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“Um homem não é infeliz porque tem ambições,

 mas porque elas o devoram.”

Montesquieu

Um simples par de galochas

Giordana Bonifácio

Particularmente, não gosto de pegar ônibus. Isso porque o transporte público no Brasil é sofrível e obriga os pobres cidadãos a restarem numa espera de horas nas paradas lotadas enquanto tentam deslocar-se pelas cidades entulhadas de carros para todos os lados. Porém, não me é possível mudar esta situação e nem mesmo tenho como evitar pegar ônibus ou metrô, tendo em vista que não dirijo e nem tenho perspectiva de algum dia aprendê-lo. Então, engulo em seco meu orgulho de brasileira ferida e atenho-me a aguardar no ponto como tantos outros brasileiros indignados que pouco ou nada podem fazer para mudar o Brasil. Bom, mas não queria suscitar este assunto. Afinal o Brasil é um país lindo, apesar dos pesares, o que temos de melhor é nosso povo, que se gozasse de boa educação conseguiria transformar sua realidade.

Bem, mas retornando ao tema que de início pretendia suscitar, apesar de odiar o transporte urbano no Brasil, passo grande parte do meu tempo nos pontos de ônibus, aguardando a próxima condução. Como a espera ordinariamente é muito longa, tento pensar em algo que me entretenha e que se faça tema de uma de minhas crônicas. Não é que hoje, particularmente, fui agraciada com uma imagem que me inspirou a escrever? Uma mãe segurava pelo braço um menino de aproximadamente cinco anos cujos cabelos cortados à moda militar deixava-o com aparência de um homenzinho. A jaqueta que este lindo garotinho vestia era bem grossa, talvez porque o frio deste ano em Brasília tenha superado ao esperado. Contudo, o inverno na capital do Brasil é frio e seco. É tão improvável em julho chover quanto o é pinguins alçarem voo. O que me causou espanto neste menininho é que, apesar de não estar chovendo e nem mesmo haver expectativas nesse sentido, ele usava galochas com o símbolo do Capitão América. Era um retrato engraçado, mas ainda que me causasse espanto o menininho parecia muito satisfeito com suas galochas de herói. Sentia-se confiante e de tempos em tempos apreciava os sapatos tão inusitados para o clima vigente.

Vendo a felicidade daquele garotinho com aquelas galochas recordei-me que, quando criança, adorava um moletom imitando uniforme de um time de baseball dos Estados Unidos. Quando vestia aquele moletom, sentia-me, tal qual aquele menininho, especialmente feliz. Não necessitava estar frio para que vestisse aquela roupa que tanto me agradava. Era, para mim, muito especial e o sentido de usá-la era me proporcionar autoestima, acreditava que seria mais forte, que seria mais legal, enfim, alguém a quem todos invejassem, graças ao meu moletom de baseball.

Infelizmente, não me restaram fotos vestida neste meu tão caro abrigo, mas permanecem comigo as memórias desta vestimenta única para mim. Engraçado, que quando crianças, uma peça de vestuário cause este efeito em nós. Mas não precisa ser um sapato, uma blusa ou boné. Pode ser também um brinquedo ou qualquer coisa para que a criança confira uma importância que lhe faça crescer seu amor próprio. Por incrível que pareça, tais coisas fazem-nas sentir-se melhor. O problema é que, quando adultos, este significado perde-se bastante. Não é suficiente uma gravata ou um escarpam que nos incite a autoestima, necessitamos de mais, muito mais. É preciso corresponder ao clamor social, temos de possuir um bom emprego, boa instrução, roupas fidedignas a nossa posição social, tanto quanto o ultimo lançamento automotivo do momento.

 Aquela felicidade de usar tão somente galochas do Capitão América perde-se em meio a tantos desejos que, muitas vezes, não podemos satisfazer. Não sentimos o mesmo prazer de outrora, ainda que sejamos agraciados por uma condição econômica que possibilite a satisfação de todas as necessidades megalomaníacas do homem. Sempre haverá um detalhe que não nos permite sermos totalmente felizes. A busca do corpo perfeito, a submissão a inúmeras cirurgias plásticas para o indivíduo usufruir de popularidade social é um exemplo claro disso. O que estou tentando dizer é que, quando crianças, bastava-nos tão pouco para sermos felizes. Hoje, nossas necessidades inflacionaram sobremaneira.

Quisera eu sentir-me feliz como aquele menininho com suas galochas azuis com o escudo do Capitão América. Quisera eu sentir hoje, o prazer de quando vestia meu moletom de baseball. Acho que nada que possa acontecer-me superará aquela sensação de confiança e satisfação que gozava na minha infância. E o que causava esta sensação era algo tão pequeno em comparação ao que nos sacia atualmente. Na verdade, não nos farta, estamos eternamente famintos de algo que desconhecemos. Quando alcançamos uma vitória, logo esta não nos será suficiente. Estaremos logo a desejar um novo patamar, um maior crescimento, pois o céu não nos é o limite.

Será que é saudável estarmos sempre querendo mais com uma fome incomensurável de poder, fama, dinheiro, beleza e outros objetivos tão mesquinhos? Será que não devemos observar aquele menininho feliz com suas galochas para aprender com ele o real sentido de felicidade? Somos seres tolos, quando meninos, pensamos não saber de nada, mas éramos tão sábios na nossa inocência. Já quando adultos, depois de muito estudar e estarmos convictos de nossa sabedoria é quando mais ignorantes tornamo-nos. Querem saber o real significado de felicidade? Sermos felizes com o pouco que temos, ou com aquilo que somos ou possuímos. Não que seja errado ambicionar crescimento. O problema é quando os objetivos crescem progressivamente, de modo não haver fim. Esquecemo-nos de viver para finalmente atingirmos nossos sonhos cada vez mais altos.

No fim, talvez o que precisássemos fosse um par de galochas de herói ou um casaco de baseball, prazeres infantis dos quais não existem reflexo em nossa vida adulta. Nem mesmo aquele super-celular, que acabaram de lançar, será-nos tão significativo quanto aquele bonequinho que tanto ansiávamos ganhar de presente de Natal, ou aquela bola de futebol para o menininho que sonhou com aquilo todo ano. Talvez, se diminuirmos nossas expectativas, nosso prazer será maior. E seremos mais gratos por tudo àquilo que já temos ou conquistamos. Mas para falar a verdade, fiquei com inveja do sorriso daquele garoto. Estou até pensando em comprar para mim galochas do Capitão América e usá-las em meio à terra vermelha e seca. Pois não tem graça usá-las só na chuva.

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