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“And if I could be who you wanted
If I could be who you wanted
All the time, all the time”

Fake Plastic Trees – Radiohead

Monólogo de um diálogo

Giordana Bonifácio

Esse é o problema: não sei dizer o que você quer escutar. Pode parecer simples, mas não é. É uma coisa chata: posso tentar explicar, mas vai levar muito tempo e mesmo assim, talvez você não entenda. Sabe quando escapa de suas mãos toda a esperança? Quando no horizonte não se vê qualquer perspectiva? Sei que você tem essa mania boba de acreditar no futuro… Eu sou diferente, não alimento grandes expectativas. A vida pregou-me muitas peças: não caio mais em seus encantos. Não vou correr atrás de potes de ouro no fim do arco-íris. Não tenho mais idade para isto. Não quero ser demasiado franco, porém, é-me difícil evitar. Minhas palavras doces findaram, pois no meu peito agora bate um coração amargo demais. Você fala-me de amor, paixão e sonhos, entretanto, sou a antítese de tudo isto. Um oximoro. Quando você ofereceu-me ajuda, não aceitei. Pensava ser forte o bastante para enfrentar meus demônios sozinho. Grande piada eu sou, não é?
O mundo sorri às minhas costas, estão todos prontos para me apunhalarem, meus queridíssimos amigos. Sabe que tenho estado mais recluso, não vejo mais cores na vida. É um borrão sem cor, sem luz e cheio de dor. Soam em minha mente milhares de desculpas esfarrapadas para dizer não de uma forma menos ríspida. Mas nenhuma ouso dizer. A solidão é mais fácil para mim. Não consigo conviver com a visão do outro sobre o que sou. Pesa-me o julgamento alheio, limita-me sobremaneira. Não sei ser mais do que sou, ou menos do que sou, ou talvez, ainda, o que realmente sou.
Sei que floreio muito as palavras. “Falas sobre dor de uma maneira bonita”, você diz. Contudo me parece que não compreende nada do que estou a dizer. Não sei dizer de um modo mais claro. Pois, seria mais dolorido para mim, para você, para nós. Não que exista nós. De nós, só temos os entraves que nos impedem os caminhos. Mas sabe o que quero dizer. Sei que sabe, só espera que eu diga subitamente, que eu abra a tampa de meu coração para libertar todos os delírios que guardei em minha alma, mas eu não me chamo Pandora. Os males que detenho não serão libertados do mausoléu que tenho em meu peito.
“Mais um drinque?” Como pode estar tão calma à luz de minhas declarações? Não quero embriagar minhas ideias, minha razão é tudo que tenho e em que me posso fiar. Não se compram soluções instantâneas, tal qual Nissin Miojo. A vida devora-me de uma forma salutar. Agora me compreendo mais, sei das trevas que guardo em mim. O universo é quase em sua totalidade uma matéria escura cuja composição ainda é desconhecida aos cientistas. Tenho um universo desconhecido em mim também. Um infinito que se expande em dúvidas.
Já percebeu que vivo dando voltas, mas não saio do mesmo lugar? Como um cão que corre atrás do próprio rabo. Tenho muitas questões, para as quais não encontro soluções plausíveis. Não quero mais restar preso aos meus sonhos impossíveis, não quero mais navegar oceanos bravios numa jangada feita de troncos. Parece que vou me desfazendo como um colar de pérolas que arrebenta e as contas chovem sobre o chão. Sabe como isto dói? O quê? Isto de ser o inverso perfeito do amor. “Mas todo Eros tem seu Tânatos”? Por que tenta simplificar tanto a vida? Não, eu não sei viver. Na verdade, nem sei o que faço aqui neste mundo. Parece-me que peguei uma curva errada tempos atrás e agora estou perdido num lugar desconhecido.
Não quero me queixar, tenho muito mais do que alguns, menos que tantos outros. É que sinto que poderia ser mais, que poderia ter mais, que tudo poderia ser como no passado sonhei. Ocorre que meus planos de futuro restam ainda jogados num feio rascunho, todos obsoletos. Sabe a história de que sonhos não envelhecem? Pois é, os anos maturam-nos e se não usados eles apodrecem como frutas não colhidas. Foi o que ocorreu comigo. Alguns dos frutos que plantei, outros colheram nas surdinas. Não sei o sabor de vencer, pois fui derrotado inúmeras vezes. Tantas quedas levei que preferi restar já nocauteado na lona. “And the winner is…”
Falsas árvores de plástico ornam a nossa miragem em meio a um deserto de emoções. Diz a canção: “And if I could be who you wanted/If I could be who you wanted/All the time, all the time”. Não sou o cara perfeito. O tempo degastou meu rosto. Tenho vincos profundos no canto dos olhos. Os anos não foram justos comigo. Mesmo após tantos fracassos, ainda prossigo, mas já sem perspectiva. Não sei bem o que espera de mim, mas não tenho nada a lhe oferecer. Seria mais sensato de sua parte desistir de tudo. Sou um caso perdido.
Às vezes, temos de deixar de lado o que nos faz mal. Eu sou um Edward Mãos de Tesoura que vai ferindo tudo o que toca. Já cansei de fazer isto com você. Não vou lhe submeter a uma meia vida, quero deixar-lhe livre. Livre de mim, da dor de ouvir-me dizer tudo que não quer ouvir. Minhas canções tristes sempre lhe deixaram furiosa, não é? Eu já disse não sei ser feliz. Não sei construir significados quando a canção que toca, não me toca. Não poetizo a vida, é que faço uso das palavras há muito tempo, a beleza surge a partir do trabalho árduo de se lapidar as orações. Ao fim, restam belos diamantes, mas antes eram pedras entranhadas na mina de meu coração.
Estou falando algo engraçado? Por que ri de mim? Eu sei que sou meio filosófico, às vezes. Talvez entalhe demais a escultura. A arte é o equilíbrio. Sou muito emoção e a razão me falta quando tenho de explicar-me. Não vou dizer o que espera ouvir. Você tem de fazer as deduções lógicas. Não tenho coragem de ir direto ao ponto. Se eu calasse-me entenderia melhor o que não lhe posso dizer? O silêncio guarda um significado maior do que possamos imaginar. Seu olhar procura o meu, mas não posso fitá-la, pois seus olhos “capitulinos” são a ressaca do mar devastando a praia de meus segredos. Sabe mais de mim do que eu sei de você. Conhece minha covardia, que não me será possível dar um basta nisto tudo.
É meia noite, como uma Cinderela que teme revelar-se perante o príncipe encantado, você diz que precisa partir. Pode ir, vou ficar aqui mais um tempo. Não precisa, eu pago a conta. Saiu levando consigo metade de mim. Badalam mil sinos em minha cabeça. Estou fatigado, devastado por não conseguir dizer o que deveria ter dito. Mas não pude. Não quis. Sou um fraco… De que me valem tantos anos de estudo, milhares de livros lidos, se não consigo elaborar uma sentença apenas? Por que tenho tanto medo de ser sincero? De dizer a verdade sobre mim? Fico despedaçando os espelhos e contra-espelhos da minha personalidade sem chegar a um lugar comum.
Peço um café forte. Testemunhando mais uma derrota em minha vida, Joyce zomba de mim nas páginas de um velho Ulisses. Sorvo o líquido quente que faz menos fria a noite de outono. Uma mensagem soa no meu celular: “Feliz aniversário. Queria ser a primeira a dizer-lhe, mas como estavas não seria capaz de me ouvir. Eu amo-te.” Eu sou mesmo um grande idiota. Sorrio. Dói-me então uma solidão profunda. Solto o celular na mesa, apoio o rosto nas mãos e choro. A tristeza tem sabor de lágrimas. As lágrimas são salgadas. Então a tristeza é salgada? Não, às vezes é doce, perfeita, simétrica. A peça que realmente completa o meu coração. Enquanto isto, escondo-me sob a máscara que a vida forçou-me a usar. Para sempre. Fim?

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