os pássaros

Os pássaros

Giordana Bonifácio

Dois pássaros pretos assombram-nos na calada da noite: um corvo a repetir que nunca mais e um melro que tenta voar com suas asas quebradas. Lá está o melro, de olhos cavados, tentando ser livre, mas o corvo determina-lhe toda a vida. Pobres pássaros tão limitados… Um cujo defeito é a desesperança e outro repleto de deficiências. Ainda que cego, tenta ver adiante, ainda que tenha as asas quebradas, ensaia um voo para ser livre enfim. O corvo entrou pela nossa janela numa noite fria, já o melro, ainda tenta alçar voo de sua gaiola. Ele só espera o momento certo para ser livre e partir sem olhar para trás. E, sobre os nossos umbrais, o corvo ainda repete: “nunca mais”. O melro é o amor que em nós ainda persiste, mas a ave agourenta sentencia-nos a cada passo. Repete eternamente seu terrível réquiem.
A qual dos dois deve ser creditada a verdade? Àquele que sonha com o impossível ou à ave que nos determina o destino? Nunca, jamais? Por que não haveria de dizer algum dia, talvez ou quem sabe? Assim, restar-nos-ia ainda um tanto de esperança, a chama bruxuleante que inutilmente o melro tenta instigar em nós. Mas, o corvo tem a voz mais impostada, é incisivo quando diz: “nunca mais”. O cantar do melro mareja-nos os olhos. Seu canto é a aurora dos sonhos e o grasnar do corvo é o poente das emoções. Um enxerga a vida como é e o outro nada vê. Só não se sabe ainda qual dos dois é realmente cego. Maldita noite sem luar em que só as estrelas brilham ofuscadas pelas lâmpadas de sódio. A luz do luar traz conforto para os nossos olhos tristonhos. Mas, as noites em que a lua é minguante, também nos homens minguam os sonhos. Como fazer calar a voz que nos dita a razão? Como ouvir sonoramente o cantar do melro em nosso coração quando o corvo diz: “nunca mais”?
Quando o melro canta, a noite torna-se fugaz, o sol, que se escondia na noite sombria, reaparece iluminando o dia. Mas, o corvo, ave da morte, escurece a terra, faz da noite um sempre que não passa nunca. E, assim, não mais se viu a luz do dia. Pobre melro, reconhecemos seus esforços, mas é um pássaro tão frágil e tão solitário. Quem garante que suas promessas possuem respaldo? Mais simples é creditar fé no que nos diz o corvo. É mais fácil desistir do que tentar, é mais simples aceitar do que discordar, é menos doloroso fugir do que enfrentar. Nossas asas também estão quebradas, nossos olhos, cavados, por que ainda ensaiaríamos um voo para escapar da gaiola da nossa vida?
Nossas grades são tão confortáveis. Sentimo-nos tão acolhidos na prisão que forjamos para nós. Temos medo de perder tudo quando alçarmos voo. Pois é possível que, ao voltarmos, nada mais esteja aqui. Contudo, queremos estar longe deste mundo que nos quebrou as asas, dos medos que nos cegaram os olhos, das desilusões que nos fizeram tão amargos e infelizes. Talvez, não seja tão só o corvo que nos diga “nunca mais”. Talvez, nós também nos determinemos à desesperança, à ausência da mínima possibilidade de liberdade e felicidade. O corvo é nossa razão impedindo nosso coração de quebrar os grilhões que o aprisionam. O melro é este frágil órgão que bate compassado dizendo: “ainda há tempo! O fim não chegou, a vida ainda pulsa e os sonhos são frutos que só esperam ser colhidos.” É verdade: estamos divididos entre um lindo cantar e um horrível grasnar.
Os homens todos são assim: meio razão e meio sensibilidade. Talvez, muito mais razão, às vezes, e um tanto mais de sensibilidade, quase sempre. Corvos e melros sobrevoam nossas cabeças como os pássaros de Alfred Hitchcock e atacam-nos violentamente. Querem que sigamos o que dizem. Porém, agora, o melhor seria infringir as normas e o que nos ditam o coração e a razão. Seguir por uma terceira via. Seria possível? Somos seres autênticos, na verdade, o avesso dos ponteiros. Nosso livre arbítrio leva-nos para fora dos caminhos trilhados das horas. Talvez, por isso, pensemos serem as leis um tema tão enfadonho. A literatura é um meio ímpar para fazer-nos plenamente nos expressar. Apesar de, no Brasil, existirem poucos leitores. Muitos não suportam a sinceridade de nossas palavras. Pior para eles.
“Nunca mais” grasna a razão tão horrível produto de nossa inteligência. Por que estudamos tanto, se é certo que na total ignorância somos mais felizes? Se seguisse sua razão, o melro repleto de limitações jamais tentaria voar. Por isso, eu penso que foi a nossa inteligência que nos acovardou diante dos desafios. É possível que nossa razão cegue os melros espalhados pelo mundo, é esta força que nos quebra as asas e impede-nos de bater nossas asas e voar. Nas noites frias de dezembro, deixamos os corvos adentrarem em nossos lares para repetir por toda nossa vida seu grasnar lúgubre.
Mas, ainda há um melro a cantar dentro de nossos espíritos, no morrer da noite, lá está a voz sibilante da esperança em nossa alma. Um melro que esperou a vida toda pelo momento de finalmente se libertar. Mas, é preciso suplantar o coro de corvos que nos cercam tentando nos desacreditar todo momento, pois é certo que deixamos estes bichos agourentos penetrarem nos nossos lares. Seres mesquinhos que não suportam assistir nosso sucesso. Na verdade, estão sempre a desejar a nossa derrota. Disfarçam-se de amigos, mas são lobos em pele de cordeiro. Não basta nosso corvo pessoal restar a repetir: “nunca mais, nunca mais”, há ainda outras aves negras como a noite a repetir infinitamente esta mesma ladainha: “nunca mais”.
Temos de libertar os melros que aprisionamos. Porém, não basta deixar a porta da gaiola aberta, temos de ensinar o melro a voar. Pois, para piorar a situação, a vida quebrou-lhe as asas e o tempo cegou-lhe os olhos. Assim, nossa missão, meus caros, é bem mais difícil. Vai além dos limites da nossa paciência. Nossa esperança é o único combustível que abastece nossas vidas. Ainda que, na escuridão das derrotas, a voz do corvo reste a ressoar em nossa mente, é necessário ouvir o cantar abençoado do melro a nos impulsionar a seguir em frente e persistir.
No morrer da noite, podemos escolher abrir a janela de nossos lares para permitir que o corvo adentre em nossos domínios, ou, ao revés, para deixar sair o melro que ensinamos a voar e, assim, deixá-lo partir para a liberdade. Fica a nosso critério. A noite sombria dos medos que apagam a chama da esperança pode ser embalada por um belo cantar como o do melro da canção dos Beatles ou pelo horrendo grasnar do corvo de Edgard Alan Poe. Nessa noite, em que a esperança são estrelas que pontilham o céu, escolhamos os pássaros que queremos ouvir.
O corvo pousado em nossos umbrais, segue a sentenciar-nos: “nunca mais”. Mas ainda que todas as probabilidades aconselhem-nos a desistir, lembremo-nos do melro. Aquela avezinha cujas deficiências não a impedem de ainda tentar voar, mesmo sabendo ser impossível. Todavia, mesmo assim, ele persevera, esperando o momento ideal para poder ser livre. Sejamos melros, não corvos. Ou sejamos qualquer outro tipo de ave: pardais, cotovias, sabiás ou, até mesmo, águias, mas não devemos jamais desistir de sermos felizes.
Haverá o momento certo em que poderemos bater nossas asas feridas e partir, sem olhar para trás, sem medo de mudar tudo a que estávamos acostumados. O costume é a ação reiterada que impinge uma norma. Ajamos fora dos padrões, sejamos originais, pois o costume é a gaiola em que nos aprisionamos. É confortável, mas nos cerceia e devemos sempre buscar a liberdade. Restar toda a vida presos num sistema, quebra nossas asas e impede-nos qualquer mudança. E, também, cega-nos os olhos a fim de não deixar em destaque o que está errado. Por isso, meus amigos, escolham a ave que desejam libertar, abram sua gaiola, e voem com ela. Esta é a receita da felicidade.

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