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“É Natal sempre que deixar
Deus amar os outros através de si…
Sim é natal sempre que sorrir para
o seu irmão e lhe oferecer a sua mão.”
Madre Teresa de Calcutá

Menino de verdade

Giordana Bonifácio

“Hoje é véspera de Natal.” Pensou o menino vendo a rua em que “morava” completamente enfeitada. Claro, ele não habitava àqueles prédios chiques com luzinhas piscando nos jardins. Ele vivia entre o poste de luz e o hidrante, perto de um ponto de ônibus, em frente ao Edifício Embassador, sobre uma folha de papelão que lhe servia de cama, mesa e travesseiro. No inverno, algumas pessoas lhe doavam casacos, o que amenizava um tanto o frio da noite. Mas, no verão, a caridade tornava-se cada vez mais rara. Não tinha esperança de ganhar algum presente. Não tinha mãe ou pai, achava até que nascera na rua, pois não tinha qualquer lembrança deles. Não sabia, nem mesmo, a data precisa de seu nascimento. Poderia ter nascido no dia de Natal, como Cristo. Mas não tinha sequer uma certidão nascimento que lhe concedesse uma data de aniversário.
Assim, não sabia qual era sua idade. Achava que teria entre seis ou oito anos, isso avaliando o seu tamanho com o do filho do porteiro do Edifício Embassador. Esse menino, Lucas, brincava com ele vez em quando. Eram dias memoráveis esses, quando se lembrava de que também era criança. Como Lucas tinha 8 anos e ele era um tanto menor que o amigo, talvez fosse mais novo, mas era tão só uma hipótese. Na verdade, nada sabia de si. Não tinha nome, mas, nas ruas, ganhou a alcunha de Minduím. Não que gostasse desse nome, porém, como não tinha nenhum outro, resolveu adotá-lo, mas seria ótimo ter um nome como Ricardo, Paulo, Roberto ou Carlos. Nome de gente, nome que a professora fale em voz alta ao fazer a chamada.
Queria ter uma família também e uma árvore de natal toda enfeitada em que, sob ela, no dia de Natal, encontrasse presentes. Um trenzinho ou, talvez, uma bicicleta. Mas alguém teria de ensiná-lo a andar de bicicleta. Nesse caso, deveria ter um pai também. Alguém que se preocupasse com ele, que cuidasse dele quando estivesse doente. Uma mãe também não seria nada mal, imagina ter um colo para deitar quando estivesse triste, uma mãe que fizesse comida gostosa, igual essas ceias de Natal que ele só vê na televisão!
Ele acreditava em Deus, rezava todas as noites antes de dormir. Descobriu que rezar ajudava a pegar no sono. Quem o ensinou a rezar foi uma velha que distribuía cobertores aos mais necessitados. A paróquia a que ela pertencia fazia sempre trabalhos comunitários. Um dia, ela sentou ao lado daquele menino e perguntou-lhe se sabia rezar. Ele balançou a cabeça, envergonhado de sua ignorância, mas a velha foi muito gentil. Juntou-lhe as mãos e pediu-lhe para repetir: “Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador, se a ti me confiou a piedade divina, sempre me reges, me guardes, me governes, me ilumines, amém.” A senhora ainda o ensinou a rezar o Pai-Nosso e a Ave-maria. Disse-lhe que crer em Deus e seguir o Evangelho também era um ato de coragem, mas ele tinha tanto medo…
Ele sempre rezava quando estava apavorado, com fome e sozinho. Ele tinha medo do escuro, por isso dormia perto do poste de luz. Quando faltava energia elétrica, tinha medo de ser agredido pelos meninos mais velhos e rezava para que nada de ruim lhe acontecesse. Não sabia se Deus poderia o escutar, ele era tão pequeno nessa cidade tão grande, tão cheia de gente, que o barulho deveria ser ensurdecedor. Será que Deus poderia ouvir sua prece? Não era culpa de Deus, ninguém poderia cuidar do mundo inteiro. Se a cidade em que morava, nem todos poderiam ser ouvidos, imagina nesse mundo enorme!
Nem sabia quão grande poderia ser o mundo, não havia estudado para sabê-lo, mas quando assistia à televisão no Bar do Seu Zé, sempre se referiam ao nosso mundo como algo colossal e que o universo em que estamos seria infinito. Não entendia bem essa ideia de infinito, como poderia existir algo que nunca acaba? Deus tinha mesmo muita coisa com o que se preocupar e não deveria ter tempo para cuidar de um menino de rua encardido e magro que passava as noites num pedaço sujo de papelão. Não tinha raiva de Deus, mas tinha fé que, um dia, Ele ouviria a sua voz, entre tantas outras que pedem, todos os dias, uma sorte melhor.
O Seu Zé fechou o bar cedo, pois comemoraria o Natal com a família. Todos rumavam para suas casas com pacotes de presentes coloridos e ele ali, sozinho naquela noite tão bonita. A velha que lhe ensinou a rezar disse que, no Natal, Jesus nasceu para salvar os homens. Ele era o Messias, mas escolheu ser filho de um marceneiro. A mãe de Jesus, Maria, era uma mulher pura que cedeu o corpo para o Espírito Santo fazer-se vivo dentro dela. Quando Jesus veio ao mundo, não houve festas, o Salvador nasceu numa estrebaria e sua mãe fez-lhe uma manjedoura de berço.
Jesus veio pelos pobres. Por isso que, mesmo sendo um menino de rua, confiava em Deus. A velha disse que Jesus uma vez falara: “deixai virem a mim as criancinhas, pois delas é o reino dos Céus”. Será que ele teria, também, um lugar nesse paraíso prometido? Tentava não fazer maldades, cumprir a lei divina, ainda que fosse muito difícil. Seria mais fácil enganar a fome usando drogas, mas, se assim o fizesse, estaria indo contra o que dizia a Bíblia. “O nosso corpo é o templo do senhor”. A velha disse para ele: “não vá usar desses venenos das ruas, eles o afastam de Deus”.
Ela disse, também, coisas lindas sobre Maria, José e os apóstolos de Jesus. Eles não tiveram medo de seguir a lei do Nosso Pai, o Evangelho de Nosso Senhor. Por isso, ele também tinha de ser forte. “Não tenha medo de seguir o que diz o Santo Evangelho.” A velha leu para ele trechos da Bíblia que ele não compreendeu muito bem, mas ela disse que não havia problema, que nem mesmo os muitos letrados entediam completamente a Palavra do Senhor.
A velha era uma senhora tão boa. No Natal passado, a idosa trouxe-lhe uma marmita com peru, arroz à grega e todas estas comidas chiques que ele jamais havia provado. Comprou-lhe até um presente: uma bola que, na mesma noite, foi roubada pelos meninos mais velhos. Ele tentou lutar, mas recebeu vários chutes e socos, restou-lhe tão só uma mágoa profunda, o lábio partido e um olho roxo. No inverno seguinte, a velha não foi distribuir cobertores, nem sopa e nem neste Natal apareceu. Ele ficou triste por ter perdido esta grande amiga. Rezou para que nada de mal lhe tivesse acontecido, que só estivesse fatigada de fazer o bem. Mas o mundo ficou um tanto mais triste para ele.
Sentou-se na sua folha de papelão, olhou para as janelas dos apartamentos em que os vidros refletiam as luzes das árvores de Natal. Desejou com todo afinco ser um menino de verdade. Lembrou-se, novamente, do que lhe disse a boa senhora: “Não tenha medo de seguir o que diz o Santo Evangelho.” Adormeceu sobre sua única propriedade, uma simples folha de papelão. Sem um carinho ou afago, sem presentes e com uma fome enorme, rezou e adormeceu.
Quando despertou, estava numa cama quentinha num quarto de verdade. Havia brinquedos, lençol, travesseiro, tudo que um menino de sua idade deveria ter. Estava vestido até com um pijama limpinho. Correu para a sala, onde pessoas a quem nunca havia visto na vida abraçavam-se e festejavam em volta de uma mesa repleta de comida. Havia peru, salpicão e outras comidas que sequer sabia que existia. Havia outras crianças e uma árvore de Natal repleta de presentes.
Ele só poderia estar sonhando. Mas, se era um sonho, ele não queria nunca mais acordar. Quando o perceberam, os adultos vieram em sua direção. Uma moça bonita se apresentou e disse-lhe ser neta da senhora que o conheceu na rua. A velha havia falecido, mas seu último desejo era que a família adotasse o pequeno menino de rua que vivia frente ao Edifício Embassador, conhecido pelo nome de Minduím. Ela os havia contado tudo sobre ele antes de morrer no início daquela semana.
Por ser Natal, queriam dar-lhe a primeira festa de Natal de sua vida. Por isso, pegaram-no frente ao Edifício, ainda dormindo, para a surpresa ser ainda maior. Agora viveria ali naquela casa com eles, seria filho deles, membro da extensa família Moreira. A moça bonita perguntou se ele aceitava. Ele soltou um grito: “Mas é claro que sim!” A moça bonita o abraçou e chorou de felicidade. “Mas tem uma coisa”, ele disse um tanto envergonhado. A moça bonita fitou-lhe os olhos e perguntou: “sim?”. Ele respondeu cabisbaixo: “eu não queria ser chamado de Minduím”. Ela riu e perguntou como ele queria ser chamado. Pois é claro que ele poderia escolher o nome por qual seria chamado por todos. Ele disse: “um nome de menino de verdade?” E ela respondeu: “e por que não?” Ele pensou um pouco e perguntou como se chamava a senhora que o havia ensinado a rezar. A moça bonita respondeu: “Joana”. “Então, eu escolho ser chamado de João”. A moça disse então que o significado do nome João é “presente de Deus” o que ele seria para aquela família.
Todos ficaram comovidos com o gesto do menino e chamaram-no para sentar-se à mesa. Depois da festa, na hora de dormir, o menino ajoelhou-se e agradeceu a Deus por ter ouvido suas orações e que não sabia como agradecer aquele presente de Natal maravilhoso que recebera. Realmente, Nosso Pai não falha àqueles que têm coragem de seguir as suas palavras, o santo Evangelho. João, um menino de verdade, dormiu feliz em sua cama fofinha, pois sabia que, pela manhã, poderia abrir os presentes que o aguardavam aos pés da árvore de Natal.

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