Arquivo do mês: março 2016

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A menina, a política e os muitos ladrões.

Giordana Bonifácio

Era uma vez uma menina que estava desgostosa com a realidade de seu povo. Esta menina, ou melhor, esta garota, descobriu que a política de seu país não era um conto de fadas. Então, o seu mundo colorido ficou cinza, cinza. A menina ficou muito triste com as verdadeiras feições da vida. As pessoas não eram nada daquilo que ela cria! Ninguém se importa com os outros… É cada um por si. E Deus, dizem alguns, está morto! “Mas que mundo assustador!” Foi a primeira reação de nossa amiga. Ela procurou onde se esconder, mas tomada de uma força estranha, fez-se rocha contra o medo. Pobre garota, frente à realidade nua e crua e desprovida de quaisquer meios de defesa… Pessoas usam armas para se protegerem, mas as armas findam por tornarem o mundo ainda mais perigoso. Por isso, resolveram dar poder a um dito Leviatã. Mas ele se mostrou ainda mais cruel que a sociedade em estado de horda. Quem comanda o Estado pensa-se dono do país. Sabe aquela coisa chamada res publica? Deixou de ser pública há muito tempo. O mundo todo estava cego e ninguém via o que parecia estar evidente. A menina tomou conhecimento da fome, da guerra, das tragédias e outras muitas injustiças sociais. O verde fez-se lama e a política também. Um dia uma onda de podridão e sujeira tomou de assalto um rio de águas doces que ficaram envenenadas. Mas ninguém pareceu se importar. Mas que mundo é este? Pensou a menina, estupefata com tamanha indiferença. “O povo estava hipnotizado? Vivia num país de tolos?” Pudera ter a resposta para tais perguntas. Mas parecia que a voz da razão era abafada pelo som dos gritos de ordem. Ninguém se entendia, estavam todos brigando por seus próprios interesses. O país mesmo estava sem controle, como um carrinho de rolimã descendo a ladeira. Ela queria tomar o país para si e guiá-lo por um novo caminho. Mas os trilhos do jogo do poder já haviam sido há muito traçados. Trocam-se siglas, discursos, mas parece que não se muda jamais a maneira de governar. “São todos iguais…” Pensou a menina já cansada de fazer-se ouvir. A balbúrdia era imensa. “Uma convenção de loucos!” Por fim, sentenciou.

Mas a menina não era daquelas que desistem fácil. Tomando como lei um ensinamento de Gandhi, que dizia: “seja a mudança que espera no mundo”, resolveu, aos poucos, construir um país melhor. Não cometer pequenas corrupções era o seu intento principal. Pois, não importa o tamanho de sua culpa, todas nossas falhas pesam-nos no espírito no final das contas. Honestidade era algo escasso por aquelas bandas. Mas, como disse, a menina não dava o braço a torcer. Tomou para si o desafio. Ergueu as mangas e pôs as mãos à obra. Cada atitude conta. Ainda que pequena. Juntou lixo nas ruas para pô-lo na lixeira. Não furava filas, era justa e proba ainda que estivesse na contramão do mundo. Alguns se juntaram a ela nessa luta desleal. Mesmo que as derrotas fossem muitas (como lutar contra um país inteiro?). A menina não desistia, entretanto, mesmo sendo muito mais fácil deixar tudo como está. Ainda que o mundo esteja povoado de egoístas. Há pessoas por quem vale a pena lutar. Não está tudo perdido. Há muita coisa errada. Isso é certo. Mas a menina acreditava em sonhos. Acreditava nas palavras tão bonitas do hino nacional: “Verás que um filho teu não foge à luta”. Assim, tomada de coragem e de espírito cívico, a menina foi contra a corrente. Imbuída de um sentimento muito além da vontade de fazer justiça. O que ela sentia tinha nome e era patriotismo. Quisera poder calar as vozes daqueles que só pensam nos seus queridos umbigos. Mas ela não poderia fazê-lo sozinha. Tinha de se apoiar nos ombros de alguém ainda mais forte: o povo. Mas os donos do poder dividiram-no em dois exércitos, os quais não sabiam sequer pelo que lutavam. Mas iam às vias-de-fato contra aqueles que julgavam seus inimigos. Ainda que a menina falasse: “os poderosos são contra os quais devem lutar. Todos eles que governam, hoje, o país”; o povo estava preso a devaneios espalhados por eficientes marqueteiros.

Apesar de haver fatos escusos irrefutáveis, os que ostentavam a camisa partidária, como ovelhas treinadas, seguiam o rebanho, sem contestar. “Tontos.” Pensava a menina, mas claro que não abriria mão de despertá-los deste torpor. Falou-lhes de evidências, de falhas e de erros que não poderiam ser ignorados. Mas estavam por demais tomados por uma paixão cega e louca pelos partidos dos quais ostentavam brilhantes símbolos. “Mas o que fazer para que acordem desse sonho? Argumentos não foram o suficiente, as provas incontestáveis também não o foram. Por que querem restar envenenados por um discurso cheio de equívocos?” Pobre menina, eis as consequências de ser sã num país de loucos. Chega a um ponto que nos vemos desarmados frente a um exército de tolos. Por mais lógico que pareça, pouco podemos fazer para que, enfim, deixem de propalar o discurso que outros lhes colocaram na boca. Sabe aquele ditado que num país de cegos quem tem um olho é rei? Mais ou menos assim, parecem cegos para a realidade e surdos seletivos, pois só escutam o que é conveniente escutar. A menina teve piedade por aquelas almas tão confusas e perversamente enganadas por um discurso popular dito democrático, mas que, na verdade, propala a mais terrível ditadura: a do pensamento. Nesta, os homens são impedidos de pensarem de forma diversa, caso façam isso, são tratados como traidores, relegados ao mais terrível exílio: aquele vivido em seu próprio país. Mas pouco é possível fazer para que saiam das ilusões a que foram submetidos por duas longas década. Dizem que acabaram com a miséria no país, quando é certo que não se precisa andar muito para deparar-se com favelas onde famílias vivem, até hoje, em estado deplorável. Outros dizem que são íntegros quando são pegos na mesma armadilha que foram vítimas seus adversários. A menina ficou desolada por tal situação. Ninguém se propunha a ouvir. Todos numa guerra política que só fazia sofrer o país.

Na verdade, a economia estava em estado terminal. Agonizava clamando por socorro, mas parecia que ninguém se propunha a escutar. A menina tentou fazer ver, aqueles que se digladiavam, a doente em coma, mas, mais importante, para os guerreiros políticos, é salvar o corrupto da cadeia. Ainda tinham coragem de afirmar: “fez tanto pelo país…” E a crise comendo todas as reservas nacionais. Os empregos escasseando, as lojas e indústrias fechando e toda a nação vivendo uma das piores recessões dos últimos 30 anos. “O que esses ignóbeis, não importa a cor de seus trajes, fizeram pelo país, que não seja roubar o dinheiro dos impostos cobrados do povo e depositar em contas particulares em paraísos fiscais?” Fizeram uma ditadura financiada com capital público. Zombam dos esforços de se limpar a administração pública e nem mesmo sentem-se culpados por isto. Mas ainda existe resistência. Há aqueles que não mais se deixam enganar. São estes que não vão deixar jamais de lutar. O brado retumbante de um povo heroico não se deixará de ouvir. A menina tomou em suas mãos a lei e a justiça e caminhando nos gramados frente aos bastiões do poder, uniu-se ao coro uníssono clamando por justiça. Porém, ainda assim, populares tentaram manter o status quo, não queriam mudar a gestão do país. Pensavam egoisticamente nos benefícios que só eles receberam. Contudo, a menina não era tola. Fez da voz seu único escudo e certa que fazia o bem para seu povo, continuou firme e forte frente à repressão policial e aos apelos dos políticos cujas ações escusas fizeram afundar o país. No fim das contas, não se sabe ainda se todos viverão felizes para sempre. Pois a limpeza ética na política apenas começou e faz-se necessário que atinja todos os níveis da administração pública.

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“Aprendemos a voar como os pássaros e
a nadar como os peixes,
mas não aprendemos a conviver como irmãos”.
Martin Luther King

“Cabeça-de-vento”

Giordana Bonifácio

Laura olhava o céu como fazia de costume. Ficava horas assim, viajando no vai e vem das nuvens, como se fossem ondas num ir e vir infinito no azul do “céu-mar”. A garota passava todo o intervalo da escola nesse exercício de observação do céu pleno de nuvens e vazio. Por isso era caçoada pelos meninos que a empurravam sobre a grama, chamavam-na de cabeça-de-vento e outros impropérios que não vale a pena citar aqui. Com o tempo, os insultos deixaram de ocorrer tão somente no recreio e invadiram a sala de aula. O coro de meninos e meninas a repetir cabeça-de-vento toda vez que o nome de Laura era dito em classe avolumara-se. E a pobre garotinha que nada tinha feito para receber tal alcunha sofria deveras. Ela simplesmente não entendia porque zombavam dela. Afinal, não falara mal de ninguém ou procurou briga com quem quer que fosse. Mas as demais crianças achavam muito engraçado humilhar Laura, pelo simples fato de ela gostar de olhar o céu. Mas acontece que Laura não olhava tão só o céu, na verdade ela assistia a todo o espetáculo que ele proporciona: aves voando de um lado a outro, migrando ou simplesmente planando ao sabor do vento. Laura era fascinada pelos pássaros, queria que no simples bater dos braços pudesse flutuar pelos céus e deixar aquela escola onde sofria tanto em razão da maldade dos seus colegas de classe. Mas a dor não se restringia à escola, em casa, os pais dela viviam brigando, pois sempre faltava dinheiro no final do mês. Laura tinha uma irmãzinha ainda bebê e quando os pais trocavam insultos, ia para o lado do berço da neném e dizia-lhe que um dia ela teria asas como os pássaros para voar para bem longe dali e que, quando pudesse, viria buscar a irmã. Ambas voariam livres, sem meninos para caçoar, sem os pais que não as escutavam. Cruzariam os continentes e conheceriam o mundo inteiro. Só elas duas. Laura tentou inúmeras vezes falar do que acontecia na escola para os pais. Mas ambos diziam que eram brincadeiras de criança e que bastava ela não ligar para o que os meninos diziam. Laura até tentava, mas doía muito ter todo mundo rindo dela, sem motivo algum.
Um dia, resolveu reagir, empurrou com força um dos meninos do grupo de crianças que zombavam dela. O menino caiu no chão e bateu a cabeça no meio fio, abrindo um grande corte no supercílio. Esse menino ao ver o sangue gritou em desespero. Chamava a professora para salvá-lo e pegar a agressora. Logo que ele chamou pela mestre, Laura fez menção de fugir. As outras crianças, tomando ciência das intenções de Laura, tentaram cercá-la, mas a menina conseguiu escapar, correndo em desespero. As demais crianças empreenderam uma grande perseguição pela menina. Diziam que Laura seria presa e que nunca mais sairia da cadeia. A garota, assustada, corria ainda mais, tamanho o medo que sentia. Saíram do perímetro da escola e Laura sempre correndo com um grupo de crianças em seu encalço. A menina corria como nunca o havia feito antes. Suas perninhas tiravam forças de onde não tinha. O medo é um excelente combustível. A pobre criança já se enxergava presa. Via a mãe decepcionada e o pai a ralhar consigo, enquanto Laura era levada pelo policiais para a cadeia. Podem achar engraçado que a garotinha estivesse apavorada com a possibilidade de ir presa, mas como diria o cavaleiro da triste figura: “um dos efeitos do medo é perturbar os sentidos e fazer que as coisas não pareçam o que são”. Por isso, fugia e fugia, mas seus perseguidores, não desistiam, ao contrário tomavam fôlego sabe-se lá de onde. Ela sabia que não havia escapatória que seu destino estava condenado e que em breve estaria cumprindo pena num presídio. Sem ninguém para visitá-la, sem poder sequer realizar seu passatempo predileto: observar o céu. Laura já não prestava atenção aonde ia até que cruzou a pista sem olhar se vinha um carro. Nesse mesmo instante, um automóvel veio em direção da pobre menina. Os demais meninos estancaram de pronto. O carro freou, mas não evitou acertar Laura. Mas, nesse instante, a menina converteu seus braços em asas e transformou-se num lindo gavião que, numa pirueta, alçou voo.
Ninguém parecia acreditar, que a menina acertada em cheio pelo carro, tinha se transformado num pássaro no momento que o carro acertou seu frágil corpinho. Os meninos que perseguiam a menina ficaram abismados. Os motoristas saiam dos carros para ver o gavião planando sobre a rodovia. O pássaro, primeiramente, voava baixo, como se estivesse aprendendo a voar, depois, mais confiante de suas asas, partiu para as nuvens, longe do mundo que o fizera sofrer quando era tão só uma menininha. “Free as a bird”. A canção dos Beatles não poderia estar mais correta. Não havia mais ninguém com quem se preocupar. Aliás, sob ela, a centenas de metros, o mundo parecia pequenininho. Acabaram-se todos os problemas. Não havia mais medo. Não havia mais mágoa, nem mesmo dor. Agora estava acima de tudo, só ela e as nuvens a deslizar no céu azul. O corpo era ágil e forte, as asas batiam num pequeno estrondo. E como planavam! Mas que imensa alegria tomou conta da menina, que não mais estava presa à terra e seus problemas. Nada disso, agora tinha importância. Ela era a rainha do céu! Rasgava as nuvens, voava tão rápido que em pouco tempo chegou a sua casa. Pensou em levar a irmãzinha, como havia prometido, mas ela era ainda muito miudinha. Não conseguiria voar. “Melhor esperar ela crescer um pouco”, pensou Laura. Pousou sobre o parapeito da janela de seu antigo quarto para despedir-se de seus pais e da irmã. Ninguém pareceu importar-se com o gavião. Tão chorosos estavam. Laura sentiu pena de sua família, mas mesmo assim, não quis voltar a ser criança. Ela tinha as asas que sempre pediu a Deus. Cruzava os céus que eram a sua casa agora. Se pudesse, falaria para os pais não chorarem, pois ela estava ali, “vivinha da silva”. Mas não mais como uma menina medrosa, e sim como um grandioso gavião. E estava muito feliz, como nunca esteve em sua vida.
A menina resolveu sempre visitar sua família, pois ainda os amava muito. Todos os dias pousava no parapeito do seu quarto. Matava as saudades da família, mas ninguém parecia a perceber. A não ser a sua irmãzinha que sorria para a ave na janela. Um ano se passou sem que os pais de Laura percebessem o gavião que habitualmente os visitavam. Até que a irmãzinha de Laura apontou para janela e falou: “Laula”. Os pais puderam então ver o belo pássaro em que a filha mais velha havia se tornado. Mas, eles não acreditaram na neném e corrigiram-na: “não é a Laurinha. É um pássaro. Bonitinho, não é, Lulu?” A mãe falava para a neném que se chamava Lúcia. Laura, a garotinha-pássaro bateu suas asas e voltou aos céus. Mas sempre retornava a sua antiga casa para ver se a irmãzinha já tinha tamanho suficiente para poder voar consigo. Não tinha raiva dos meninos da escola, nem dos pais, nem de ninguém mais. Quando virou pássaro todo rancor desapareceu. Ainda mais porque, do alto, como percebera, tudo parece bem pequenininho na terra. Por que se preocupar? Cabeça-de-vento? Sim, por que não? Podem rir-se o quanto quiserem, nada mais feria Laura. Nem mesmo sentiu dor quando o carro a atropelou, num instante, já havia virado gavião. Nunca mais soube dos meninos que a perseguiam. No fim, não fora para cadeia como eles diziam. Deveria agradecer a eles, se não tivessem corrido atrás dela, nunca haveria se tornado aquele lindo gavião. Mas pensou que seria melhor não agradecer pessoalmente. Não entenderiam nada, afinal, Laura não poderia mais falar como gente. Ainda que pensasse como a garotinha que era. Um dia, até voou por cima da escola. Para conferir o céu que sempre via de baixo e agora sentia do alto. Os meninos gritaram do terraço onde Laura tinha empurrado e ferido um dos seus algozes: “olhem: um gavião!” E Laura voou toda orgulhosa de suas asas e feliz da vida por ser uma cabeça-de-vento.

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