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Os Artistas

Giordana Bonifácio

Quem são os artistas? Aqueles que limam e esculpem a pedra. Senhores da sua arte. Criativos, contemplativos e, ainda, imaginativos. Mas nem toda a arte vale-se da pedra. Há ainda aqueles que usam ferros, madeira, barro… Mas a arte resume-se a isto? Não, há ainda outros tipos de artistas. Quais? Há ainda quem desenha seus sonhos numa tela ou papel. Às vezes, muitos não os podem compreender, não que não consigam, mas não têm acesso ao mundo mágico de cores que está presente na mente de tais curiosas pessoas. São eles cartunistas, pintores, desenhistas, estilistas, fazem com o traço, obras-primas. Mas a arte não se resume tão só a eles. Há também os que se valem da imagem como matéria-prima para suas criações. Quem são? São loucos, senhores da sétima arte e herdeiros dos irmãos Lumiére. Mas a imagem não se resume àquela que se põe em movimento. Faz-se necessário falar das imagens capitadas por uma câmera fotográfica nas quais inúmeros olhares estão compreendidos. Mas não é tão só. Artistas são aqueles que também usam das Musas como ninguém… Não me refiro às nobres damas, mas outro tipo de fêmeas, traçoeiras, ariscas, selvagens até. As palavras fazem destes artistas, literatos, poetas, que limam, curvam e manipulam o objeto de sua arte. São ourives? Até certo ponto. Também usam de matérias nobres, tão belas e raras como o ouro e o diamante. Fazem ritmo, produzem cultura. São magos das letras, mas não conseguem subverter o controle das Musas. São elas que ditam as regras. Porém, não falei de outra arte deveras importante: a música, o ritmo dos sons em movimento. Quem controla as ondas sonoras também faz arte. Artistas do som. Enquanto pintores fazem da cor e da luz seu ofício, aqueles tais produzem som aprazível ao ouvido e à mente. Mas quem sou eu para falar deles? Devo invocá-los para que, ainda mortos, eles próprios se apresentem.
Artistas quem sois? Magos, sábios, manipuladores da matéria e da anti-matéria? Quem sois? São mentes muito superiores as do homem comum? Quem sois pintores que falam sem palavras? Quem sois escultores que marcam, na pedra, o conhecimento? Quem sois desenhistas que fazem universos mediante do domínio do traço. Um lápis, dizem que é tudo de que precisam. E vós, imperadores da sétima arte, hoje seus domínios estendem-se por continentes, suas obras, estão muito além de uma ideia e uma câmera na mão. São complexas a fim de deixar suas plateias ainda mais perplexas. Quem sois? Amigos escritores, poetas, romancistas, cronistas, novelistas. Quem sois? Domadores das palavras, que amansam feras, fazem da sua arte uma vocação. São discípulos delas, conhecem-nas no seu sentindo mais profundo. Ou, talvez, sua completa falta de sentido. Não temem escapar de seu destino? Não é dura demais sua missão? A arte com a imagem fala sem palavras, mas diz tudo. Vós quereis usar a palavra e ainda assim não dizer tudo? Quem sois? Amigos que fazem com imagens a tradução do mundo, fotógrafos manipuladores da realidade que compreendem os olhares mil que estão presentes numa só fotografia, quem sois? Apresentai-vos, queridos artistas, primeiros inimigos da convenção e da mesmice. Quem sois? Adidos da música, mestres das notas musicais, que congregam sons na mais bela sinfonia ou canções populares, que traduzem a cultura e a história de inúmeras sociedades, quem sois? São super-humanos? Ou, talvez, tão profundamente humanos que superam os homens ordinários? São bruxos que produzem a ilusão da compreensão da essência humana? Um Bruxo do Cosme Velho guarda na alcunha a sua real profissão. No passado, servia-se, em seus romances, de questões muito além da realidade em que se inseria. Até mesmo um defunto autor criou sem qualquer pudor. Explicai-me, vós, de que matéria sois feitos? Quais são os universos que povoam vossas mentes? Como podemos nós, pobres mortais, homens comuns, compreender-vos? Como chegaremos nós à profundidade de vossos pensamentos? Apresentai-vos nas próximas linhas para que assim possamos enfim vos conhecer.
Sou eu Homero, cego escritor de idade e existência incerta, fiz da minha arte Ilíadas e Odisseias. Fui guardião da primeva história ocidental. Contestam minha autoria, mas aqueles que me admitem, assumem a minha grande genialidade. Fui eu que preservei o embrião da sociedade, fiz arte e história, mas desde quando estes dois domínios estão separados? A cultura em todo mundo está intimamente ligada à história, não se separam, pois sempre foram os loucos que revolucionaram o mundo.
Sou eu Leonardo Da Vinci, exímio cientista e pintor. Fui multiletrado em diversos domínios, fiz esboços de infinitos experimentos e criei uma obra artística enigmática. Ela guarda mais segredos que não podem sequer imaginar as mentes mais comuns. A Monalisa é a pintura com que mais me representam no mundo moderno. Mas não é a única que criei. Lembram-se de mim, também, pela Santa Ceia, imagem eclesiástica que tão habilmente retratei.
Sou eu Michelângelo, artista, pintor e escultor. Lembram-se de mim pelas minhas esculturas incomparáveis de David e da Pietá. Também pelo teto da Capela Cistina onde, o belo ciclo da criação do mundo, eu registrei. Sou eu Divino, como costumavam apelidar-me meus contemporâneos. Era o melhor artista do meu tempo e, ainda, na atualidade, reconhecem minha importância para a arte.
Sou Johann Sebastian Bach, sou concertista renomado, estudioso da música dedicado, tanto que me diziam ser um artista completo. Sou o nome da música Barroca. Um virtuose. Serei precedido por Vivaldi, Mozart e Beethoven, mas meu nome, não se apagará na história, pois deixei minhas obras para a posteridade e sobreviveram a mim.
Somos nós os Irmãos Lumiére inventores da sétima arte. Fomos os primeiros a reconhecer a importância do cinema e apostamos nossas fichas nele. Apesar das dificuldades, hodiernamente, somos extremamente reconhecidos, fomos pais de uma arte. Criadores de mais uma veia cultural. Nosso nome está marcado eternamente na história.
Sou Robert Kapa, famoso fotógrafo, assumi tal alcunha ainda jovem, provinda de minha infância na escola. Fugi do nazismo na Europa, fui refugiar-me em Paris, sobrevivi à Segunda Guerra Mundial e minha obra mais célebre é a fotografia: Morte de um miliciano.
Sou Cervantes, escritor tão famoso quanto Homero, escrevi o primeiro Romance Moderno. Meu Dom Quixote é conhecido no mundo todo. É minha obra mais famosa, mas não a única. Mas só por ter escrito esta história única, sou lembrado e celebrado, como um dos mais nomes mais importantes da minha arte. Meu herói, um cavaleiro andante cômico que, dentre outros embates, enfrenta moinhos que pensava serem gigantes, é o símbolo das ideias mais mirabolantes e, porque não dizer, Quixotescas.
Sou eu Beethoven, fui perdendo minha audição durante minha vida, de modo que, minha mais aclamada obra, a menina dos meus olhos, minha Nona Sinfonia, foi escrita quando já estava surdo. É impossível se esquecerem de mim. Minha imagem é marcante, fui uma figura polêmica, não tão exultada quanto meu amigo Mozart, mas ainda assim, indispensável para a história da música.
Mozart sou eu, Amadeus. Virtuose descoberto ainda na infância. Minhas sinfonias são festejadas ainda hoje. Gênio! Ousam denominar-me. Mas não há como não admitir a inventividade e criatividade de minhas mais célebres sinfonias.
Sou Machado, Bruxo, escritor que supera todas as médias. Criei uma dama com olhos de ressaca e um defunto autor que dizia não ter transmitido à criatura nenhuma o legado de nossa miséria. Mas disseminei em gerações a preciosidade de nossa cultura. Eu fui um entre muitos, um homem minguado, uma figura que visitou o mundo sem sair dos limites do Rio de Janeiro. Escrevi muitos romances, num conto retratei a loucura de um Alienista, mas minhas poesias estão aquém da minha capacidade. Todavia, pelas obras que primeiro citei, serei lembrado eternamente. Não escrevi, como dizem, meu nome na história, mas tatuei-o para toda posteridade.
Ainda há muitos que se queiram apresentar. Mas não temos tempo hábil para todos eles. Artistas sois. Gênios, seres humanos acima de todas as médias. Reconhecidos, ou não, deixaram-nos acervos importantíssimos para a cultura mundial. Ainda há quem queira desdenhar vossa importância, sobressaltando que a arte é algo supérfluo. Ao contrário, do que consiste realmente: na capacidade do homem se fazer menos selvagem e mais humano. O homem pensa, logo existe. O homem sonha, logo faz arte. O homem é produto de seu ofício. O homem é servo de sua arte. Artistas sois, loucos, transloucados humanos, que não se eximem de seu papel de fazer sonhar a humanidade.

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