Arquivo do mês: outubro 2015

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“A falta de amor é a maior de todas as pobrezas.”
Madre Teresa de Calcutá

“Homo homini lupus”

Giordana Bonifácio

Amanhecia o dia, o velho pegava sua pesada carroça e lançava-se às ruas em busca de papelão e outros recicláveis que garantiriam a sua sobrevivência. Seguia-o de perto um cachorro vira-lata que recolhera nas ruas e que, desde então, nunca abandonou seu salvador. O que o velho ganhava pelo quilo de papelão era pouco, mas, ainda assim, sustentava a si próprio e ao cão. Enquanto empurrava a carroça o vira-lata saltitava em torno de seu dono. Feliz? Como não? Tinha ossos a enterrar, um teto de lona sob o qual dormir e ainda uma mão para lhe afagar a cabeça, todos os dias. Já o homem, é mais difícil de saber, pois este tinha só ossos a roer, um teto de lona sob o qual dormir e tão somente a companhia de um cão a quem afagava a cabeça todos os dias.
O homem já tivera algo que um dia pudera chamar de lar. Lembrava-se de ter tido uma infância feliz. Claro que sua família não era uma das mais abastadas, mas tinham o suficiente para uma vida digna. Os problemas vieram na adolescência, quando perdera o pai para o álcool e a mãe para um câncer que a levou para os braços de Deus. Ele ficou sozinho, sem lar, sem esperança, com a vida e mais nada. Começou a juntar papelão como única fonte de subsistência. Teve de optar entre comer ou estudar, a escolha foi realizada a partir dos apelos inevitáveis do corpo. A fome é dominadora. A sobrevivência impele os corpos. Na verdade, a vida não nos permite o mínimo grau de indecisão. A vida pulsa no peito, impondo sua presença, designando o caminho dos homens. O que determina o nosso destino é uma barriga vazia.
O cão chamava-se Lobo, mas pouco tinha de semelhante a seu parente da família dos canídeos. Era um animal magro, com pelagem encardida em que se criavam sedentas pulgas. O Lobo era amigo do homem, mas o homem não tinha amigos homens. Os homo sapiens são seres ardilosos demais, o velho nunca conseguiu confiar plenamente neles. Quando se viu sozinho, sem tem por quem chamar, as poucas economias que a falecida mãe lhe havia deixado foram roubadas por advogados oportunistas, que não se apiedaram nem do seu luto, nem da sua dor. Foi enganado e do dinheiro que a mãe o deixara não vira sequer a cor.
O velho desamassou algumas notas que tinha guardado no bolso. Era o suficiente para um pão com mortadela e um copo de leite com café. Seria o café da manhã e o almoço daquele dia. Chamou por Lobo que cheirava um rato morto na esquina. Ao ouvir o assobio estridente, o cão veio saltitante ao encontro de seu dono. “Vamos comer, meu amigo?” Talvez Lobo entendesse o que dizia o homem, pois lhe lambia a mão, agradecendo o pouco que lhe era dado. Contudo, só era pouco, pois o homem também não tinha muito. “Pobre homem”, diria o cão se soubesse falar, mas seus latidos eram mais reconfortantes que as palavras mentirosas regurgitadas pelos homens.
Foram à padaria, o velho humildemente pediu o desjejum ao atendente. Tinha vergonha de suas roupas, das unhas sujas e roídas, dos chinelos remendados e do chapéu de palha que achara no lixo. Quando fora receber o lanche, com certa timidez, o velho demonstrou algum asseio: quis lavar as mãos. O atendente indicou onde ficava o banheiro. O homem dirigiu-se ao WC onde lavou as mãos e o rosto. Enquanto isso, Lobo estava sentado à porta da padaria, esperando com paciência as ordens do dono.
O velho saiu do banheiro, pagou sanduíche e o copo de leite com café e sentou-se no meio fio sob os latidos felizes do cão. Lobo adivinhava o regalo que receberia. O velho dividiu ao meio aquele pão dormido com uma fina fatia de mortadela, como um Jesus que divide o pão na Santa Ceia. Porém, faltava ao homem os poderes do filho do Homem, não lhe havia a possibilidade de multiplicar aquele pedaço de pão velho, nem como curar a visão já tão fraca, o corpo dolorido, que não mais trabalhava com tanto afinco, ou toda a série de mazelas que faziam parte do inventário que a vida o deixou.
O homem partiu o pão e deu a seu discípulo. Disse: “tome. É o que temos para hoje”. Lobo devorou com gosto sua parte, sem qualquer cerimônia. O velho comeu pensativo o naco de pão, saboreando com gosto o leite com café. Era a única regalia que gozava: o leite esquentando o corpo, o pão nutrindo os músculos e a mente viajando até tempos idos de uma infância feliz. Os olhos marejavam saudosos. A vida pode ser boa também. Mas isto foi há muito tempo. Hoje, deveria empurrar sua carroça, alimentar seu cão e viver. Sim, viver por viver, sem esperar muito do mundo.
Lobo lambeu a mão do dono. O velho levantou-se: “vamos.” Ainda que não soubesse para onde iria. Não seguia trajetos, o mundo roubou-lhe os caminhos cedo demais. Sentiu vontade de chorar. Mas de que adiantaria? Ninguém se importa mesmo. Sentia-se como um pequeno Davi lutando contra um gigantesco Golias. Mas no caso do velho, não poderia contar com milagres. Talvez, Deus houvesse o esquecido nesse mundo. É claro que seria bem mais fácil morrer, mas quem cuidaria de Lobo?
Enquanto isso a vida seguia a passos trôpegos, cambaleantes, como um bêbado que não se firma bem nas pernas. Pensando nisso, lembrou-se das últimas palavras do pai antes de sair de casa sabe-se lá para onde: “Não deixe a sua mãe e nem se meta a beber. É um veneno!” Depois disso, partiu e nunca mais voltou. A mãe sofreu, ele fingia que não doía. Mas só fingia, pois, na verdade, sentia muita falta do pai. Antes de se entregar ao álcool, ele costumava ser um homem muito bom. A mãe sempre fora uma mulher corajosa, enfrentou as circunstâncias adversas com força e honra. Mas não pode vencer a doença que lhe consumiu vorazmente. Uma lágrima caiu da face engelhada do homem. O cão latiu. Um caminho de dor se abriu no rosto marcado por rugas profundas. Chorou até a mágoa sair do peito. Sentou-se no chão, o cão pulou sobre o colo do velho. Lobo tentava consolar o amigo. Ainda que não o conseguisse.
Foi quando uma menina, aproveitando-se do descuido da mãe entretida com as vitrines de uma loja, aproximou-se do velho. Ofereceu ao homem uma flor que arrancara da calçada. Um dente de leão que brotara sem cuidado, uma flor que nascera ao sabor da brisa, fora das cercas de um jardim. O homem, espantado, aceitou o presente inusitado. A menininha, achando ainda insuficiente o seu gesto para amparar o vovô choroso, beijou-lhe a face escurecida pelo sol. O velho sorriu do carinho inusitado. Lobo latiu. A menina falou uma das poucas palavras de seu repertório, tendo em vista a sua pouca idade. “Au-au.” Apontou para Lobo que já lhe lambia a mão gordinha.
Foi quando a mãe lembrou-se da filha. Afastou-a do homem com zelo excessivo. Temia aquele estranho ameaçador perto da inocência da filha pequena. Levou a menina olhando para trás a fim de evitar alguma ação suspeita daquele homem terrível. O velho restou sentado apreciando o presente que ganhara. Sorriu um sorriso vago e entristecido. Colocou a flor atrás da orelha, chamou por Lobo e continuou a sua peregrinação. Sua caminhada pelas ruas de uma cidade que às vezes poderia ser muito hostil. Outras vezes, ela poderia presentear-lhe com uma flor amarela e selvagem, mais ainda assim, bela e delicada.
Lobo seguia saltitando em torno da carroça. Ascendera-se no corpo do homem algo que não saberia explicar ainda que o pudesse. A menina sorriu-lhe com uma ternura que não pensava ser sequer merecedor. Lobo latia, pois sabia que o dono estava feliz. O homem empurrava o único bem que possuía na vida. Na orelha, levava o seu presente, sem temer parecer ridículo. Na verdade, algo em si, nascera e brotara como a flor nos vãos da calçada. Mas ele não saberia como explicar. Todavia, ninguém viria a questionar-lhe, mesmo, a razão desta recém-conquistada felicidade. As ruas abriam-se menos ameaçadoras que o comum. À noite, o homem colocaria a flor entre as páginas de sua velha Bíblia.

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Ouroboros

Porque, enfim, tudo passa;
Não sabe o Tempo ter firmeza em nada;
E a nossa vida escassa
Foge tão apressada,
Que quando se começa é acabada.
Luís Vaz de Camões – Ode

Ouroboros

Giordana Bonifácio

Ah, como me amedronta o tempo. O tique-taque é a sentença de vida e morte que se prolonga em minha tão curta existência. Sei de coisas que até Deus duvida. Mas não conto para ninguém. É meu segredo, faz parte do mistério de ser eu. Ainda que nem entenda ao certo o que eu seja. Talvez eu tenha poderes mágicos, num abracadabra posso resolver os maiores enigmas do universo. Mas, as linhas escorrem com frases sem nexo por minha mão. Sonhos desfeitos num quadro de Dali. Sou artista, dizem alguns, outros conservam um leve tom de ironia nos lábios. “Arte é trabalho de doido!” Ainda bem que nunca tive muito juízo mesmo. Contava estrelas no céu, mesmo que sob a ameaça de nascerem verrugas em meus dedos. Vejo, sob meus pés, a terra chamar por mim. A natureza clama por meu corpo. Quando poderei finalmente ser parte da Terra de novo? Não é assim: “do pó viestes ao pó retornarás”? Não tenho tempo para esperar por mim. Sou mais rápida do que meu corpo, sou indecifrável, mas o plano é este. Esconder o essencial. O importante não está ao alcance dos olhos. “Vê melhor quem vê com o coração.” Mas a maioria das pessoas nunca enxergou o âmago das coisas. A justiça não é cega, mas os homens o são. Deveria ser o contrário, mas o mundo inteiro está pelo avesso. Até mesmo o relógio, teimoso, corre para mim no sentido anti-horário. Correm os segundos como um rio que segue no sentido da sua nascente. A foz secou. Nada mais deságua em mim. Enquanto isso, torrentes de lágrimas, banham as minhas faces de uma salgada tristeza. Prometem-me os sonhos realidades fantasiosas, levam-me sobre altas montanhas, cruzam imensos oceanos, olhos absortos numa linda ilusão. Quero gritar, mas as palavras faltam-me. “Onde está, ó morte a tua vitória?” Soam os sinos, dobram o luto da morte que não ocorreu. Fui eu? A culpa é minha? Quem assinou o trato com Mefístoles? Minha vida é um trem sem destino, estações passam pelas janelas somente para me aprazerem os olhos. Quando terá fim a viagem insólita da vida? Curvem-se diante de Deus, para que sua pena seja amena. Minha sentença está gravada na pedra. Não vou esperar o mundo acabar.
Três vezes tenho direito de negar o que disse, três vezes antes do galo cantar. Beija-me o rosto o traidor antes de entregar-me aos centuriões. A história esconde-se entre as ruínas do passado. A versão que temos nunca será fiel completamente ao que realmente aconteceu. Os donos da verdade fazem da mentira o seu governo. Não temos escolha, pois fomos ludibriados por lindas campanhas publicitárias que cegaram nossos olhos para a realidade. “Quem poderá nos salvar?” Nem mesmo Chapolin é dotado de tal poder. Sou uma criança grande tentando entrar no jogo dos adultos. Mas não permitem que eu jogue com eles. Dizem que não posso jogar porque sou “café-com-leite”. Deveria crescer e abandonar a criança que vive em mim? Mas não disse Jesus na Bíblia: “Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus.” Serei eu uma pobre alma temente, sozinha, num mundo de descrentes? Sou o cordeiro sob a pele de lobo?” Sabe o mistério da vida? Vou sibilá-lo ao vento. Tente pescá-lo na brisa da tarde. Os olhos dizem muito, mas não tudo. Primeiro o verbo se fez carne, a palavra precede ao homem. Depois aprendemos também a falar. Mas nossas palavras, no mundo, nada valem. A boa-fé é um conceito já há muito esquecido. “Só vale o que está escrito.” Não sei onde li isso. Mas deve estar em algum lugar. Tempos difíceis estes, em que a experiência naufraga sob a fortaleza da juventude. No final da vida, já nada mais valemos. Tornamo-nos frágeis, voltamos a infância, como um Benjamin Button, do nosso relógio anti-horário. Fui um menino-velho e serei um velho-menino. Não temos como lutar contra a ordem das coisas. Há uma ordem a seguir mesmo na aparente desordem do mundo. Não nos é lícito suprimir etapas. Ainda que a idade não responda por nossa sabedoria. “Eu não sabia que você sabia que o sabiá sabia assobiar”. Quem disse que é simples saber, quando se sabe que não se sabe nada? “Só sei que nada sei”. E por muito, muito tempo, eu nada saberei. Segue, incontinente, o relógio das horas avessas. Vamos para o fim que também é um começo, um ouroboros que designa a eternidade da vida humana.
O relógio é um dragão que devora a própria cauda. Não temo o fim, pois não se trata de um ponto, mas de uma vírgula. Clarice iniciou assim sua aprendizagem que é ainda um livro de prazeres. A gente aprende que a vida não é uma sequência lógica de acontecimentos. Coisa estranha, né? Eu levo pesados grilhões comigo, pois querem podar-me a liberdade, prender-me para que não possa concluir minha educação do mundo. A vida resume-se a um ponto ínfimo num espaço vazio e cheio de energia. A vida é o mais complexo oximoro existente. Quem disse que a vida é racional? “Homem de pouca fé! Por que duvidaste?” Caminha nossa esperanças sobre as águas turbulentas do mar. A morte é um Paraíso que aguarda aqueles que seguiram os ensinamentos de Deus. Move-se a montanha para encontrar-se com Maomé. Há 100 virgens à espera dos Muçulmanos. As propostas do pós-morte são tentadoras, mas ninguém quer morrer. Por que será? Uma questão preocupa-me: quando a vida tornou-se tão obscura para os homens da ciência? Alma é um conceito por demais abstrato para ser entendido pela razão fria da experiência. Nem tudo pode ser comprovado por meio de fórmulas. Não vive o homem só de pão, nem só de palavras, nem só de arte, nem só de cultura, nem só de lazer, nem só de… tantas infinitas coisas que fazem o ser humano desejar além de seus limites, de suas posses, de sua vida. Depois, fazem um trato Fáustico para suprir as necessidades que lhe escapam ao poder. Os meus sinceros agradecimentos ao Ser que preparou esta vida para nós. Deus é? Nós somos? Quem sois? Nós fomos? Quem foi conosco? “Mistérios da Meia-Noite/Que voam longe/Que você nunca/Não sabe nunca/Se vão se ficam/Quem vai quem foi…” Não poderia ficar mais um pouco? Até subirem os letreiros? Para o Oscar de nossas vidas, nós somos sempre escolhidos os melhores atores.
O infinito é o número maior que qualquer outro. É a eternidade representada pela Divindade, a perfeição inacessível ao homem. Sou o resultado de uma ordem superior a todas as coisas. Pobre homem que se julga mais que o mundo, contudo é tão só simples produto dele. A vida morre e renova-se. “Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma.” Chronos ainda domina o universo mediante um mecanismo mecânico que se prende aos pulsos dos homens determinando-lhes a vida. “E Deus os pôs na expansão dos céus para iluminar a terra, E para governar o dia e a noite, e para fazer separação entre a luz e as trevas; e viu Deus que era bom.” Assim fez Deus o meu maior algoz. Essa presença abstrata que não vejo, mas sinto e conto-lhe como uma pena cujo juiz atribuiu-me a minha revelia. Caí de paraquedas num mundo insólito. Num imenso minúsculo grão de areia no universo. É-me necessário mais que os oitenta dias de Júlio Verne para conhecê-lo, mas me custariam séculos de vida, tentar cruzar as fronteiras do universo. O homem é, ainda que não queira ser. Um homem não é tão só um homem. Já diria John Donne: “Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.” Somos humanos e nossa humanidade nos une. A morte de um bebê numa fuga desesperada pelo mar da Turquia teve uma proporção tamanha que comoveu todo o globo num só sentimento. A morte traz luz para a vida, e a vida é um mistério ainda pendente de resolução. Os sinos dobram infinitamente, sem sossego, num badalar incessante, a vida termina onde começa, a morte iguala vassalos e suseranos. O mundo vive novamente a era das trevas. O tempo surgiu de uma terrível explosão. A ciência faz menos belos os mitos. Prefiro a versão de que somos engolidos por Chronos, cujo apetite é infinito. Tamanha é a fome do tempo que ele auto-devora-se como o dragão que come seu próprio rabo. O tempo alimenta-se de si, como um motor que produz seu próprio combustível. O fim não é um término como o início não é o começo. Portanto, quando terminarem meus dias na terra, não terá concluído-se a história da minha existência, pois a vida é infinita, ainda que, para nosso entendimento, seja tão efêmera.

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