Arquivo do mês: setembro 2015

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“O que é característico da vida atual
não são a insegurança e a crueldade,
mas sim a inquietação e a pobreza.”
George Orwell

O preço dos tomates

Giordana Bonifácio

O menino que descia o morro pensava ser homem, mas era tão só um menino, nem barba tinha ainda. Saia de casa não para ir à escola aquela manhã. Pois o estudo abandonou havia dois anos. “Não tem futuro não, esse negócio de estudar”. Ganhava-se mais quando se fugia às regras do sistema. Era um garoto esguio e, a um primeiro olhar, dir-se-ia, fraco, talvez frágil. Mas, com uma arma na mão, estufava o peito cheio de coragem. “Aí, minha tia, não dá bobeira não, senão a arma aqui te apaga!” Quem diria que, há alguns anos atrás, convalescendo de asma crônica, acompanhado da mãe, sofria, por horas a fio, nas filas imensas de um hospital público. Agora tinha tudo do bom e do melhor, ainda que a mãe olhasse torto para ele. Não dizia nada, mas ela deixava clara no olhar a sua decepção. Queria que ele fosse doutor. Mas onde já se viu, pobre virar doutor? Filho de uma doméstica, sem estudos, que a muito custo tentava criar a família com um mísero salário mínimo. O pai ele nem chegou a conhecer. A mãe dizia que ele era marinheiro, fez o que quis e depois fugiu, sabe-se lá para onde. Grávida, foi expulsa de casa. O avô, pedreiro, era um homem muito severo, não suportara tamanha vergonha. E quando o menino nasceu, não houve visitas no hospital. A mãe chorou, não se sabe de tristeza ou de alegria. Apiedando-se da pobre mãe solteira, os funcionários do hospital doaram o enxoval do menino. “Só o crie com sabedoria!” Mas desde moleque ele sabia: “vou virar bandido.” Dizia quando a mãe tentava tomar-lhe a lição. Não se poderiam negar os esforços da mulher que, quando engravidou não passava de uma menina. Menina que se julgava mulher, mas os peitos ainda lhe afloravam tímidos sob as roupas. Há algum tempo juntara-se com um beberrão que lhe esbanjava o salário em bebidas. “Mas ele é um homem bom.“ Gemia com voz lamentosa, talvez o que gostaria de dizer era: “Tenho medo de ficar sozinha novamente.” Mas não dizia. Mas o garoto sabia, ah, se sabia! Tinha pena da mãe. Quando ganhasse bastante dinheiro, arrumaria a vida deles dois, assim ela poderia se livrar daquele traste. Já fora do morro, conferiu o revólver na cintura. O trabalho era no supermercado, hoje. Chegaria apontando a arma para o vigia e levaria todo o dinheiro dos caixas. “Moleza”.
A idosa que se dirigia para o supermercado levava mais que a metade de sua aposentadoria para fazer as compras do mês. A filha dizia: “mãe, é mais seguro usar cartão de crédito!” Contudo, a velha nunca se deu com senhas, lembrar de tantos números era-lhe um terror. Fazia tudo à moda antiga. Celulares? Smartphones? Computadores? Nenhum dos símbolos de consumo da sociedade atual lhe aprazia. Já lhe foi um custo aceitar aquela televisão fininha, com um controle cheio de botões dos quais só conhecia o de ligar e o de desligar. A filha até tentou ciceronear a mãe no fantástico mundo das invencionices tecnológicas, mas a idosa, uma professora aposentada, preferia seus livros de papel, sua vitrola em que escutava suas óperas em vinil e seu velho fogão seis bocas, no qual ela prepara até hoje todas as refeições da família. O restante, para ela, era puramente supérfluo. Já não era mais menina para se impressionar com coisas desse tipo. Sabia-se idosa, mas não fazia questão por isto. Afinal, o tempo passa para todos. No supermercado, seguia a lista de compras que preparara previamente, tal como fizera por tantos anos. Mas, ultimamente, toda visita ao supermercado era razão de espanto. “Os preços enlouqueceram.” Dizia estupefata. “O que aconteceu com a nossa economia?”. O pior é que o dinheiro que trazia, a cada dia, comprava menos produtos. E diziam que a inflação estava sob controle. Ocorre que, estava evidente que o país estava em total descontrole. Sentia na carne o amargo sabor da inflação. Literalmente, o valor da carne de primeira era um absurdo, restava-lhe a de segunda, menos tenra, mas cujo preço era-lhe mais digestivo. Na seção de verduras e hortaliças ficou chocada com os preços vultosos “Mas que absurdo! Tomates à R$ 5,99 o quilograma!”
“Isso é um assalto”, gritou o menino munido de um trinta e oito enquanto rendia o segurança do supermercado. Foi logo revistando os clientes tomando-lhes dinheiro, celulares, joias, relógios e tudo de valor que carregavam. Apontava a arma para qualquer um que ameaçasse uma mínima reação. As caixas do supermercado gritavam desesperadas. Os clientes estavam em estado de choque. Deitaram no chão sob os pontapés do menino, que agora era um homem, pois estava armado e todos tinham medo dele. Foi “abusado”, tomou o boné de um cliente, “um playboy marombado”, e colocou sobre a própria cabeça. “Ficou estiloso!” Disse admirando-se no espelho. A velha que segurava um saco repleto de tomates tremia feito gelatina. Tomou toda a grana dela. “Fica esperta aí, vovó”. Dirigiu-se então aos caixas, quando teve ciência que tomara tudo o possível dos clientes amedrontados deitados no chão. Puxou uma funcionária pelo braço, determinou que abrisse as caixas registradoras e passasse todo o dinheiro para ele. Não estava nem um pouco nervoso, já se acostumara a roubar. Era até divertido, ver toda aquela gente sob seu poder, ele que decidia naquele momento quem morreria e quem viveria. Uma arma faz do homem um Deus. “Os canas” não lhe preocupavam. Já viu como a polícia é mal remunerada? “É só ‘molhar as mãos’ dos caras”. Por isso, assaltava aquele supermercado com grande tranquilidade, estava cumprindo o seu papel na sociedade. Um papel que lhe foi imputado ante as necessidades por quais passou toda a vida. Pelo desejo de fazer parte dessa sociedade de consumo que o excluiu severamente. Quem era o criminoso naquela situação? O menino, feito ladrão pela sociedade? A idosa, que teve sorte de nascer numa família de classe média, cujos esforços fizeram mais abastada que o assaltante? O dono do supermercado que praticava preços inflacionados? Os governantes que cobravam inúmeros impostos do dono do supermercado obrigando-o a repassar aos preços? Os políticos, senhores da nação, cujas medidas não favoreciam a sociedade, ao contrário cortavam investimentos em educação e segurança e desviavam dinheiro para contas secretas fora do país?
“O problema que o hábito não faz o monge”. Ainda existiam policiais honestos no país. E foi um desses raros servidores modelos que surpreendeu o homem armado, agora menino, cheio de temor frente ao perigo. O policial gritou para que ele soltasse o revólver. O menino puxou a idosa e colocou-a sob a mira da arma. A idosa era, agora, refém. Vendo a gravidade da situação os demais clientes correram desesperados para fora do supermercado. Ficaram o policial, a velha e o bandido. Qual deles tinha realmente culpa de estar ali? Talvez, nenhum. Mas a imprensa destacava que o ladrão, menor de idade, era conhecido por praticar assaltos naquelas redondezas. O menino, ameaçado, dizia que mataria a velha. Os jornalistas buscavam flashes e as melhores tomadas daquele crime. A velha não soltava o saco de tomates. Talvez por nem mais se lembrar, tamanho o pavor, que o segurava. A mãe do menino foi chamada pelo negociador. O ladrão e, no momento, sequestrador, chorou feito menino ao ver a mãe. Sentia vergonha de si mesmo. Porém, não havia como voltar atrás. Ele escolhera seu caminho. Ainda que devido as dificuldades por quais passara. Mas a mãe ofereceu-lhe a via da retidão, a qual ele recusara solenemente. Era mais difícil, mais suado, mais trabalhoso. Ele queria a vantagem imediata, conquistada mediante esforços mínimos. “O que fazer?” Desesperados, pensavam a idosa e o menino, personagens deste drama que se repetia quase todos os dias no Brasil. O menino sabia, seria apreendido, passaria três anos, no máximo, em medida socioeducativa. “O menor é apreendido e não preso.” Disto, todo menor infrator sabia de cor, muito mais que qualquer advogado. Mas não era a repreensão do Estado que assustava o menino. Mas os olhos inquisidores da mãe. O desgosto visível daquela mulher que sempre dera a vida pelo filho. Um policial, cansado de tantas negociações, resolveu dar fim aquela história, aproveitando um descuido do menino, acertou um tiro no meio da testa do menor que caiu feito homem. A velha soltou os tomates e correu assustada para os braços da família angustiada, que tomou consciência do assalto pela televisão e aguardava um desfecho para aquele drama. Os tomates, caríssimos, restaram no chão, pisoteados pelos espectadores daquele assalto, que findara de forma tão trágica. Não mais ornariam a salada do almoço. “Um desperdício! Pelo preço que estavam!”

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