Arquivo do mês: março 2015

poeta

Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
Aninha e suas pedras – Cora Coralina

A poetisa ao cair da noite

Giordana Bonifácio

Sou eu quem, em vida, muito tenho amado.
Sem pensar, sigo o que diz meu coração.
Sonho ainda ter alguém sempre ao meu lado,
Mas ilusões são só o que os sonhos são.

Minha vida é somente um rascunho errado,
Versos amargos que ao vento se vão.
Quantas lembranças tristes do passado,
Fazem mais forte minha cruel solidão?

A noite é que me faz assim tão triste:
Tão escura, cheia de dor e de tortura,
Faz mais fúnebre a dor que em mim existe.

Ó alma lírica de onde é que tu vens?
Talvez da noite que um novo dia jura,
Cujo breu é um vazio pleno de desdéns.

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“Se alguém quiser vir comigo,
renuncie-se a si mesmo,
tome sua cruz e siga-me”. (Mt. 16, 24)

Política versus Religião

Giordana Bonifácio

A religião sempre foi um ponto sensível em minha família. Meu pai, antigo comunista, torturado e perseguido pelo exército, fazia zombaria da crença de minha mãe, devota fervorosa de Nossa Senhora. Enquanto, por anos, vi meu pai debochar da fé de minha mãe, pensava comigo, “quem estaria correto?”. A resposta veio-me após muitos anos. O ateu, que apregoava ser a religião o ópio do povo, foi traído por “companheiros” que nada tinham de amigos, eram serpentes venenosas a quem só importava o poder. Ao contrário disto, assisti minha mãe fazendo o bem às pessoas que sequer conhecia, visitava idosos, doentes, senhoras solitárias com quem rezava e doava esperança. A política corre nas veias da nossa família. Nós temos opiniões formadas, embasadas em nossa experiência com a esquerda que se dizia melhor que a direita. Quando despertamos e tiramos a venda do partidarismo, foi-nos possível reconhecer que a corrupção no Brasil é ambidestra. A esquerda e a direita, nessa nação, só se diferenciam pela cor das roupas que usam. No mais, são exatamente iguais. Minha mãe, perseverante, criou seus filhos na fé católica, ainda que sob o olhar zombeteiro do meu pai. Depois de perder a eleição em que concorria para Deputado Distrital, meu pai em função de uma hérnia de disco, que lhe comprometia a coluna, teve de passar quase um ano deitado sobre uma cama sem poder locomover-se. O que foi feito dos antigos companheiros nesse período difícil, em que meu pai não tinha como contribuir para o partido? Não sabemos. Pois o meu pai, com o salário reduzido, não tinha como tirar o alimento da boca dos filhos para dirigir à esquerda corrupta, como fazia costumeiramente. Os traidores, impassíveis, não ajudaram meu pai nesse período crítico. Minha mãe teve de trabalhar para ajudar no sustento da casa. A responsabilidade de criar meu irmão de 2 anos coube às filhas mais velhas. Nenhum dos amigos de partido comoveu-se com a luta de minha mãe para conseguir tratamento, para meu genitor acamado, no Hospital Sarah Kubitschek. Uma amiga, uma evangélica muito religiosa, foi o anjo enviado por Deus para curar meu pai. Ela moveu “mundos e fundos” para conseguir o dito tratamento hospitalar. Enquanto isto, aqueles que meu pai ajudou a eleger, sumiram como por milagre.
Foi quando os olhos de meu pai puderam finalmente enxergar. Aqueles políticos que se refestelavam com a comida que minha mãe cozinhava a cada domingo, não agiam da forma que pregavam. Eram tantas as figuras, hoje comuns nas páginas policiais dos noticiários, a visitar minha família em busca de apoio político, que não temo por dizer que conhecemos todos profundamente. Sabemos nomear o caráter de cada um. Pior que por mais que tentemos alertar para esse ou aquele político, não há quem nos escute. O mais irônico foi que, após derrubar a ditadura, a esquerda se dividiu, e fomos alvo de perseguição da própria esquerda e dos partidos que ajudamos a formar. A mesma política de acusações fajutas, para derrubar os oponentes com acusações caluniosas, para tentar fazer crer que os antigos comunistas, hoje opressores do povo, não são o mal a ser detido, foi usada contra meu pai. Por ir contra esse modo sujo de fazer política, meu pai foi expulso do partido. Minha mãe, em sua santa sabedoria, já sabia de tudo isto bem antes de ocorrer. É que ela enxergava a verdadeira esquerda corrupta que desviava até mesmo o dinheiro de almoços que promovíamos para ajudar no caixa do partido. Porém, meu pai estava cego por uma ideologia que não deixava de ser tão só uma ideologia. As atitudes, ah meus amigos, eram muito diferentes. O comunismo, que defendiam, era tão só com o dinheiro alheio. O patrimônio destes políticos restava muito bem guardado nos paraísos fiscais fora do Brasil. Não lhes importava ter sido a poupança do povo confiscada naqueles tempos remotos. Eles queriam tão só ser alçados ao poder. O que acabou por infelizmente ocorrer. E durante todo este tempo, minha mãe ainda alimentava sua fé. Era-lhe fatídico que meu pai viria a se decepcionar com a política, mas nada podia fazer para curar meu pai da loucura vermelha que dele havia se apossado.
Quando um político religioso de direita fez o que nenhum dos ditos “companheiros” se deram o trabalho de fazer, ou seja, conseguir tratamento para o meu pai moribundo, o comunista fanático teve de engolir seu orgulho e apertar a mão do homem a quem por muito tempo odiou. Depois de já estar curado da hérnia, os escândalos de corrupção que vieram à tona foram a gota d’água para transbordar a revolta dentro de meu pai. Afastou-se definitivamente da política. Viu que nada haveria de fazer pelo país, por tal meio. Converteu-se à Igreja Católica e atualmente acompanha minha mãe em seu trabalho religioso. Penso que meu pai agiu como Paulo que perseguia os católicos por sua fé. Creio que Deus veio visitar em sonhos o ateu inveterado e sussurrou-lhe ao ouvido: “Ageu, Ageu, por que me persegues?” Talvez só o bem seja o modo real de mudar o mundo. Não defendo tão só a fé católica, mas todo o tipo de fé com o simples intuito de ajudar àqueles que necessitam. Não os altos escalões da igreja, também comandada por políticos, mas os anônimos que todos os dias fazem um pouco mais para salvar os mais necessitados. Mesmo que seja um trabalho de formiguinha. A massa de desvalidos é muito maior que a daqueles que se propõem a ajudar. Ainda assim, qualquer ação ajuda. Não dizia Madre Teresa que “por vezes sentimos que aquilo que fazemos não é senão uma gota de água no oceano. Mas o oceano seria menor se lhe faltasse uma gota”? Por isso, vejo com orgulho a minha mãe saindo sob sol e chuva para visitar pessoas adoentadas, a quem, com a corrupção descontrolada, os políticos da dita esquerda, fecham as portas. Fazendo doações de remédios, alimentos, livros, roupas e todo tipo de víveres para estes pobres necessitados, a sempre devota faz o que pode e o que não pode para ajudar. E os nossos “companheiros”? Fingem que não sabemos do seu passado e sequer nos procuram.
Resolvi assumir a minha fé há pouco tempo. Fui envenenada pelo discurso político e, tal qual ocorreu ao meu pai, tive de despertar da pior maneira para a verdade. Não foi pela política que senti estar mudando o mundo. Mas fazendo do discurso da fé a minha vida. Disse Jesus aos seus discípulos “se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me”. Isto para deixar claro que não é fácil o caminho da religião. Na verdade, é o mais difícil. Tem de haver muita renúncia ao que se dedica aos menos favorecidos. Ao invés do poder, deve-se buscar a bondade, a abnegação e o altruísmo. Tomar para si a cruz pesada da vida e dedicar-se a fé que não é tão só rezar, orar e ouvir música gospel. A verdadeira religião exige atitude. É falsa a devoção daquele que põe a Bíblia debaixo do braço e lê esporadicamente um trecho aqui e outro ali. Jesus diria: “se não aguenta, por que veio?” É necessário por a fé em prática, sairmos da nossa zona de conforto. Praticar o bem que determinam todas as religiões. Foi isso que a minha família, após muitos anos, descobriu. Não é vestindo camisa vermelha dizendo defender os pobres, enquanto viaja para Miami com o dinheiro do povo, que se muda o mundo. Em verdade, somente o piora. É estranho ver tantos conhecidos, que se diziam amigos, que se diziam honestos, estarem agora bilionários devido a desvios volumosos das contas públicas. Pessoas que conviviam conosco, cujo discurso se mostrou tão vazio na realidade. Resolvi criar esta crônica em repúdio aos escândalos monumentais de corrupção no Brasil. Sei que a minha voz é um sussurro sibilante frente ao brado retumbante dos partidos que detém por tanto tempo o controle do Brasil. Mas, ainda que seja insignificante, queria dar meu testemunho de fé e de decepção. A fé em que encontrei a bondade tão esquecida pelos homens e a decepção frente à prática da política no Brasil.

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“Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas
não me tires o teu riso.”
O teu riso –Pablo Neruda

A difícil arte de amar

Giordana Bonifácio

Diga algo, seu silêncio pesa em mim.
Fale-me da ferida que há em seu peito,
Das viagens que queria um dia ter feito,
Dos sonhos róseos que a vida deu fim.

Diga que me odeia, tem todo o direito.
Só não mais posso ver-lhe tão triste assim…
Diga não, mesmo que a alma diga sim.
Aponte em mim o meu mais cruel defeito,

Não sou perfeito, mas me sabia errado.
Perdoe-me por meus erros do passado.
Diga-me algo, que a noite já está a chegar.

Para que restar assim tão magoada?
Se mais vale, sob a noite estrelada,
Aprender a difícil arte de amar?

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