Arquivo do mês: julho 2016

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“O futuro dependerá daquilo
que fazemos no presente.”
Mahatma Gandhi

A outra Terra

Giordana Bonifácio

Sempre que olho a Terra assim, pela janela, tento lembrar-me do período em que vivemos naquele planeta que costumava ser azul. Hoje, uma massa de fumaça cobre os céus, não se pode sequer distinguir os oceanos. Era tão bela a Terra que fazia suspirar os primevos astronautas ao verem seu mundo pela primeira vez. Mas nada é mais como antes, uma guerra nuclear pôs fim à condição de vida no nosso planeta e fomos obrigados a morar numa estação espacial na órbita do lugar que costumávamos chamar de lar. Mas não havia espaço para todos, só uns poucos escolhidos foram trazidos para a estação espacial internacional Gaya, a segunda Terra. O restante de nós foi condenado a morrer, sob uma densa massa de poluição no céu e uma perigosa carga radioativa no solo. Claro que o capitalismo foi, mais uma vez, providencial, para zelar pela vida dos mais ricos. Quem nada tinha, nem mesmo a vida poderia ter. Eu estou aqui entre os “eleitos”, vim morar no círculo dos mais ricos, desfrutando de luxo e bem estar, porém, não deveria estar nesse lugar. Mas o que faria? O instinto de sobrevivência sempre fala mais alto. Eu tive medo de morrer ou de lutar para respirar numa terra desolada. Eu preferi viver aqui. Eu escolhi estar junto desta “geração dos afetados consumados e consumadamente deslocados”, se posso me valer das palavras de Pound nesse momento. Não, não posso. Não devo. Não me cabe. Estou desfrutando de uma vida que não é minha. Não sou quem pensam que sou. Sou um verme e como tal, deveria chafurdar na lama que outrora chamávamos de Terra, onde nada mais se produz. Está tudo envenenado. Os sonhos também, que futuro eu teria? Pouco tempo de uma apática sobrevida. Então, morrer. Dizer adeus ao mundo que não me teria sido possível deixar. Para tornar-me parte dele, penetrar no solo, ser alimento dos vermes que me devorariam avidamente as entranhas. Mas do que se passa lá, nada sabemos. É uma terra de ninguém, esquecida pela alta elite, de cuja riqueza se locupletou e, após sugar o último diamante, a última pepita de ouro e a derradeira gota de petróleo, abandonou à própria sorte.
É lá onde eu deveria estar. Sofrendo com os “esquecidos”, sob o sol que não ultrapassa a nuvem de carbono, mas perpetua o efeito estufa e a radiação. Deveria caminhar sobre o solo desértico e infértil, devorando restos para manter-me por mais um dia. Só mais um dia. Contudo, fui torpe. Ao tomar conhecimento do êxodo, eu fiz o ato mais abjeto de minha vida. Eu matei, depois menti, e continuei mentindo desde então. O Dr. Shawn, meu antigo mestre fora convidado a embarcar para o paradisíaco futuro em Gaya, a outra Terra. Eu, um simples aluno, aproveitei-me dos hábitos reclusos do professor, para assassiná-lo e tomar seu assento nesta nova vida. Ele não tinha parentes vivos, sua família restringia-se a um cão, do qual tive de livrar-me tendo em vista que nunca se deu comigo e poderia estragar-me o disfarce. Eu matei Robert Shawn. Asfixiei-o com minhas próprias mãos e escondi o corpo dentro de um armário. Era o dia do embarque, havia confusão, protestos, atentados, tudo estava num estado de terror absoluto, quem se daria ao trabalho de verificar se havia um corpo no armário do laboratório? Se o encontraram, foi muito depois de eu já estar entre os escolhidos. Nada mais poderiam fazer. Gaya cortou as comunicações com a velha Terra. Um lar destruído por nossa cobiça. Não tive dificuldade de continuar as pesquisas do Dr. Shawn, afinal, já auxiliava o verdadeiro há bastante tempo. Ele era como um pai para mim. Talvez, se lhe dissesse de minhas intenções haver-me-ia concedido seu lugar no futuro. Mas sequer pude questioná-lo. Afinal, se ele recusasse, talvez viesse a desconfiar das minhas funestas intenções. Tive medo de não conseguir matá-lo. Porém, no momento da consumação do crime, fui tomado por uma força sobre-humana. Agarrei-lhe o pescoço enquanto ele tentava inutilmente se libertar. Morreu. Foi fácil matar. Faria de novo? Sempre que necessário. Há muitos motivos para me despertar novamente a fúria assassina. O meu Mister Hyde está cada vez mais forte em mim e o Dr. Jeckyll está em estado de latência, tentando fazer-se forte frente ao monstro. Quem sou eu? Dr. Robert Shawn, pois Nathan Keynes, o dedicado estudante, não existe mais. Estou vivo: é o que importa. Não trouxe nenhum dos meus familiares, só havia convite para um. E este não era meu, mas agora é. Não tenho a menor dúvida disso. Mesmo que seja tomado de remorsos às vezes. Mas, então, recordo-me do sofrimento dos atuais habitantes do meu antigo lar, e considero-me muito sagaz por ter fugido de lá.
Dizem que não existe crime perfeito. Estou aqui há dez anos e ninguém sequer desconfia do assassinato. Quem irá reclamar? Talvez o corpo do Dr. Shawn, mas os corpos não falam. E não mais há provas contra mim. Estou vivo e é isso o que importa. Claro que desenvolvi um transtorno de ansiedade em função da pressão de passar-me por outra pessoa. Descobri que o Dr. Shawn só se comunicava mediante e-mails com outros cientistas, o que me deixou bastante aliviado. Mesmo assim, alguma coisa deveras estranha começou a passar-se comigo. De início, era uma leve impressão. Imaginava que, de algum jeito, todos sabiam de minha falta. Olhavam para mim inquisidores nas dependências da estação. Depois, tornou-se uma paranoia, fui violento algumas vezes. Poucas. Mas fui levado à presença de um psiquiatra. O médico diagnosticou um estresse pós-traumático, por terem acontecido tantas tragédias, na nossa antiga casa, em tão pouco tempo. Claro que não relatei ao médico o meu opróbrio. Não tenho em quem confiar. Estou cada vez mais recluso que o verdadeiro Dr. Shawn. Tenho medo dos olhos inquisidores. A tecnologia idealizada pelo meu antigo mestre contribui para que todos aqui permaneçam isolados. Gaya não foi feita para uma sociedade. É mais um invólucro de ar que impede que nosso sangue ferva em nossas veias em contato com o vazio espacial. Estamos enlatados como sardinhas. Produzimos alimento, mas em breve não será o suficiente. A população cresce, mas a estação é reduzida demais para comportar todos. Estamos na iminência de algo terrível que nem sequer posso imaginar. Será que, no fim, morreremos todos? Seria uma grande piada.
Estou roendo as unhas de novo. Absorvi alguns dos terríveis hábitos da minha vítima. Falo sozinho e sinto que não consigo manter a razão. Meu corpo curva-se sob o peso do meu pecado. Eu deveria ter morrido. Agora o Dr. Shawn está tomando conta de meu corpo. Sinto-o na minha cabeça devorando cada pedaço de mim. Não vou me entregar, paguei um preço muito alto para estar aqui. Eu estou vivo! Não pode vencer-me, horrendo espectro! Não me assombra sua presença! Sei que está em mim e mesmo que, para me ver livre de você, tenha de matá-lo novamente, eu o farei! As pessoas reparavam em meu andar confuso, nos meus gemidos e, assustadas, questionavam-se sobre minha sanidade. Eu dizia que era o Dr. Shawn e que criara esta droga de estação. Um rapaz disse que me levaria aos meus aposentos. Um cubículo no qual passava as noites a andar de um lado para o outro por sentir-me asfixiado. Precisava dos amplos espaços da Terra, a verdadeira, em que era realmente livre. Estava condenado a uma clausura perpétua ligado a um espírito que me perseguia. O rapaz assemelhava-se ao Dr. Shawn. Dizia para me acalmar que logo estaria em casa. Mas ali não era meu lar. Não pertencia àquele lugar. Soquei com força meu inimigo e pulei mortalmente em seu pescoço. Acertaram-me com algo que não vi. Então sonhei com luzes brancas e corredores. Delirava? Não sei. Mas me sentia estranhamente bem e leve. Ouvia distante uma voz. Não conseguia discernir o que dizia. De repente, dormi um sono profundo e sem sonhos. Quando despertei estava numa camisa de força num cubículo acolchoado com uma singela janelinha, como a dos aviões. Dela passo os dias a olhar para a Terra, com profundas saudades de minha casa e de quando era o estudante Nathan Keynes. Mas o Dr. Shawn assassinou-o e escondeu o corpo onde não mais pudessem achá-lo. Pobre rapaz. Nunca veria as paisagens espaciais, suas estrelas, luas e planetas nesse balé maravilhoso a que Newton chamou de gravidade. Órbitas, órbitas enlouquecidas que parecem um espetáculo criado especialmente para mim. Eu, o grande Dr. Robert Shawn, o idealizador da outra Terra, confinado para sempre em meus próprios pensamentos.

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A história de Larissa

Giordana Bonifácio

“Foco, Larissa, foco!” Repetia-se mentalmente. Era aquele seu grande momento. Havia passado por poucas e boas para chegar até ali. Assim era inevitável que um filme inteiro de sua vida fosse revivido em sua memória. Lembrava-se de que quando criança sua mãe trabalhava como doméstica e fora demitida por estar grávida. Legislação trabalhista? Era uma ilusão, naqueles tempos. O pai as havia abandonado e passaram fome por algum tempo, até chegar ajuda da professora de educação física da escola que ela, Larissa Fonseca Pinho, deveria estar frequentar, mas que nunca estava presente nas aulas.
A professora chegou ao barraco da família de Larissa toda agradável deixando a pequena estudante faltosa extremamente envergonhada. Ela pediu à mãe para não deixar que a filha abandonasse os estudos. Era essencial se quisessem realmente mudar de vida. Larissa no dia seguinte, atrasada, teve de correr um grande percurso para chegar antes do fechamento dos portões da escola. Não sabia que a professora do dia anterior observava-a a distância. Larissa foi apresentada aos colegas, mas logo que seguia para sua carteira, fora chamada para a sala do diretor. Ela gelou, não estava na escola nem mesmo há quinze minutos e já era chamada à diretoria. “E agora, garota?” Pensou. Mas quando chegou à jaula dos leões, pode distinguir, junto à Diretora, que a professora do dia anterior a aguardava. “A senhora aqui? Olha eu só cheguei um pouquinho atrasada, foi o ônibus…” “Não é nada disto. Ou melhor, é.” Interrompeu-a a professora. “Vi você correndo e, garota, você tem todo o porte de uma esportista de alto nível! Quero lhe convidar a treinar no grupo de atletismo da escola. Creio que você tem grandes chances de chegar a ser uma atleta olímpica!” A diretora completou: “Vamos providenciar-lhe sapatilhas e, a partir de agora, se aceitar, você vai treinar por nossa escola. E então?” “Sim, por que não?” O que ela tinha a perder? Na verdade, ela e a família só ganharam com esta decisão tão abrupta. Um sim inconsequente, mas que daria bons frutos.
Foram anos de muitos treinos, corria muito. Fazia exercícios para fortalecer os músculos, mas a professora, agora sua treinadora, providenciava tudo, às vezes às suas próprias expensas. Patrocínio sempre fora uma raridade. Mas, com o tempo, os esforços passaram a dar resultados. Lembrava-se de sua primeira competição: um honroso terceiro lugar, sua medalha mais importante, pois fora a sua primeira. A partir de então, vieram muitas, foram inúmeras maratonas e meia-maratonas, rodou o mundo correndo. Literalmente.
Com as primeiras vitórias, veio o tão desejado patrocínio e pode dar uma vida mais confortável para a família, sua irmãzinha e sua mãe, que agora viviam em uma casa de alvenaria. Não querendo plagiar o nome do romance de Carolina Maria de Jesus, mas se essa conquista fora para a escritora importante, para aquela menina pobre, que nem mesmo dinheiro para adquirir tênis de corrida possuía, ter uma casa de tijolos era estar segura dos sopros do lobo mal. Agora ele poderia soprar e soprar, mas não conseguiria pegar aquela menininha de jeito nenhum. Pelo menos, era assim que contava na história dos três porquinhos que lia para sua irmãzinha. Nesse ponto, já possuía uma coleção de medalhas, as quais gostava de ouvir tilintar quando segurava todas na mão. A mãe chorava de orgulho todas as vezes que a via competir. A irmãzinha já dizia que quando crescesse seria igual à Larissa.
Contudo, as vitórias não pararam por aí. A maratonista foi convidada a estudar numa grande universidade americana para concorrer nos seus quadros. A mãe dizia que tinha medo, afinal, não sabia conversar na língua dos gringos, mas Larissa já falava bem o inglês, tendo em vista que já competia internacionalmente há algum tempo. Foram as três para os Estados Unidos. A série de vitórias não parou, mas quando foi convidada a naturalizar-se americana, Larissa recusou. Apesar de as coisas não serem fáceis no seu país, ela tinha uma dívida para com sua gente. Tinha de dar-lhes esperança, mostrar-lhes que há sim outra via e que tudo é possível quando se acredita. O reitor ficou emocionado com o gesto da moça, médica formada graças ao poder do esporte.
Foi então que Larissa conseguiu o índice para a Olimpíada do Brasil. Voltaria a sua terra natal, para competir sob as cores de sua bandeira. Na abertura dos jogos, fora levada muitas vezes às lágrimas. Não acreditava que estava ali e nem em tudo que acontecera para chegar neste novo desafio. O maior de todos. Agora, frente aos concorrentes ela sentia que deveria vencer. Não para se provar melhor que os outros, mas para mostrar que, não importa suas origens simples, você pode vencer. As competições de atletismo foram muito disputadas, mas o ponto alto, a maratona, prova tão habitual dos jogos olímpicos e símbolo destes, traria a surpresa da competição. As quenianas não venceram desta vez. Uma menininha pobre da Estrutural, cidade satélite de Brasília, filha de uma empregada doméstica, descoberta por sua professora de educação física, foi sagrada campeã.
No momento da largada, Larissa já tinha em mente: “tenho de vencer!” E não fizera o contrário. Com uma boa estratégia, conseguira o improvável: vencer as favoritas. E quando ouviu o hino tocar e viu a bandeira do Brasil subir no ponto mais alto, sentiu-se completa e realizada em todos os seus esforços. Só queria dizer para todos que a viam naquele pódio todas as dificuldades que enfrentara, mas que conseguira superar graças ao esporte e, é claro, aos seus esforços. Larissa era símbolo de força, superação e fé.

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“O criador do espelho envenenou a alma humana.”
Fernando Pessoa – Livro do Desassosego

Uma pergunta ao espelho.

Giordana Bonifácio

Diga-me, gêmeo de Narciso, quem sou eu? Quem é esta pessoa debaixo de sete véus de dúvidas e ilusões? Diga-me, de quem são estes olhos indecisos, estes lábios secos e este rosto, de quem é? Não me enxergo nessa penumbra… Já é noite? Quanto tempo estou aqui? Coisa estranha esta de ficar perdido em si mesmo… Ainda mais quando não se sabe quem na realidade você se tornou. Em que curva, nesta vida, perdi o rumo? Ainda escrevo muito. Mas não tanto quanto antes. Queria compreender-me. Nunca consegui. Fui juntando recortes de vida para construir a minha própria. Acontece que, no fim, eu já não era o mesmo. Sou como uma estátua de cera muito semelhante a alguém. Mas, na verdade, só mais um ninguém. Quem vai me ouvir, se gritar? Quem vai me acalentar se eu chorar? Já não me basto. Sou um rei em cheque. Preciso de defesas. Onde está meu valente cavalo? Meu sagaz bispo, aonde foi? Parece-me que estou abandonado frente à solidão dos meus pensamentos. Quem diria que seria assim o meu fim. Ainda que não seja mesmo o fim, gostaria que a vida houvesse se feito de forma diversa. As coisas ficaram muito estranhas de uns tempos para cá. Seria muito pedir outro final para o meu personagem? Quem é o autor idiota desta vida cheia de som e fúria e sem sentido algum? Posso escrever uma lista de insatisfações que fui acumulando na minha história. Esta tão curta e tão longa caminhada, dependendo do ponto de vista do observador. Tudo é relativo. Menos a mágoa que ainda mora nesse coração triste. Fui escrevendo cartas para ninguém com a firme esperança de ser colhida neste mar de desilusões. Vou dizer o que me aflige: eu ainda estou aqui! Meus caros, eu ainda estou aqui! Mas ninguém me vê. Ou, se veem, ignoram-me. Qual a importância de mais um marionete neste teatro de bonecos? Posso chover neste papel? É que não sei mais por onde seguir, procuro-me nas minhas mil versões de mim. Porém, dei-me conta que continuo rascunho. Estou com minhas rasuras bem marcadas. Quem virá me passar a limpo? Há mapas que ensinem o caminho mais rápido para o meu coração? Razão, minha, cara amiga, por que me abandonastes?
Ó tempo, meu velho companheiro, quantos anos seguimos juntos? Parece-me que é o único que permanece comigo. O seu tique-taque segue as batidas do meu coração. Somos colegas solitários nesse mundo tão repleto de dor e nada. Sabem, homens são partículas de sonhos desfeitos. Minúsculas desimportâncias neste mundo em que tudo parece mais necessário que você. Eu fui compondo meu próprio réquiem, mas ninguém se aventura a escutar. Pois as pessoas não querem mais ouvir músicas tristes. Há uma ensurdecedora alegria nos dias de hoje que me deixa perplexo. Os sorrisos espelham-se nas redes sociais. Felicidade fabricada. Não me valho destes mecanismos artificiais, para fazer-me mais agradável aos demais. As fotos não são mais imagens do real, são composições tratadas digitalmente para fazer menos humanos os homens. Como se fossem necessárias máquinas para isto. A humanidade já é desumana. O egoísmo faz das pessoas menos irmãs e mais Caim. E minha imagem restou desfocada demais nesta sociedade de aparências. Não sei dizer belas mensagens de otimismo e autoajuda. Talvez, o que escreva não ajude a ninguém. Muito provável, porque ninguém o lê mesmo. E meus relatos ficam restritos ao papel, a espera de leitores que nunca chegam. Muitas vezes questionei se devo continuar a regar um sonho que não dá frutos. Mas o que seria de mim se não escrevesse? Se nem com o auxílio torto das palavras consigo me compreender… Vejam, o tempo abriu, faz um belo amanhecer lá fora. O espelho olha-me inquisitivo. O que posso dizer-lhe meu irmão? Não me compreendo o bastante para suprir todas as suas dúvidas. Estamos ambos perdidos, neste mundo em que GPS’s já podem ser acessados pelo celular. Só não se encontra quem não se quer encontrar. Ou quem não o pode.
Vá querido diário, diga-me o resumo desta novela, pois perdi capítulos essenciais para se compreender a trama desta “soap opera”. Quando vou saber quem sou? Pois não quero mais ficar na expectativa de algo que nunca acontece. Aliás, eu até arquivei uma dezena de sonhos envelhecidos. Coisas que gostaria muito, mas que hoje já não me são essenciais. Alguns dirão que é resignação, prefiro outra palavra: resiliência. Eram coisas bobas, que nunca acontecerão. Por isso, desisti delas. Estão na letra P de “perda de tempo”. Serviram-me como tábua de salvação quando precisei, mas, agora, posso descartá-las, sem medo de desfazer-me de algo que algum dia venha fazer-me falta. Agora tenho outros propósitos. Ainda que não esteja bem certo de quais sejam. Sou um complexo de ouroboros. Nada tem fim ou começo. Se querem lógica, procurem um livro de raciocínio lógico. Não sou obrigado a explicar-me. Tentem compreender-me nas entrelinhas. Suaves ondas fervem nas areias límpidas de algum lugar. Vão e vêm fazendo os caranguejos que minha mãe chamava de “marias-farinhas” correrem atrás do alimento que aparece e esconde-se no ritmo das marés. Uma dessas ondas, leva consigo uma carta que escrevi há muito, muito tempo atrás, e desperdicei no oceano. Coloquei dentro de uma garrafa uma imagem de mim. Uma carta que me descrevia quando não me via, mas, ainda assim, pensava que me compreendia. Eu era jovem e tolo. Agora, a idade ameaça-me e a morte já me ronda funesta. Sem saber, fiz um documento histórico, que me seria muito útil hoje. Mas ninguém recuperou este pedaço de mim que se perdeu para sempre no oceano. Não me recordo do que escrevi. Será que guardei naquelas palavras a imagem que não consigo ver no espelho? Será que alguém me encontrou despejado pelas ondas, como um náufrago exausto, em uma praia? Será que me guarda como um amuleto, um guardião de bons sonhos como aqueles fabricados pelos índios? Será que se me visse, conseguiria me reconhecer?
Eu mudei tanto nestes últimos anos. Era tão estúpido. Cria em milagres, cria em mim, e também cria nos homens. Fui desenganado pela experiência. Aprendi muita coisa. Mas ainda sou insipiente nas mais importantes. Continuo a procurar a minha melhor imagem, mas a face fria de Narciso mostra-me um rosto envelhecido que não identifico. Este não ou eu. Por onde andará minha imagem, lançada no mar, a versão mais genuína de mim? Estou andando às cegas por um labirinto sob a ameaça de um feroz Minotauro. Esta que foi uma obra genial de Dédalus, só foi vencida por Teseu, com auxílio de uma apaixonada Ariadne. Mas, no meu caso, um novelo é muito pouco para fazer-me encontrar a saída de meus problemas. Vivo numa confusão de sons e sensações, como um recém-nascido após o parto. Por que o mundo continua a impressionar-me tanto? Quem sou eu, se o que fora, não posso resgatar e o que serei é uma dúvida atroz? Fui me perdendo ao longo dos anos. Esqueci-me de quem era… E meu eu futuro depende de encontrar àquela mensagem perdida no mar. Não há um retrato naquela garrafa que deve estar escurecida pelos anos sob o contato do sal do mar. Mas uma mensagem que me designa por completo, ainda que dela não me recorde. Sou o que fui, e o que era é muito mais sublime do que serei se não for quem era. Pois no passado encontramos nossa verdadeira feição. Não é das criancinhas o reino dos céus? Eu não sou este que me imputa, ó espelho! Não quero ser este espírito frio de olhos tristes e coração gelado. Quero ter a inocência, a alegria e o fulgor da infância, quando a vida não era só uma reprise batida da Sessão da Tarde. A minha maior dor é ter de restar aqui repleto de questões, sem entender o mundo e sem me entender. Tenho certeza que estou neste mundo de “sparring” da vida, que não se cansa de bater-me. Sou como um vidro quebrado cujas partes não mais se juntam. É tudo que me sobrou de mim: uma antiguidade empoeirada e rachada, sem uso algum, esquecida num sótão escuro. Passei a vida inteira a tentar ser. Ainda que ser seja algo impossível, um sonho que arquivei para um uso futuro, mas que sempre fui, ainda que fosse o avesso do que deveria ser. Mas ainda sou. Sei que sou. Ainda vou me achar…

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Todo o homem saudável consegue
ficar dois dias sem comer
– sem a poesia, jamais.
Charles Baudelaire

Poesia, o tempero da vida.

Giordana Bonifácio

Poesia é tempero sim, deixa a vida mais apetitosa. Apimenta o romance, adoça os lábios e elogios. Ainda faz mansos os brios. Acrescenta-se que deixa menos insossa a manhã de segunda-feira e melhor a semana inteira. Um poema faz nascerem sorrisos nos rostos outrora tristonhos. É magia pura. Uma pitada de amor, duas gotas de lágrimas de alegria, uma pétala de um feliz bem-me-quer e eis que surge uma poesia, exótico sabor de beleza e harmonia. Não importa se é poema de versos brancos ou lilases ou poesia que dança feliz na métrica e rima. O que vale é a arte, brincar com as palavras e fazer mais colorido este mundo tão cinza. “A Terra é azul”, poetizou o astronauta, do espaço, o mundo. Pintou um mundo “blue” com uma cor ardente ainda que fria. Quem diria que tal poder a palavra teria? “Por que poesia?” Questionaria o cético. “Por que, não?” O poeta em sua sabedoria responderia. “Não se comem sonetos”, retrucaria a dona de casa. O escritor, jamais vencido, em causa própria advogaria: “não alimenta o corpo a poesia, mas a alma que, sem a arte, definharia”. Ruge a esfinge seu terrível enigma: “que seria do homem sem as Musas de Hesíodo ou sem a Ilíada de Homero? Só seria menos belo? Ou até o passado a sua falta modificaria?” Não é charada de difícil resolução. Se queres saber é muito simples: a literatura nasceu poesia e depois se desenvolveu. Fez-se contos e romances, crônicas até. Quem diria que seria o gérmen desta sexta arte, que se produz pelo jogo de palavras. Letra e música fazem mais bonita à canção. Mal sabes que o compositor criou poesia que depois a guitarra musicou. “Rock and Roll é também poesia?” Pergunta o jovem perplexo. “Sim, caro rapaz, pois caso o contrário, na música, não haveria harmonia.” Diz resoluto o rockstar em sua mansão à beira-mar.
Mas que maçada, a tevê não responde nada! Por isso, o livro esquecido e negligenciado faz-se tão importante. A televisão busca a audiência acima da cultura. Não respeita o legado histórico dos escritores cuja arte fulgura. Pobre Cervantes que será de ti esquecido nas estantes? Infeliz és, Baudelaire, trocado por uma revista Marie Claire. Nem me fale de ti, Dante. Por que seria teu Inferno tão importante? Então mundo pós-moderno, a poesia é quem pode fazer-te mais terno! Computação gráfica faz do cinema mais real, mas sabes o que faz a poesia bem mais legal? Tu és quem pinta todo o cenário e escolhe o elenco. O poeta só se encarrega do roteiro. Por isso, há obras que rodam o mundo inteiro. A garota de Vinícius fez famosa Ipanema, existe obra mais carioca da gema? Carlos Drumond foi grande poeta, espanta-me que poucos tenham acesso a sua poesia tão seleta. Quem diria que, aos poucos, as pessoas fossem esquecendo a poesia? Camões, hoje, também morreria na miséria. Os Lusíadas seria o nome de novela da Globo e a audiência confundiria nosso amado Luís com António Lobo (outro autor português com “memória de elefante”). Que se fariam dos Gigantes do Quixote, convertidos em normais moinhos de vento? E Poe com seu corvo agourento? Quem hoje o conheceria a contento? Poesia, cominho da vida, coloral dos molhos servidos no presente, abra dos homens as fechadas mentes, pois sequer conseguem pensar autonomamente. Sabem toda programação da tevê, mas nunca abriram sequer um livro para ler. Queria eu poder saber o que é certo, mas hoje nas letras vivemos num imenso deserto. Porém, ainda há oásis onde água se pode beber e matar imensa sede de saber. Mas vão secando aos poucos as fontes outrora viçosas. E as palavras murcham como velhas rosas. Coisa triste, a sexta arte muito mal ainda resiste. Ninguém mais se importa, nem se comoveriam se, por um simples acaso, Rimbaud renascido lhes batesse a porta. Ah, mundo o que seria do seu agrado? Talvez um poema de Adélia Prado? Que insossa é esta realidade, pois as pessoas não sabem sequer das histórias de Sherazade.
Terríveis são estes novos tempos, onde os livros são considerados apenas contratempos. A poesia afoga-se em agonia no mar do esquecimento. Não é fato que invento. Podem estar certos, os caminhos da literatura são incertos. Pois os leitores são cada vez mais raros enquanto os livros, (que horror!) estão, a cada dia, mais caros! O que será da arte da palavra, da construção perfeita das frases e orações, se não mais conquistam, dos homens, os corações? A querida lua que costumava encantar os poetas, perdeu seu brilho? Será que o trem da vida saiu dos trilhos? Perdidos os passageiros tomam diversas direções. Não que seja errado gostar de games ou memes, mas que tal lembrar de ler um pouco.? Ouvir a voz do poeta, que de tanto cantar em vão, já está ficando rouco? Não precisa ler desvairadamente, mas que tal um poema pela manhã? Outro, talvez, à tarde de um livro que te agrade? Não há necessidade de uma overdose, mas nesse caso é um vício não prejudicial. Na verdade, aumenta sobremaneira seu potencial. Se queres ler, toma um bom livro de Neruda, que ao romance muito ajuda. Que tal Florbela, cujos sonetos à vida revela? Ou quem sabe um tanto do Desassossego de Pessoa? Será que tal nome bem aos teus ouvidos soa? Esteja certo, após começar a ler, sempre vás querer ter um bom livro por perto. Poesia? Por que não? Lê Caramuru de Santa Rita Durão. Não há mais divino prazer do que o do homem que lê. Não é um passatempo tão somente. Mas uma promissora semente. Pobres são aqueles hipnotizados por imagens, se tão mais afortunados são os que conseguem as palavras domar. E suas naus cruzam fácil este revolto mar. Pois navegar e preciso, ainda que ainda estejas indeciso. Se queres saber, a poesia é o sal da vida. Portanto, se ambicionas um delicioso repasto, abre tua janela para mundos mais vastos.
Se ainda que todo este discurso não tenha a ti comovido, abre bem teus ouvidos. Se não ousares pensar, na vida sempre irás penar. Aqui deixei claros os “motivos da rosa”, nessa longa e saborosa prosa. O homem é o que lê e não o que vê. Se nada lês, nadas és. E no mundo da sabedoria nunca colocará sequer os pés. Procura aprimorar-te, sei que quando iniciares a ler, não cansarás dessa velha nova arte. Pois a poesia é tão fina especiaria, que torna especial a mais estranha iguaria. O paladar do leitor é mais refinado. Os homens com gostos mais apurados buscam por sabores diversificados. Assim, procuram a poesia. Não é para menos que os sonetos de Shakespeare são duma suma perfeição que anestesia. Faz menor a dor da lida. Ainda que muito sofrida. Mas, mesmo que seja “difícil defender, só com palavras, a poesia,” busquei fazê-lo neste presente momento, trazendo a arte da escrita para o centro da berlinda. Mas como de início destacou-se, a poesia não restou estanque. Não é político para ficar só no palanque. Fez-se música da poesia, fez-se cinema desta alegoria e as artes todas se mesclaram numa fantástica fantasia. Se queres saber, a vida é Severina, mas com a leitura você aprende a “vê-la desfiar seu fio, que também se chama vida, ver a fábrica que ela mesma, teimosamente, se fabrica, vê-la brotar em nova vida explodida mesmo quando é assim pequena a explosão, franzina, mesmo quando é a explosão de uma vida Severina”, e só se faz mais a vida essa coisa tão brilhante quando se trata de uma poesia feita com tanto esmero por um tal João Cabral de Melo Neto. Espero que tenha me feito entender nestes vagos versos, que no tempero da poesia estavam imersos. Este foi um poema em prosa convertido nesta crônica saborosa, com umas pitadas de magia e um não sei o que de poesia. Espero ter engrossado o caldo desse assunto tão malfadado que é fazer ler aqueles que pela tevê estão hipnotizados.

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“Um homem não é infeliz porque tem ambições,

 mas porque elas o devoram.”

Montesquieu

Um simples par de galochas

Giordana Bonifácio

Particularmente, não gosto de pegar ônibus. Isso porque o transporte público no Brasil é sofrível e obriga os pobres cidadãos a restarem numa espera de horas nas paradas lotadas enquanto tentam deslocar-se pelas cidades entulhadas de carros para todos os lados. Porém, não me é possível mudar esta situação e nem mesmo tenho como evitar pegar ônibus ou metrô, tendo em vista que não dirijo e nem tenho perspectiva de algum dia aprendê-lo. Então, engulo em seco meu orgulho de brasileira ferida e atenho-me a aguardar no ponto como tantos outros brasileiros indignados que pouco ou nada podem fazer para mudar o Brasil. Bom, mas não queria suscitar este assunto. Afinal o Brasil é um país lindo, apesar dos pesares, o que temos de melhor é nosso povo, que se gozasse de boa educação conseguiria transformar sua realidade.

Bem, mas retornando ao tema que de início pretendia suscitar, apesar de odiar o transporte urbano no Brasil, passo grande parte do meu tempo nos pontos de ônibus, aguardando a próxima condução. Como a espera ordinariamente é muito longa, tento pensar em algo que me entretenha e que se faça tema de uma de minhas crônicas. Não é que hoje, particularmente, fui agraciada com uma imagem que me inspirou a escrever? Uma mãe segurava pelo braço um menino de aproximadamente cinco anos cujos cabelos cortados à moda militar deixava-o com aparência de um homenzinho. A jaqueta que este lindo garotinho vestia era bem grossa, talvez porque o frio deste ano em Brasília tenha superado ao esperado. Contudo, o inverno na capital do Brasil é frio e seco. É tão improvável em julho chover quanto o é pinguins alçarem voo. O que me causou espanto neste menininho é que, apesar de não estar chovendo e nem mesmo haver expectativas nesse sentido, ele usava galochas com o símbolo do Capitão América. Era um retrato engraçado, mas ainda que me causasse espanto o menininho parecia muito satisfeito com suas galochas de herói. Sentia-se confiante e de tempos em tempos apreciava os sapatos tão inusitados para o clima vigente.

Vendo a felicidade daquele garotinho com aquelas galochas recordei-me que, quando criança, adorava um moletom imitando uniforme de um time de baseball dos Estados Unidos. Quando vestia aquele moletom, sentia-me, tal qual aquele menininho, especialmente feliz. Não necessitava estar frio para que vestisse aquela roupa que tanto me agradava. Era, para mim, muito especial e o sentido de usá-la era me proporcionar autoestima, acreditava que seria mais forte, que seria mais legal, enfim, alguém a quem todos invejassem, graças ao meu moletom de baseball.

Infelizmente, não me restaram fotos vestida neste meu tão caro abrigo, mas permanecem comigo as memórias desta vestimenta única para mim. Engraçado, que quando crianças, uma peça de vestuário cause este efeito em nós. Mas não precisa ser um sapato, uma blusa ou boné. Pode ser também um brinquedo ou qualquer coisa para que a criança confira uma importância que lhe faça crescer seu amor próprio. Por incrível que pareça, tais coisas fazem-nas sentir-se melhor. O problema é que, quando adultos, este significado perde-se bastante. Não é suficiente uma gravata ou um escarpam que nos incite a autoestima, necessitamos de mais, muito mais. É preciso corresponder ao clamor social, temos de possuir um bom emprego, boa instrução, roupas fidedignas a nossa posição social, tanto quanto o ultimo lançamento automotivo do momento.

 Aquela felicidade de usar tão somente galochas do Capitão América perde-se em meio a tantos desejos que, muitas vezes, não podemos satisfazer. Não sentimos o mesmo prazer de outrora, ainda que sejamos agraciados por uma condição econômica que possibilite a satisfação de todas as necessidades megalomaníacas do homem. Sempre haverá um detalhe que não nos permite sermos totalmente felizes. A busca do corpo perfeito, a submissão a inúmeras cirurgias plásticas para o indivíduo usufruir de popularidade social é um exemplo claro disso. O que estou tentando dizer é que, quando crianças, bastava-nos tão pouco para sermos felizes. Hoje, nossas necessidades inflacionaram sobremaneira.

Quisera eu sentir-me feliz como aquele menininho com suas galochas azuis com o escudo do Capitão América. Quisera eu sentir hoje, o prazer de quando vestia meu moletom de baseball. Acho que nada que possa acontecer-me superará aquela sensação de confiança e satisfação que gozava na minha infância. E o que causava esta sensação era algo tão pequeno em comparação ao que nos sacia atualmente. Na verdade, não nos farta, estamos eternamente famintos de algo que desconhecemos. Quando alcançamos uma vitória, logo esta não nos será suficiente. Estaremos logo a desejar um novo patamar, um maior crescimento, pois o céu não nos é o limite.

Será que é saudável estarmos sempre querendo mais com uma fome incomensurável de poder, fama, dinheiro, beleza e outros objetivos tão mesquinhos? Será que não devemos observar aquele menininho feliz com suas galochas para aprender com ele o real sentido de felicidade? Somos seres tolos, quando meninos, pensamos não saber de nada, mas éramos tão sábios na nossa inocência. Já quando adultos, depois de muito estudar e estarmos convictos de nossa sabedoria é quando mais ignorantes tornamo-nos. Querem saber o real significado de felicidade? Sermos felizes com o pouco que temos, ou com aquilo que somos ou possuímos. Não que seja errado ambicionar crescimento. O problema é quando os objetivos crescem progressivamente, de modo não haver fim. Esquecemo-nos de viver para finalmente atingirmos nossos sonhos cada vez mais altos.

No fim, talvez o que precisássemos fosse um par de galochas de herói ou um casaco de baseball, prazeres infantis dos quais não existem reflexo em nossa vida adulta. Nem mesmo aquele super-celular, que acabaram de lançar, será-nos tão significativo quanto aquele bonequinho que tanto ansiávamos ganhar de presente de Natal, ou aquela bola de futebol para o menininho que sonhou com aquilo todo ano. Talvez, se diminuirmos nossas expectativas, nosso prazer será maior. E seremos mais gratos por tudo àquilo que já temos ou conquistamos. Mas para falar a verdade, fiquei com inveja do sorriso daquele garoto. Estou até pensando em comprar para mim galochas do Capitão América e usá-las em meio à terra vermelha e seca. Pois não tem graça usá-las só na chuva.

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