vento01

Só, somente eu.

Giordana Bonifácio

Fez-se luz. Meus olhos podiam ver. Nasci num dia frio de junho no fim do outono. Gêmeos com ascendente em Gêmeos. Já estava destinada a falar sem limites. Um bebê prematuro e feio. “Um ratinho”, diziam as enfermeiras. Verdade é que não tinha cabelos, sobrancelhas ou unhas. Pesava menos que dois quilos e meio e meus pais diziam que cabia numa mão. Mesmo com tal aparente fragilidade a vida não pegou leve comigo. Falando sério, se não tivesse a literatura como válvula de escape, talvez teria desistido disso tudo há muito tempo. Minha infância foi permeada de acidentes e incidentes inimagináveis. Na verdade, nunca fui santa. Era uma criança normal, ou seja, deveras travessa. Fui atropelada duas vezes e também caí do telhado de casa sem que isto me custasse sequer um osso quebrado. Acho que fui agraciada com um excelente anjo da guarda ou tive muita sorte. Sabe-se lá. Nem procuro saber. Deixa tudo correr naturalmente. Um dia a morte vem e descobrimos todos os mistérios do mundo.

Fez-se dor. A vida desandou como massa de bolo. Não tinha fermento que a salvasse. A gente tem de crescer, mas nem sempre a vida adulta é o que esperamos. Seguiram-se derrotas e desacertos. Parecia até que o trem da minha vida tinha descarrilhado em algum ponto. Nem sabia o que fazer. Estava triste e só, já não havia graça em viver. “De que me valeram todos estes anos, se tudo é amargura e dor?” Dizia-me o reflexo, que produzia o espelho. Naquele tempo, somente o lago frio de Narciso me compreendia. Conversava horas com minha sósia que repetia todas as minhas ações. Se chorava, ela também o fazia. Era algo meio louco, mas, pelo menos, havia alguém que se importava com meus sentimentos. Ou quase isto. Vai saber…

A luz reacendeu. A tempestade dispersava e o mar voltava à calmaria. Não mais me feria o passado, pois fiz dele prosa e poesia. Não havia mais nuvens escuras sobre mim, os caminhos abriram-se para minha nau. Segui sem temor e com confiança até o porto, sem grandes dificuldades. A solidão, que me pesava sobremaneira, fez-se de mim companheira. Hoje, entendemo-nos deveras. Um matrimônio meio estranho, mas cujos cônjuges foram feitos um para o outro. Reconheço que outrora me incomodava estar constantemente sozinha. Talvez porque o mundo obrigue ao homem a ser um animal sociável. Aliena-se quem imagina poder viver sem o crivo severo do outro. Pobre humanidade. Apesar dos anos que vivi nesse minúsculo pontinho azul dominado pelo homem, nunca me submeti ao exigente clamor das massas. Querem que eu seja monotonia, mas eu tenho alma em turbilhão. Não paro de sonhar. Eis um dos meus maiores defeitos, ou a minha maior qualidade. Depende do ponto de vista do observador.

Um dia, resolvi escrever. Sabe-se lá por que. Estava triste e julgava que a amargura faria belo meu texto. Que maçada! Foi um completo desastre. Mas creio que mesmo sendo um texto ruim, deveria tê-lo guardado. Talvez, por ser uma boa recordação das trovoadas e relâmpagos. Num momento que tive de me manter firme no comando do navio, quando os ratos já desertavam. A memória não me falha. Lembro-me dos sonhos que alimentei. Construí castelos no ar que não resistiram ao meu eu de ventania. Só tinha um consolo: sentar-me frente ao computador para escrever. Grande escritora, eu tinha tão só minha família e alguns amigos, leitores fieis, como público cativo de minhas obras. (Eles nunca me abandonaram. Graças a Deus!)

A lua chegou iluminando a noite e a insone adormeceu. Quem diria que não mais seria uma criatura noturna? Ainda que gostasse muito do silêncio da madrugada, não é dado ao homem virar noites sem dormir. Minhas horas perdidas a velar o sono do mundo acabaram e nem mais reclamo disto. À escuridão, outrora amiga fiel, abandonei e troquei pela mansidão das manhãs frias. Minha saúde agradeceu profusamente meus novos hábitos. Mas o Mouro, que havia conquistado esta casta Desdêmona, ainda lamenta a traição do seu grande amor. Mas o sentimento que a noite nutria por mim era-me tão prejudicial quanto o de Otelo por sua esposa. Matava-me aos poucos a falta de sono e tive de recorrer, num primeiro momento, a remédios para dormir. Hoje, nem mais me valho de tais subterfúgios. Ainda bem!.

Ouviu-se o soar de uma nova era: Davi matou Golias. Foi assim: sem confiar muito em mim, que resolvi testar. Sabe-se lá se conseguiria, mas resolvi arriscar. É quase uma questão de sorte. A gente joga a moeda, mas não sabe se vai dar cara ou coroa. Inscrevi-me num concurso de contos, depois em outro e outro, e mais outro. Até que fui agraciada com algumas vitórias. Porém, foi depois de muito treino. A gente vê os jogadores de futebol dominando o jogo e nem sabe que por trás daquilo há toda uma preparação. Entrei em campo com a cara e a coragem. Depois é que fui aprendendo aqui e acolá alguns macetes. Mas ainda me considero uma principiante. Não se nasce Pelé. A maestria ocorre quando nos esforçamos. Talvez se recordem do bebê prematuro que fui. Era frágil, mas a vida fez-me forte. Não sei os caminhos a que estou predestinada. Mas, ainda que corra o risco de considerarem-me egocêntrica, digo com plena certeza de causa, que a minha maior vitória sou eu. Olho para trás, sem medo de tornar-me uma estátua de sal e sinto-me realizada por toda esta vida em que pude ser somente eu.

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