A humanidade contra o Tempo

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Giordana Bonifácio

Segue a embarcação contra mares revoltos e monstruosas tempestades. Noé ou os Lusíadas? A humanidade, é a esta a que me refiro, que segue contra a corrente, sempre em frente, tendo o tempo como seu maior inimigo. O presente é um agora que corre veloz. Assusta-nos o fluxo incansável do tempo, fazendo o futuro chegar antes do esperado. Num átimo, o tempo se foi. Não é possível reter as horas, os relógios desfazem-se como numa tela de Dali. Somos abatidos por ponteiros, flechas certeiras em nossos corações. Cronos alimenta-se dos filhos, devora a humanidade com apetite voraz. Somos perecíveis. Seres destinados à morte. Tal certeza cruel consome-nos. O passado pesa sobre os homens e o presente é sua incontestável consequência. Confio-lhes um mistério: a vida é o que sabemos aproveitar do que o mundo nos oferece. Mesmo que seja pouco. Há tanto ao nosso redor, um infinito vazio repleto de possibilidades. O universo aumenta continuamente e o homem preso em seu mundinho azul, vivendo eternamente em situação de emergência. Salve-se quem puder, ou quem quiser, ou quem não saiba o que queira. Mas se salve, agarre-se à razão como um bote salva-vidas em meio ao oceano. Dias melhores virão. Mas, cá para nós, ainda que não venham, não teremos escolha. Contudo, é importante não nos quedarmos imóveis, mover-se é essencial. O movimento faz os fatos assentarem-se melhor. “Ainda bem, há uma esperança!” Doce ilusão: a dúvida ainda nos amargará na boca. Sigamos tentando. A vida é feita de nossas escolhas, mas sempre nos há a possibilidade de voltar atrás. Não é vergonhoso arrependermo-nos. Ainda que o tempo seja fugaz e não espere por nossa decisão, temos o direito de errar. No passado, quantos foram os homens tentaram predizer o futuro? Quantas vezes o mundo já deveria ter acabado antes de chegarmos ao presente? O certo é que não existem certezas. Por isso, as falhas são inevitáveis. Reergamos nosso castelo de areia ainda que as ondas destruam-no infinitamente. Sorvamos as lágrimas de imensidão. De olhos marejados, assistimos e vivemos o espetáculo da vida. Sem desculpas, sem medo, coloquemos a sela em nosso cavalo e sigamos contra as tropas inimigas. É isso que o mundo quer nos ensinar, mas é difícil, num primeiro momento, aprender. Mas no fim, a gente compreende. Ou talvez não, vai saber… Estou sentindo-me um tanto Chapeleiro Louco: a minha função é confundir. A pétala diz insensível: “mal-me-quer”. Castigo para quem busca uma solução amorosa numa simples margarida. Para que refazer o teste e discutir com os arcanos da sorte que se pronunciaram naquela flor? A flor morreu despetalada pelas mãos cruéis e apaixonadas dos homens. Sua previsão foi sua vingança contra seus assassinos. Já o zodíaco faz-nos relatos detalhados de uma vida que nos é estranha. Parece que alguém do signo de Gêmeos deverá saber “atuar contra estímulos externos que o desafiarão a agir de forma equilibrada”. Mais agradável é o que prediz para o signo e Áries: “é tempo de poder vivenciar momentos de plenitude emocional”. Podemos trocar de signo? Talvez, se mudarmos a ordem das constelações celestes que regem a astrologia, poderemos converter o universo a uma forma que nos seja mais favorável. Enquanto isto, cartas de tarô dizem que “é hora de conter os gastos”. Mas as questões que gostaríamos de ver respondidas ainda permanecem fora do alcance das artes divinatórias. O oráculo não parece favorável hoje, devemos nos atrever a encarar o dia? Mostremos nossa coragem capaz de desafiar o destino. Não importa o que contra nós conspire. Sejamos imbatíveis, soldados hercúleos em seus dozes trabalhos. Enfrentar e vencer Cérbero de mãos limpas, para nós, é fichinha. Quero ver o semideus duelar, sem auxílio, contra os males que assombram os mortais. Caro amigo mitológico, você perderia feio o desafio. Estaremos sensíveis ao mundo, desprotegidos ante a maldade que nele impera? A dor é a única armadura que possuímos, mas não é capaz de suportar os golpes afiados da espada que ora pesa sobre nós. Mais uma vez, é-nos essencial e superar a força do herói grego, fazendo-nos invencíveis frente às adversidades. Na linguagem dos jovens: “Chupa, Hércules!” Ser-nos-ia possível dominar o tempo? Cronos é anterior ao universo. Quando nada havia, talvez, só o tempo corria. Até que, para movimentar as coisas, houve uma explosão imensa de matéria e surgiu o universo. Será que Cronos ficou entediado com a mesmice do vazio? Só a partir de algumas dezenas de milhares de anos, surgiu o homem. Nesse interregno, ele começou a contar o tempo. Ele o mede, mas não o domina. Na verdade, estamos inteiramente subjugados pelas horas inefáveis. Nessa luta, sempre saímos derrotados. A vida é um suspiro fugaz entre o vazio e o nada. É necessário apressarmo-nos, pois há ainda muito a ser feito. Há muitos planos que jamais foram postos em prática. Admitamos: o homem errou muito e bastante. Talvez o suficiente para não conseguir ir a diante. Mas somos guerreiros, Aquiles cujo calcanhar não está à mostra. Vai que encontram justamente esse nosso ponto fraco? Sejamos estrategistas, imitemos Ulisses com seu cavalo de madeira. Presente de grego? Sim, nem sempre seremos bem-vindos. Sei o que estão pensando: não conseguiremos nunca. Eu já tive essa certeza, pensava que nunca era nunca. Mas, já dizia minha mãe: “nunca é muito tempo”. Para falar a verdade, prefiro o sempre, apesar de ele não existir. Sempre é um desejo que não se concretiza nunca. Nunca é sempre ao contrário. Assim, se formos julgá-los como grandezas antagônicas, se um não existe tampouco o outro. Vou dominar minhas palavras, dizem que me estendo demais em conceitos. É que quero entender o mundo de alguma forma. Mesmo que ele jamais tenha tentado assimilar os desejos da espécie humana. Estamos seguindo na contramão da história. O nosso relógio estaria caminhando no sentido anti-horário? A tecnologia e a evolução seguem em direções opostas. Expressam-se em línguas diversas, uma fala: sonho, já a outra diz: fatos. Aquela diz: imaginação. Esta responde: realidade. Seguem num eterno embate. Sem nunca enfim entrarem num acordo. Havia um homem que via a realidade por meio de sombras numa caverna. Quando foi libertado, pode conhecer a verdade. Ao tentar transmiti-la aos demais, foi severamente castigado. O homem enxerga a vida por lentes embaçadas e não permite que lhe façam ver claramente. O pior cego é o aquele que não quer ver. A humanidade é este cego, aprisionada por tabus e ideias antiquadas, que há muito deveriam estar superadas. A questão é: quem será capaz de mudar o mundo? Quem teria o direito de fazê-lo? Há uma fábula de Monteiro Lobato, “O reformador do mundo”, da qual minha mãe sempre fez uso como ensinamento. Ela dizia que, para mim, o mundo estava sempre errado e que a natureza fazia todo tempo só asneiras. Minha mãe repetia-me na minha infância “preferes que te caia uma jabuticaba ou uma melancia na cabeça?” Com esta pergunta, eu sempre me recolhia em minha incomensurável ignorância e deixava o mundo da maneira que ele era. Mas, ainda assim, é necessário admitir, este mundo em que vivemos reclama por mudanças. Em certos aspectos, vivemos numa sociedade avançada, em outros, parecemos trogloditas vindos da idade da pedra lascada. O futuro que desejamos para hoje, fica confinado numa quantidade reduzida de países enquanto em outros, não há nem mesmo água encanada ou saneamento básico. O que será do futuro quando uma criança pobre na África chora de fome? Nesse instante, sinto que em certos lugares, o tempo parou e recusa-se a voltar a correr. Nem precisamos usar da máquina de H.G. Wells para visualizar o passado: ele está à nossa frente e recusamo-nos a enxergá-lo. O que será de uma humanidade onde o porvir segrega os povos? O tempo, hoje, é uma grandeza física que discrimina a miséria. Será que as velas do futuro, algum dia, apontarão para uma nova realidade? Como nos será possível saber, quando a nossa única certeza é o fim que, um dia, a todos chegará inevitavelmente?

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