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A regra de ouro

Giordana Bonifácio

Não fui uma criança egoísta quando pequeno. Dividia meus brinquedos com todos, ainda que isso implicasse em perdê-los logo, quebrados pelo uso. Quando recebi meu primeiro salário fiz com ele tudo aquilo que sempre tive vontade de fazer e jamais havia feito. Fiz a farra em lojas de doces, parques de diversões e outras brincadeiras infantis que me foram cerceadas na infância. Ocorre que não vivi tais prazeres sozinho, levei comigo quem eu amava para conferir-lhes o que não tivemos até então. Não me considero altruísta, mas sempre fiz o possível para ajudar também os que não me são próximos. Não fiz nada esperando ganhar algo em troca. Minha mãe, quando eu era tão só uma criança, recebendo minhas primeiras lições de mundo, ensinou-me a dita “regra de ouro”: “faça aos outros o que espera que façam a você”. Mas minha mãe fez um acréscimo particular a essa máxima: “ainda que os outros não o façam.” Ou seja, dizia-me entre linhas: “seja bom com as pessoas, mesmo que elas não o sejam com você”. Não sabem como isto é difícil. Geralmente afastamos de nós, com muros de descaso e ignorância, tudo e todos que estão fora do nosso mundinho. Cercados de felicidade, não enxergamos a dor do outro. E este só espera que lhe estendamos a mão.
Foi num dia destes, assistindo ao noticiário, que presenciei a dor de uma mãe na luta para manter seu filho vivo. Ele estava há anos na fila de espera por um transplante de fígado. Amargando extrema dor e sofrimento que se estendiam ad eternum. Transplantes de fígado e rins são mais simples, pois podemos dispor de um pedaço do fígado ou de um dos rins sem que isto prejudique tanto a nossa saúde. Mas, ainda que tais transplantes não exijam a morte do doador, não há pessoas que se disponham a doar vidas. É que nossa felicidade não nos permite ver a dor dos que esperam.
Essa palavra é pesada: esperança. O que consiste esperar? É ter fé que em breve surja um órgão compatível para que, enfim, se possa ter uma vida normal? É rezar para que Deus faça as pessoas mais caridosas para que não desliguem o televisor quando uma mãe apela por doadores para salvar a vida do filho? Em parte, sim. Esperar é crer. Esperar é similar à fé, na medida em que se acredita veementemente num futuro mais aprazível. É a única força dos que fazem hemodiálise, submetendo-se a um tratamento extremamente invasivo, do qual estariam livres por um transplante de rins.
Sempre são divulgadas na imprensa atitudes que não deveriam ser exceção, mas regra. “Quem é o homem que doou o rim para um completo estranho?” Ressalta o apresentador. Pois, tal ação é, na nossa realidade, ainda digna de espanto. Geralmente, a doação de órgãos fica adstrita ao núcleo familiar, pois não nos importamos com a dor do outro. Resolvida a nossa dor, o que importa as lágrimas de outra mãe desesperada? O mundo peca pela falta de empatia. Não conseguimos nos ver na condição daquela mulher que clama por nossa atenção e por nossa caridade. Se todos fossem doadores de órgãos e tecidos, as terríveis filas de espera de doação não seriam tão longas.
Não sabemos quantos esperam por córneas para poderem ver, para acender luz em seu mundo de trevas. Tentemos colocar-nos no lugar destes indivíduos. Imaginemos um mundo em que não é possível ler esta crônica, um bom livro, escrever com caneta esferográfica, um mundo em que o tato faz-se mais importante que a visão, pois é a partir dele que se lê, que se escreve e, principalmente, que se vê. Então, agora tentemos sentir a alegria dos que recebem o transplante de córneas e, depois de passado o período pós-operatório, dão-se conta que podem ver o sorriso de seu filho, ou a cor do céu, ou, ainda, escolherem sozinhos a combinação de roupas que irão usar. Conseguiram? Pois é, é essa a alegria dos que venceram a espera, pela esperança.
Comecei este relato dizendo que nunca me considerei avaro, sempre dividindo o que tinha com meus amigos e familiares. Mas me faltava um passo maior: sair dos limites do meu mundo, para ajudar aqueles que necessitam. Por tal razão, atendendo ao apelo daquela senhora que vi na televisão, resolvi declarar-me doador de órgãos e tecidos, fazendo saber minha família e, inclusive, visitando o hemocentro para que possa colocar-me apto a doar medula, demais tecidos e órgãos aos que comigo forem compatíveis. Pois sei a dor que impelia àquela mulher a buscar ajuda. E sei que, se estivesse em sua situação, gostaria de receber auxílio. Seguindo assim, a máxima que aprendi há tempos atrás, na oração de São Francisco que, um dia, minha mãe me ensinou: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz/(…) Onde houver desespero, que eu leve a esperança/ Onde houver tristeza, que eu leve a alegria/ Onde houver trevas, que eu leve a luz./ Pois, é dando que se recebe.” Esta é a dita “regra de ouro.”

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