Arquivo do mês: dezembro 2015

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“…chorou, mas estava invisível,
e ninguém percebeu o choro.”
Vidas Secas – Graciliano Ramos

Seca

Giordana Bonifácio

O velho lavrador caminhava a passos lentos, já não sabia se queria chegar à cidade. Seria melhor viver longe da chaga do sertão? A seca foi mais violenta este ano. Tudo culpa de uma tal de “Lei de Ninho”. Não choveu no dito “inverno Nordestino” naquele ano, e nem mesmo nos meses que se seguiram. O filho mais novo não resistiu: a mãe não produzia mais leite e o menino foi “amofinando” até que um anjo levou-o enquanto dormia. O menino mais velho quando foi levar a derradeira vaca do rebanho para tomar água no açude, talhou a perna num arame farpado. O problema não foi o corte, depois o menino ficou muito doente, não havia nada que o curasse, até à benzedeira levou-se o moleque, mas, em menos de um mês, o homem mais forte que a seca, chorou feito menino. Depois disso, a mulher ficou fraca do juízo. Mas ele nem a culpava não. Tem de ser muito forte para decidir continuar após a morte de um filho, quem dirá de dois. Ela um dia foi buscar água no açude, não voltou mais. Nem sabe para onde ela foi. Procurou feito doido. Rodou quase meio sertão. E ele restou sozinho. O dono da fazenda que arrendava mandou-o tentar a sorte em outro lugar. “Deixa de ser besta, homi! Ficar aqui é morte certa e agora você não tem família.” Sem escolhas, ele botou o pé na estrada. “Pega um pau-de-arara, meu velho. Não vai conseguir chegar à cidade na sola de sapato.” “Tenho dinheiro não, amigo. Andando posso ir pensando na vida.” “Se pensar muito na vida, ela passa e você nem sente.” “E quando a vida já passou e a gente ficou? Aqui largado nesse mundo, sem ninguém, sem família, sem sorrisos, sem abraços, às vezes isto é até mais importante que comida ou água para beber.” “Você que sabe, tome estes tostões. Com isso você se vira até chegar no meio do caminho. Depois, é por sua conta!”
No dia de partir, o homem calçou suas alpargatas, tomou um cajado, que servia mais como bengala do que proteção, colocou o pouco que lhe restara numa trouxa e apoiando-a na cabeça, como faziam as baianas com seus tabuleiros de acarajé, partiu para o infinito. Sob o sol, a vista às vezes lhe pregava peças, três vezes bateu com o cajado num galho pensando ser uma cascavel. O calor sugava-lhe infinitamente, mas ele já era acostumado a ficar longos períodos sem água. Mesmo assim, o que tinha estava longe de ser o suficiente para a viagem. O céu às vezes enganava, fazia de conta que iria chover. Mas nem chovia nada. Era alarme falso. Os pés de um lavrador, acostumados com a terra, são grossos feito couro de jacaré. As bolhas que apareceriam no início da viagem nos pés dos homens neurastênicos da cidade, só se formaram nos pés do lavrador quando já estava para lá da metade do percurso. O lavrador, como todo nordestino, era um forte, mesmo assim as bolhas começavam a incomodar. Resolveu que dormiria “para descansar as pernas”. A seca expulsara todos os pequenos agricultores do sertão. Era grande o número de terras abandonadas, com casinhas de pau-a-pique inabitadas, que poderiam conferir uma noite de conforto para o lavrador. Na entrada, viu duas carcaças de bode que deveriam ser da criação da família outrora dona daquele local. “Coitados!”. Comoveu-se, talvez pensasse em sua própria história. No que havia perdido para chegar até ali, coisas que nem todo dinheiro do mundo poderia comprar. Entrou na casa, que parecia estar assombrada pelos fantasmas que o lavrador trazia consigo e não pelos que já viveram realmente ali. Dormiu. Apenas dormiu, um sono cansado e sem sonhos. Pois, tudo que deveria sonhar, já o fazia quando estava acordado. Acordou quando o dia nem despontava ainda. Não tinha mais água para beber então comeu um tanto de carne com farinha, muito aquém do necessário para matar a fome, mas era o que tinha para chegar até a cidade. Porém, havia ainda um grande caminho pela frente e ele já estava exausto. Já lamentava por não ter tomado dinheiro emprestado para pagar um pau-de-arara. Mas agora era tarde, tinha de continuar, talvez pelo único motivo de estar vivo. Não por sonhar com um futuro melhor, pois chegaria só com a cara e a coragem na cidade. Não tinha nada que o fizesse mais qualificado para um emprego, nada além da sua sabedoria de gente simples do sertão. Já não tinha nada para apostar, portanto, não tinha esperança de viver uma realidade mais favorável fora do meio rural.
Tirou a trouxa da cabeça. O sol queimava-lhe os miolos. Tinha sede. Tinha fome. Estava cansado e os pés lhe doíam imensamente. As alpargatas, remendadas com pregos, já estavam nas últimas. Se ele soubesse rezar, faria uma prece para Nossa Senhora e São José. Mas ficava meio sem jeito em falar com santos na sua linguagem rústica do sertão. Tinha uma cruzinha, que ganhara de um monge, a qual sempre levava consigo. Quando “as coisas” estavam muito difíceis ele beijava a cruz e tudo se ajeitava. Era infalível! Tinha fé nessa cruz milagrosa, pois era seu único bem nesta terra: ela, uma cuia de carne seca com farinha, um cantil de água vazio e uma rede que lhe servia de cama desde os tempos de casado. Lembrava-se da sua festa de casamento. Foi uma festa bonita, havia muita comida, parentes, amigos, todos felizes pela união que se procedia. Na mesa farta, havia buchada, sarapatel e galinha caipira ao molho pardo. O seu Nicário, que lhe arrendava a terra, tinha matado até um bode para a ocasião. Os doces também não ficavam para trás, havia mungunzá, canjica, broa de milho, tapioca de coco e cocada. As mulheres ficaram um dia inteiro preparando as comidas para o casório. Estavam todos muito felizes. De repente, o lavrador começou a rir: lembrou-se que na noite de núpcias havia caído da rede e de tanta dor nas costas só havia conseguido consumar o matrimônio três dias depois. “Você veio todo ancho, se achando o rei da parada. Bem feito!” Ria-se a sua mulher. Eles foram felizes, brincavam feito crianças. Mas, então, vieram os filhos e depois a seca. E então Deus levou-lhe os filhos, a mulher e ficou tão só a seca.
De repente, ouviu um ronco de motor, parecia que um carro aproximava-se. Era na verdade um caminhão pau-de-arara repleto de pessoas. Ele agradeceu à cruz e à força divina que conspirava para mantê-lo vivo. O caminhão parou ao lado dele: “quer uma carona, amigo?” “Claro, meus pés já estão nas últimas.” “Sobe aí, então”. O lavrador subiu na carroceria do caminhão, uma mulher colocou o filho no colo para ceder lugar ao recém-chegado. “Tarde!” “Tarde!” Nos rostos cansados dos passageiros, poderia ler-se uma vida inteira de privação e lutas. As rugas que lhes marcavam a face eram como hieróglifos com que o tempo contava todo o sofrimento vivido pelo sertanejo. Olhares profundos para um horizonte em que predominava tão só a caatinga seca e espinhenta. Uma mulher ofereceu uma caneca d’água para o lavrador. A samaritana que saciou a sede de Jesus não teria feito boa ação mais louvável. O lavrador agradeceu por aquele líquido fresco que lhe irrigava a garganta. As crianças encaravam-no com um olhar de dúvida e temor. “Eu tinha dois molecotes mais ou menos da idade de vocês, mas Jesus levou meus anjinhos para perto dele.” “E sua mulher, onde está?” Perguntou a mulher que lhe havia dado de beber. “Perdeu-se no mundo! Ficou ruim das ideias quando as crianças morreram. Um dia, foi pegar água no açude e nunca mais voltou. Procurei “feito o cão” por ela. Mas nada. Nem um sinal da danada!” “O sinhô acha que ela tá viva?” “Tomara Deus que esteja!” Abaixou a cabeça. Duas lágrimas rolaram-lhe pelos caminhos enrugados da face. A cidade aproximava-se. As pessoas ficaram mudas por um instante. Sentiam medo do futuro que se apresentava em forma de concreto armado a sua frente. Talvez, por não saberem o que é esperança. Acham que tudo que assusta só pode ser medo. E frente a uma vida nova, seus olhos temerosos queriam sonhar com um futuro melhor, contudo, a realidade que viveram sempre foi tão seca e agreste, que a noite fatigada roubava-lhes os sonhos. A placa, que dava boas vindas aos que chegavam àquela assustadora esfinge, fez mais uma lágrima singrar as rugas do lavrador e pingar-lhe do queixo. Ele beijou a cruz mais uma vez: o futuro já começou.

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“É Natal sempre que deixar
Deus amar os outros através de si…
Sim é natal sempre que sorrir para
o seu irmão e lhe oferecer a sua mão.”
Madre Teresa de Calcutá

Menino de verdade

Giordana Bonifácio

“Hoje é véspera de Natal.” Pensou o menino vendo a rua em que “morava” completamente enfeitada. Claro, ele não habitava àqueles prédios chiques com luzinhas piscando nos jardins. Ele vivia entre o poste de luz e o hidrante, perto de um ponto de ônibus, em frente ao Edifício Embassador, sobre uma folha de papelão que lhe servia de cama, mesa e travesseiro. No inverno, algumas pessoas lhe doavam casacos, o que amenizava um tanto o frio da noite. Mas, no verão, a caridade tornava-se cada vez mais rara. Não tinha esperança de ganhar algum presente. Não tinha mãe ou pai, achava até que nascera na rua, pois não tinha qualquer lembrança deles. Não sabia, nem mesmo, a data precisa de seu nascimento. Poderia ter nascido no dia de Natal, como Cristo. Mas não tinha sequer uma certidão nascimento que lhe concedesse uma data de aniversário.
Assim, não sabia qual era sua idade. Achava que teria entre seis ou oito anos, isso avaliando o seu tamanho com o do filho do porteiro do Edifício Embassador. Esse menino, Lucas, brincava com ele vez em quando. Eram dias memoráveis esses, quando se lembrava de que também era criança. Como Lucas tinha 8 anos e ele era um tanto menor que o amigo, talvez fosse mais novo, mas era tão só uma hipótese. Na verdade, nada sabia de si. Não tinha nome, mas, nas ruas, ganhou a alcunha de Minduím. Não que gostasse desse nome, porém, como não tinha nenhum outro, resolveu adotá-lo, mas seria ótimo ter um nome como Ricardo, Paulo, Roberto ou Carlos. Nome de gente, nome que a professora fale em voz alta ao fazer a chamada.
Queria ter uma família também e uma árvore de natal toda enfeitada em que, sob ela, no dia de Natal, encontrasse presentes. Um trenzinho ou, talvez, uma bicicleta. Mas alguém teria de ensiná-lo a andar de bicicleta. Nesse caso, deveria ter um pai também. Alguém que se preocupasse com ele, que cuidasse dele quando estivesse doente. Uma mãe também não seria nada mal, imagina ter um colo para deitar quando estivesse triste, uma mãe que fizesse comida gostosa, igual essas ceias de Natal que ele só vê na televisão!
Ele acreditava em Deus, rezava todas as noites antes de dormir. Descobriu que rezar ajudava a pegar no sono. Quem o ensinou a rezar foi uma velha que distribuía cobertores aos mais necessitados. A paróquia a que ela pertencia fazia sempre trabalhos comunitários. Um dia, ela sentou ao lado daquele menino e perguntou-lhe se sabia rezar. Ele balançou a cabeça, envergonhado de sua ignorância, mas a velha foi muito gentil. Juntou-lhe as mãos e pediu-lhe para repetir: “Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador, se a ti me confiou a piedade divina, sempre me reges, me guardes, me governes, me ilumines, amém.” A senhora ainda o ensinou a rezar o Pai-Nosso e a Ave-maria. Disse-lhe que crer em Deus e seguir o Evangelho também era um ato de coragem, mas ele tinha tanto medo…
Ele sempre rezava quando estava apavorado, com fome e sozinho. Ele tinha medo do escuro, por isso dormia perto do poste de luz. Quando faltava energia elétrica, tinha medo de ser agredido pelos meninos mais velhos e rezava para que nada de ruim lhe acontecesse. Não sabia se Deus poderia o escutar, ele era tão pequeno nessa cidade tão grande, tão cheia de gente, que o barulho deveria ser ensurdecedor. Será que Deus poderia ouvir sua prece? Não era culpa de Deus, ninguém poderia cuidar do mundo inteiro. Se a cidade em que morava, nem todos poderiam ser ouvidos, imagina nesse mundo enorme!
Nem sabia quão grande poderia ser o mundo, não havia estudado para sabê-lo, mas quando assistia à televisão no Bar do Seu Zé, sempre se referiam ao nosso mundo como algo colossal e que o universo em que estamos seria infinito. Não entendia bem essa ideia de infinito, como poderia existir algo que nunca acaba? Deus tinha mesmo muita coisa com o que se preocupar e não deveria ter tempo para cuidar de um menino de rua encardido e magro que passava as noites num pedaço sujo de papelão. Não tinha raiva de Deus, mas tinha fé que, um dia, Ele ouviria a sua voz, entre tantas outras que pedem, todos os dias, uma sorte melhor.
O Seu Zé fechou o bar cedo, pois comemoraria o Natal com a família. Todos rumavam para suas casas com pacotes de presentes coloridos e ele ali, sozinho naquela noite tão bonita. A velha que lhe ensinou a rezar disse que, no Natal, Jesus nasceu para salvar os homens. Ele era o Messias, mas escolheu ser filho de um marceneiro. A mãe de Jesus, Maria, era uma mulher pura que cedeu o corpo para o Espírito Santo fazer-se vivo dentro dela. Quando Jesus veio ao mundo, não houve festas, o Salvador nasceu numa estrebaria e sua mãe fez-lhe uma manjedoura de berço.
Jesus veio pelos pobres. Por isso que, mesmo sendo um menino de rua, confiava em Deus. A velha disse que Jesus uma vez falara: “deixai virem a mim as criancinhas, pois delas é o reino dos Céus”. Será que ele teria, também, um lugar nesse paraíso prometido? Tentava não fazer maldades, cumprir a lei divina, ainda que fosse muito difícil. Seria mais fácil enganar a fome usando drogas, mas, se assim o fizesse, estaria indo contra o que dizia a Bíblia. “O nosso corpo é o templo do senhor”. A velha disse para ele: “não vá usar desses venenos das ruas, eles o afastam de Deus”.
Ela disse, também, coisas lindas sobre Maria, José e os apóstolos de Jesus. Eles não tiveram medo de seguir a lei do Nosso Pai, o Evangelho de Nosso Senhor. Por isso, ele também tinha de ser forte. “Não tenha medo de seguir o que diz o Santo Evangelho.” A velha leu para ele trechos da Bíblia que ele não compreendeu muito bem, mas ela disse que não havia problema, que nem mesmo os muitos letrados entediam completamente a Palavra do Senhor.
A velha era uma senhora tão boa. No Natal passado, a idosa trouxe-lhe uma marmita com peru, arroz à grega e todas estas comidas chiques que ele jamais havia provado. Comprou-lhe até um presente: uma bola que, na mesma noite, foi roubada pelos meninos mais velhos. Ele tentou lutar, mas recebeu vários chutes e socos, restou-lhe tão só uma mágoa profunda, o lábio partido e um olho roxo. No inverno seguinte, a velha não foi distribuir cobertores, nem sopa e nem neste Natal apareceu. Ele ficou triste por ter perdido esta grande amiga. Rezou para que nada de mal lhe tivesse acontecido, que só estivesse fatigada de fazer o bem. Mas o mundo ficou um tanto mais triste para ele.
Sentou-se na sua folha de papelão, olhou para as janelas dos apartamentos em que os vidros refletiam as luzes das árvores de Natal. Desejou com todo afinco ser um menino de verdade. Lembrou-se, novamente, do que lhe disse a boa senhora: “Não tenha medo de seguir o que diz o Santo Evangelho.” Adormeceu sobre sua única propriedade, uma simples folha de papelão. Sem um carinho ou afago, sem presentes e com uma fome enorme, rezou e adormeceu.
Quando despertou, estava numa cama quentinha num quarto de verdade. Havia brinquedos, lençol, travesseiro, tudo que um menino de sua idade deveria ter. Estava vestido até com um pijama limpinho. Correu para a sala, onde pessoas a quem nunca havia visto na vida abraçavam-se e festejavam em volta de uma mesa repleta de comida. Havia peru, salpicão e outras comidas que sequer sabia que existia. Havia outras crianças e uma árvore de Natal repleta de presentes.
Ele só poderia estar sonhando. Mas, se era um sonho, ele não queria nunca mais acordar. Quando o perceberam, os adultos vieram em sua direção. Uma moça bonita se apresentou e disse-lhe ser neta da senhora que o conheceu na rua. A velha havia falecido, mas seu último desejo era que a família adotasse o pequeno menino de rua que vivia frente ao Edifício Embassador, conhecido pelo nome de Minduím. Ela os havia contado tudo sobre ele antes de morrer no início daquela semana.
Por ser Natal, queriam dar-lhe a primeira festa de Natal de sua vida. Por isso, pegaram-no frente ao Edifício, ainda dormindo, para a surpresa ser ainda maior. Agora viveria ali naquela casa com eles, seria filho deles, membro da extensa família Moreira. A moça bonita perguntou se ele aceitava. Ele soltou um grito: “Mas é claro que sim!” A moça bonita o abraçou e chorou de felicidade. “Mas tem uma coisa”, ele disse um tanto envergonhado. A moça bonita fitou-lhe os olhos e perguntou: “sim?”. Ele respondeu cabisbaixo: “eu não queria ser chamado de Minduím”. Ela riu e perguntou como ele queria ser chamado. Pois é claro que ele poderia escolher o nome por qual seria chamado por todos. Ele disse: “um nome de menino de verdade?” E ela respondeu: “e por que não?” Ele pensou um pouco e perguntou como se chamava a senhora que o havia ensinado a rezar. A moça bonita respondeu: “Joana”. “Então, eu escolho ser chamado de João”. A moça disse então que o significado do nome João é “presente de Deus” o que ele seria para aquela família.
Todos ficaram comovidos com o gesto do menino e chamaram-no para sentar-se à mesa. Depois da festa, na hora de dormir, o menino ajoelhou-se e agradeceu a Deus por ter ouvido suas orações e que não sabia como agradecer aquele presente de Natal maravilhoso que recebera. Realmente, Nosso Pai não falha àqueles que têm coragem de seguir as suas palavras, o santo Evangelho. João, um menino de verdade, dormiu feliz em sua cama fofinha, pois sabia que, pela manhã, poderia abrir os presentes que o aguardavam aos pés da árvore de Natal.

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A carta

Giordana Bonifácio

Olá,

Se você está lendo isto, provavelmente fez tudo errado no passado. Casou-se, teve filhos, mas deu mais importância aos lucros e dividendos. Tudo isto, para dar uma vida confortável a quem “amava”. Amava mesmo? Por que então, viveu pensando exageradamente no futuro e esqueceu-se de preocupar-se com o presente? Fez-se escravo do dinheiro, não guardou um tanto de seu tempo para família e amigos, nem mesmo, para si próprio.  Não fez tudo que deveria ter feito, na verdade, não fez nada do que havia planejado. Ao invés disto, fez tudo que havia dito que não faria. Você que, quando jovem, criticava tanto seus pais, agiu da mesma forma que eles. Percebeu que eles estavam certos tarde demais, não é amigão? Mas não pode sequer dizer isto a eles. Seus pais já se foram e você ainda lamenta não ter ido visitá-los quando poderia ter feito… Mas aquele assunto do trabalho era tão importante, né?

Pois é, seu filho deve já estar adolescente, um menino rebelde que não escuta você. Assim, bem semelhante ao que você foi na idade dele? Engraçado que ele esteja cometendo os seus mesmos erros, não é? Como fizeram um dia os seus pais, tentou avisar a seu filho, mas ele não deu muita bola para o que disse… Isso faz você recordar-se de alguém? Olhe no espelho, para identificar o culpado. Isso mesmo amigo, ele só está repetindo os seus caminhos. Você só queria que ele não cometesse os seus erros… Difícil convencê-lo disto. Mas como você, seu filho terá de aprender com a vida. Não há como evitar agora e não houve também no passado. Sabe bem disto. Quando criança ele sempre foi tão doce. “Um menino de ouro” diziam os vizinhos. É, o menino cresceu, já está quase um homem. E tudo o que você queria era ter sido um pai mais presente para ele. Mas o tempo passou e você não viu. “Agora não há como chorar pelo leite derramado!” Vamos, sem lamentações, amigo!

É tempo de tentar se reencontrar. Você perdeu a direção da sua vida e da sua família. Seu mundo virou de cabaça para baixo, não foi? Você pensava que era só deixar todo mundo bem financeiramente, que, desta forma, tudo seguiria os planos que há muito tempo atrás você traçou. Sei bem o que é isso. As coisas não são assim. Havia um tanto de “coisas” que você deveria ter feito, mas eu mesmo também não fiz, por isso, acredite, descobri que estas “coisas” também são importantes. Você não tinha tempo para seu filho, não tinha tempo para suas histórias, para suas brincadeiras, para seu sorriso de bom dia. Não lia para ele no quarto. Foi assim que foi perdendo aquele que era seu tesouro mais importante. De que lhe valem seus dólares na suíça, seu jatinho, seu patrimônio invejável se nada disto vai salvar seu filho?

Eu também fui muito bem sucedido no trabalho, tinha dinheiro, poderia comprar o que quisesse, menos o amor da minha família. Meu filho mais novo morreu vítima de uma overdose. Eu sequer suspeitava que ele usava drogas. Ele já estava no fundo do poço e eu não percebi. O irmão dele nunca me perdoou. Meu filho mais velho, sempre esperto, inteligente, disse que não repetiria jamais meus erros, que não seria nunca um pai ausente como eu no passado fui.

E agora está ele aqui, lendo a carta que deixei para meu filho ler quando enfrentasse o mesmo problema do qual um dia fui vítima. Meu neto deve estar muito doente, vítima do vício destruidor das drogas. Não sei como ele entrou nesse mundo, mas agora o importante é sair. Você tem de ser forte. Ser o pai que não foi no passado, ser o alicerce que faltou a sua família. É sua culpa. Não se esqueça disto. Seu filho procurou as drogas devido a um vazio que você não soube preencher. É agora o momento, de recuperar o tempo perdido. Não o abandone em uma clínica de reabilitação. É necessário fazê-lo sentir-se bem e amado. Tão querido que a droga não tenha mais de ser a muleta sobre a qual ele se escorava. Vencer a droga é difícil. Não vá pensando que será rapidinho. É demorado, trabalhoso, haverá muitas recaídas e serão inúmeras as vezes que o trabalho terá de ser realizado todo do início. Mas você não deverá esmorecer. O seu filho estará muito frágil. É hora de ser o paizão, amigo, confidente, motivador. Não o sufoque com um amor falso. Seja sempre verdadeiro com seu filho. Ele sentirá em seus olhos a veracidade de suas palavras.

Porém, não se esqueça de seus outros filhos. Quando tudo estiver desmoronando, lembre-se que sobre eles a casa também vai cair. É um trabalho hercúleo, mas alguém terá de fazê-lo. E quem terá de assumi-lo, meu amigo, é você! É tempo de esquecer um pouco os dólares, as propriedades, o jatinho, pois, você trocá-los-ia todos pela saúde de seu filho. Não é verdade? Os negócios não devem mais ser o ponto crucial de sua existência. É tempo de dar o lugar certo de cada coisa em sua vida. Sua família em primeiro, sempre! Não deixe mais de estar com quem ama, para estar numa reunião. Você nunca mais vai recuperar estes momentos. Se eu tivesse aprendido a tempo, não estaria aqui relatando para você o que fazer.

Você não tinha tempo para me escutar. Quais lições daria um homem idoso, cheio de falhas, que perdeu um filho para as drogas por pura negligência? Fui indiferente a minha família, perdi tudo o que mais presava, pois pensava, como você, que daria aos meus filhos o melhor futuro que poderiam desejar. Mas como dar um futuro sem se preocupar com o presente? Foi assim que perdi meus dois filhos. Um para as drogas e o outro para o mundo. Um não tenho mais como recuperar, mas o outro ainda posso tentar. Mesmo que não esteja mais vivo, para lhe abraçar e pedir seu perdão, gostaria de dizer o quanto amo você. Quero ser seu arrimo nesta luta tão difícil que está enfrentando.

Se pudesse dizer o quanto eu sinto por ter errado tanto. Não teria palavras para falar toda minha dor. Não estarei presente em matéria quando estiver lendo esta carta. Mas espero que lhe sirva de incentivo. Nada está perdido ainda. Sei que conseguirá. Você era o mais inteligente. Jonas, o mais divertido, brincalhão e extrovertido. Não respeitei suas diferenças, não deveria ter dito a Jonas que ele tinha de ser como você: estudioso, honesto e esforçado. Nós erramos, não foi? Eu tentava doar-me para Jonas e, a você, não dei a devida atenção. É que sempre pude contar com seu sucesso. Você nunca saiu dos trilhos. Fui indulgente com meu filho mais velho, pois só pensava em recuperar o mais novo. Amigo, peço que me desculpe e também que se perdoe. Não imaginávamos que tentando acertar estávamos errando.

Leve esta carta ao meu neto, leia-a para ele. Estaremos os três nesta luta. Eu somente em espírito. Mas acredite: eu estarei lá. Espero que meus tortos conselhos ainda lhe sejam válidos. Espero que cheguem à boa hora. Levando um tanto de consolo para um coração em frangalhos. Obrigado por ter vindo me procurar. Temia que não o fizesse nunca. Mas o desespero destrói o nosso orgulho. Buscamos auxílio em toda parte. Sei bem o que é isso. Queremos ser fortes, mas nunca nos sentimos tão frágeis. Deixei esta carta não como uma previsão, mas como um testamento a ser aberto no momento mais oportuno. Dessa vez, não lhe deixo os meus bens, pois, para mim, já nada valem, mas meu amor. O sentimento, que não foi repartido no inventário, receba inteiro nessa carta. Estou com você, filhão. Vamos sair desta juntos. Receba meu abraço, que faltou quando deveria existir, e que me sobra quando deveria faltar. Esqueçamos as palavras grosseiras, as acusações e toda mágoa. Se tenho ainda uma chance de consertar o seu coração, que deixei quebrado, espero que tenha alcançado meu intento. No fim seremos vitoriosos. Jonas estará também ao meu lado seremos uma família, de novo; ou, talvez, como nunca fomos; ou como deveríamos ter sido. Quem sabe? Espero que minhas palavras tenham servido para alguma coisa. Se foram suficientes para reconciliarmo-nos todos, já me será de todo válida.

Beijos,

Papai.

-“…E após aparar as lágrimas com as costas da mão, depois de ler para meu filho a última carta do avô, recebi o melhor presente do mundo: um abraço. Mas não um abraço qualquer: o abraço do meu filho que está vencendo, um dia de cada vez, a luta contra as drogas. Ele ainda me disse que eu tinha um coração de gelatina, mas que eu era o melhor pai que ele poderia desejar.” Viu pai? Estou aprendendo!

O homem deixou flores nos túmulos do pai e do irmão e, virando-se para a família, disse:

-Ainda é cedo, vamos tomar sorvete?

Os meninos responderam um sim em uníssono e seguiram todos unidos para a sorveteria.Uma família feliz para todo sempre.

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