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“Aprendemos a voar como os pássaros e
a nadar como os peixes,
mas não aprendemos a conviver como irmãos”.
Martin Luther King

“Cabeça-de-vento”

Giordana Bonifácio

Laura olhava o céu como fazia de costume. Ficava horas assim, viajando no vai e vem das nuvens, como se fossem ondas num ir e vir infinito no azul do “céu-mar”. A garota passava todo o intervalo da escola nesse exercício de observação do céu pleno de nuvens e vazio. Por isso era caçoada pelos meninos que a empurravam sobre a grama, chamavam-na de cabeça-de-vento e outros impropérios que não vale a pena citar aqui. Com o tempo, os insultos deixaram de ocorrer tão somente no recreio e invadiram a sala de aula. O coro de meninos e meninas a repetir cabeça-de-vento toda vez que o nome de Laura era dito em classe avolumara-se. E a pobre garotinha que nada tinha feito para receber tal alcunha sofria deveras. Ela simplesmente não entendia porque zombavam dela. Afinal, não falara mal de ninguém ou procurou briga com quem quer que fosse. Mas as demais crianças achavam muito engraçado humilhar Laura, pelo simples fato de ela gostar de olhar o céu. Mas acontece que Laura não olhava tão só o céu, na verdade ela assistia a todo o espetáculo que ele proporciona: aves voando de um lado a outro, migrando ou simplesmente planando ao sabor do vento. Laura era fascinada pelos pássaros, queria que no simples bater dos braços pudesse flutuar pelos céus e deixar aquela escola onde sofria tanto em razão da maldade dos seus colegas de classe. Mas a dor não se restringia à escola, em casa, os pais dela viviam brigando, pois sempre faltava dinheiro no final do mês. Laura tinha uma irmãzinha ainda bebê e quando os pais trocavam insultos, ia para o lado do berço da neném e dizia-lhe que um dia ela teria asas como os pássaros para voar para bem longe dali e que, quando pudesse, viria buscar a irmã. Ambas voariam livres, sem meninos para caçoar, sem os pais que não as escutavam. Cruzariam os continentes e conheceriam o mundo inteiro. Só elas duas. Laura tentou inúmeras vezes falar do que acontecia na escola para os pais. Mas ambos diziam que eram brincadeiras de criança e que bastava ela não ligar para o que os meninos diziam. Laura até tentava, mas doía muito ter todo mundo rindo dela, sem motivo algum.
Um dia, resolveu reagir, empurrou com força um dos meninos do grupo de crianças que zombavam dela. O menino caiu no chão e bateu a cabeça no meio fio, abrindo um grande corte no supercílio. Esse menino ao ver o sangue gritou em desespero. Chamava a professora para salvá-lo e pegar a agressora. Logo que ele chamou pela mestre, Laura fez menção de fugir. As outras crianças, tomando ciência das intenções de Laura, tentaram cercá-la, mas a menina conseguiu escapar, correndo em desespero. As demais crianças empreenderam uma grande perseguição pela menina. Diziam que Laura seria presa e que nunca mais sairia da cadeia. A garota, assustada, corria ainda mais, tamanho o medo que sentia. Saíram do perímetro da escola e Laura sempre correndo com um grupo de crianças em seu encalço. A menina corria como nunca o havia feito antes. Suas perninhas tiravam forças de onde não tinha. O medo é um excelente combustível. A pobre criança já se enxergava presa. Via a mãe decepcionada e o pai a ralhar consigo, enquanto Laura era levada pelo policiais para a cadeia. Podem achar engraçado que a garotinha estivesse apavorada com a possibilidade de ir presa, mas como diria o cavaleiro da triste figura: “um dos efeitos do medo é perturbar os sentidos e fazer que as coisas não pareçam o que são”. Por isso, fugia e fugia, mas seus perseguidores, não desistiam, ao contrário tomavam fôlego sabe-se lá de onde. Ela sabia que não havia escapatória que seu destino estava condenado e que em breve estaria cumprindo pena num presídio. Sem ninguém para visitá-la, sem poder sequer realizar seu passatempo predileto: observar o céu. Laura já não prestava atenção aonde ia até que cruzou a pista sem olhar se vinha um carro. Nesse mesmo instante, um automóvel veio em direção da pobre menina. Os demais meninos estancaram de pronto. O carro freou, mas não evitou acertar Laura. Mas, nesse instante, a menina converteu seus braços em asas e transformou-se num lindo gavião que, numa pirueta, alçou voo.
Ninguém parecia acreditar, que a menina acertada em cheio pelo carro, tinha se transformado num pássaro no momento que o carro acertou seu frágil corpinho. Os meninos que perseguiam a menina ficaram abismados. Os motoristas saiam dos carros para ver o gavião planando sobre a rodovia. O pássaro, primeiramente, voava baixo, como se estivesse aprendendo a voar, depois, mais confiante de suas asas, partiu para as nuvens, longe do mundo que o fizera sofrer quando era tão só uma menininha. “Free as a bird”. A canção dos Beatles não poderia estar mais correta. Não havia mais ninguém com quem se preocupar. Aliás, sob ela, a centenas de metros, o mundo parecia pequenininho. Acabaram-se todos os problemas. Não havia mais medo. Não havia mais mágoa, nem mesmo dor. Agora estava acima de tudo, só ela e as nuvens a deslizar no céu azul. O corpo era ágil e forte, as asas batiam num pequeno estrondo. E como planavam! Mas que imensa alegria tomou conta da menina, que não mais estava presa à terra e seus problemas. Nada disso, agora tinha importância. Ela era a rainha do céu! Rasgava as nuvens, voava tão rápido que em pouco tempo chegou a sua casa. Pensou em levar a irmãzinha, como havia prometido, mas ela era ainda muito miudinha. Não conseguiria voar. “Melhor esperar ela crescer um pouco”, pensou Laura. Pousou sobre o parapeito da janela de seu antigo quarto para despedir-se de seus pais e da irmã. Ninguém pareceu importar-se com o gavião. Tão chorosos estavam. Laura sentiu pena de sua família, mas mesmo assim, não quis voltar a ser criança. Ela tinha as asas que sempre pediu a Deus. Cruzava os céus que eram a sua casa agora. Se pudesse, falaria para os pais não chorarem, pois ela estava ali, “vivinha da silva”. Mas não mais como uma menina medrosa, e sim como um grandioso gavião. E estava muito feliz, como nunca esteve em sua vida.
A menina resolveu sempre visitar sua família, pois ainda os amava muito. Todos os dias pousava no parapeito do seu quarto. Matava as saudades da família, mas ninguém parecia a perceber. A não ser a sua irmãzinha que sorria para a ave na janela. Um ano se passou sem que os pais de Laura percebessem o gavião que habitualmente os visitavam. Até que a irmãzinha de Laura apontou para janela e falou: “Laula”. Os pais puderam então ver o belo pássaro em que a filha mais velha havia se tornado. Mas, eles não acreditaram na neném e corrigiram-na: “não é a Laurinha. É um pássaro. Bonitinho, não é, Lulu?” A mãe falava para a neném que se chamava Lúcia. Laura, a garotinha-pássaro bateu suas asas e voltou aos céus. Mas sempre retornava a sua antiga casa para ver se a irmãzinha já tinha tamanho suficiente para poder voar consigo. Não tinha raiva dos meninos da escola, nem dos pais, nem de ninguém mais. Quando virou pássaro todo rancor desapareceu. Ainda mais porque, do alto, como percebera, tudo parece bem pequenininho na terra. Por que se preocupar? Cabeça-de-vento? Sim, por que não? Podem rir-se o quanto quiserem, nada mais feria Laura. Nem mesmo sentiu dor quando o carro a atropelou, num instante, já havia virado gavião. Nunca mais soube dos meninos que a perseguiam. No fim, não fora para cadeia como eles diziam. Deveria agradecer a eles, se não tivessem corrido atrás dela, nunca haveria se tornado aquele lindo gavião. Mas pensou que seria melhor não agradecer pessoalmente. Não entenderiam nada, afinal, Laura não poderia mais falar como gente. Ainda que pensasse como a garotinha que era. Um dia, até voou por cima da escola. Para conferir o céu que sempre via de baixo e agora sentia do alto. Os meninos gritaram do terraço onde Laura tinha empurrado e ferido um dos seus algozes: “olhem: um gavião!” E Laura voou toda orgulhosa de suas asas e feliz da vida por ser uma cabeça-de-vento.

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