Severina, mas com a leitura você aprende a “vê-la desfiar seu fio, que também se chama vida, ver a fábrica que ela mesma, teimosamente, se fabrica, vê-la brotar em nova vida explodida mesmo quando é assim pequena a explosão, franzina, mesmo quando é a explosão de uma vida Severina”, e só se faz mais a vida essa coisa tão brilhante quando se trata de uma poesia feita com tanto esmero por um tal João Cabral de Melo Neto. Espero que tenha me feito entender nestes vagos versos, que no tempero da poesia estavam imersos. Este foi um poema em prosa convertido nesta crônica saborosa, com umas pitadas de magia e um não sei o que de poesia. Espero ter engrossado o caldo desse assunto tão malfadado que é fazer ler aqueles que pela tevê estão hipnotizados.

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