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“Todo dia o sol da manhã
Vem e lhes desafia
Traz do sonho pro mundo
Quem já não o queria
Palafitas, trapiches, farrapos
Filhos da mesma agonia.”
Alagados – Paralamas do Sucesso

Pátria amada, Brasil.

Giordana Bonifácio

Tremulavam ainda os farrapos de uma bandeira do Brasil esquecida no alto de uma caixa d’água, restos abandonados desde a última Copa do Mundo. No silêncio de uma rua vazia, cães sem dono andavam a esmo a procura de algo que ainda não sabiam. Comida? Água? Carinho? Proteção? Ou tão somente uma cadela no cio? As grades que deveriam proteger os moradores faziam-nos prisioneiros do seu próprio medo. “Homo homini lupus”. O sino da igreja badalava no silêncio às seis horas da manhã. Seis badaladas. Os sinos dobravam a vida e não a morte. Mas por quem será que ainda dobravam? Não pelas almas que acordavam contrariadas. Dobravam por quem não poderia mais os ouvir. Dobravam, na solidão, por dores ainda não sofridas. Aos poucos, o mundo despertava, os jovens encaminhavam-se para a escola com suas mochilas coloridas de super-heróis, seres fantásticos que não poderiam nunca os salvar. E quem o poderia? “Ah, quanta injustiça, quanta iniquidade assola o mundo! A quem o povo poderia apelar?” Não aos seus meritíssimos juízes, que faziam de Tétis uma deusa de visão magistral. Cegos? São os pobres que não sabiam como escolher seus políticos. A lama acumulava-se nas calçadas, fazendo com que a moça de salto alto tivesse de tirar os sapatos de camurça para cruzar a rua. Garis de roupa alaranjada tentavam limpar as sarjetas em que um bêbado tombou na noite passada. Acordaram-no com violência. O homem, ainda ébrio, levantou-se cambaleante e seguiu pela rua, como um cão sem dono. Virou a lata de lixo, à procura de comida. Encontrou restos que, imediatamente, comeu. Alimentava-se da piedade humana. Mas esta é, hoje, uma refeição tão minguada… Um ônibus lotado tentava deslocar-se enquanto as pessoas ainda estavam a subir-lhe as escadas. “As obrigações imprimem aos homens tantos sacrifícios!” O trabalho dignifica o homem? Ou, ao contrário, humilha-o à sombra da necessidade? Sem medo, um skatista “pegava carona” na traseira do ônibus, deslizando pelas ruas, tentando viver radicalmente, contrastando com a monotonia do dia.
As lojas abriram-se oferecendo produtos ainda mais caros que no dia anterior. Mas a inflação não chega aos 6% ao ano! Quem afirmava isso? O governo? A realidade sempre desmentia os números oficiais. Ambulantes também se posicionavam nas calçadas com seus produtos falsificados, vindos da china, cuja durabilidade era curta e a procedência, duvidosa. Um menino furtou uma maçã da barraca de um ambulante o qual correu atrás do gatuno. Porém, já versado nas leis da rua, o menino conseguiu escapar deixando o ambulante desolado, gritando impropérios para o menino que não mais lhe estava ao alcance da vista. Na escola, no fim da avenida, os alunos alegres, conversavam sobre sonhos distantes, talvez inalcançáveis, mas que ainda possuíam o poder de fazê-los felizes. “Há tanta vida e promessas à frente!” Jovens vestidos com roupas próprias para exercícios físicos corriam com fones de ouvidos dos quais se podiam ouvir chiados de uma canção muito tocada naquele verão. Na lanchonete, peões de obra aproveitavam um desjejum reforçado, antes de seguir para o trabalho. O edifício em construção erguia-se pela força das mãos daqueles homens. Levavam uma marmita que comeriam fria na hora do almoço. Ovo frito, arroz e feijão. Não havia como comerem carne. “Está tão cara!” E o governo dizia para que as pessoas trocassem carne por ovo. Somente quem é rico tinha direito a certas regalias. A impunidade dos corruptos provocava uma acalorada discussão entre os aposentados. “É sempre assim: a polícia prende a justiça solta”. “O problema é que o pobre não tem direito a advogado”. “Mas há as defensorias públicas atulhadas de causas, que não serão julgadas em menos de um ano. Talvez, até mais, a justiça é morosa. E os advogados procrastinam os feitos.” O Brasil está afundando? Não, ainda é o país do futuro. Mas este futuro talvez não chegue nunca. É que a corrupção devora os impostos do povo. Financiam os paraísos fiscais com o dinheiro brasileiro. A polícia nadava contra corrente, sem equipamento próprio, sem pessoal suficiente, com recursos escassos e, nos tempos atuais, era um milagre que ainda recebessem os salários em dia.
O homem que lia o jornal na parada de ônibus espantava-se pelo anúncio de aumento nos impostos e tarifas de água e luz. “Para onde vai todo este dinheiro? Em que são investidos os nossos impostos?” Ele receberia a resposta quando o ônibus, que pegara no ponto, quebrasse no meio do percurso. “No transporte público, aquele dinheiro não era investido. Então, onde estaria? Provavelmente, engordando a fortuna dos, já bilionários, governantes do país.” Pombos procuravam alimento em meio a bitucas de cigarro na calçada, enquanto a mãe deixava os filhos na creche, a fim de poder seguir para o trabalho. As crianças choravam, a mulher, com coração em pedaços, partia sem olhar para trás. “Assim, dói menos…”. Em meio aos carros, jovens distribuíam jornais, sob o sol, dizendo a si mesmos: “Pelo menos é um emprego digno”. Disputavam espaço com um circense que fazia malabarismo no sinal de trânsito em busca de alguns trocados. Os pinos subiam e desciam para as mãos treinadas do malabarista sem despertar qualquer reação nos motoristas. “As pessoas estão mais frias nos dias atuais…”. Nas calçadas, os homens se deslocavam rapidamente, sem se darem conta do mundo que lhes rodeava. Mulheres, trajando placas em que se lia: atestados médicos admissionais, ligue: xxxxxxxx, gritavam slogans para atrair clientes. No alto das casas, antenas de tevê, disseminavam uma paz momentânea num programa de culinária. Mas também discutiriam assuntos importantes! Era o dia do transexual. “O país vivia mergulhado em falsos tabus que deveriam ser desmistificados”. Meninos descalços andavam pelas avenidas da cidade, portando garrafas descartáveis cheias de cola de sapateiro. “É para enganar a fome, doutor!” Os policiais fingiam não ver. “Imagina se forem apreender cada menino de rua que esteja fumando craque ou usando outro tipo e droga?” Na igreja, os poucos fiéis que ainda perseveravam na fé, rezavam por um mundo decadente. “Senhor, é pela fome que eu roubava!”
Homens empertigados em seus belos ternos caminhavam até seus carros importados acompanhados de perto por flanelinhas maltrapilhos. Os elegantes senhores estenderam uma nota de dois reais aos braços miseráveis, devorados pela droga. “Valeu aí, doutor!” Carroças atulhadas de papeis eram puxadas por sofridos cavalos, cujas feridas atraiam enormes moscas. Em cima do atrasado veículo, homens chicoteavam as costas marcadas dos animais. “Mais rápido, desgraça!” Distante, ouvia-se, o cantarolar da doméstica, limpando a calçada. A cantoria foi cortada pela voz sonora da patroa a ralhar com a moça. “Não é mais permitido lavar-se calçadas usando a mangueira. Está esquecendo da crise hídrica?” A mulher murmurou um pedido de desculpas em meio a lágrimas sentidas e caudalosas. O homem de mãos calejadas capinava um lote tomado de mato, enquanto assobiava. A roupa empapada de suor era a única que possuía. Não tinha como adquirir outra, pois o que ganhava com seu trabalho era muito pouco, o suficiente apenas para comer. “Saco vazio não para em pé!” O açougueiro tirava pesados e caros pedaços de carne de um caminhão frigorífico sob o olhar atento de cães de rua. “Passem daqui, animais imundos!” A menina que lia no ponto de ônibus, levantou-se sobressaltada quando se aproximou a sua condução. Porém, como o veículo já estava entupido de passageiros, o motorista nem se deu o trabalho de parar. A menina, sem opções, resolveu seguir para a escola a pé, o que a faria perder as primeiras aulas. A professora novamente a repreenderia. Apesar de justificar com o atraso do ônibus, a professora suspeitava de sua honestidade. Talvez, por ela ser negra e pobre. Por mais que se esforçasse para acompanhar as aulas, era-lhe difícil estudar sozinha. O tempo passava irrefreável. Já era quase dez horas, a vida fervia sob o sol de verão. Aproveitando o calor fora de época, ambulantes transportavam retangulares pedaços de isopor em que se enfileiravam inúmeros óculos solares. Eram aqueles, os mesmos vendedores que, quando chovia, ofereciam guarda-chuvas, por valores absurdos, sob as marquises. “Na minha mão, é mais barato!” E os trapos da bandeira nacional continuavam a tremular, fazendo a todos recordar, as incontáveis virtudes da nossa pátria amada, Brasil.

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