foto_n

A menina, a política e os muitos ladrões.

Giordana Bonifácio

Era uma vez uma menina que estava desgostosa com a realidade de seu povo. Esta menina, ou melhor, esta garota, descobriu que a política de seu país não era um conto de fadas. Então, o seu mundo colorido ficou cinza, cinza. A menina ficou muito triste com as verdadeiras feições da vida. As pessoas não eram nada daquilo que ela cria! Ninguém se importa com os outros… É cada um por si. E Deus, dizem alguns, está morto! “Mas que mundo assustador!” Foi a primeira reação de nossa amiga. Ela procurou onde se esconder, mas tomada de uma força estranha, fez-se rocha contra o medo. Pobre garota, frente à realidade nua e crua e desprovida de quaisquer meios de defesa… Pessoas usam armas para se protegerem, mas as armas findam por tornarem o mundo ainda mais perigoso. Por isso, resolveram dar poder a um dito Leviatã. Mas ele se mostrou ainda mais cruel que a sociedade em estado de horda. Quem comanda o Estado pensa-se dono do país. Sabe aquela coisa chamada res publica? Deixou de ser pública há muito tempo. O mundo todo estava cego e ninguém via o que parecia estar evidente. A menina tomou conhecimento da fome, da guerra, das tragédias e outras muitas injustiças sociais. O verde fez-se lama e a política também. Um dia uma onda de podridão e sujeira tomou de assalto um rio de águas doces que ficaram envenenadas. Mas ninguém pareceu se importar. Mas que mundo é este? Pensou a menina, estupefata com tamanha indiferença. “O povo estava hipnotizado? Vivia num país de tolos?” Pudera ter a resposta para tais perguntas. Mas parecia que a voz da razão era abafada pelo som dos gritos de ordem. Ninguém se entendia, estavam todos brigando por seus próprios interesses. O país mesmo estava sem controle, como um carrinho de rolimã descendo a ladeira. Ela queria tomar o país para si e guiá-lo por um novo caminho. Mas os trilhos do jogo do poder já haviam sido há muito traçados. Trocam-se siglas, discursos, mas parece que não se muda jamais a maneira de governar. “São todos iguais…” Pensou a menina já cansada de fazer-se ouvir. A balbúrdia era imensa. “Uma convenção de loucos!” Por fim, sentenciou.

Mas a menina não era daquelas que desistem fácil. Tomando como lei um ensinamento de Gandhi, que dizia: “seja a mudança que espera no mundo”, resolveu, aos poucos, construir um país melhor. Não cometer pequenas corrupções era o seu intento principal. Pois, não importa o tamanho de sua culpa, todas nossas falhas pesam-nos no espírito no final das contas. Honestidade era algo escasso por aquelas bandas. Mas, como disse, a menina não dava o braço a torcer. Tomou para si o desafio. Ergueu as mangas e pôs as mãos à obra. Cada atitude conta. Ainda que pequena. Juntou lixo nas ruas para pô-lo na lixeira. Não furava filas, era justa e proba ainda que estivesse na contramão do mundo. Alguns se juntaram a ela nessa luta desleal. Mesmo que as derrotas fossem muitas (como lutar contra um país inteiro?). A menina não desistia, entretanto, mesmo sendo muito mais fácil deixar tudo como está. Ainda que o mundo esteja povoado de egoístas. Há pessoas por quem vale a pena lutar. Não está tudo perdido. Há muita coisa errada. Isso é certo. Mas a menina acreditava em sonhos. Acreditava nas palavras tão bonitas do hino nacional: “Verás que um filho teu não foge à luta”. Assim, tomada de coragem e de espírito cívico, a menina foi contra a corrente. Imbuída de um sentimento muito além da vontade de fazer justiça. O que ela sentia tinha nome e era patriotismo. Quisera poder calar as vozes daqueles que só pensam nos seus queridos umbigos. Mas ela não poderia fazê-lo sozinha. Tinha de se apoiar nos ombros de alguém ainda mais forte: o povo. Mas os donos do poder dividiram-no em dois exércitos, os quais não sabiam sequer pelo que lutavam. Mas iam às vias-de-fato contra aqueles que julgavam seus inimigos. Ainda que a menina falasse: “os poderosos são contra os quais devem lutar. Todos eles que governam, hoje, o país”; o povo estava preso a devaneios espalhados por eficientes marqueteiros.

Apesar de haver fatos escusos irrefutáveis, os que ostentavam a camisa partidária, como ovelhas treinadas, seguiam o rebanho, sem contestar. “Tontos.” Pensava a menina, mas claro que não abriria mão de despertá-los deste torpor. Falou-lhes de evidências, de falhas e de erros que não poderiam ser ignorados. Mas estavam por demais tomados por uma paixão cega e louca pelos partidos dos quais ostentavam brilhantes símbolos. “Mas o que fazer para que acordem desse sonho? Argumentos não foram o suficiente, as provas incontestáveis também não o foram. Por que querem restar envenenados por um discurso cheio de equívocos?” Pobre menina, eis as consequências de ser sã num país de loucos. Chega a um ponto que nos vemos desarmados frente a um exército de tolos. Por mais lógico que pareça, pouco podemos fazer para que, enfim, deixem de propalar o discurso que outros lhes colocaram na boca. Sabe aquele ditado que num país de cegos quem tem um olho é rei? Mais ou menos assim, parecem cegos para a realidade e surdos seletivos, pois só escutam o que é conveniente escutar. A menina teve piedade por aquelas almas tão confusas e perversamente enganadas por um discurso popular dito democrático, mas que, na verdade, propala a mais terrível ditadura: a do pensamento. Nesta, os homens são impedidos de pensarem de forma diversa, caso façam isso, são tratados como traidores, relegados ao mais terrível exílio: aquele vivido em seu próprio país. Mas pouco é possível fazer para que saiam das ilusões a que foram submetidos por duas longas década. Dizem que acabaram com a miséria no país, quando é certo que não se precisa andar muito para deparar-se com favelas onde famílias vivem, até hoje, em estado deplorável. Outros dizem que são íntegros quando são pegos na mesma armadilha que foram vítimas seus adversários. A menina ficou desolada por tal situação. Ninguém se propunha a ouvir. Todos numa guerra política que só fazia sofrer o país.

Na verdade, a economia estava em estado terminal. Agonizava clamando por socorro, mas parecia que ninguém se propunha a escutar. A menina tentou fazer ver, aqueles que se digladiavam, a doente em coma, mas, mais importante, para os guerreiros políticos, é salvar o corrupto da cadeia. Ainda tinham coragem de afirmar: “fez tanto pelo país…” E a crise comendo todas as reservas nacionais. Os empregos escasseando, as lojas e indústrias fechando e toda a nação vivendo uma das piores recessões dos últimos 30 anos. “O que esses ignóbeis, não importa a cor de seus trajes, fizeram pelo país, que não seja roubar o dinheiro dos impostos cobrados do povo e depositar em contas particulares em paraísos fiscais?” Fizeram uma ditadura financiada com capital público. Zombam dos esforços de se limpar a administração pública e nem mesmo sentem-se culpados por isto. Mas ainda existe resistência. Há aqueles que não mais se deixam enganar. São estes que não vão deixar jamais de lutar. O brado retumbante de um povo heroico não se deixará de ouvir. A menina tomou em suas mãos a lei e a justiça e caminhando nos gramados frente aos bastiões do poder, uniu-se ao coro uníssono clamando por justiça. Porém, ainda assim, populares tentaram manter o status quo, não queriam mudar a gestão do país. Pensavam egoisticamente nos benefícios que só eles receberam. Contudo, a menina não era tola. Fez da voz seu único escudo e certa que fazia o bem para seu povo, continuou firme e forte frente à repressão policial e aos apelos dos políticos cujas ações escusas fizeram afundar o país. No fim das contas, não se sabe ainda se todos viverão felizes para sempre. Pois a limpeza ética na política apenas começou e faz-se necessário que atinja todos os níveis da administração pública.

Anúncios
Categorias: Uncategorized | Deixe um comentário

Navegação de Posts

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: