Arquivo do mês: agosto 2015

images (5)

“As orações dos homens
Subam eternamente aos teus ouvidos;
Eternamente aos teus ouvidos soem
Os cânticos da terra.”
Machado de Assis – Fé

Último apelo

Giordana Bonifácio

Ó Deus, onde está a minha recompensa?
Tu que deste mundo és o poder supremo,
Sabes bem estas dores por que gemo.
Ninguém poderia sofrer tanta ofensa.

Não vês esta tão absurda diferença?
Vejo homens justos que sofrem ao extremo,
Nesta vida que tanto execro e temo.
Não vês sobre mim esta carga imensa?

A vida, ao rico, é plena de brandura,
Ao pobre, ela está, cada vez, mais dura.
Meu Deus, escuta toda a dor de meu canto,

Pois elevo aos céus meus braços em prece.
Se a fé mais branda a vida me fizesse,
Não mais razão teria para meu pranto.

Categorias: Uncategorized | Deixe um comentário

escrevendo-com-uma-pena

“O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.”
Cancioneiro – Fernando Pessoa

Quem disse?

Giordana Bonifácio

“Tu és poeta”, meu coração que me disse,
Enquanto de alma em alma seguia errando,
Onda do mar que está sempre vagando,
De olhos fixos num conto de Clarice.

“Tu és tolo”, minha razão que me disse,
Enquanto eu seguia, triste murmurando,
As mais belas poesias dum tal Fernando.
Não sabem que esta dor é só um artífice?

Faz chorar o coração enternecido
Ferido pelas setas de Cupido.
“Tu nada mais é que um reles fingidor,

Que, do chão, enxerga toda a luz dos astros.
Mas não é capaz de lhes seguir os rastros.”
Disse-me o mundo, meu cruel inquisidor.

Categorias: Uncategorized | Deixe um comentário

63346_Papel-de-Parede-Cruz-e-Sepultura_1600x1200

O que é isso?

Giordana Bonifácio

O que é isso que faz você beijar com tanto afago o corpo do infante falecido?
Isso, ilustre convidado, é o que os homens partilham uns com os outros, é o sentimento mais belo e rico existente: chama-se amor.
O que é isso que surge de suas mãos fortes, produto de tanto esforço e suor?
Isso, senhor, é o que os homens chamam de trabalho.
O que é isso que fere tão profundo e cuja dor transborda em lágrimas toda sua tristeza?
Isso, colega, é o que, na Terra inteira, chamamos de mágoa.
O que é isso que tanto cativa e ampara os homens na tão amarga dor?
Isso, meu caro, é o que chamamos de esperança.
O que é isso que faz você tirar o chapéu e persignar-se num murmúrio de oração?
Isso, amigo, é o que se entende por fé. Não que alguém realmente entenda, é muito difícil explicar. Ninguém compreende a fé em sua completude, somos humanos… Ainda duvidamos muito…
O que é isso que anima o corpo em vida e abandona-o na morte?
Isso, meu camarada, é o que o homem convencionou a chamar de alma.
Com amor você beijou a face do infante inerte. Com o fruto de seu trabalho, você abriu a cova em que se depositaria o corpo. Você regou o solo com as lágrimas produto de sua tristeza, ainda que reservasse, na dor, um traço de esperança. Rezou com fé para alma que partiu, mas não compreendo o sentimento que resta em você tão amargo e dolorido.
Isso que me restou, meu irmão, é denominado saudade. É o sentimento que nunca se apaga, é o passado que não passa em nossa alma, é como quebrar-se um tanto dela e deixá-la para sempre mutilada. Fruto de todos os demais é a marca que imprimimos nos corações daqueles que deixamos. Estará para sempre comigo. Todos os momentos vividos com meu filho não serão jamais esquecidos. Hoje a dor é inestimável, com o tempo, será suportável, mas, nunca, nunca me abandonará.

Categorias: Uncategorized | Deixe um comentário

amor em papel escrita c coração

“Além do amor, não há nada,
amar é o sumo da vida.”
Carlos Drumond de Adrade

O meu amor não cabe nesta trova

Giordana Bonifácio

Ó amor, doce inspiração dos meus versos,
Espelho fiel que a minh’alma retrata,
Aqui te trago meus sonhos dispersos,
Doce sofrer, dor tão feroz e ingrata.

Aqui te escrevo a paixão que me mata.
Vocábulos tais em mágoas imersos,
Que trago em meu peito há longa data.
Tentei buscar a ti em colos diversos,

Mas sem achar o fogo que me anima.
Tal procura a mim, desde então, só prova,
Que és vivo tão somente em minha rima.

Propriamente, não julgo uma boa nova,
Porque sou o poeta que a esta poesia lima,
E grande é o meu amor para uma só trova.

Categorias: Uncategorized | Deixe um comentário

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: