Arquivo do mês: fevereiro 2016

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“Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor.
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade
Se tão contrário a si é o mesmo amor?”
Luís de Camões

 

Um coração que bate solidão

Giordana Bonifácio

“Devagar! Cada passo comporta uma infinita gama de decisões. Então, vá com calma, amigo!” Assoprou os dedos hirtos de frio. Tentou assobiar uma canção. Mas achou o assobio estridente demais. Melhor continuar em silêncio. Observava as ruas escuras e vazias, onde está a vida da noite? É que Brasília não é uma cidade noturna. Nas madrugadas, as ruas ficam vazias e calmas, o pulsar da vida dá-se durante o dia. “Tenho medo do escuro.” Ela disse. Ele sorriu. “Não zombe de mim.” Disse irritada. “Na sua idade coisas assim já deveriam ter sido superadas.” Ele tentou explicar-se. Mas ela ficou zangada durante o resto da noite. Mesmo que fosse tão só para brigarem, preferia estar com ela. “Você tem amor por mim?” Ele assentiu com a cabeça. “Então faça o que lhe peço.” Não poderia. Ela exigia-lhe algo que lhe era impossível fazer. “Você tem medo”. “Quem tem medo é você.” Ela olhou-o fixo nos olhos: “Renato Russo musicou nossa vida?” Ele desviou o olhar: “Sabe-se lá! Os jovens são muito previsíveis”. Ela respondeu com um sorriso enquanto acendia um cigarro: “Fale por você!”. Por que razão não conseguia simplesmente odiá-la? Seria mais fácil deixá-la ir. Mas dizer adeus parecia mais dolorido que estar ao lado dela. Uma sirene fazia-se ouvir distante. Um cão peregrinava atrás de comida. O dia ia amanhecendo. Lento e belo, o sol levantava-se. A companhia da lua é fria, já estar ao lado do sol é reconfortante. “Somos lua e sol, noite e dia. Não há como algo entre nós dar certo. Somos muito diferentes.” Lembrava-se da calma com que ela proferiu estas frases. “Você não me ama?” Ele era realmente um completo babaca. Por que se rebaixou desse jeito? Você não me ama? Por que não foi impassível como ela costumava ser? Claro que ela não o amava. Se queria terminar, era porque não o amava, seu bobão! Ele suspirou, o dia começava a aquecer-se. Outono é uma época triste. As árvores perdem as folhas o tempo esfria e os corações congelam sem dó. E o pior é que depois vem o inverno e tudo fica frio de vez. Ela não voltaria? Não, nunca mais. Uma lágrima escorreu-lhe quente pela face.
“Disseram o que não deveria nunca ser dito por ninguém”. Ainda é cedo? Não para quem virou a noite. É estranho gostar de alguém. Pois isso não implica que gostem de nós na mesma proporção. Amores são diferentes. Será que é possível criar algo que registre as medidas de amor? Assim, saberia se a amava mais que ela a ele. Se pudesse, ele mesmo alertaria as pessoas sobre amores desproporcionais. O difícil é que vemos nos olhos dos outros nosso próprio coração refletido. Desde que terminaram, jurou não mais amar. “Dói demais! Vou viver a vida”. “Ainda que seja uma vida incompleta? Uma vida sem sorrisos…” “Não, uma vida sem lágrimas”. “Chorar faz bem, às vezes.” Conversava com seu melhor amigo. Ele queria demovê-lo da ideia de não mais amar. “Não era tão só uma ideia. Era um novo estilo de vida!” “Ok! Mas não diga que não avisei.” Um coração que bate solidão. Era tudo que possuía agora. Sabia preencher seu tempo de modo mais produtivo. Nada mais de perder-se em devaneios. Afinal, amar não significa ser amado. Ele estava certo disto. Sentou no meio fio. Colocou as mãos nos bolsos. O sol nascera, mas ainda estava frio. “Quero ser livre!” Pensou. Mas sabia que ainda carregava consigo pesados grilhões. “A liberdade é um desejo inalcançável?” Quem pode nos fazer independentes? Talvez descendentes de inconfidentes? Homens a gritar com facas entre os dentes: “Liberdade ainda que tardia”? Aliterações? Só para divertir… Sem motivo certo. Percebeu que a vida guardava em si certa poesia. “Hoje quero fazer tudo por você…” “Por que a vida não é tão bela quanto retratam os poetas e músicos?” “A vida é real demais. A gente tem de guardar certa proporção para o sonho.” Ela sempre estava certa. Porém dizia verdades duras demais de se ouvir: “Não escuto mais o que você diz!” “Por quê? Porque magoa” “Não seja tão sensível, a verdade dói, mas tem de ser dita. A mentira não machuca, mas nos deixa eternamente na ignorância.” Lembrava-se do modo incisivo com o que ela dissera isto. “Bendita ignorância!” Ele disse. Ela sorriu.
Sentiu fome. Felizmente havia uma padaria ali perto. “Bom dia. Um café preto e um pão de queijo”. Solicitou a uma atendente sorridente, ainda que às seis da manhã. Comeu em silêncio. Ao seu lado, um homem lia o jornal do dia. “Atualmente, a vida pesa mais sobre os pobres e menos sobre os ricos.” Dizia a manchete principal. Mas aquela situação estendia-se ad eternum. Os ricos sempre ricos, os pobres sempre pobres. Nem mesmo Cristo foi capaz de mudar isto. Como não o foram Gandhi, Martin Luther King, Mandela e tantos outros. Amava-se tanto o governo, que, no Brasil, ele deu as costas para o povo. Tal qual ela o fizera a ele. Na mesa ao fundo, uma jovem sibilava uma canção: “Her love rains down on me as easy as the breeze/I listen to her breathing it sounds like the waves on the sea/I was thinking all about her, burning with rage and desire/We were spinning into darkness; the earth was on fire/She could take it back, she might take it back some day.” Ela parecia um tanto triste. “Mais uma vítima das setas cegas de Eros”. Ele pensou consigo. Terminou seu desjejum e continuou sua peregrinação, mas já havia muitos carros e movimento nas ruas e ele não conseguia mais pensar. “Não quero estar sozinho, mas prefiro estar sozinho. Que coisa mais esquisita!” Não conseguia seguir em frente, pois sem perceber tomou o caminho para a rua dela. A 114 de repente ficou mais bonita. As ruas estavam mais floridas e o céu mais azul. Esperavam todos que ele seguisse para o bloco dela. Mas não foi o que ele fez. Virou as costas e começou o caminho contrário. Primeiro andava, após apressou o passo até que, quando viu, corria desesperadamente. Não, dizia-lhe o cérebro, mas sim, gritava-lhe o coração. Confuso, só lhe restava fugir. O mais rápido possível. Sem olhar para trás. Havia o perigo de se tornar subitamente numa estátua de sal.
Quando parou ofegante estava já próximo à L2. Poderia tomar um ônibus e ir para casa. Desistir enfim do intento que o trouxera ali. “Não vou mais amar”. Enganava o coração. Mas o órgão surdo batia: paixão. E ele não tinha coragem de dizer que não. Pobre rapaz, diria quem o visse chorando. Sozinho, até quando? O ar gélido cortava-lhe os pulmões. Na parada, a memória mastigava-lhe as ilusões. Não teve de esperar muito pelo ônibus. O que foi um golpe de sorte. Partiu para casa, que lhe acolheria a dor. Diria para os pais que estava vagando a esmo. Pudera ter coragem. Mas o amor fizera-lhe tolo e covarde. “Não vou mais amar”. Murmurou. Sua mágoa na alma para longe o levou. Quantas lágrimas sentidas haveria de chorar? Mas não, ele não iria nunca mais amar! Não retornaria jamais. E como o corvo de Poe, sua mente repetia: nunca mais! Ninguém parecia se importar com o jovem angustiado sentado no fundo do ônibus. Pobre rapaz. Será que seu coração não é mais capaz de amar? Seguiu seu caminho. Deixando para trás a possível felicidade. Mas não se julgava digno de ser feliz. Para algumas pessoas só lhes resta a tristeza. A mágoa faz-se eterna em seu peito. Não sabiam perdoar, e nem queriam ser perdoadas. Não há “sinto muito” que lhes faça voltar, não existe lágrimas que lhe impeçam de partir. Nem mesmo flores, que lhes façam, também, florir. Tirou do bolso uma foto amassada a que mirou por toda a viagem. Quando chegou ao ponto, desperdiçou a fotografia numa lixeira. Não esmoreceu e não retornou o olhar. Era como dizer novamente adeus. Nada disse, pois preferia o silêncio das almas feridas. Um dia talvez voltasse atrás. Mas provavelmente quando isto ocorresse, já seria tarde demais. Amores não são perfeitos, são laços desfeitos. Mágoa eterna que os homens levam, consigo, no peito. Pobres solitários que resistem aos seus encantos. Pois mais de uma vez os levaram ao pranto. “Amor é fogo que arde inclemente. É ferida que dói no passado e se sente no presente. É dor que desatina nosso sofrer. Por mais que se queira bem querer. Andar-se-á sempre solitário entre as gentes. Pois nunca mais com o amor se restará contente”. Ele chegou à casa dos pais e tocou a campainha. Subitamente sorriu, pois uma visita especial o esperava na sala.
(Com as devidas vênias a Camões que até hoje inspira corações apaixonados).

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