Arquivo do mês: janeiro 2016

 

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“Você não sabe o que passei,
para chegar até aqui.
Percorri milhas e milhas antes de dormir.
Eu não cochilei.
Os mais belos montes escalei.
Nas noites escuras de frio, chorei”.
(Cidade Negra)

“Isso sou eu!”

Giordana Bonifácio

Um dia, dei à luz a uma ideia. Surgiu meio assim, de mansinho. Primeiro, era uma comichãozinha na mão. Foi um tanto incômoda, impelia-me para um sentido que desconhecia. Era uma sensação estranha, mas sabia que tinha de fazer aquilo transformar-se em algo. Não sabia bem o quê. Poderia ser uma escultura, mas meu talento com artes manuais sempre foi sofrível. Poderia ser um desenho, mas percebi que meus rabiscos estavam muito longe de se parecerem com arte. Então escrevi: veio-me minha primeira história. Não foi um trabalho memorável. Sequer restou para a posteridade. Não havia internet e os computadores estavam muito além dos meus parcos recursos, bem como, os de minha família. Escrevi à mão um conto que se pretendia engraçado sobre a lei seca. Foi quando percebi que minha veia humorística não me levaria a lugar algum. Diriam que tenho o dito humor inglês, mas, na verdade, creio que não me sei fazer engraçada. Bom, mas voltando ao assunto, eu escrevia, em meus cadernos, longos textos que seriam o embrião da minha literatura. Claro que sob protestos inflamados de meus professores que tinham de dividir o espaço de meus cadernos com minhas fantasias pré-artísticas. O tempo não conservou aquelas provas do crime para hoje provar a culpa do acusado. Alguns anos depois, minha mãe conseguiu financiar um computador IBM Aptivia que, apesar de dividi-lo com meus três irmãos, era tudo para mim. Mas com o progresso da tecnologia os arquivos que restaram no disco rígido daquela máquina não puderam ser reabertos. Outros computadores vieram até que pude comprar o meu notebook pessoal quando obtive finalmente um emprego. Então, havia mais estímulo para escrever, pois tinha toda a liberdade e privacidade que sempre sonhei. Anos dividindo o computador com meus irmãos fizeram-me sofrer com as piadas infames dos meus familiares quanto às histórias que criava. Não eram contos verdadeiramente memoráveis. Mas só pelo fator histórico tinham algum valor.

Foi em 1998 que dei início a minha caminhada pelos veios da literatura. Contudo, outra condição se abateria sobre mim: fui diagnosticada doente psiquiátrica e, desde então, cumpro à risca as recomendações médicas para manter a tão sonhada sanidade. Em razão de minha condição, sofria bullying na escola. Já o sofria mesmo antes deste período, mas devido à doença, sobre a qual, naquele tempo, não tinha controle, acentuou-se severamente. De 1999 até 2001, vivi uma terrível peregrinação em busca de tratamento, bem no momento de minha adolescência que foi perdida em meio a psicólogos, remédios prescritos e psiquiatras. A faculdade de Direito foi dolorosíssima, pois as alucinações chegavam-me nos momentos mais impróprios. Levou muito tempo até que pude, finalmente, ver-me livre das vozes e dos outros sintomas estranhos que me afligiam. Quando, já mais estável, fui aconselhada pelos meus médicos a voltar a escrever, foi como abrir as comportas de uma represa em sua vazão máxima. Surgiram assim, muitos dos meus contos. Criei uma página no falecido Geocities do Yahoo que transformei em um blog, no ano de 2007, no WordPress. Foi nesse ano que ingressei na disputa do Concurso Internacionalizando o Jovem escritor sendo agraciada com um honroso sexto lugar. Nunca recebi sequer um certificado deste feito, mas se procurarem por meu nome do Google, acharão, com alguma sorte, a prova de minha primeira vitória literária. Após isto, fui alcançando posições mais altas nos certames que chegaram ao seu ápice com o primeiro lugar no Concurso Literário de Icó de 2014 na categoria crônicas. Sempre que olho o certificado deste concurso, em especial, vem-me à língua as palavras daquela música “A estrada” da Cidade Negra, banda muito em voga na minha adolescência: “Você não sabe o que passei, para chegar até aqui. Percorri milhas e milhas antes de dormir. Eu não cochilei Os mais belos montes escalei. Nas noites escuras de frio, chorei”. Meu caminho foi árduo. Como a vida de todos, em geral.

“Quer moleza? Senta na gelatina.” Diria o grande filosofo brasileiro, Fausto Silva. Perdoem-me o trocadilho. É só um chiste do meu, já mencionado, humor inglês. Minha mãe costuma dizer que tudo para mim é mais difícil. É algo que sinto na alma. Nada que conquistei, veio-me fácil. Nem mesmo a sanidade. Agora que sou uma paciente em condição estável, posso confessar-me até feliz. Conquistei mais de uma dúzia de premiações e publicações. E, hoje, sinto-me, pela primeira vez, uma pessoa comum. O meu padecimento custou-me quase a vida. Emagreci no auge da doença até atingir os 45 quilos. Até menos, pelo que me lembro. Vivia em sofrimento. Era como estar constantemente em alerta. Apavorada com a realidade que se mostrava, aos meus olhos, tão hostil. Apesar de sempre ter estudado muito, (hoje sou dona de um currículo invejável: sou bacharel em Direito, advogada pela OAB/DF, pós-graduada em Ordem Jurídica e, dia 11 de março, recebo o diploma de licenciatura em Letras pela Universidade de Brasília –UnB); não podia controlar a minha própria mente. Passei por episódios bem sinistros, confesso. Meus médicos conheciam-me pelo meu diagnóstico: depressão, baixa auto-estima, episódios de alucinação e delírios, retraimento social e diminuição da motivação, desesperança, ideias de ruína e, até mesmo, de suicídio. Até superar todos estes percalços, passei por muito tempo de terapia e estou praticamente formada em fármacos psiquiátricos. Porém, minha vida melhorou sensivelmente, hoje posso dizer: sobrevivi! Claro que não passei por tudo isto sozinha. Tive o apoio incondicional da minha família, com que pude contar nos momentos mais difíceis. Sofreram e partilharam da minha dor, quando ninguém mais parecia se importar comigo.

Depois de uma longa tempestade, creio que vem chegando o período em que o sol volta a brilhar para mim. Ainda que não goze (ainda) de fama. Algumas singelas conquistas fazem-me crer que a roda da fortuna girou a meu favor, finalmente. Tenho dois livros sendo vendidos numa das maiores livrarias do país. Isto me significou deveras no momento de escrever esta crônica. Não queria relatar um texto repleto de mensagens de conforto e fortalecimento. Não sou lá muito adepta da auto-ajuda. Por isso, os livros que meus terapeutas me indicavam, pouco me auxiliavam. Não por questionar a capacidade dos autores destas obras, mas por duvidar da sua real eficácia sobre mim. Julgava-me solitária num mundo repleto de pessoas. O que veio a mudar quando a mágica da conexão tecnológica, mais conhecida por internet, apresentou-me a pessoas que partilhavam das mesmas ideias que eu. Uma delas, minha melhor amiga, “best friend forever”, como os jovens dizem hoje em dia, Vera Lúcia Guabiraba. Aprendi muito com suas dores e espero que ela tenha crescido também ao meu lado. Olhem só: eu falando “lado”! Ela mora a milhares de quilômetros de distância, lá em Sergipe, enquanto eu vivo neste louco quadradinho no meio do país conhecido por Distrito Federal! Suas desilusões amorosas fizeram-me entender também as minhas. Hoje, somos praticamente irmãs gêmeas separadas ao nascer. Outro fator que me marcou muito foi o meu ingresso no curso de Letras. Não recebi muitos incentivos na minha opção, pois já tinha cursado Direito e já até advogava. Mas creio que o mais importante de ter escolhido a UnB não foi tão só o curso em si, mas as amizades que restaram desta experiência. Não foi somente o aprendizado auferido para a criação de meus contos, foi também o saber do mundo que me auxiliou a ser melhor como pessoa. E, por fim, amizades sinceras. Não sei se serão eternas, espero que sim. Mas foram fruto de uma ideia que começou com um comichão há muito tempo atrás. O que fica como moral desta história? O tempo é o melhor professor, mas é melhor frequentar sua escola quando temos bons colegas de classe!

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D.-QUIXOTE

“Dizem que sou louco por pensar assim
Se eu sou muito louco por eu ser feliz
Mas louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz”
Balada do louco – Ney Matogrosso

O colecionador de passados

Giordana Bonifácio

Dir-se-ia que João Felisberto Castro Teles era uma pessoa comum. Funcionário público, solteiro, no auge dos seus 35 anos, dono de seu próprio lar, de uma extensa carga cultural produzida ao longo de toda sua vida, graças aos esforços de seu pai, um juiz renomado da capital do país. Fez o curso universitário numa grande universidade no exterior, bem como, um doutorado e, até mesmo, um pós-doutorado. Alguns trabalhos produzidos por ele foram citados por estudiosos muito bem cotados dentro e fora do Brasil. Assim, é possível dizer que se tratava de uma das mais prestigiadas jovens mentes do país. Exceto por um pequeno detalhe, João Felisberto tinha um estranho hobby: colecionava passados.
É mais bizarro do que parece. João Felisberto ao saber da morte de alguém procurava logo saber se o falecido tinha família, pois é mais difícil negociar álbuns de retratos e pequenas lembranças com os familiares, haja vista que o sangue obriga a guarda de recordações dos parentes que se foram. Mais fácil era procurar os lares de idosos, onde velhos são largados pelos parentes restando sozinhos com suas muitas lembranças e pouca presença. A solidão desses velhinhos era um prato cheio para nosso amigo recém-apresentado.
Vocês devem estar se perguntando: mas o que este indivíduo vai fazer com tanta tranqueira? Pois é, João Felisberto, a quem concedemos a alcunha de colecionador de passados, adjetivo com o qual ele mesmo se apelidava, guardava em uma espécie de museu em sua casa. Esta aí o motivo de nosso estranho amigo não ter se casado. As mulheres, em sua maioria, ao serem apresentadas ao “museu” de João Felisberto, não costumavam voltar para uma segunda visita. Apesar de todos os álbuns, cartas, apetrechos, roupas, chapéus, lenços e outros objetos serem muito bem cuidados, de modo não se desfazerem graças à força implacável do tempo.
As pessoas, em sua maioria, designavam este estranho hobby como fúnebre e chegaram a denominar João Felisberto de “papa-defuntos”. Uma injustiça inominável. Afinal, o que seria feito de tudo aquilo que o colecionador de passados recolhia? O destino final com certeza seria o lixo. Então, é possível dizer que o papa-def…, opa, o nosso colecionador prestava até mesmo um trabalho ambiental. Talvez até social, pois deixava viva a memória dos que já se foram.
Ocorre que João Felisberto não se limitava a guardar os objetos dos mortos. Na verdade, o colecionador, talvez em função de alguma sandice não diagnosticada, assumia a personalidade do morto. Quando recolhia os objetos dos falecidos, lia suas cartas, folheava seus álbuns de retratos, e, por um período de uma ou duas semanas, mais o menos, João Felisberto tornava-se o homem ou, pasmem, a mulher dos quais colecionava as recordações. É claro que esta tão estranha mania causou-lhe inúmeros problemas. O maior deles quando a mulher cujos objetos os quais se apropriou tratava-se de uma prostituta. Não tentem imaginar as cenas, foram mais horríveis do que se possa tão somente pensar.
Quando o falecido fora uma adestrador de leões, foi por muito pouco que não veio a óbito o nosso colecionador desastrado. Outra vez, encarnou um mímico, o que foi mais chato do que perigoso, perdeu muitos amigos nessa época. Não que tivesse muitos, pois, as estranhezas de nosso personagem afastavam-no do contato com as pessoas. Os familiares já tentaram interná-lo e, até mesmo, queimaram muitos dos objetos do museu. Mas, João Felisberto se limitou a citar um trecho de Dom Quixote de La Mancha em que a sobrinha do fidalgo queimava os livros do tio para dar fim à loucura daquele.
Como não conseguiram terminar com o sonho do Cavaleiro da Triste Figura, também não cessaram as alucinações do nosso colecionador. Nosso amigo perseverou com seu hobby tão inadequado. O mais preocupante foi quando resolveu fazer da casa inteira seu esquisito museu. Os parentes diziam: “se fossem lembranças de alguém importante, mas são todos um bando de zé-ninguém”. O pai, envergonhado dos hábitos questionáveis do filho, resolveu cortá-lo do círculo de familiares. “Se não posso fazê-lo pelas leis brasileiras, que o faça por minha própria lei.”
Pobre colecionador, ridicularizado em todos os meios sociais, os seus trabalhos geniais findaram por serem depreciados pelo meio científico. Ele que deveria ser reconhecido como um gênio, por alguns transtornos de ordem psiquiátrica, foi relegado ao opróbio e ao esquecimento. Porém, não deixava seu hobby, origem de toda sua desgraça. Há alguns dias, assumiu a personalidade de um ator de teatro e ficou recitando Hamlet por todos os lugares. Essa semana, pensava ser um cantor, mas sem saber as devidas técnicas musicais, quase estourou os tímpanos da sua empregada Mazé.
Maria José foi contratada pela família, mais por uma questão humanitária do que por real cuidado com João Felisberto, para zelar pela casa e, principalmente, pelo nosso perturbado personagem. Ela ria-se muito das insanidades do “doutor”, como o chamava. Ela controlava os ímpetos mais perigosos do aluado cientista, de modo impedi-lo de fazer algo muito ruim à própria saúde. (Só digo uma coisa: deveriam tê-la contratado antes de ele ter encarnado a prostituta).
Se fosse mesmo um Dom Quixote, Mazé seria o Sancho Pança de João Felisberto. As loucuras que a mente transloucada de nosso “doutor” eram podadas pela bondade altruísta daquela senhora, mãe de dois filhos adolescentes, aos quais dizia que deveriam ser inteligentes como o “doutor”.
Apesar das críticas que maculavam a honra do doutor, Mazé continuava firme em sua defesa. “Que o deixem ser feliz!” Era a fiel escudeira deste quixotesco personagem que lhe guardava os óculos quando João Felisberto adormecia entre seus inúmeros álbuns de retratos e centenas de cartas antigas. Os óculos escorregavam do rosto do doutor, Mazé os recolhia, colocava-os sobre a mesa e cobria com um cobertor seu chefe e deixava-o adormecido sobre a poltrona.
O que entristecia João Felisberto era que no seu museu havia passados de inúmeras pessoas, mas, ele mesmo não possuía passado algum. Não guardava na memória nada que lhe concedesse algo digno respeito. Seus trabalhos foram ridicularizados, sua profissão era burocrática e sem graça, não tinha filhos, esposa, ou qualquer vínculo que lhe concedesse um passado marcante. Não poderia sequer inventar uma Dulcinéia que lhe outorgasse um motivo para lutar. Só lhe restava viver a vida dos outros, a vida que para os falecidos havia chegado ao fim, e que se estendia por mais uma ou duas semanas graças a João Felisberto. O homem que colecionava passados e os vivia como se realmente fossem seus.

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