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“Não, a vida não me desapontou!
Pelo contrário, todos os anos a acho melhor,
mais desejável, mais misteriosa…”
Friedrich Wilhelm Nietzsche

A montanha

Giordana Bonifácio

A montanha a subir é íngreme, a dificuldade de escalar tal desafio aumenta sobremaneira com o peso que carregamos nas costas. Vamos, com as mãos calejadas e feridas, com sangue escorrendo pelos braços, pois o importante é chegarmos algum dia ao topo. Não importa quando. Mais cedo ou mais tarde, nossos esforços convergem para este objetivo. Mais alto, grita-nos nosso coração. Não temos escolha. Quanto mais forte nosso pulso, subimos com mais afinco. O som dos temores é ampliado pelas vozes em nossa alma. O mundo todo torcendo para que não consigamos, esperando que desistamos de nossa luta. Mas somos fortes. Não vamos parar. A montanha não nos vencerá, bem como, aqueles que querem nossa derrota. As pedras são lisas, escorregamos várias vezes na escalada. Quanto mais subimos, maior é o perigo da queda. Será que vamos conseguir? O pavor sibila nos nossos ouvidos, as mãos começam a suar. Parece que o grau de dificuldade de nossa missão aumenta sobremaneira a cada metro que ultrapassamos. As verdades fazem-se claras quando as mentiras são desvendadas. Isto porque a solidão de nossa tarefa faz-nos entender melhor o mundo. Estamos isolados, mas, estranhamente, mais insertos na vida. É preciso afastar-se da realidade para melhor compreendê-la. Aqui do alto, é-nos possível ver tudo nitidamente. Estamos a ver o mundo da perspectiva de Deus. Ele vê tudo que nos resta encoberto pela venda do cotidiano. As pessoas desvelam suas almas quando precisamos de seu auxílio. Por isto, prosseguimos sozinhos na nossa luta diária, temos de sobrepujar os perigos que nos cercam, não podemos contar com ninguém. A sociedade virou-nos as costas. Quando nos sentimos mais sozinhos, as mágoas alimentam a fogueira de nossa coragem. Talvez, só desejemos mostrar para aqueles que nos esperam ver derrotados a nossa fantástica vitória. Nossa força é a esperança, combustível que se inflama em nosso íntimo. Há ainda um longo caminho a nossa frente. Prossigamos.
As desilusões ardem-nos como as feridas em nossas mãos. Sangram em nossas almas. Mas somos mais fortes que as dores que nos afligem. Sentir é o absinto que inebria as mentes humanas. “Nós somos o que queremos ser”, dizem, levianamente, os homens. Ah, como seria bom se fosse assim tão simples… Nós somos, em verdade, o que nos permitem ser. Os nossos pares nos limitam. É que nos obrigam a sermos pares quando queremos ser ímpares. Se não nos igualamos ao que dita o mundo, somos excluídos pelo preconceito. Não somos únicos, mas um artigo produzido sequencialmente para dominar o universo. Estamos sozinhos? Será que o espaço é o vazio que nos quer fazer acreditar a ciência? Será que ninguém mais pode ouvir nossas dores? A matéria explodiu, fez-se a vida em milhões de anos. Será que se não houvesse alguém para determinar os acontecimentos, ainda assim eles ocorreriam? É difícil ver no escuro de nossas dúvidas. Voltemos a nossa escalada. As lágrimas tem sabor de oceanos bravios, nosso espírito é a imensidão que há em nós. Parece que nosso saber faz-nos, cada vez mais, prisioneiros do mundo. A sabedoria não liberta como o esperado. Somos acorrentados por nossas descobertas. Escravos do mundo que tentamos desvendar. Ser ou não ser é uma questão já ultrapassada. Saber ou ignorar, esta é a questão! Vamos fechar os olhos para os fatos. O real é real demais para nós. As memórias aumentam a carga que levamos conosco. Não é possível deixar o passado para trás. Somos o produto final do que vivemos. As marcas em nosso espírito são perenes. Permanecem para sempre em nós. Ser é o pecado mais grave que cometemos. “Se queres te salvar pega a tua cruz e siga-me.” A montanha não virá a nós se não formos a ela. A fé alimenta nossas almas. “Há um motivo para seguirmos”, dizem as religiões, “só não sabemos ainda qual”. A morte nos trará respostas que a vida não nos conseguiu responder. Mas tememos o desconhecido, ainda que supra as dúvidas pelas quais passamos décadas à procura de respostas.
A montanha é a vida, é a ela que devemos subjugar. Devemos ser fortes. Escalar ainda que o mundo nos lance pedras. Devemos vencer os obstáculos com que a realidade permeia a nossa missão. Devemos ser, acima de todas as coisas, perseverantes. É que muitas vezes pensamos estar cumprindo a pena de Sísifo: um trabalho que não renderá fruto algum. Sentimos que, talvez, após cumpridos nossos objetivos, tenhamos de voltar à base da montanha e empreender a mesma escalada, com as mesmas cargas, tendo em frente os mesmos obstáculos. Mas se viver é isso mesmo? Será que a vida não é o que fazemos dos desafios que nos cercam? Será que a resposta é esta que sempre esteve clara, mas nos recusamos a enxergar? Enquanto subimos, pensamos estar cumprindo a pior das penas, que somos torturados por uma vida cruel demais para nós. Mas será que Deus não sabe o peso certo que devemos levar? Será que Ele não sabe o tamanho da cruz que podemos suportar? Por que, simplesmente, não confiamos na imensa sabedoria de Deus? Reclamamos da nossa carga, comparamos com as que os outros levam. Sentimo-nos injustiçados, mas, por quê? Temos conosco todas as ferramentas para tornar nossa existência algo mais agradável. Um passo simples a ser dado é dizer mais “sins” do que “nãos”. Vamos aceitar mais as novidades que tempo produz. Não nos recusar nunca a evoluir. O mundo está desenvolvendo-se constantemente, devemos acompanhar o ritmo das mudanças. Mudar. Devemos nos exercitar a conjugar este verbo. Pois nos prendemos ao comodismo. Queremos que as dádivas na nossa vida caiam como manjares do céu. Minha mãe dizia-me sempre: “o que vem fácil, também vai fácil”. Então, como dizem por aí, na nossa escalada: “devemos rebolar!” Lutar com unhas e dentes para transpor a nossa missão mais difícil: existir.
Estamos quase no topo, não vamos parar agora. Nossos corações estão feridos, mas quem disse que seria fácil? Em realidade, sempre nos alertaram para as dificuldades que enfrentaríamos. Queriam-nos fazer desistir. Mas conseguimos vencer as vozes pessimistas que nos achincalhavam e condenavam nossos propósitos. A nossa maior vitória é conseguirmos chegar ao fim da escalda de nossas vidas. Mesmo que estejamos com as mãos calejadas e com o corpo extenuado pela subida. Estamos quase lá, não vamos nos acovardar diante de mais um desafio: vencer a nós mesmos. Temos de subjugar a dor que se faz mais forte a cada passo. Temos de derrotar o cansaço, tão presente em nosso desafio. Mas somos guerreiros, nossa força brota no fundo da alma. O medo é, agora, o que nutre a nossa coragem. Somos invencíveis, assim nos fez a vida. Tivemos de batalhar por nossos sonhos, que, de início, pareciam-nos inalcançáveis. Agora estão próximos, podemos enxergá-los luminosos à nossa frente. Se estendermos a mão podemos até os tocar. Devemos ter cuidado, podem ser miragens no deserto de nossas almas. Ouro de tolo que engana os homens com seu brilho. Não vamos nos deixar ludibriar. Sigamos com cuidado. Há o risco eminente de cairmos, vamos aproximar-nos com cautela. Sei que estamos sedentos, mas “não devemos ir com muita sede ao pote”. Assim que nos aproximarmos mais, poderemos distinguir se não é uma ilusão tentando ludibriar nossos olhos cansados. A montanha da vida é traiçoeira. É repleta e armadilhas para pegar os menos atentos. É como uma esfinge que promete devorar quem não responda corretamente as suas charadas. Ainda corremos risco. É que, no fim de nossa escalada, estamos sujeitos à morte. Esta incógnita cruel que sempre nos ameaçou. O que há depois de cumpridos na Terra nossos objetivos? Será que a promessa da fé, será desfeita em pó como nossos corpos que para este retornarão? “Eis o vosso prêmio: vedes o que vos aguarda?” Alerta-nos a morte. Nossos olhos não conseguem ver além da luz. Estamos cegos pela visão estonteante de nossos sonhos. “Conseguimos.” Extasiados, fincamos no topo da montanha a bandeira de nossa vitória. Porém, não temos muito tempo para apreciar nosso êxito. Somos logo levados pela morte à balsa do barqueiro. No fim, só necessitamos de duas moedas para pagar o pedágio e seguirmos, afinal, para o reino dos mortos.

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