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“Cada um tem o seu passado fechado em si,
tal como um livro que se conhece de cor,
livro de que os amigos apenas levam o título.”
Virgínia Woolf

A lágrima era minha e não sua

Giordana Bonifácio

Talvez porque estivesse triste naquele dia ou, então, porque meus olhos procurassem algum conforto, ou, mesmo, por necessitar, certas vezes, de desenjaular minha imaginação, eu vi você. Não sei quem é, não sei seus desejos ou dissabores. Nada sei sobre sua identidade. Nem mesmo quero saber, pois a realidade destrói a magia do primeiro olhar. Olhei você pela janela do ônibus quando eu estava indo para o trabalho. Descrevo o que percebi imediatamente. Uma garota com seus tênis all star surrados, camiseta branca, com uma mochila e calça jeans desbotadas, e uma touca prendendo-lhe os cabelos, ainda que nem frio estivesse. Num primeiro momento pensei-lhe deprimida. Solitária frente à escola. Logo me associei a sua imagem. “Será que quando jovem também me deitou olhares alguém cuja solidão associou a minha?” Nós duas jovens sentadas no meio-fio, nós duas solitárias, nós duas presas entre os muros claustrofóbicos da nossa dor. Eu fui você anos atrás. Fui. Jamais voltei. Quando fiz pesar um mundo sobre minhas costas, sentei-me, desolada como você, a procura de saídas que pensava não existirem. Mas há, sei agora porque o tempo passou e penso que amadureci. Sabe esta sensação de dilaceração da alma que sente agora? Eu também senti. Dói muito, admito, mas a ferida cicatriza. Não será assim para sempre. Pode crer em mim. Olho para trás e vejo quantas batalhas travei, a maior parte delas contra mim. Eu com minhas armas em punho sentia-me fraca diante da vida. Por isso que curva a cabeça? Não faça isto! Reerga-se! Não desista ainda. A luta só está começando. Aproveite sua adolescência, pois ela não voltará. Você sentirá falta do passado, destes dias em que só o silêncio tinha por companhia, ou, talvez, um bom livro. São dias duros estes, não? O que pensa você com olhos no longínquo azul celeste? Eu pensava em um futuro que estava ainda muito longe de mim, mas o qual perseguia como a uma tábua de salvação. Tinha de provar que venceria, tinha de provar que seguia pelo caminho correto, tinha de provar meu valor. Mas com o tempo, você vai entender que não precisa provar nada a ninguém. Seja astuta, não permita que zombem de suas ideias. Acredite em si, o futuro encarrega-se do resto.
Você com seus óculos enormes, unhas roídas e sonhos indomáveis não sabe ainda o valor que tem. Não ligue para os risos e o deboche daqueles que lhe desprezam. Acredite nas palavras de sua mãe: “se nem Jesus conseguiu agradar a todos, você conseguirá?” Não, você não será aceita por todos, ainda que se esforce muito para o ser. Não há como ser uma unanimidade. Por favor, quando rirem de você, não vá chorar atrás da biblioteca. Eles saberão de sua fraqueza. Saberão que conseguiram machucar você. Não dê esse gostinho àqueles que não se importam com o que sente. Sei que é chato servir de chacota. Mas as dores farão você ainda mais forte. Um dia, será você quem rirá de seus antigos medos. Não seja tola, ainda que faça tudo para agradá-los, até aqueles a quem julgava amigos, virar-lhe-ão as costas. Não se violente por quem não merece. Com o tempo, você compreenderá que a amizade verdadeira resiste ao tempo e a qualquer atribulação. Não fique triste se só lhe restarem poucos ao seu lado. Amizade é igual vinho, não se leva em conta a quantidade, mas a qualidade. Há ainda muito para você aprender. Vai entender a importância de recomeçar. O importante é não desistir. Você vai voar, minha cara. Acredite em mim e tenha fé em si. Não há fardo que não consiga carregar. Não é fácil, mas sei que você vai “tirar de letra”. Você é especial. Queria poder dizer-lhe isto. Até pensei em parar o ônibus para poder falar-lhe pessoalmente. Mas, provavelmente, considerar-me-ia uma louca. Estou olhando para você neste momento. Sei que está magoada. Vejo as nuvens fechando o tempo atrás de seus olhos. Está propensa a desistir. Mas não o faça! Há ainda muito caminho pela frente. Não jogue a toalha, pois o oponente pode ser vencido! Sei que agora tudo parece muito difícil e inalcançável. Porém, verá que há ainda esperança. Outra coisa, ninguém vai gostar mais de você por lhe fazer os trabalhos escolares, perderá horas ajudando quem sequer se preocupa consigo. Não que não deva ajudar, mas é preciso que não gaste todo o seu tempo, brinque, divirta-se, pois você merece!
Vejo você sob a chuva, tentando chegar à escola, as roupas encharcadas pesavam-lhe. Queria que os demais alunos não lhe tivessem visto assim… Mas a escola toda zombou de sua condição. Doeu, mas passou. Não se importe com a opinião dos outros sobre você. É o que pensa de si mesma o que realmente conta. Não vá ser tão “caxias”, também. Não vá fazer um trabalho madrugada à dentro, no frio do inverno. Solicite um acréscimo de prazo. A professora não saberá, se você não disser, das dificuldades da sua família para comprar o livro base do trabalho. Siga este conselho, se não será acometida de uma terrível pneumonia da qual levará meses para se recuperar. Sabe que confio muito em você? Não há quem lhe conheça tão bem quanto eu. Sei dos traumas que carrega no peito. Sei das feridas que se abriram em seu coração. Sei em que universos viaja sua mente, pois eu sou você amanhã. É decerto uma frase um tanto clichê. Contudo, friso que já naveguei pelos mares bravios que tenta cruzar. A experiência deu-me o condão de aconselhar-lhe. Você está perdida, cheia de temores, entretanto, não pede ajuda. Sua coragem é imensa, pensa que pode lutar, sem uma boa retaguarda, esta guerra. Mas, chegará um momento que será necessário ter aliados. Não se envergonhe de pedir auxílio quando as coisas apertarem muito. Você não é obrigada a enfrentar tudo sozinha. Ainda que seus pais estejam muito ocupados. Você sempre foi tão independente, que eles ficarão assustados quando demandar seu socorro. Mas verá que há atribulações que não poderá vencer sozinha. Se for necessário, grite. Verá que é melhor explodir que guardar a dor só para você. Não se desculpe por erros que não são seus. Outra coisa, você não é tão forte quanto pensa! E saiba que é uma flor rara num deserto de emoções.
Eu estou aqui a observar-lhe do futuro, tentando apagar em você os erros que, no passado, cometi. Mas estas faltas são parte de mim agora. São parte do que me tornei. E nada pode mudar isto. Eu pretendo que seja alguém melhor do que sou. Minhas faltas atrasaram-me. Procrastinaram meu sucesso. Por isso, tento fazer que não caia nas armadilhas nas quais fui pega. Estava desprevenida, não havia quem me dissesse estas palavras que gostaria de dizer-lhe agora. Está você aí, tão abstraída em sonhos, que seria um pecado despertá-la. Mas se pudesse, se fosse realmente me ouvir, diria tudo que pensei nesses longos e escassos minutos. Estive aqui a falar comigo mesma, um monólogo enfadonho sobre um passado que não se apaga. Mas se for atraída pelos mesmos caminhos por que passei. Não vá chorar pelo ontem, as águas do rio do tempo encarregam-se de levar para longe as mágoas sofridas. Algumas décadas separam-me de você. Conheço-lhe como a mim mesma. É como olhar num espelho que nos mostra o passado. Saiba que eu já me sentei nesse lugar que ora ocupa. Não era de surpreender que sua figura me despertasse recordações. A lembrança é essencial à sobrevivência. Ela nos obriga a não continuar a dar “soco em ponta de faca” Nós aprendemos com nossas falhas, para podermos consertar os estragos de nossos erros. Estou aqui me vendo do futuro. Pobre menina, não sabe ainda o que lhe espera. Mas eu sei. Conto meus passos até aqui. Ontem, cresceu-me o primeiro fio de cabelo branco. Um único e enviesado fio destoando entre os demais. Não se pode conter a força inexorável do tempo. Percebi que este fio rebelde era o que me separava de você, menina. Uma desconhecida a qual enxerguei de um modo que não me fiz até então. Assisti ao que fui num ontem que já se faz distante e perdoei-me. Ainda que nem todas as culpas em mim recaíssem. Enquanto o ônibus partia fui dizendo adeus ao passado que, vez em quando, ainda me volta em sonhos. Levantei a mão direita e disse-lhe tchau num movimento breve. O incrível é que você me respondeu. Foi um choque, pois percebi que não estava frente ao espelho e que aquela lágrima que corria sobre meu rosto era minha e não sua.

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