acarta

A carta

Giordana Bonifácio

Olá,

Se você está lendo isto, provavelmente fez tudo errado no passado. Casou-se, teve filhos, mas deu mais importância aos lucros e dividendos. Tudo isto, para dar uma vida confortável a quem “amava”. Amava mesmo? Por que então, viveu pensando exageradamente no futuro e esqueceu-se de preocupar-se com o presente? Fez-se escravo do dinheiro, não guardou um tanto de seu tempo para família e amigos, nem mesmo, para si próprio.  Não fez tudo que deveria ter feito, na verdade, não fez nada do que havia planejado. Ao invés disto, fez tudo que havia dito que não faria. Você que, quando jovem, criticava tanto seus pais, agiu da mesma forma que eles. Percebeu que eles estavam certos tarde demais, não é amigão? Mas não pode sequer dizer isto a eles. Seus pais já se foram e você ainda lamenta não ter ido visitá-los quando poderia ter feito… Mas aquele assunto do trabalho era tão importante, né?

Pois é, seu filho deve já estar adolescente, um menino rebelde que não escuta você. Assim, bem semelhante ao que você foi na idade dele? Engraçado que ele esteja cometendo os seus mesmos erros, não é? Como fizeram um dia os seus pais, tentou avisar a seu filho, mas ele não deu muita bola para o que disse… Isso faz você recordar-se de alguém? Olhe no espelho, para identificar o culpado. Isso mesmo amigo, ele só está repetindo os seus caminhos. Você só queria que ele não cometesse os seus erros… Difícil convencê-lo disto. Mas como você, seu filho terá de aprender com a vida. Não há como evitar agora e não houve também no passado. Sabe bem disto. Quando criança ele sempre foi tão doce. “Um menino de ouro” diziam os vizinhos. É, o menino cresceu, já está quase um homem. E tudo o que você queria era ter sido um pai mais presente para ele. Mas o tempo passou e você não viu. “Agora não há como chorar pelo leite derramado!” Vamos, sem lamentações, amigo!

É tempo de tentar se reencontrar. Você perdeu a direção da sua vida e da sua família. Seu mundo virou de cabaça para baixo, não foi? Você pensava que era só deixar todo mundo bem financeiramente, que, desta forma, tudo seguiria os planos que há muito tempo atrás você traçou. Sei bem o que é isso. As coisas não são assim. Havia um tanto de “coisas” que você deveria ter feito, mas eu mesmo também não fiz, por isso, acredite, descobri que estas “coisas” também são importantes. Você não tinha tempo para seu filho, não tinha tempo para suas histórias, para suas brincadeiras, para seu sorriso de bom dia. Não lia para ele no quarto. Foi assim que foi perdendo aquele que era seu tesouro mais importante. De que lhe valem seus dólares na suíça, seu jatinho, seu patrimônio invejável se nada disto vai salvar seu filho?

Eu também fui muito bem sucedido no trabalho, tinha dinheiro, poderia comprar o que quisesse, menos o amor da minha família. Meu filho mais novo morreu vítima de uma overdose. Eu sequer suspeitava que ele usava drogas. Ele já estava no fundo do poço e eu não percebi. O irmão dele nunca me perdoou. Meu filho mais velho, sempre esperto, inteligente, disse que não repetiria jamais meus erros, que não seria nunca um pai ausente como eu no passado fui.

E agora está ele aqui, lendo a carta que deixei para meu filho ler quando enfrentasse o mesmo problema do qual um dia fui vítima. Meu neto deve estar muito doente, vítima do vício destruidor das drogas. Não sei como ele entrou nesse mundo, mas agora o importante é sair. Você tem de ser forte. Ser o pai que não foi no passado, ser o alicerce que faltou a sua família. É sua culpa. Não se esqueça disto. Seu filho procurou as drogas devido a um vazio que você não soube preencher. É agora o momento, de recuperar o tempo perdido. Não o abandone em uma clínica de reabilitação. É necessário fazê-lo sentir-se bem e amado. Tão querido que a droga não tenha mais de ser a muleta sobre a qual ele se escorava. Vencer a droga é difícil. Não vá pensando que será rapidinho. É demorado, trabalhoso, haverá muitas recaídas e serão inúmeras as vezes que o trabalho terá de ser realizado todo do início. Mas você não deverá esmorecer. O seu filho estará muito frágil. É hora de ser o paizão, amigo, confidente, motivador. Não o sufoque com um amor falso. Seja sempre verdadeiro com seu filho. Ele sentirá em seus olhos a veracidade de suas palavras.

Porém, não se esqueça de seus outros filhos. Quando tudo estiver desmoronando, lembre-se que sobre eles a casa também vai cair. É um trabalho hercúleo, mas alguém terá de fazê-lo. E quem terá de assumi-lo, meu amigo, é você! É tempo de esquecer um pouco os dólares, as propriedades, o jatinho, pois, você trocá-los-ia todos pela saúde de seu filho. Não é verdade? Os negócios não devem mais ser o ponto crucial de sua existência. É tempo de dar o lugar certo de cada coisa em sua vida. Sua família em primeiro, sempre! Não deixe mais de estar com quem ama, para estar numa reunião. Você nunca mais vai recuperar estes momentos. Se eu tivesse aprendido a tempo, não estaria aqui relatando para você o que fazer.

Você não tinha tempo para me escutar. Quais lições daria um homem idoso, cheio de falhas, que perdeu um filho para as drogas por pura negligência? Fui indiferente a minha família, perdi tudo o que mais presava, pois pensava, como você, que daria aos meus filhos o melhor futuro que poderiam desejar. Mas como dar um futuro sem se preocupar com o presente? Foi assim que perdi meus dois filhos. Um para as drogas e o outro para o mundo. Um não tenho mais como recuperar, mas o outro ainda posso tentar. Mesmo que não esteja mais vivo, para lhe abraçar e pedir seu perdão, gostaria de dizer o quanto amo você. Quero ser seu arrimo nesta luta tão difícil que está enfrentando.

Se pudesse dizer o quanto eu sinto por ter errado tanto. Não teria palavras para falar toda minha dor. Não estarei presente em matéria quando estiver lendo esta carta. Mas espero que lhe sirva de incentivo. Nada está perdido ainda. Sei que conseguirá. Você era o mais inteligente. Jonas, o mais divertido, brincalhão e extrovertido. Não respeitei suas diferenças, não deveria ter dito a Jonas que ele tinha de ser como você: estudioso, honesto e esforçado. Nós erramos, não foi? Eu tentava doar-me para Jonas e, a você, não dei a devida atenção. É que sempre pude contar com seu sucesso. Você nunca saiu dos trilhos. Fui indulgente com meu filho mais velho, pois só pensava em recuperar o mais novo. Amigo, peço que me desculpe e também que se perdoe. Não imaginávamos que tentando acertar estávamos errando.

Leve esta carta ao meu neto, leia-a para ele. Estaremos os três nesta luta. Eu somente em espírito. Mas acredite: eu estarei lá. Espero que meus tortos conselhos ainda lhe sejam válidos. Espero que cheguem à boa hora. Levando um tanto de consolo para um coração em frangalhos. Obrigado por ter vindo me procurar. Temia que não o fizesse nunca. Mas o desespero destrói o nosso orgulho. Buscamos auxílio em toda parte. Sei bem o que é isso. Queremos ser fortes, mas nunca nos sentimos tão frágeis. Deixei esta carta não como uma previsão, mas como um testamento a ser aberto no momento mais oportuno. Dessa vez, não lhe deixo os meus bens, pois, para mim, já nada valem, mas meu amor. O sentimento, que não foi repartido no inventário, receba inteiro nessa carta. Estou com você, filhão. Vamos sair desta juntos. Receba meu abraço, que faltou quando deveria existir, e que me sobra quando deveria faltar. Esqueçamos as palavras grosseiras, as acusações e toda mágoa. Se tenho ainda uma chance de consertar o seu coração, que deixei quebrado, espero que tenha alcançado meu intento. No fim seremos vitoriosos. Jonas estará também ao meu lado seremos uma família, de novo; ou, talvez, como nunca fomos; ou como deveríamos ter sido. Quem sabe? Espero que minhas palavras tenham servido para alguma coisa. Se foram suficientes para reconciliarmo-nos todos, já me será de todo válida.

Beijos,

Papai.

-“…E após aparar as lágrimas com as costas da mão, depois de ler para meu filho a última carta do avô, recebi o melhor presente do mundo: um abraço. Mas não um abraço qualquer: o abraço do meu filho que está vencendo, um dia de cada vez, a luta contra as drogas. Ele ainda me disse que eu tinha um coração de gelatina, mas que eu era o melhor pai que ele poderia desejar.” Viu pai? Estou aprendendo!

O homem deixou flores nos túmulos do pai e do irmão e, virando-se para a família, disse:

-Ainda é cedo, vamos tomar sorvete?

Os meninos responderam um sim em uníssono e seguiram todos unidos para a sorveteria.Uma família feliz para todo sempre.

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