Arquivo do mês: abril 2016

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“Cada um tem o seu passado fechado em si,
tal como um livro que se conhece de cor,
livro de que os amigos apenas levam o título.”
Virgínia Woolf

A lágrima era minha e não sua

Giordana Bonifácio

Talvez porque estivesse triste naquele dia ou, então, porque meus olhos procurassem algum conforto, ou, mesmo, por necessitar, certas vezes, de desenjaular minha imaginação, eu vi você. Não sei quem é, não sei seus desejos ou dissabores. Nada sei sobre sua identidade. Nem mesmo quero saber, pois a realidade destrói a magia do primeiro olhar. Olhei você pela janela do ônibus quando eu estava indo para o trabalho. Descrevo o que percebi imediatamente. Uma garota com seus tênis all star surrados, camiseta branca, com uma mochila e calça jeans desbotadas, e uma touca prendendo-lhe os cabelos, ainda que nem frio estivesse. Num primeiro momento pensei-lhe deprimida. Solitária frente à escola. Logo me associei a sua imagem. “Será que quando jovem também me deitou olhares alguém cuja solidão associou a minha?” Nós duas jovens sentadas no meio-fio, nós duas solitárias, nós duas presas entre os muros claustrofóbicos da nossa dor. Eu fui você anos atrás. Fui. Jamais voltei. Quando fiz pesar um mundo sobre minhas costas, sentei-me, desolada como você, a procura de saídas que pensava não existirem. Mas há, sei agora porque o tempo passou e penso que amadureci. Sabe esta sensação de dilaceração da alma que sente agora? Eu também senti. Dói muito, admito, mas a ferida cicatriza. Não será assim para sempre. Pode crer em mim. Olho para trás e vejo quantas batalhas travei, a maior parte delas contra mim. Eu com minhas armas em punho sentia-me fraca diante da vida. Por isso que curva a cabeça? Não faça isto! Reerga-se! Não desista ainda. A luta só está começando. Aproveite sua adolescência, pois ela não voltará. Você sentirá falta do passado, destes dias em que só o silêncio tinha por companhia, ou, talvez, um bom livro. São dias duros estes, não? O que pensa você com olhos no longínquo azul celeste? Eu pensava em um futuro que estava ainda muito longe de mim, mas o qual perseguia como a uma tábua de salvação. Tinha de provar que venceria, tinha de provar que seguia pelo caminho correto, tinha de provar meu valor. Mas com o tempo, você vai entender que não precisa provar nada a ninguém. Seja astuta, não permita que zombem de suas ideias. Acredite em si, o futuro encarrega-se do resto.
Você com seus óculos enormes, unhas roídas e sonhos indomáveis não sabe ainda o valor que tem. Não ligue para os risos e o deboche daqueles que lhe desprezam. Acredite nas palavras de sua mãe: “se nem Jesus conseguiu agradar a todos, você conseguirá?” Não, você não será aceita por todos, ainda que se esforce muito para o ser. Não há como ser uma unanimidade. Por favor, quando rirem de você, não vá chorar atrás da biblioteca. Eles saberão de sua fraqueza. Saberão que conseguiram machucar você. Não dê esse gostinho àqueles que não se importam com o que sente. Sei que é chato servir de chacota. Mas as dores farão você ainda mais forte. Um dia, será você quem rirá de seus antigos medos. Não seja tola, ainda que faça tudo para agradá-los, até aqueles a quem julgava amigos, virar-lhe-ão as costas. Não se violente por quem não merece. Com o tempo, você compreenderá que a amizade verdadeira resiste ao tempo e a qualquer atribulação. Não fique triste se só lhe restarem poucos ao seu lado. Amizade é igual vinho, não se leva em conta a quantidade, mas a qualidade. Há ainda muito para você aprender. Vai entender a importância de recomeçar. O importante é não desistir. Você vai voar, minha cara. Acredite em mim e tenha fé em si. Não há fardo que não consiga carregar. Não é fácil, mas sei que você vai “tirar de letra”. Você é especial. Queria poder dizer-lhe isto. Até pensei em parar o ônibus para poder falar-lhe pessoalmente. Mas, provavelmente, considerar-me-ia uma louca. Estou olhando para você neste momento. Sei que está magoada. Vejo as nuvens fechando o tempo atrás de seus olhos. Está propensa a desistir. Mas não o faça! Há ainda muito caminho pela frente. Não jogue a toalha, pois o oponente pode ser vencido! Sei que agora tudo parece muito difícil e inalcançável. Porém, verá que há ainda esperança. Outra coisa, ninguém vai gostar mais de você por lhe fazer os trabalhos escolares, perderá horas ajudando quem sequer se preocupa consigo. Não que não deva ajudar, mas é preciso que não gaste todo o seu tempo, brinque, divirta-se, pois você merece!
Vejo você sob a chuva, tentando chegar à escola, as roupas encharcadas pesavam-lhe. Queria que os demais alunos não lhe tivessem visto assim… Mas a escola toda zombou de sua condição. Doeu, mas passou. Não se importe com a opinião dos outros sobre você. É o que pensa de si mesma o que realmente conta. Não vá ser tão “caxias”, também. Não vá fazer um trabalho madrugada à dentro, no frio do inverno. Solicite um acréscimo de prazo. A professora não saberá, se você não disser, das dificuldades da sua família para comprar o livro base do trabalho. Siga este conselho, se não será acometida de uma terrível pneumonia da qual levará meses para se recuperar. Sabe que confio muito em você? Não há quem lhe conheça tão bem quanto eu. Sei dos traumas que carrega no peito. Sei das feridas que se abriram em seu coração. Sei em que universos viaja sua mente, pois eu sou você amanhã. É decerto uma frase um tanto clichê. Contudo, friso que já naveguei pelos mares bravios que tenta cruzar. A experiência deu-me o condão de aconselhar-lhe. Você está perdida, cheia de temores, entretanto, não pede ajuda. Sua coragem é imensa, pensa que pode lutar, sem uma boa retaguarda, esta guerra. Mas, chegará um momento que será necessário ter aliados. Não se envergonhe de pedir auxílio quando as coisas apertarem muito. Você não é obrigada a enfrentar tudo sozinha. Ainda que seus pais estejam muito ocupados. Você sempre foi tão independente, que eles ficarão assustados quando demandar seu socorro. Mas verá que há atribulações que não poderá vencer sozinha. Se for necessário, grite. Verá que é melhor explodir que guardar a dor só para você. Não se desculpe por erros que não são seus. Outra coisa, você não é tão forte quanto pensa! E saiba que é uma flor rara num deserto de emoções.
Eu estou aqui a observar-lhe do futuro, tentando apagar em você os erros que, no passado, cometi. Mas estas faltas são parte de mim agora. São parte do que me tornei. E nada pode mudar isto. Eu pretendo que seja alguém melhor do que sou. Minhas faltas atrasaram-me. Procrastinaram meu sucesso. Por isso, tento fazer que não caia nas armadilhas nas quais fui pega. Estava desprevenida, não havia quem me dissesse estas palavras que gostaria de dizer-lhe agora. Está você aí, tão abstraída em sonhos, que seria um pecado despertá-la. Mas se pudesse, se fosse realmente me ouvir, diria tudo que pensei nesses longos e escassos minutos. Estive aqui a falar comigo mesma, um monólogo enfadonho sobre um passado que não se apaga. Mas se for atraída pelos mesmos caminhos por que passei. Não vá chorar pelo ontem, as águas do rio do tempo encarregam-se de levar para longe as mágoas sofridas. Algumas décadas separam-me de você. Conheço-lhe como a mim mesma. É como olhar num espelho que nos mostra o passado. Saiba que eu já me sentei nesse lugar que ora ocupa. Não era de surpreender que sua figura me despertasse recordações. A lembrança é essencial à sobrevivência. Ela nos obriga a não continuar a dar “soco em ponta de faca” Nós aprendemos com nossas falhas, para podermos consertar os estragos de nossos erros. Estou aqui me vendo do futuro. Pobre menina, não sabe ainda o que lhe espera. Mas eu sei. Conto meus passos até aqui. Ontem, cresceu-me o primeiro fio de cabelo branco. Um único e enviesado fio destoando entre os demais. Não se pode conter a força inexorável do tempo. Percebi que este fio rebelde era o que me separava de você, menina. Uma desconhecida a qual enxerguei de um modo que não me fiz até então. Assisti ao que fui num ontem que já se faz distante e perdoei-me. Ainda que nem todas as culpas em mim recaíssem. Enquanto o ônibus partia fui dizendo adeus ao passado que, vez em quando, ainda me volta em sonhos. Levantei a mão direita e disse-lhe tchau num movimento breve. O incrível é que você me respondeu. Foi um choque, pois percebi que não estava frente ao espelho e que aquela lágrima que corria sobre meu rosto era minha e não sua.

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A regra de ouro

Giordana Bonifácio

Não fui uma criança egoísta quando pequeno. Dividia meus brinquedos com todos, ainda que isso implicasse em perdê-los logo, quebrados pelo uso. Quando recebi meu primeiro salário fiz com ele tudo aquilo que sempre tive vontade de fazer e jamais havia feito. Fiz a farra em lojas de doces, parques de diversões e outras brincadeiras infantis que me foram cerceadas na infância. Ocorre que não vivi tais prazeres sozinho, levei comigo quem eu amava para conferir-lhes o que não tivemos até então. Não me considero altruísta, mas sempre fiz o possível para ajudar também os que não me são próximos. Não fiz nada esperando ganhar algo em troca. Minha mãe, quando eu era tão só uma criança, recebendo minhas primeiras lições de mundo, ensinou-me a dita “regra de ouro”: “faça aos outros o que espera que façam a você”. Mas minha mãe fez um acréscimo particular a essa máxima: “ainda que os outros não o façam.” Ou seja, dizia-me entre linhas: “seja bom com as pessoas, mesmo que elas não o sejam com você”. Não sabem como isto é difícil. Geralmente afastamos de nós, com muros de descaso e ignorância, tudo e todos que estão fora do nosso mundinho. Cercados de felicidade, não enxergamos a dor do outro. E este só espera que lhe estendamos a mão.
Foi num dia destes, assistindo ao noticiário, que presenciei a dor de uma mãe na luta para manter seu filho vivo. Ele estava há anos na fila de espera por um transplante de fígado. Amargando extrema dor e sofrimento que se estendiam ad eternum. Transplantes de fígado e rins são mais simples, pois podemos dispor de um pedaço do fígado ou de um dos rins sem que isto prejudique tanto a nossa saúde. Mas, ainda que tais transplantes não exijam a morte do doador, não há pessoas que se disponham a doar vidas. É que nossa felicidade não nos permite ver a dor dos que esperam.
Essa palavra é pesada: esperança. O que consiste esperar? É ter fé que em breve surja um órgão compatível para que, enfim, se possa ter uma vida normal? É rezar para que Deus faça as pessoas mais caridosas para que não desliguem o televisor quando uma mãe apela por doadores para salvar a vida do filho? Em parte, sim. Esperar é crer. Esperar é similar à fé, na medida em que se acredita veementemente num futuro mais aprazível. É a única força dos que fazem hemodiálise, submetendo-se a um tratamento extremamente invasivo, do qual estariam livres por um transplante de rins.
Sempre são divulgadas na imprensa atitudes que não deveriam ser exceção, mas regra. “Quem é o homem que doou o rim para um completo estranho?” Ressalta o apresentador. Pois, tal ação é, na nossa realidade, ainda digna de espanto. Geralmente, a doação de órgãos fica adstrita ao núcleo familiar, pois não nos importamos com a dor do outro. Resolvida a nossa dor, o que importa as lágrimas de outra mãe desesperada? O mundo peca pela falta de empatia. Não conseguimos nos ver na condição daquela mulher que clama por nossa atenção e por nossa caridade. Se todos fossem doadores de órgãos e tecidos, as terríveis filas de espera de doação não seriam tão longas.
Não sabemos quantos esperam por córneas para poderem ver, para acender luz em seu mundo de trevas. Tentemos colocar-nos no lugar destes indivíduos. Imaginemos um mundo em que não é possível ler esta crônica, um bom livro, escrever com caneta esferográfica, um mundo em que o tato faz-se mais importante que a visão, pois é a partir dele que se lê, que se escreve e, principalmente, que se vê. Então, agora tentemos sentir a alegria dos que recebem o transplante de córneas e, depois de passado o período pós-operatório, dão-se conta que podem ver o sorriso de seu filho, ou a cor do céu, ou, ainda, escolherem sozinhos a combinação de roupas que irão usar. Conseguiram? Pois é, é essa a alegria dos que venceram a espera, pela esperança.
Comecei este relato dizendo que nunca me considerei avaro, sempre dividindo o que tinha com meus amigos e familiares. Mas me faltava um passo maior: sair dos limites do meu mundo, para ajudar aqueles que necessitam. Por tal razão, atendendo ao apelo daquela senhora que vi na televisão, resolvi declarar-me doador de órgãos e tecidos, fazendo saber minha família e, inclusive, visitando o hemocentro para que possa colocar-me apto a doar medula, demais tecidos e órgãos aos que comigo forem compatíveis. Pois sei a dor que impelia àquela mulher a buscar ajuda. E sei que, se estivesse em sua situação, gostaria de receber auxílio. Seguindo assim, a máxima que aprendi há tempos atrás, na oração de São Francisco que, um dia, minha mãe me ensinou: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz/(…) Onde houver desespero, que eu leve a esperança/ Onde houver tristeza, que eu leve a alegria/ Onde houver trevas, que eu leve a luz./ Pois, é dando que se recebe.” Esta é a dita “regra de ouro.”

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