Ouroboros

Porque, enfim, tudo passa;
Não sabe o Tempo ter firmeza em nada;
E a nossa vida escassa
Foge tão apressada,
Que quando se começa é acabada.
Luís Vaz de Camões – Ode

Ouroboros

Giordana Bonifácio

Ah, como me amedronta o tempo. O tique-taque é a sentença de vida e morte que se prolonga em minha tão curta existência. Sei de coisas que até Deus duvida. Mas não conto para ninguém. É meu segredo, faz parte do mistério de ser eu. Ainda que nem entenda ao certo o que eu seja. Talvez eu tenha poderes mágicos, num abracadabra posso resolver os maiores enigmas do universo. Mas, as linhas escorrem com frases sem nexo por minha mão. Sonhos desfeitos num quadro de Dali. Sou artista, dizem alguns, outros conservam um leve tom de ironia nos lábios. “Arte é trabalho de doido!” Ainda bem que nunca tive muito juízo mesmo. Contava estrelas no céu, mesmo que sob a ameaça de nascerem verrugas em meus dedos. Vejo, sob meus pés, a terra chamar por mim. A natureza clama por meu corpo. Quando poderei finalmente ser parte da Terra de novo? Não é assim: “do pó viestes ao pó retornarás”? Não tenho tempo para esperar por mim. Sou mais rápida do que meu corpo, sou indecifrável, mas o plano é este. Esconder o essencial. O importante não está ao alcance dos olhos. “Vê melhor quem vê com o coração.” Mas a maioria das pessoas nunca enxergou o âmago das coisas. A justiça não é cega, mas os homens o são. Deveria ser o contrário, mas o mundo inteiro está pelo avesso. Até mesmo o relógio, teimoso, corre para mim no sentido anti-horário. Correm os segundos como um rio que segue no sentido da sua nascente. A foz secou. Nada mais deságua em mim. Enquanto isso, torrentes de lágrimas, banham as minhas faces de uma salgada tristeza. Prometem-me os sonhos realidades fantasiosas, levam-me sobre altas montanhas, cruzam imensos oceanos, olhos absortos numa linda ilusão. Quero gritar, mas as palavras faltam-me. “Onde está, ó morte a tua vitória?” Soam os sinos, dobram o luto da morte que não ocorreu. Fui eu? A culpa é minha? Quem assinou o trato com Mefístoles? Minha vida é um trem sem destino, estações passam pelas janelas somente para me aprazerem os olhos. Quando terá fim a viagem insólita da vida? Curvem-se diante de Deus, para que sua pena seja amena. Minha sentença está gravada na pedra. Não vou esperar o mundo acabar.
Três vezes tenho direito de negar o que disse, três vezes antes do galo cantar. Beija-me o rosto o traidor antes de entregar-me aos centuriões. A história esconde-se entre as ruínas do passado. A versão que temos nunca será fiel completamente ao que realmente aconteceu. Os donos da verdade fazem da mentira o seu governo. Não temos escolha, pois fomos ludibriados por lindas campanhas publicitárias que cegaram nossos olhos para a realidade. “Quem poderá nos salvar?” Nem mesmo Chapolin é dotado de tal poder. Sou uma criança grande tentando entrar no jogo dos adultos. Mas não permitem que eu jogue com eles. Dizem que não posso jogar porque sou “café-com-leite”. Deveria crescer e abandonar a criança que vive em mim? Mas não disse Jesus na Bíblia: “Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus.” Serei eu uma pobre alma temente, sozinha, num mundo de descrentes? Sou o cordeiro sob a pele de lobo?” Sabe o mistério da vida? Vou sibilá-lo ao vento. Tente pescá-lo na brisa da tarde. Os olhos dizem muito, mas não tudo. Primeiro o verbo se fez carne, a palavra precede ao homem. Depois aprendemos também a falar. Mas nossas palavras, no mundo, nada valem. A boa-fé é um conceito já há muito esquecido. “Só vale o que está escrito.” Não sei onde li isso. Mas deve estar em algum lugar. Tempos difíceis estes, em que a experiência naufraga sob a fortaleza da juventude. No final da vida, já nada mais valemos. Tornamo-nos frágeis, voltamos a infância, como um Benjamin Button, do nosso relógio anti-horário. Fui um menino-velho e serei um velho-menino. Não temos como lutar contra a ordem das coisas. Há uma ordem a seguir mesmo na aparente desordem do mundo. Não nos é lícito suprimir etapas. Ainda que a idade não responda por nossa sabedoria. “Eu não sabia que você sabia que o sabiá sabia assobiar”. Quem disse que é simples saber, quando se sabe que não se sabe nada? “Só sei que nada sei”. E por muito, muito tempo, eu nada saberei. Segue, incontinente, o relógio das horas avessas. Vamos para o fim que também é um começo, um ouroboros que designa a eternidade da vida humana.
O relógio é um dragão que devora a própria cauda. Não temo o fim, pois não se trata de um ponto, mas de uma vírgula. Clarice iniciou assim sua aprendizagem que é ainda um livro de prazeres. A gente aprende que a vida não é uma sequência lógica de acontecimentos. Coisa estranha, né? Eu levo pesados grilhões comigo, pois querem podar-me a liberdade, prender-me para que não possa concluir minha educação do mundo. A vida resume-se a um ponto ínfimo num espaço vazio e cheio de energia. A vida é o mais complexo oximoro existente. Quem disse que a vida é racional? “Homem de pouca fé! Por que duvidaste?” Caminha nossa esperanças sobre as águas turbulentas do mar. A morte é um Paraíso que aguarda aqueles que seguiram os ensinamentos de Deus. Move-se a montanha para encontrar-se com Maomé. Há 100 virgens à espera dos Muçulmanos. As propostas do pós-morte são tentadoras, mas ninguém quer morrer. Por que será? Uma questão preocupa-me: quando a vida tornou-se tão obscura para os homens da ciência? Alma é um conceito por demais abstrato para ser entendido pela razão fria da experiência. Nem tudo pode ser comprovado por meio de fórmulas. Não vive o homem só de pão, nem só de palavras, nem só de arte, nem só de cultura, nem só de lazer, nem só de… tantas infinitas coisas que fazem o ser humano desejar além de seus limites, de suas posses, de sua vida. Depois, fazem um trato Fáustico para suprir as necessidades que lhe escapam ao poder. Os meus sinceros agradecimentos ao Ser que preparou esta vida para nós. Deus é? Nós somos? Quem sois? Nós fomos? Quem foi conosco? “Mistérios da Meia-Noite/Que voam longe/Que você nunca/Não sabe nunca/Se vão se ficam/Quem vai quem foi…” Não poderia ficar mais um pouco? Até subirem os letreiros? Para o Oscar de nossas vidas, nós somos sempre escolhidos os melhores atores.
O infinito é o número maior que qualquer outro. É a eternidade representada pela Divindade, a perfeição inacessível ao homem. Sou o resultado de uma ordem superior a todas as coisas. Pobre homem que se julga mais que o mundo, contudo é tão só simples produto dele. A vida morre e renova-se. “Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma.” Chronos ainda domina o universo mediante um mecanismo mecânico que se prende aos pulsos dos homens determinando-lhes a vida. “E Deus os pôs na expansão dos céus para iluminar a terra, E para governar o dia e a noite, e para fazer separação entre a luz e as trevas; e viu Deus que era bom.” Assim fez Deus o meu maior algoz. Essa presença abstrata que não vejo, mas sinto e conto-lhe como uma pena cujo juiz atribuiu-me a minha revelia. Caí de paraquedas num mundo insólito. Num imenso minúsculo grão de areia no universo. É-me necessário mais que os oitenta dias de Júlio Verne para conhecê-lo, mas me custariam séculos de vida, tentar cruzar as fronteiras do universo. O homem é, ainda que não queira ser. Um homem não é tão só um homem. Já diria John Donne: “Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.” Somos humanos e nossa humanidade nos une. A morte de um bebê numa fuga desesperada pelo mar da Turquia teve uma proporção tamanha que comoveu todo o globo num só sentimento. A morte traz luz para a vida, e a vida é um mistério ainda pendente de resolução. Os sinos dobram infinitamente, sem sossego, num badalar incessante, a vida termina onde começa, a morte iguala vassalos e suseranos. O mundo vive novamente a era das trevas. O tempo surgiu de uma terrível explosão. A ciência faz menos belos os mitos. Prefiro a versão de que somos engolidos por Chronos, cujo apetite é infinito. Tamanha é a fome do tempo que ele auto-devora-se como o dragão que come seu próprio rabo. O tempo alimenta-se de si, como um motor que produz seu próprio combustível. O fim não é um término como o início não é o começo. Portanto, quando terminarem meus dias na terra, não terá concluído-se a história da minha existência, pois a vida é infinita, ainda que, para nosso entendimento, seja tão efêmera.

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