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“(…) também sem a felicidade se vivia.”

Clarice Lispector – Amor

Doze anos de escravidão

Giordana Bonifácio

Um dia. Só mais um dia. Meus olhos transbordam para fora dos limites deste quarto. Um dia fui livre. Fui. Pretérito imperfeito, mas mais-que-perfeito para mim. Hoje, não uso mais meu nome, aquele com o qual fui batizada. Hoje, sou Senhora Gouveia de Sá. Não me chamam mais de Helena. Apenas os conhecidos lembraram a minha real alcunha ao saber do meu inevitável divórcio. “Pobre Helena…” Imagino-os a dizer, na mesa de jantar, ao saber do fim deste malfadado casamento. Foram doze anos. Doze terríveis anos, nos quais me submeti aos mais terríveis sacrifícios para manter meu matrimônio, para ser uma mulher digna da estirpe da família mais rica e poderosa da cidade. Vestia meu vestido marrom e sentava-me à mesa, respeitavelmente. Sempre uma esposa submissa, leal e humilde. Coisa estranha esta de a lealdade não ser igual para homens e mulheres. Basta o marido dizer “sou homem” e as regras de fidelidade do casamento não mais se aplicam a ele. Já as esposas não podem alegar serem mulheres para safarem-se das consequências do adultério. Afinal, os desejos não são iguais… Será? Meu Deus, por que perdi tanto tempo em criar desculpas para justificar meu sofrimento? Por que tive tanto medo da alforria? Amanhã, amanhã serei livre. Não terei de usar a velha máscara com a qual fui me habituando. “Sorria, sempre”. Dizia a professora de boas maneiras. “Existem comportamentos desaconselháveis em sociedade”. Desaconselhável é esconder a dor para evitar situações constrangedoras. Mas agora se romperam as correntes. Se quisesse poderia correr pela rua gritando que estava livre afinal. Nem todo dinheiro do mundo é suficiente para comprar sua felicidade. Sou rica, e daí? Valia a pena as horas gastas em salões de beleza para aparentar ser bonita e agradável ao olhar da high society, quando na verdade o mundo desmoronava ao meu redor? “O marido é o cabeça da relação, a ele cumpre o dever de manutenção da casa. A mulher é a quem recai o dever de cuidado da casa e dos filhos.” Enquanto eu estava afogando-me em lágrimas, eu li este discurso, que a sociedade sexista distribui, nos livros de religião das crianças. Será que nunca seremos iguais: homens e mulheres? Para sempre divididos em comportamentos impingidos e estanques? “Azul para homens e rosa para mulheres.” Ou minha maior angústia quando criança: “carrinhos são brinquedos de meninos, menina tem de brincar de boneca…” E se eu quisesse ser diferente, não o poderia ser?

“Quando você casar sara”. Mas a ferida só cresceu nesses últimos doze anos. Meu casamento necrosava, pois aquela pústula fora negligenciada tempo demais. O jeito foi amputar o membro. Aquele braço disforme que me cresceu avulso aos demais. Agora me sentia inteira. Pois me fora cortada uma deformidade que me prejudicava a vida. Não era visível, mas estava lá, dificultando-me até mesmo a respiração. Ninguém tinha ideia dos males que me assombravam. Por isso, lamentaram o futuro de uma mulher livre, que finalmente se rebelava contra os desmandos de um marido autoritário, que cria dominar a mulher como se esta fosse uma incapaz cuja assistência do esposo era essencial. Mas amanhã eu iria assinar minha Lei Áurea particular. Não me importava em absoluto à queda do padrão de vida, e nem que fosse execrada dos lugares que estava habituada a frequentar. Qual o preço da dignidade? Tive o amor-próprio vilipendiado nessa última dúzia de anos e tinha de curar a ferida que me devorava a alma de forma assustadora. Não se deve aceitar a vida que lhe apresentam. Não se deve dizer sim a cada estocada a atravessar-lhe o corpo. Sempre tive pena dos animais torturados até a morte nas touradas. Só depois de algum tempo pude enxergar que eu era aquele pobre bovino com o dorso cravejado de espadas. Mas agora eu me rebelava contra o toureiro.  Disse: “não”. E o marido tomou um susto quando foi contrariado pela primeira vez. Depois, habituei-me a negar o que não me convinha. Tinha o direito. Nada mais daquele vestido marrom. Usaria o amarelo, pois era a cor que me agradava. “Muito festiva.” Disse o marido. Mas eu nem ligava mais: “que se dane!” Mas um Gouveia de Sá não suportava ser contrariado. Queria manter-se no controle ainda que fosse mediante o uso da força. O que fez, por fim, desmoronar o casamento. “Você sabe o que são doze anos?” Ele disse depois de eu mencionar a palavra divórcio. Eu respondi: “uma eternidade!”. Os filhos compreendiam a minha posição. Não me exigiam a manutenção de um casamento cujas bases haviam há muito apodrecido. O peso da aliança era grande demais para suportar. Traições, humilhações e outras ações reprováveis são motivos o suficiente para um basta.

Nasce um novo dia dentro de mim. Ouço os pássaros cantarem. Dizem que o sabiá laranjeira só canta quando é livre. Talvez, comigo se passe o mesmo. Minha voz só será ouvida quando deixar esta gaiola claustrofóbica do casamento. Como é belo o dia fora de mim! Como resplandece a luz do sol, como é verde a grama e tudo é tão bonito fora daqui. A vida pulsa ao meu redor. Sorriem as crianças na sua linda ingenuidade. Os galhos das árvores acenam sob a suavidade da brisa. A vida ainda existe fora do casamento. Uma vida da qual me abstive por doze anos. Quando deixar o fórum, baterei as sandálias para não levar sequer a poeira dos limites sob os quais tive de viver. O meu antigo lar cobrava-me o olhar perscrutador da dona de casa. Mas não vou espanar a poeira dos móveis. Não me importam mais a desorganização dos ambientes. Eu não moro mais aqui. Vou viver no antigo apartamento de mamãe. Ganharei uma quantia considerável no divórcio com o que me sustentarei até que consiga um bom emprego. Sim, vou trabalhar, ainda que me custem unhas quebradas e uma rotina diversa daquele a que me acostumara. A liberdade tem um preço, meus caros. Mas é uma soma que jamais está além de nossas possibilidades. Podemos pagar se quisermos realmente esta dádiva. Nunca mais vou aceitar ser diminuída em meu real valor. Valho mais que podem imaginar. Sou uma obra-prima a espera de suas primeiras pinceladas. A vida nunca me pareceu tão doce. Ouço meu coração bater ansioso, as grades que o cercavam já não mais o oprimiam. Os sonhos podem acreditar que terão um futuro. Antes era tudo presente e passado. Nem tinha tempo de pensar no porvir. Provavelmente, porque me determinaram a maternidade como dever e glória da mulher. Depois disto, nunca mais pensei em nada. Era mãe, esposa e dona de casa.

“Bela, recatada e do lar”. Por que razão limitam tanto o universo feminino?  Como se nascer mulher fosse uma falta imperdoável. Pecado original. Morder aquela fatídica maçã custou-nos mais caro que poderíamos imaginar. Sinto-me como uma ave cujas asas foram cortadas para nunca mais voar. Só me era dado observar o céu azul oceano, onde outros pássaros planavam sem medo. O medo é o que mais pesa na escolha das mulheres. Têm pavor de não conseguirem sustentar as famílias. Por isso calam-se para sempre, aceitando tudo: a violência, a falta de respeito, e, sobretudo, de amor. Os homens acreditam que as mulheres são escravas que os devem servir assim que cruzam a soleira da porta de casa. Devem saciá-los física e sexualmente sem discutir. O apetite deles é voraz. E, no fim, para as escravas, restam tão só as migalhas e uma pia de louça suja para lavar. Foi assim durante doze anos. O mundo se fechou nos limites asfixiantes do matrimônio. Ter dito sim frente ao padre foi meu erro mais lamentável. Mas a vida não parou enquanto fui cativa. O mundo progrediu. A nós mulheres a lei fez-se mais favorável. Ainda que o feminicídio persista alarmante. Não concebem os homens a existência de direitos ao dito sexo frágil. E então as mulheres fazem-se fortes. Levantam bandeiras contra o ultraje. Unem-se pela vida. Agi como um autômato por tempo demais. Sem reagir às emoções que me inundavam a alma. Eu tremia ao imaginar que perderia o amor de meus filhos e que não teria forças para me restabelecer na vida. Todos esses pensamentos faziam-me emudecer e aceitar. Mas, tudo tem um limite. Sobrecarregada, a represa dos meus medos transbordou. Foi assim que resolvi por fim aos doze anos de escravidão. Livre, terei de achar um novo adjetivo que me exprima. Poderei adotar o meu próprio nome. Pois não serei mais uma mulher casada, mas uma mulher.  Mulher feliz, talvez seja a alcunha mais apropriada para mim nesse dado momento. Ou, quem sabe, mulher livre.  Pois a partir de amanhã, não mais me afligirão os deveres matrimoniais, mas, pelo contrário, gozarei os direitos de um ser humano.

 

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