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“Teste-se a si mesmo pela humanidade.
Ela faz quem duvida duvidar, quem acredita, acreditar.”
Franz Kafka

Não tão admirável mundo novo

Giordana Bonifácio

Esse é o nosso passado e nosso presente. Sigam-me e contemplem bem. Tudo à nossa volta foi produto do que fizemos durante toda história da humanidade. É certo que demorou um pouco, foi produzido após inúmeras guerras e conflitos de toda natureza. Naquele lado, vocês podem ver bombas nucleares. Ainda há muitas por aí, ameaçando o mundo com a possibilidade de um apocalipse atômico. A sua esquerda, estão lembranças do holocausto, sapatos das pessoas mortas num campo de concentração, quando foram exterminados seis milhões de judeus pelos alemães. Hitler queria fazer uma purificação étnica para prevalecer tão só a raça ariana na Alemanha. Horrível, não? Desculpem-nos, mas temos muito pouco das populações africanas devastadas desde a época da escravidão, mas seus reflexos podem ser sentidos ainda no presente. Vocês devem estar a par do preconceito racial que ainda marca as relações humanas no mundo? Negros e brancos separados tão somente pela cor de sua pele. É certo que nossa sociedade é extremamente discriminadora. Segregam-se populações por condições ínfimas que as diferenciam apenas superficialmente. Religião e raça (que, a proposito, não existe na espécie humana, somos todos homo sapiens), são motivos de guerras homéricas. Aliás, Homero escreveu sobre os primevos conflitos armados no berço da sociedade ocidental. Estão vendo aquele cavalo de madeira? É uma simulação do Cavalo de Tróia que levou gregos à vitória sobre troianos. Não gostaram dele? Bom, é difícil agradar gregos e troianos. Um pouco mais à frente, vocês podem apreciar uma bela guilhotina. Um símbolo da Revolução Francesa. Muita gente perdeu a cabeça numa belezinha destas. Até mesmo a rainha Maria Antonieta. Foi um conflito estimulado pela gastança dos nobres e do clero, quando a plebe, ou o terceiro estado era apartado da vida política da França, muito embora a sua crescente importância econômica. É que a burguesia, que enriqueceu devido à Revolução Industrial, não gozava de direitos políticos que, tendo em vista sua fortuna, deveria ter. Foi então que a burguesia e todo terceiro estado insuflaram-se contra o poder vigente. Com o êxito do movimento, condenaram a morte toda nobreza e membros do clero, mas, depois, o levante desvirtuou-se levando inclusive seus líderes iniciais à guilhotina.
Queiram acompanhar-me por este corredor. Aqui está o resultado de décadas de corrida armamentista. Assim foi denominada a luta para possuir a melhor tecnologia em armamento entre Estados Unidos e a antiga União Soviética. Isto ocorreu no período denominado Guerra Fria em que todo o mundo vivia sobre a ameaça da guerra atômica, da qual já lhes falei. A União Soviética não conseguiu manter-se nesta guerra velada, pois não possuía recursos suficientes para patrociná-la. O país faliu ao lado do regime que defendia. Na verdade, penso que o comunismo não deve ser imposto, mas acordado com a população. O erro de Marx, Lenin e companhia limitada foi acreditar na honestidade do homem. A União Soviética foi um país excelente para os membros do partido comunista e terrível para o resto da população. A corrupção parece estar embrenhada no caráter dos seres humanos. Em quem podemos confiar? Nas atuais circunstâncias, talvez nem mesmo em Deus… Seguindo por esta sala verde, é possível apreciar antigos navios negreiros. Foram nestas embarcações, em condições desumanas, que se operava o tráfico de escravos pelo mundo. Seres humanos negociados em praça livre nos portos, como se fossem animais. Aos poucos, foi banida esta prática, mas, ainda, persevera em algumas partes do mundo. Existem quadrilhas, até mesmo nos países ditos desenvolvidos, submetendo pessoas ao trabalho análogo de um escravo. Outro país que se vale dessa mão de obra é a China, os salários reduzidos ou a inexistência deles fez rugir mais alto a economia daquele país. Contudo, para usufruir das benesses do comércio num país de mais de um bilhão de pessoas, os demais países do mundo fingem não ver esta afronta aos direitos humanos. Mas sigamos, pois, neste museu, existem muitas coisas interessantes de se ver…
Estão vendo ali, ao lado daquela coluna? É uma pintura representativa de soldados partindo para as cruzadas. Foi um conflito que tinha como fim aparente livrar a Europa da ocupação moura. Mas, o objetivo real desta guerra era econômico, queriam fortalecer o comércio de especiarias e produtos vindos do Oriente para a Europa. Saiu-se vitorioso, em todos os sentidos, o Ocidente. Hoje, reascendeu-se o ódio contra as populações Islâmicas. Ocorre que, valendo-se do terror, alguns grupos islâmicos querem impor a religião de Maomé no Ocidente e fortalecê-la no Oriente. As ações desses grupos são brutais. As cenas de horror que difundem na internet são chocantes. Vão de encontro ao que, na verdade, Maomé pregava. A religião Islâmica, que tem como intuito a paz, foi inteiramente desvirtuada por estes grupos. Mas depois da violência que sofreram durante toda a nossa história, fica meio difícil falar de negociações pacíficas frente às atrocidades cometidas no passado pelo Ocidente contra os mulçumanos. A gente nem mais sabe quem tem razão num conflito dessa proporção. Se formos tentar pegar a ponta do emaranhado de fios, acabamos por encontrar muito mais do que desejávamos descobrir. Estão vendo aquela pintura a sua esquerda? Aquela é uma representação das populações indígenas nas Américas que foram devastadas pelo homem branco. Os europeus exterminaram comunidades inteiras, procurando explorar os continentes recém-encontrados. Naquele painel, está a imagem da explosão da bomba de Hiroshima. As cidades de Hiroshima e Nagasaki foram as únicas a sofrerem os terrores da bomba atômica. As cidades foram inteiramente destruídas. Um contingente imenso de civis foi morto. O inusitado é que foi a explosão destas duas bombas o estopim para a Guerra Fria. É estranho como parecemos peões num jogo de xadrez em que está em disputa o controle do mundo, não é? Será que ainda possuem estômago para as próximas telas e representações? Não quero cansá-los com minha voz. É que há tanto a se aprender, é tanto o que se esconde sob os tapetes pesados do tempo, ou que foi propositalmente escondido para que o povo permanecesse na ignorância, assistindo, na televisão, o jornal diário sem em nada opinar… Não devemos aceitar a realidade que nos impõem, lembrem-se disto!
A sua frente, estão imagens do maior atentado terrorista da história. Nesse episódio, foram lançados dois aviões contra as Torres do World Trade Center. Milhares de inocentes foram mortos. Na televisão e na internet, foram disseminadas imagens terríveis desse acontecimento. Pessoas que se lançavam das Torres, para não morrer pelo fogo, mas da queda de centenas de metros. Lembro-me bem desse dia, até então, não se tinha uma visão clara do que era o terror. Há poucos dias foi acrescida mais uma tela a essa seção do museu. A ação mais dura procedida contra o direito à liberdade de expressão conquistado há tão pouco tempo. Isto se formos contar desde o desenvolvimento da moderna sociedade. Sei que devem se recordar da ação de rebeldes jihadistas contra a redação da Revista Charles Hebdo. Nesta ofensiva, artistas foram mortos por ousarem falar num mundo que nos quer fazer mudos. Não lhes é novidade que repórteres do ocidente estão sendo assassinados em nome de um grupo de mulçumanos? Estes pretensos defensores do Islã são tolos que em função de sua interpretação equivocada do alcorão, querem dominar o mundo inteiro de forma violenta. Na verdade, parece-me que se trocaram tão só os oponentes nesse imenso jogo de xadrez. A Guerra Fria esquentou, moçada! O tráfico de armas faz com que chegue, às mãos destes rebeldes, armamento para que cometam suas ações violentas. Enquanto isto, o povo, os peões a serem sacrificados num gambito, são vítimas de seu medo. Seu pavor instiga a fogueira da discriminação. Enquanto isto, vejam, naquele quadro, ali está o número de mortos no Brasil que são privados de tratamento de saúde digno, naquele outro, um retrato de uma sala de aula, no norte do Brasil, em que crianças não tem nem mesmo onde se sentarem. E, por fim, a sua frente, está a vultosa quantia que é desviada dos impostos, também no Brasil, para paraísos fiscais. Sei que são imagens desagradáveis, mas nesse museu queremos mostrar aquilo que não é tão admirável nesse nosso mundo novo.

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