D.-QUIXOTE

“Dizem que sou louco por pensar assim
Se eu sou muito louco por eu ser feliz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz”
Balada do louco – Ney Matogrosso

O colecionador de passados

Giordana Bonifácio

Dir-se-ia que João Felisberto Castro Teles era uma pessoa comum. Funcionário público, solteiro, no auge dos seus 35 anos, dono de seu próprio lar, de uma extensa carga cultural produzida ao longo de toda sua vida, graças aos esforços de seu pai, um juiz renomado da capital do país. Fez o curso universitário numa grande universidade no exterior, bem como, um doutorado e, até mesmo, um pós-doutorado. Alguns trabalhos produzidos por ele foram citados por estudiosos muito bem cotados dentro e fora do Brasil. Assim, é possível dizer que se tratava de uma das mais prestigiadas jovens mentes do país. Exceto por um pequeno detalhe, João Felisberto tinha um estranho hobby: colecionava passados.
É mais bizarro do que parece. João Felisberto ao saber da morte de alguém procurava logo saber se o falecido tinha família, pois é mais difícil negociar álbuns de retratos e pequenas lembranças com os familiares, haja vista que o sangue obriga a guarda de recordações dos parentes que se foram. Mais fácil era procurar os lares de idosos, onde velhos são largados pelos parentes restando sozinhos com suas muitas lembranças e pouca presença. A solidão desses velhinhos era um prato cheio para nosso amigo recém-apresentado.
Vocês devem estar se perguntando: mas o que este indivíduo vai fazer com tanta tranqueira? Pois é, João Felisberto, a quem concedemos a alcunha de colecionador de passados, adjetivo com o qual ele mesmo se apelidava, guardava em uma espécie de museu em sua casa. Esta aí o motivo de nosso estranho amigo não ter se casado. As mulheres, em sua maioria, ao serem apresentadas ao “museu” de João Felisberto, não costumavam voltar para uma segunda visita. Apesar de todos os álbuns, cartas, apetrechos, roupas, chapéus, lenços e outros objetos serem muito bem cuidados, de modo não se desfazerem graças à força implacável do tempo.
As pessoas, em sua maioria, designavam este estranho hobby como fúnebre e chegaram a denominar João Felisberto de “papa-defuntos”. Uma injustiça inominável. Afinal, o que seria feito de tudo aquilo que o colecionador de passados recolhia? O destino final com certeza seria o lixo. Então, é possível dizer que o papa-def…, opa, o nosso colecionador prestava até mesmo um trabalho ambiental. Talvez até social, pois deixava viva a memória dos que já se foram.
Ocorre que João Felisberto não se limitava a guardar os objetos dos mortos. Na verdade, o colecionador, talvez em função de alguma sandice não diagnosticada, assumia a personalidade do morto. Quando recolhia os objetos dos falecidos, lia suas cartas, folheava seus álbuns de retratos, e, por um período de uma ou duas semanas, mais o menos, João Felisberto tornava-se o homem ou, pasmem, a mulher dos quais colecionava as recordações. É claro que esta tão estranha mania causou-lhe inúmeros problemas. O maior deles quando a mulher cujos objetos os quais se apropriou tratava-se de uma prostituta. Não tentem imaginar as cenas, foram mais horríveis do que se possa tão somente pensar.
Quando o falecido fora uma adestrador de leões, foi por muito pouco que não veio a óbito o nosso colecionador desastrado. Outra vez, encarnou um mímico, o que foi mais chato do que perigoso, perdeu muitos amigos nessa época. Não que tivesse muitos, pois, as estranhezas de nosso personagem afastavam-no do contato com as pessoas. Os familiares já tentaram interná-lo e, até mesmo, queimaram muitos dos objetos do museu. Mas, João Felisberto se limitou a citar um trecho de Dom Quixote de La Mancha em que a sobrinha do fidalgo queimava os livros do tio para dar fim à loucura daquele.
Como não conseguiram terminar com o sonho do Cavaleiro da Triste Figura, também não cessaram as alucinações do nosso colecionador. Nosso amigo perseverou com seu hobby tão inadequado. O mais preocupante foi quando resolveu fazer da casa inteira seu esquisito museu. Os parentes diziam: “se fossem lembranças de alguém importante, mas são todos um bando de zé-ninguém”. O pai, envergonhado dos hábitos questionáveis do filho, resolveu cortá-lo do círculo de familiares. “Se não posso fazê-lo pelas leis brasileiras, que o faça por minha própria lei.”
Pobre colecionador, ridicularizado em todos os meios sociais, os seus trabalhos geniais findaram por serem depreciados pelo meio científico. Ele que deveria ser reconhecido como um gênio, por alguns transtornos de ordem psiquiátrica, foi relegado ao opróbio e ao esquecimento. Porém, não deixava seu hobby, origem de toda sua desgraça. Há alguns dias, assumiu a personalidade de um ator de teatro e ficou recitando Hamlet por todos os lugares. Essa semana, pensava ser um cantor, mas sem saber as devidas técnicas musicais, quase estourou os tímpanos da sua empregada Mazé.
Maria José foi contratada pela família, mais por uma questão humanitária do que por real cuidado com João Felisberto, para zelar pela casa e, principalmente, pelo nosso perturbado personagem. Ela ria-se muito das insanidades do “doutor”, como o chamava. Ela controlava os ímpetos mais perigosos do aluado cientista, de modo impedi-lo de fazer algo muito ruim à própria saúde. (Só digo uma coisa: deveriam tê-la contratado antes de ele ter encarnado a prostituta).
Se fosse mesmo um Dom Quixote, Mazé seria o Sancho Pança de João Felisberto. As loucuras que a mente transloucada de nosso “doutor” eram podadas pela bondade altruísta daquela senhora, mãe de dois filhos adolescentes, aos quais dizia que deveriam ser inteligentes como o “doutor”.
Apesar das críticas que maculavam a honra do doutor, Mazé continuava firme em sua defesa. “Que o deixem ser feliz!” Era a fiel escudeira deste quixotesco personagem que lhe guardava os óculos quando João Felisberto adormecia entre seus inúmeros álbuns de retratos e centenas de cartas antigas. Os óculos escorregavam do rosto do doutor, Mazé os recolhia, colocava-os sobre a mesa e cobria com um cobertor seu chefe e deixava-o adormecido sobre a poltrona.
O que entristecia João Felisberto era que no seu museu havia passados de inúmeras pessoas, mas, ele mesmo não possuía passado algum. Não guardava na memória nada que lhe concedesse algo digno respeito. Seus trabalhos foram ridicularizados, sua profissão era burocrática e sem graça, não tinha filhos, esposa, ou qualquer vínculo que lhe concedesse um passado marcante. Não poderia sequer inventar uma Dulcinéia que lhe outorgasse um motivo para lutar. Só lhe restava viver a vida dos outros, a vida que para os falecidos havia chegado ao fim, e que se estendia por mais uma ou duas semanas graças a João Felisberto. O homem que colecionava passados e os vivia como se realmente fossem seus.

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