bolo-com velas

Festa de aniversário

Giordana Bonifácio

A velha pensava: menos um ano de vida. Quantos seriam? Noventa, cem? Não mais contava. Mas os filhos, netos e bisnetos deveriam saber. Aqueles que se reuniam felizes a sua volta. Houve um tempo que era dotada da mesma felicidade que fazia os mais jovens festejarem com tanto entusiasmo. Mas este tempo passou. Não queria aquela festa, como não desejava comemorar mais fato algum em sua vida. Quem, no seu juízo perfeito, festejaria a aproximação da morte? Por isso, nem fazia questão de sorrir para as fotos. Ainda que muitos solicitassem: “é para o Facebook!”.
As crianças corriam em volta da mesa numa algazarra terrível. Ela só queria que aquela tortura, que denominavam festa, acabasse o quanto antes. Via os genros e noras comendo salgadinhos com um incrível apetite. Os bisnetos derrubavam doces e refrigerantes no tapete. Pensava em como seria difícil retirar aquelas machas depois. Mas não era só isso, o filho mais velho, que tinha problema com álcool, estava bebendo, ela previa confusão em pouco tempo. Será que ninguém imaginou que ele beberia, por que não fizeram uma festa sem cerveja? O refrigerante poderia muito bem suprir as necessidades daquela gente toda.
Mas não era só de seu filho mais velho cujo problema aborrecia-a. Conhecia as falhas de cada um dos que se reuniam naquele recinto. O neto desempregado dizia estar estudando as melhores ofertas de trabalho. Na verdade, não tinha oferta alguma, o fato era que não queria ser considerado um perdedor pelos presentes. Pois, se fossem compará-lo a maioria dos netos, seria facilmente diminuído. Com exceção do neto mais velho com mania de empreendedor, todos os demais estavam bem empregados e com a vida já construída. Apesar de ser de conhecimento geral que a mulher do neto mais calvo, um dos três netos da linhagem do filho do meio, torrava todo o dinheiro do marido. Diziam as más línguas que ela traía-o com o personal trainer.
A nora, sobre a qual caiam tais acusações, veio cumprimentá-la. “Tudo bem? Está gostando da festa?” A velha não fez questão de responder e suspirou profundamente. Ainda ouviu a nora cochichar para o marido: “Será que ela ainda entende algo do que a gente diz”? A idosa preferia fazer-se de tonta, ainda que compreendesse tudo a sua volta. A velhice não lhe tirou nem um pouco da sagacidade. Só não falava o que realmente pensava. Ali, naquela festa, sabia perfeitamente tudo o que se passava.
O neto mais velho estava tentando pegar dinheiro emprestado novamente. Com sua conversa mole, aproximava-se de todos contando as vantagens espetaculares do novo negócio que iria abrir. Na verdade, em pouco tempo, faliria mais este empreendimento. Mais uma falência para sua coleção de derrotas. E ele já tinha muitas. A mulher dele já não tinha mais onde enfiar a cara tamanha a vergonha. Mas não dizia nada. “Songa monga!” Disse baixinho a velha. “Mais frouxa que minha dentadura!” O filho deles brigava com as outras crianças no jardim. Elas o chamavam de perdedor. Gritavam: “vai ser igual seu pai!”.
De repente, chega o filho do meio numa motocicleta Harley Davison, de jaqueta de couro e óculos escuros. Havia tingido o cabelo recentemente. Não queria deixar evidente a idade após a sua última separação. Veio logo falar com a velha: “a minha benção, mãe?” Ela queria dizer-lhe que para os três casamentos que o ele teve, ele nunca pensou em sequer pedir-lhe a benção. Mas agora a queria? Só para fazer bonito frente aos familiares reunidos naquela festa? Festa de aparências. Cada um querendo ser melhor que o outro. “São todos uns pulhas!”. Murmurou a velha.
O que estavam comemorando naquele recinto? O que faziam ali, se em outros dias não vinham visitá-la? Ela ficava ali, jogada às traças, só a empregada restava com ela. Contava-lhe todos os podres da família. As histórias chegavam-lhe rapidamente aos ouvidos. Quando o bisneto, que estava agora puxando o cabelo da irmã, quebrou o braço, o pai havia falido o último negócio e não tinha sequer dinheiro para a gasolina, o filho mais velho estava tão bêbado que não pode levá-lo ao hospital. Telefonaram, então, para o filho mais novo. Ele deixou o trabalho, que nunca abandonava, para ajudar o sobrinho-neto. Inclusive, este filho, viciado em trabalho, não estava naquela festa infernal. Tinha de fazer uma viagem de negócios. Agora estava ali o moleque do braço quebrado, todo faceiro, fazendo traquinagens e implicando a irmã. Nem parecia que tinha quebrado o braço há tão pouco tempo.
A terceira das mulheres do filho do meio estava ali, com os “herdeiros”, como a jovem moça dizia para todos. Essas eram as crianças mais trabalhosas, que provocavam todos os demais. Eram três meninos extremamente ativos, que corriam por todo lado, sem serem censurados pelos pais que nem se importavam com as ações dos filhos.
Da segunda mulher, ali estavam os netos já adultos, com seus próprios filhos. Crianças que não deixavam os celulares um único minuto sequer. Quais atrocidades deveriam estar trocando por mensagens de celular? Nesses grupos de What Zap em que não havia nada de produtivo? Será que os pais não tinham ciência das ações dos filhos? Não sabem sequer com quem estão conversando. Talvez estejam, até mesmo, sendo aliciadas por algum adulto. Mas o filho com seu cabelo pintado e jaqueta de couro, que se envolvia só com garotas de 19 a 21 anos de idade, tentava colocar panos quentes: “são adolescentes…”.
Os netos da linhagem do filho mais velho tentavam fazer o pai parar de beber, já previam um escândalo em poucos minutos. O neto mais velho até parou de falar sobre as vantagens do seu novo negócio para tratar do pai. E a velha estava vendo tudo isto. Não lhe passava nenhum dos acontecimentos daquela festa. Seus olhos pequenos, rodeados por tantas rugas, acompanhavam todos os fatos. Ainda que pensassem ser ela uma idosa sem qualquer entendimento do mundo. Sabia de tudo e analisava todos naquela festa com olhar cirúrgico.
Desde que seu falecido marido a deixara sozinha, com três filhos para criar, aprendeu a decifrar minuciosamente o mundo a sua volta. Esta compreensão dos fatos ajudou-a a criar a imensa família que se reunia agora para comemorar o aniversário da matriarca. Pessoas tão díspares e plenas de falhas. A velha, sentada no centro da mesa, sequer sorria para as fotos do celular: “essa vou publicar no Instagram!” Os familiares todos tentavam suportarem-se uns aos outros naquela festa de aniversário tão despropositada, no julgamento da velha.
A neta mais velha trouxe um bolo comprado na padaria cheio de glacê em que se lia: Parabéns, escrito com uma calda verde. Cobriram o bolo com inúmeras velas. O filho embriagado puxou o “Parabéns para você” com a fala embargada pela bebida. Todos cantavam uníssonos a tão conhecida canção. A velha só queria que fossem todos embora. Não aguentava mais aquela rede de intrigas. Pessoas que se odiavam mutuamente e fingiam suportarem-se.
Pediram para que a velha fizesse um pedido antes de soprar as várias velas que queimavam sobre o bolo. Ela desejou com toda a força. Mas quando abriu os olhos, ainda estavam todos ali. Ela suspirou. Se os outros prestassem atenção ainda veriam uma pequena lágrima escorrer-lhe pela face. “O que você pediu, bisa?” Perguntou um dos bisnetos que roubava furtivamente doces da mesa do bolo. Todos estavam ansiosos para saber o que a matriarca havia desejado. Todos questionavam, mas a senhora que não queria fazer mistério do seu pedido tão incomum. A velha respondeu num murmúrio frágil, cheio de amargura: “eu desejei morrer”. A família toda sorriu. “Isso é com Deus, mãe. Ele que sabe a nossa hora.” Mas o pedido da velha brevemente foi esquecido. Um dos bisnetos acabava de abrir um corte profundo no braço da irmã. Todos correram para olhar. A velha ficou sozinha no centro da mesa do bolo.

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