Arquivo do mês: maio 2016

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Saudade é amar um passado que ainda não passou.
É recusar o presente que nos magoa.
É não ver o futuro que nos convida…
Pablo Neruda

As nuvens brancas de Lulu.

Giordana Bonifácio

“Hoje faz 10 anos que ela se foi.” Pensou a mulher ao ver-se no espelho. Uma lágrima escapou-lhe, mas foi rapidamente aprisionada por uma mão delicada. “Não há como esquecer… A lembrança é pesada demais”. Pensou. Não lhe era dado o privilégio de não recordar. Ainda via uma menininha linda com cabelinhos cacheados a correr pelo quintal, trazendo uma lagartixa sem rabo para lhe mostrar. A mulher sorriu, ao rever o rostinho da menininha fazendo careta ao descobrir que lagartixas comiam insetos: “moscas, baratas….” “Eca!” Disse a menininha antes de soltar a sua prisioneira. Ainda poderia ver os olhinhos meio vesgos. Essa menininha tinha uma imensa imaginação. Contava histórias sobre piratas, interpretava o bandido e o mocinho, mas, no fim, o bem sempre ganhava. Contudo, a menininha descobriria que na vida, nem sempre o mal era derrotado. E as batalhas produziam vítimas. E, também, desfaziam famílias para todo o sempre.
“A grama é verde. O céu é azul. As nuvens são brancas… Manhêeee, por que as nuvens são brancas?” Ela não soube como explicar. “Não sei Lulu, vamos procurar na internet?” A pesquisa resultante foi que “as nuvens são brancas porque as gotas de água, ou seus cristais de gelo, são suficientemente grandes para espalhar os sete comprimentos de onda (vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, índigo e violeta) da luz, que se combinam para produzir luz branca”. “Num entendi nada”. Como era lindo aquele rostinho confuso. “Lulu, a luz é formada por sete comprimentos de ondas ou cores, quando todos estes se juntam na nuvem que combina todos devido a seus cristais de gelo, formam a cor branca, entendeu? “Ah, agora sim!” Mas logo a atenção da menininha era voltada para mais uma descoberta: uma lagarta no jardim.
Lulu era curiosa e esperta, tinha olhos castanhos e o seu sorrisinho já apresentava duas janelinhas. “A fada do dente vai vir pegar meus dentinhos?” “Sim e vai colocar uma moeda por cada dentinho sob seu travesseiro”. “Por que ela quer dentes?” Mais uma vez, tomada de surpresa, a mulher teve de inventar uma utilidade para os dentes de leite que a fada do dente recolhia. “Sabe Lulu, dizem que elas fazem suas casas, lá no país das fadas, com os dentinhos das crianças.” “Essas fadinhas são burras, mais fácil é usar tijolo e cimento”. Lulu não tinha ficado convencida. Muito difícil ludibriar a esperta menininha. A mulher chorou. A memória trazia de volta o passado, como ondas que vagueiam de cá para lá, de lá para cá. Levando e trazendo tristes recordações.
A menininha ainda estava ali, naquela casa, naquele jardim, entre o balanço de pneu e o muro em que juntas gravaram o nome de Lulu com ajuda de um prego enferrujado. Poderia vê-la correndo pelos cantos, cantando a musiquinha que aprendera na escola. “Fui morar numa casinha enfeitada de capim, saiu de lá um indiozinho, que olhou para mim, olhou para mim e fez assim.” E a pequenininha interpretava um índio com a mão sobre a boca. A mulher sentiu um aperto no coração. Doía muito não ter mais a Lulu para fazer-lhe perguntas difíceis. Para aprenderem juntas sobre o mundo. Aliás, o que aconteceu com o mundo que de repente ficou tão sem graça?
Foi ao antigo quarto da menina e abriu uma caixa com fotos que mantinha, apesar dos apelos de seu psicólogo que lhe dizia para não alimentar a tristeza. Ocorre que ela não poderia simplesmente deixar de lembrar da menininha que se foi de forma tão súbita quanto chegou. Foi uma surpresa a gravidez. Ninguém esperava, teoricamente, ela não deveria ter filhos. Mas um milagre deve ter acontecido. Veio a Lulu, que lhe arrebatou o coração para sempre. Depois dela, não lhe foi mais possível engravidar. Era para sua história terminar com um felizes para sempre. Foi que havia prometido à filha, quando lhe contou a história da Bela Adormecida. “Mas mãe, o que é ‘para sempre’? “É muito, muito tempo. Até você ficar bem velhinha”. Foi o que respondeu, sem saber que uma semana depois, perderia sua menininha num assalto. O ladrão, por acidente, disparou contra Lulu. Lembrava-se de tentar aparar sua garotinha, desfalecida e ensanguentada. O bandido, amedrontado, fugiu. A polícia não conseguiu sequer identificar o assassino. E Lulu entrou para as estatísticas dos crimes não resolvidos e impunes.
A mulher pensou na infinidade de sonhos que Lulu jamais realizaria. Curiosa como era, só poderia ser cientista no futuro. Mas isto ninguém nunca saberia. Por que o faz de conta terminou e o corpinho hirto dentro caixão branco era real demais para uma fantasia. Era um esquife tão pequeno, que só poderia caber a sua menininha. E ela parecia dormir um sono relaxado e profundo. Lembrava de tentar acordá-la, mas seus apelos foram em vão. Lulu nunca mais despertou. Quando o féretro desceu, a certeza do fim fez a mãe cair de joelhos.
A garotinha foi para o céu azul, viver sobre uma nuvenzinha fofa e branca.Da filha, só restaram, para a mãe, saudades e fotografias.  E fotografias são instantes de felicidade de um passado bonito demais para se eternizar. O anjinho que lhe foi dado foi-se de forma tão abrupta quanto lhe foi presenteado. Sua Lulu que lhe encheu o coração de alegria no passado, agora o fazia transbordar de tristeza. Ficaram as fotos, os brinquedos e os dois dentinhos de leite que a fada do dente não usou para construir sua casinha. Também, os vestidinhos rosas que jamais chegaram a ser usados e que foram comprados para a festa de aniversário. Por que Lulu queria uma festa de fadas. Mas a varinha de condão nunca chegou a ser usada para fazer fantásticas magias
E o mundo ficou mais cinza sem a Lulu. O cachorrinho que pediu de presente de aniversário jamais conheceria sua dona. Nem mesmo chegou a lamber-lhe a mãozinha gordinha. A mulher sorria e chorava a cada foto, entre saudades e lembranças. Entre a dor e longínquas alegrias. A filha não pode sequer se despedir. Foi-se de repente de forma deveras amarga e violenta. Mesmo que o bandido lhe tenha tomado o seu bem mais precioso, não tinha ódio. Não se deve alimentar um sentimento tão ruim. Preferia nutrir a saudade da sua filhinha. Assim, de alguma maneira, acreditava que a poderia ter sempre consigo.
Lúcia, a menina de seis anos, corria para sempre na memória da mãe. Ela adorava sorvete de chocolate e balinhas dadinho de amendoim. Não gostava de balinhas de goma e queria um mágico na sua festa de aniversário. Porque numa festa de fada tem de ter magia. E os olhos úmidos transbordaram em lágrimas quando a mulher viu um dos derradeiros desenhos de Lulu. Nele, estava escrito com letras tortas de uma criança em alfabetização: “a grama é verde, o céu é azul e a nuvem é branca. A internet disse que ela tem muita cor junta. Não entendi”!
E todas as cores juntas não produzem branco, na verdade, mas o negro. A cor do luto de uma família que se desfez porque o mundo é injusto demais. E as histórias de fadas, na realidade, não têm magia. E os anjos não podem proteger os bons e, também, não existe felizes para sempre. Pois o único sentimento eterno é a saudade que os anos fazem crescer mais e mais, no coração dos que a vida ainda pulsa. Não sabem os que partem, a falta que fazem na vida dos que aqui ficam. Lulu nunca vai entender porque as nuvens são brancas, como a mulher nunca vai entender por que afinal, um menino, cuja idade não superava os treze anos, num assalto desajeitado, matou Lulu. Assassinou, esse menino, também toda alegria e esperança que a mulher poderia ainda possuir. Desde então, a grama não é mais tão verde, o céu não é mais azul e as nuvens são cinzas sempre a chorar a morte de Lulu.

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