Arquivo do mês: fevereiro 2015

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“Sou entre flor e nuvem,
estrela e mar. Por que
havemos de ser unicamente
humanos, limitados em chorar?”
Inscrição – Cecília Meireles

A flor

Giordana Bonifácio

Vejo uma flor tão triste e abandonada,
Num jardim sem carinho de ninguém.
Chora a sua dor na gélida alvorada,
O orvalho são as lágrimas que tem.

Ó amarga flor tão só e ainda apaixonada…
De seu amado, só ganha o seu desdém.
Quem diria que seria ela algum dia amada?
Que, da vida, seria a razão de alguém?

O poeta que ora canta esta poesia,
É quem tem amor por tão pobre flor.
Faço-lhe versos como cortesia,

Mas não lhe agrada a voz deste trovador.
As suas mágoas nem a arte anestesia,
Pois não lhe acende na alma a chama do amor.

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Estrela Solitária

“Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.”
Os versos que te fiz – Florbela Espanca

Estrela em flor

Giordana Bonifácio

Podes ouvir a minha poesia, meu amor?
Podes ver como meu cantar é puro?
Mil vezes, sim, mil vezes eu te juro,
Que converterei em arte a minha dor.

Sou como a hera que cobre todo o muro,
Escondo com palavras meu louco ardor.
Abre-se a minha dor, estrela em flor,
Pontilha todo céu em seu manto escuro.

Estes sonhos que as noites não falam,
Marcas das mágoas que n’alma se guardam,
Fazem mais real o meu vão desatino.

Queres saber qual é o meu maior segredo?
É que, da vida, já não sinto medo.
Não me assusta o meu mísero destino.

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“Quem vai dizer ao coração,
Que a paixão não é loucura
Mesmo que pareça
Insano acreditar
Me apaixonei por um olhar
Por um gesto de ternura
Mesmo sem palavra
Alguma pra falar”
Quem a gente ama – Oswaldo Montengro

Paixão secreta

Giordana Bonifácio

Bem sabes: estes meus poemas são teus.
É aqui, no meu coração, onde tu moras.
És dona das estrelas e dos céus.
Imperas sobre as noites e as auroras.

És tu quem rege o passar cruel das horas.
O mar imitou a cor dos olhos teus,
Dos seus lábios, o sabor das amoras.
És tu divina, chef d’ouvre de Deus.

És a brisa que, suave, sopra o vento.
És a flor que faz mais triste este poeta.
Visão que não cairá em esquecimento.

Mística rainha d’outras Primaveras,
Chama de minha paixão mais secreta,
És tu quem mansas faz as rudes feras.

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“Noite que assombra a memória,
Noite que os medos convida,
Erma, triste, merencória.”
Machado de Assis – Luz entre sombras

Noturno

Giordana Bonifácio

Como dói esta alma tão cheia de tristeza.
O breu, das noites, faz horas sombrias.
Quem me roubou a alegria morna dos dias?
Quem me fez à mágoa sempre presa?

O vento sopra sua dor numa reza.
As noites possuem almas cruéis e frias
Ferem minha alma com mil agonias.
A Solidão, dor que a vida represa,

Fez morrer o sol que queimava em mim.
As noites, não têm, desde então, mais fim.
Os meus dias vestem luto e já não há luar.

Ergo as mãos, aos céus, tesas numa prece.
Enfim, se ao sol meu verso arder fizesse,
Com furor, mil sonetos iria criar.

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“Não, a vida não me desapontou!
Pelo contrário, todos os anos a acho melhor,
mais desejável, mais misteriosa…”
Friedrich Wilhelm Nietzsche

A montanha

Giordana Bonifácio

A montanha a subir é íngreme, a dificuldade de escalar tal desafio aumenta sobremaneira com o peso que carregamos nas costas. Vamos, com as mãos calejadas e feridas, com sangue escorrendo pelos braços, pois o importante é chegarmos algum dia ao topo. Não importa quando. Mais cedo ou mais tarde, nossos esforços convergem para este objetivo. Mais alto, grita-nos nosso coração. Não temos escolha. Quanto mais forte nosso pulso, subimos com mais afinco. O som dos temores é ampliado pelas vozes em nossa alma. O mundo todo torcendo para que não consigamos, esperando que desistamos de nossa luta. Mas somos fortes. Não vamos parar. A montanha não nos vencerá, bem como, aqueles que querem nossa derrota. As pedras são lisas, escorregamos várias vezes na escalada. Quanto mais subimos, maior é o perigo da queda. Será que vamos conseguir? O pavor sibila nos nossos ouvidos, as mãos começam a suar. Parece que o grau de dificuldade de nossa missão aumenta sobremaneira a cada metro que ultrapassamos. As verdades fazem-se claras quando as mentiras são desvendadas. Isto porque a solidão de nossa tarefa faz-nos entender melhor o mundo. Estamos isolados, mas, estranhamente, mais insertos na vida. É preciso afastar-se da realidade para melhor compreendê-la. Aqui do alto, é-nos possível ver tudo nitidamente. Estamos a ver o mundo da perspectiva de Deus. Ele vê tudo que nos resta encoberto pela venda do cotidiano. As pessoas desvelam suas almas quando precisamos de seu auxílio. Por isto, prosseguimos sozinhos na nossa luta diária, temos de sobrepujar os perigos que nos cercam, não podemos contar com ninguém. A sociedade virou-nos as costas. Quando nos sentimos mais sozinhos, as mágoas alimentam a fogueira de nossa coragem. Talvez, só desejemos mostrar para aqueles que nos esperam ver derrotados a nossa fantástica vitória. Nossa força é a esperança, combustível que se inflama em nosso íntimo. Há ainda um longo caminho a nossa frente. Prossigamos.
As desilusões ardem-nos como as feridas em nossas mãos. Sangram em nossas almas. Mas somos mais fortes que as dores que nos afligem. Sentir é o absinto que inebria as mentes humanas. “Nós somos o que queremos ser”, dizem, levianamente, os homens. Ah, como seria bom se fosse assim tão simples… Nós somos, em verdade, o que nos permitem ser. Os nossos pares nos limitam. É que nos obrigam a sermos pares quando queremos ser ímpares. Se não nos igualamos ao que dita o mundo, somos excluídos pelo preconceito. Não somos únicos, mas um artigo produzido sequencialmente para dominar o universo. Estamos sozinhos? Será que o espaço é o vazio que nos quer fazer acreditar a ciência? Será que ninguém mais pode ouvir nossas dores? A matéria explodiu, fez-se a vida em milhões de anos. Será que se não houvesse alguém para determinar os acontecimentos, ainda assim eles ocorreriam? É difícil ver no escuro de nossas dúvidas. Voltemos a nossa escalada. As lágrimas tem sabor de oceanos bravios, nosso espírito é a imensidão que há em nós. Parece que nosso saber faz-nos, cada vez mais, prisioneiros do mundo. A sabedoria não liberta como o esperado. Somos acorrentados por nossas descobertas. Escravos do mundo que tentamos desvendar. Ser ou não ser é uma questão já ultrapassada. Saber ou ignorar, esta é a questão! Vamos fechar os olhos para os fatos. O real é real demais para nós. As memórias aumentam a carga que levamos conosco. Não é possível deixar o passado para trás. Somos o produto final do que vivemos. As marcas em nosso espírito são perenes. Permanecem para sempre em nós. Ser é o pecado mais grave que cometemos. “Se queres te salvar pega a tua cruz e siga-me.” A montanha não virá a nós se não formos a ela. A fé alimenta nossas almas. “Há um motivo para seguirmos”, dizem as religiões, “só não sabemos ainda qual”. A morte nos trará respostas que a vida não nos conseguiu responder. Mas tememos o desconhecido, ainda que supra as dúvidas pelas quais passamos décadas à procura de respostas.
A montanha é a vida, é a ela que devemos subjugar. Devemos ser fortes. Escalar ainda que o mundo nos lance pedras. Devemos vencer os obstáculos com que a realidade permeia a nossa missão. Devemos ser, acima de todas as coisas, perseverantes. É que muitas vezes pensamos estar cumprindo a pena de Sísifo: um trabalho que não renderá fruto algum. Sentimos que, talvez, após cumpridos nossos objetivos, tenhamos de voltar à base da montanha e empreender a mesma escalada, com as mesmas cargas, tendo em frente os mesmos obstáculos. Mas se viver é isso mesmo? Será que a vida não é o que fazemos dos desafios que nos cercam? Será que a resposta é esta que sempre esteve clara, mas nos recusamos a enxergar? Enquanto subimos, pensamos estar cumprindo a pior das penas, que somos torturados por uma vida cruel demais para nós. Mas será que Deus não sabe o peso certo que devemos levar? Será que Ele não sabe o tamanho da cruz que podemos suportar? Por que, simplesmente, não confiamos na imensa sabedoria de Deus? Reclamamos da nossa carga, comparamos com as que os outros levam. Sentimo-nos injustiçados, mas, por quê? Temos conosco todas as ferramentas para tornar nossa existência algo mais agradável. Um passo simples a ser dado é dizer mais “sins” do que “nãos”. Vamos aceitar mais as novidades que tempo produz. Não nos recusar nunca a evoluir. O mundo está desenvolvendo-se constantemente, devemos acompanhar o ritmo das mudanças. Mudar. Devemos nos exercitar a conjugar este verbo. Pois nos prendemos ao comodismo. Queremos que as dádivas na nossa vida caiam como manjares do céu. Minha mãe dizia-me sempre: “o que vem fácil, também vai fácil”. Então, como dizem por aí, na nossa escalada: “devemos rebolar!” Lutar com unhas e dentes para transpor a nossa missão mais difícil: existir.
Estamos quase no topo, não vamos parar agora. Nossos corações estão feridos, mas quem disse que seria fácil? Em realidade, sempre nos alertaram para as dificuldades que enfrentaríamos. Queriam-nos fazer desistir. Mas conseguimos vencer as vozes pessimistas que nos achincalhavam e condenavam nossos propósitos. A nossa maior vitória é conseguirmos chegar ao fim da escalda de nossas vidas. Mesmo que estejamos com as mãos calejadas e com o corpo extenuado pela subida. Estamos quase lá, não vamos nos acovardar diante de mais um desafio: vencer a nós mesmos. Temos de subjugar a dor que se faz mais forte a cada passo. Temos de derrotar o cansaço, tão presente em nosso desafio. Mas somos guerreiros, nossa força brota no fundo da alma. O medo é, agora, o que nutre a nossa coragem. Somos invencíveis, assim nos fez a vida. Tivemos de batalhar por nossos sonhos, que, de início, pareciam-nos inalcançáveis. Agora estão próximos, podemos enxergá-los luminosos à nossa frente. Se estendermos a mão podemos até os tocar. Devemos ter cuidado, podem ser miragens no deserto de nossas almas. Ouro de tolo que engana os homens com seu brilho. Não vamos nos deixar ludibriar. Sigamos com cuidado. Há o risco eminente de cairmos, vamos aproximar-nos com cautela. Sei que estamos sedentos, mas “não devemos ir com muita sede ao pote”. Assim que nos aproximarmos mais, poderemos distinguir se não é uma ilusão tentando ludibriar nossos olhos cansados. A montanha da vida é traiçoeira. É repleta e armadilhas para pegar os menos atentos. É como uma esfinge que promete devorar quem não responda corretamente as suas charadas. Ainda corremos risco. É que, no fim de nossa escalada, estamos sujeitos à morte. Esta incógnita cruel que sempre nos ameaçou. O que há depois de cumpridos na Terra nossos objetivos? Será que a promessa da fé, será desfeita em pó como nossos corpos que para este retornarão? “Eis o vosso prêmio: vedes o que vos aguarda?” Alerta-nos a morte. Nossos olhos não conseguem ver além da luz. Estamos cegos pela visão estonteante de nossos sonhos. “Conseguimos.” Extasiados, fincamos no topo da montanha a bandeira de nossa vitória. Porém, não temos muito tempo para apreciar nosso êxito. Somos logo levados pela morte à balsa do barqueiro. No fim, só necessitamos de duas moedas para pagar o pedágio e seguirmos, afinal, para o reino dos mortos.

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“Todo dia o sol da manhã
Vem e lhes desafia
Traz do sonho pro mundo
Quem já não o queria
Palafitas, trapiches, farrapos
Filhos da mesma agonia.”
Alagados – Paralamas do Sucesso

Pátria amada, Brasil.

Giordana Bonifácio

Tremulavam ainda os farrapos de uma bandeira do Brasil esquecida no alto de uma caixa d’água, restos abandonados desde a última Copa do Mundo. No silêncio de uma rua vazia, cães sem dono andavam a esmo a procura de algo que ainda não sabiam. Comida? Água? Carinho? Proteção? Ou tão somente uma cadela no cio? As grades que deveriam proteger os moradores faziam-nos prisioneiros do seu próprio medo. “Homo homini lupus”. O sino da igreja badalava no silêncio às seis horas da manhã. Seis badaladas. Os sinos dobravam a vida e não a morte. Mas por quem será que ainda dobravam? Não pelas almas que acordavam contrariadas. Dobravam por quem não poderia mais os ouvir. Dobravam, na solidão, por dores ainda não sofridas. Aos poucos, o mundo despertava, os jovens encaminhavam-se para a escola com suas mochilas coloridas de super-heróis, seres fantásticos que não poderiam nunca os salvar. E quem o poderia? “Ah, quanta injustiça, quanta iniquidade assola o mundo! A quem o povo poderia apelar?” Não aos seus meritíssimos juízes, que faziam de Tétis uma deusa de visão magistral. Cegos? São os pobres que não sabiam como escolher seus políticos. A lama acumulava-se nas calçadas, fazendo com que a moça de salto alto tivesse de tirar os sapatos de camurça para cruzar a rua. Garis de roupa alaranjada tentavam limpar as sarjetas em que um bêbado tombou na noite passada. Acordaram-no com violência. O homem, ainda ébrio, levantou-se cambaleante e seguiu pela rua, como um cão sem dono. Virou a lata de lixo, à procura de comida. Encontrou restos que, imediatamente, comeu. Alimentava-se da piedade humana. Mas esta é, hoje, uma refeição tão minguada… Um ônibus lotado tentava deslocar-se enquanto as pessoas ainda estavam a subir-lhe as escadas. “As obrigações imprimem aos homens tantos sacrifícios!” O trabalho dignifica o homem? Ou, ao contrário, humilha-o à sombra da necessidade? Sem medo, um skatista “pegava carona” na traseira do ônibus, deslizando pelas ruas, tentando viver radicalmente, contrastando com a monotonia do dia.
As lojas abriram-se oferecendo produtos ainda mais caros que no dia anterior. Mas a inflação não chega aos 6% ao ano! Quem afirmava isso? O governo? A realidade sempre desmentia os números oficiais. Ambulantes também se posicionavam nas calçadas com seus produtos falsificados, vindos da china, cuja durabilidade era curta e a procedência, duvidosa. Um menino furtou uma maçã da barraca de um ambulante o qual correu atrás do gatuno. Porém, já versado nas leis da rua, o menino conseguiu escapar deixando o ambulante desolado, gritando impropérios para o menino que não mais lhe estava ao alcance da vista. Na escola, no fim da avenida, os alunos alegres, conversavam sobre sonhos distantes, talvez inalcançáveis, mas que ainda possuíam o poder de fazê-los felizes. “Há tanta vida e promessas à frente!” Jovens vestidos com roupas próprias para exercícios físicos corriam com fones de ouvidos dos quais se podiam ouvir chiados de uma canção muito tocada naquele verão. Na lanchonete, peões de obra aproveitavam um desjejum reforçado, antes de seguir para o trabalho. O edifício em construção erguia-se pela força das mãos daqueles homens. Levavam uma marmita que comeriam fria na hora do almoço. Ovo frito, arroz e feijão. Não havia como comerem carne. “Está tão cara!” E o governo dizia para que as pessoas trocassem carne por ovo. Somente quem é rico tinha direito a certas regalias. A impunidade dos corruptos provocava uma acalorada discussão entre os aposentados. “É sempre assim: a polícia prende a justiça solta”. “O problema é que o pobre não tem direito a advogado”. “Mas há as defensorias públicas atulhadas de causas, que não serão julgadas em menos de um ano. Talvez, até mais, a justiça é morosa. E os advogados procrastinam os feitos.” O Brasil está afundando? Não, ainda é o país do futuro. Mas este futuro talvez não chegue nunca. É que a corrupção devora os impostos do povo. Financiam os paraísos fiscais com o dinheiro brasileiro. A polícia nadava contra corrente, sem equipamento próprio, sem pessoal suficiente, com recursos escassos e, nos tempos atuais, era um milagre que ainda recebessem os salários em dia.
O homem que lia o jornal na parada de ônibus espantava-se pelo anúncio de aumento nos impostos e tarifas de água e luz. “Para onde vai todo este dinheiro? Em que são investidos os nossos impostos?” Ele receberia a resposta quando o ônibus, que pegara no ponto, quebrasse no meio do percurso. “No transporte público, aquele dinheiro não era investido. Então, onde estaria? Provavelmente, engordando a fortuna dos, já bilionários, governantes do país.” Pombos procuravam alimento em meio a bitucas de cigarro na calçada, enquanto a mãe deixava os filhos na creche, a fim de poder seguir para o trabalho. As crianças choravam, a mulher, com coração em pedaços, partia sem olhar para trás. “Assim, dói menos…”. Em meio aos carros, jovens distribuíam jornais, sob o sol, dizendo a si mesmos: “Pelo menos é um emprego digno”. Disputavam espaço com um circense que fazia malabarismo no sinal de trânsito em busca de alguns trocados. Os pinos subiam e desciam para as mãos treinadas do malabarista sem despertar qualquer reação nos motoristas. “As pessoas estão mais frias nos dias atuais…”. Nas calçadas, os homens se deslocavam rapidamente, sem se darem conta do mundo que lhes rodeava. Mulheres, trajando placas em que se lia: atestados médicos admissionais, ligue: xxxxxxxx, gritavam slogans para atrair clientes. No alto das casas, antenas de tevê, disseminavam uma paz momentânea num programa de culinária. Mas também discutiriam assuntos importantes! Era o dia do transexual. “O país vivia mergulhado em falsos tabus que deveriam ser desmistificados”. Meninos descalços andavam pelas avenidas da cidade, portando garrafas descartáveis cheias de cola de sapateiro. “É para enganar a fome, doutor!” Os policiais fingiam não ver. “Imagina se forem apreender cada menino de rua que esteja fumando craque ou usando outro tipo e droga?” Na igreja, os poucos fiéis que ainda perseveravam na fé, rezavam por um mundo decadente. “Senhor, é pela fome que eu roubava!”
Homens empertigados em seus belos ternos caminhavam até seus carros importados acompanhados de perto por flanelinhas maltrapilhos. Os elegantes senhores estenderam uma nota de dois reais aos braços miseráveis, devorados pela droga. “Valeu aí, doutor!” Carroças atulhadas de papeis eram puxadas por sofridos cavalos, cujas feridas atraiam enormes moscas. Em cima do atrasado veículo, homens chicoteavam as costas marcadas dos animais. “Mais rápido, desgraça!” Distante, ouvia-se, o cantarolar da doméstica, limpando a calçada. A cantoria foi cortada pela voz sonora da patroa a ralhar com a moça. “Não é mais permitido lavar-se calçadas usando a mangueira. Está esquecendo da crise hídrica?” A mulher murmurou um pedido de desculpas em meio a lágrimas sentidas e caudalosas. O homem de mãos calejadas capinava um lote tomado de mato, enquanto assobiava. A roupa empapada de suor era a única que possuía. Não tinha como adquirir outra, pois o que ganhava com seu trabalho era muito pouco, o suficiente apenas para comer. “Saco vazio não para em pé!” O açougueiro tirava pesados e caros pedaços de carne de um caminhão frigorífico sob o olhar atento de cães de rua. “Passem daqui, animais imundos!” A menina que lia no ponto de ônibus, levantou-se sobressaltada quando se aproximou a sua condução. Porém, como o veículo já estava entupido de passageiros, o motorista nem se deu o trabalho de parar. A menina, sem opções, resolveu seguir para a escola a pé, o que a faria perder as primeiras aulas. A professora novamente a repreenderia. Apesar de justificar com o atraso do ônibus, a professora suspeitava de sua honestidade. Talvez, por ela ser negra e pobre. Por mais que se esforçasse para acompanhar as aulas, era-lhe difícil estudar sozinha. O tempo passava irrefreável. Já era quase dez horas, a vida fervia sob o sol de verão. Aproveitando o calor fora de época, ambulantes transportavam retangulares pedaços de isopor em que se enfileiravam inúmeros óculos solares. Eram aqueles, os mesmos vendedores que, quando chovia, ofereciam guarda-chuvas, por valores absurdos, sob as marquises. “Na minha mão, é mais barato!” E os trapos da bandeira nacional continuavam a tremular, fazendo a todos recordar, as incontáveis virtudes da nossa pátria amada, Brasil.

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“Por favor
Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d’água”
Gota d’água – Chico Buarque

Mágoa

Giordana Bonifácio

A mágoa, que me fez de amor avara,
É uma sombra que pesa sobre mim.
É ferida que o tempo não repara,
Dor para a qual não existe cura ou fim.

Por que a lembrança resta em mim tão clara?
Como uma praga que invade o meu jardim?
Tal penar, que do mundo me separa,
Fez-me ser uma pessoa tão gauche assim.

O passado fez meu espírito triste
E tudo mais que em minha vida existe.
O presente decorre do que veio antes.

Meus sonhos, como as folhas, caem no Outono.
São partes de mim, que ao mundo abandono,
Para se irem nas águas murmurantes.

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“Tenho de justificar o que me fere.
Não importa a minha felicidade ou infelicidade.
Sou o poeta.”
O cúmplice – Jorge Luís Borges

Não sinto o amor que a minha pena escreve.

Giordana Bonifácio

Não sinto o amor que a minha pena escreve.
Ah, meus poemas são só loucas quimeras!
Meu coração é tão frio quanto a alva neve.
Lembro-me de distantes Primaveras

Em que ainda minha alma era pura e leve.
Hoje, a solidão fere-me deveras.
Vencer tal força qual homem se atreve?
Luto, todo o dia, contra três cruéis feras:

A mágoa que governa a minha vida;
A dor que me dirige o pensamento;
E a loucura que guia esta alma perdida.

Pudera eu, quem sabe, amar de verdade…
Não tão só na poesia que, triste, invento,
Nem na fantasia que ao meu sonho invade.

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“Não deve prometer andar na escuridão
aquele que não viu o anoitecer”.
J. R. R. Tolkien

Promessas para um breve futuro

Giordana Bonifácio

Quero tocar as mais altas estrelas;
Beijar da noite os seus lábios escuros;
Tocar do mar as suas ondas mais belas;
Demolir prisões com seus grandes muros;

Abrir em meio ao concreto amplas janelas;
Ter dos santos os seus sonhos mais puros;
Ser a mãe que no berço à criança anela;
Ouvir o som que encanta os nascituros;

Quero enfim poder sentir o que é a vida.
Ser mais leve, mais feliz e atrevida;
Amar como quem ama loucamente;

Escalar as mais íngremes montanhas;
Cantar na chuva músicas estranhas;
Ser mais do que foi, em vida, toda gente.

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“Cai chuva, rude e sem dor.
Tu não choras.
Sou eu que choro.”
Solidão – Irene Lisboa

Noite de chuva

Giordana Bonifácio

Chove lá fora. Aqui, estou inteira a ruir.
Porque viver ou morrer não são nada.
Mais vale permanecer enganada,
Sem saber por que chorar ou, então, sorrir.

A minha mente não me deixa dormir.
Lá fora, os sonhos partem na enxurrada.
A dor deixa a minh’alma mutilada.
Estou confusa, já não sei o que é sentir.

A noite, toda mágoa que há em mim, chora.
Sorvo desta dor tão salgada agora.
O passado em presente foi desfeito.

Da noite, todo encanto faz-me triste.
Pois a mágoa na minha vida existe
E um coração vazio bate em meu peito.

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