Arquivo do mês: janeiro 2015

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“Meu verso é sangue. Volúpia ardente…
Tristeza esparsa… remorso vão…
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.”
Desencanto – Manuel Bandeira

A fonte

Giordana Bonifácio

De onde vem a magia destes meus versos?
De ecos de sonhos de um distante além,
Que ondeiam pelos ares e universos
À procura de quem lhes queira bem.

De onde vem toda mágoa em que estão imersos?
De dores que soam n’alma como um réquiem,
Canção de pesar por amores adversos,
Que no vinho e nas lágrimas se diluem.

De onde, para a poesia, vem-me inspiração?
Da doença que, como uma febre terçã,
Toma-me e faz-me escravo da ilusão.

De onde vêm os delírios deste poeta?
Do orvalho que chora, a cada manhã,
Toda solidão que há neste planeta.

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“Oh, como não me alegra
ter este coração de pedra.”
Cecília Meireles

Alma de pedra

Giordana Bonifácio

Por que amor sempre fui a ti indiferente?
Será que neste peito não há um coração?
O que imune me faz à força paixão,
Quando toma de assalto a toda gente?

Sou poeta e minto o que minh’alma sente.
Turris Eburnea sem desejo ou emoção,
Que mais forte se faz à doce ilusão.
Frio mármore em que só a dor é presente.

Alma de pedra, fonte de meus sonhos,
Tão cândidos, tão amargos e tristonhos,
Refresca a minha boca só um instante.

Abra dentro de mim a primavera,
Deixa nestas vãs ruínas crescer a hera
Que encerrará o inverno há tempos reinante.

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o oceano do poente

Onde puseram teus olhos
A mágoa do teu olhar?
Na curva larga dos montes
Ou na planura do mar?
Canção do mar aberto – Armando Côrtes-Rodrigues

Tardes no mar

Giordana Bonifácio

Não vou falar da tarde que embraseia,
Nem do oceano em seu imenso azul divino.
Não vou falar da alva vaga que ondeia,
Nem das cores que colorem o destino.

Não vou falar do mar verde salino,
Nem dos barcos que pousam sobre a areia.
Não vou falar de quando era menino,
Nem de Melville e sua branca baleia.

Não vou falar das dores desta vida,
Nem dos sonhos que deixo ainda velejar.
Não vou falar de navios em partida,

Nem de outras tardes que vivi no mar.
Quando, de luz, a minh’alma embevecida,
Cria que o sol poente ao oceano fosse beijar.

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A doença invisível

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Giordana Bonifácio

Sentiu arder a pele no contato com o fogo. A chama crepitava docemente, convidando ao toque. Mas, espere, é perigoso! Fere! Puxou a mão abruptamente. Naquela praia, longe das mágoas do mundo, ela sentia-se mais próxima do que abandonou quanto nunca o esteve. Era como se sentisse o coração da humanidade batendo em seu peito. Forte, alto, avassalador. Socorreu-se numa viagem de férias, sem sentido, no meio do ano letivo, perdendo aulas para tentar achar a paz em si mesma. Talvez ela tenha se precipitado, não era legal estar numa praia deserta, no Nordeste, aproveitando de belezas estonteantes, quando sua família parecia ruir ao seu redor. Era para ser diferente, se fosse diferente. Mas a vida é sempre tão comum. Tudo igual: “tudo como era antes no castelo de Abrantes”. Como dar um empurrão num burro empacado que se recusa sair do lugar? Naquela praia paradisíaca, ela sentia-se muito mais sozinha do que antes. É estranho sentir-se sozinho quando se vive numa cidade em ebulição. Porém, ela era uma flor branca num jarro de flores amarelas, sentindo-se estranha numa vida que não era dela. Quem ela era? Quem? Será que repetindo infinitamente a pergunta ela conseguiria enfim se encontrar? O que haveria para ser achado? As ondas faziam no silêncio um ir e vir de sonhos esquecidos. Coisas que se tornavam mais intensas quando revividas, pois o passado recusava-se a passar por completo. Sempre deixamos um pouco de nós nos lugares em que passamos. Sementes de nós germinam no presente e brotarão no futuro. Por que não dormia, simplesmente, como os demais? Era só desligar, dar um “but” na máquina. Ocorre que o problema dos seres humanos é um tal de livre arbítrio que lhes governa a vida e não se deixa silenciar por vontades estranhas. Ela queria poder dirigir-se, não restar a madrugada inteira numa vigília amarga observando as ondas lamberem a areia da praia, revelando vez por outra um pequeno caranguejo branco, que fugia numa desabalada carreira para outro buraco na areia em que se sentiria mais seguro e protegido. Ela ouvia o rumor das palmeiras cujas folhas balançavam ao sabor do vento. Por que a vida era-lhe tão confusa quando tudo poderia ser tão simples?

O que era difícil de admitir era que seu coração era indomável, selvagem, arisco… Ela recusava-se a usar rédeas. Sua liberdade era o direito por que há muito estava reivindicando. Só que, quando lhe aconteceu a oportunidade de abrir as asas e voar, veio-lhe a notícia: Câncer! “Blá-blá-blá, muito raro, blá-blá-blá, muito difícil de ser curado, blá-blá-blá, vamos tentar salvar-lhe a vida…” E foi assim que ela se tornou “a pobre menina doente”. “Não fale alto, quer que ela saiba que não temos dinheiro para pagar o tratamento?” Passou a ser o centro das atenções e seus irmãos sentiram-se desprezados pelos desvelos excessivos que os pais tinham para com ela. A família, desde então, estava o tempo todo discutindo por dinheiro. Era disso de que ela queria escapar. Mas parecia que, apesar da fuga insólita empreendida, todo sofrimento trouxera na bagagem consigo. A vida pesava sobremaneira em seu coração. Já chegou a pedir para morrer. Não bastava perder os cabelos, as sobrancelhas e não ter forças para fazer qualquer coisa, ainda tinha de aguentar ser o alvo da piedade das pessoas? Era melhor desistir de lutar contra a doença, deixá-la vencer de uma vez. Era uma luta perdida mesmo. Não havia garantias de que ela sobreviveria, portanto, por que ainda sofrer com os enjoos do tratamento? Com a debilidade de seu corpo? O problema é que não era uma escolha dela. Não permitiriam que ela desistisse da vida. “Você é uma guerreira!” “Não vamos perder essa luta”. “Não queremos perder você”. Mas, por dentro, ela sentia um mal invisível devorando sua carne. “Querida, não seria melhor deitar-se um pouco? Você parece tão pálida…” É um absurdo que não se tenha o direito de viver quando se sabe que não viverá por muito tempo. A morte faz plantão ao lado de sua cama. Ela já se acostumou com tal presença esquelética. Como os famintos da África observados de perto pelos urubus.
Os irmãos já não faziam questão de sua presença. Era um peso morto. Quem queria aguentar a irmã doentinha, que sequer aguentava fazer o que de melhor se poderia fazer na vida? Bebidas? “No way”, mocinha! Escaladas? Bicicletas? Trilhas? Corridas? Jogos com bola? Surfar? Andar de skate? Não, não, não e mais não. Que tal ler um livro? Aliás, que tal ler uma biblioteca inteira? Foi isso o que ela fez. Ela dividiu seus sonhos com Dante e aproveitou das aventuras de um Cavaleiro da triste figura; Virgínia apresentou-lhe a Mrs Dalloway; lendo Homero, viveu numa Ílion em guerra; com Thomas Mann foi viver numa certa Montanha Mágica que prometia a cura da tuberculose; ela virou uma barata na Metamorfose e se viu envolvida em um estranho processo judicial na leitura de Kafka; amou como Werther, viu-se tentada como Fausto e aprendeu sobre afinidades eletivas com Goethe; Ítalo Calvino apresentou-lhe a um cavaleiro inexistente e levou-a por Cidades Invisíveis, Dostoiévski inseriu-a numa estranha trama familiar em Os irmãos Karamázov e ensinou-lhe o verdadeiro sentido das leis em Crime e Castigo; Hesse levou-a nas páginas de o Lobo da Estepe e Conrad inseriu-a no Coração das Trevas. Esses e muitos outros eram nomes conhecidos para ela. Nomes que visitavam seu imaginário e que a faziam menos triste quando via pela janela as pessoas vivendo. Como queria que fosse fácil simplesmente viver. Mas num cálculo malfadado do destino, restou-lhe na roda da fortuna a doença invisível que vai se alimentando dela como um buraco negro alimenta-se de luz. O pior: ela nem teve a chance de pedir o Playstation. Assim, restava-lhe somente esperar que Deus resolvesse dar um fim ao seu sofrimento. Se existisse uma ouvidoria das ações de Deus ela teria telefonado para exigir explicações. Por que no auge de sua juventude ela foi acometida de um câncer raro cujo tratamento sua família não tinha condições de arcar? Será que há atendimento eletrônico no telemarketing do céu?
É verdade, às vezes ela era meio idiota. Ou melhor, meio não, completamente. Riu. Como era bom rir. Esqueceu que poderia também sorrir, não era difícil e nem doía. Será que poderia fazê-lo com frequência? Assim, quando mais doesse a vida e sentisse vontade de chorar, será que ao invés de cair em prantos, ela poderia gargalhar enlouquecidamente, até seu coração encher-se de alegria? Quando viesse a crise de vômitos que invariavelmente acompanhavam a quimioterapia, ser-lhe-ia possível não chorar por seu penar, mas sorrir da sua vida ridícula? Pensando assim, ela nem percebeu que já amanhecia. A chama escondeu-se em brasas vermelhas sobre a areia. O sol nascia tímido no horizonte e as ondas permaneciam no seu vai e vem sem fim. Ah, como seria lindo viver se ela pudesse ter a escolha de viver. Mas lhe foi imposta a morte como sentença. Haveria como fugir de uma presença tão sinistra? Ela escreveu na areia como Jesus defendendo a vida de uma pecadora. “Quem dentre vós jamais sentiu medo?” A alvorada é-nos dada como uma segunda chance. Quantas ela teria até que a doença enfim a derrotasse? Abraçou os joelhos com força. O corpo doía-lhe após a madrugada insone. Os demais ainda dormiam, não desconfiavam de sua dor, de todo peso que suportava seu coração debilitado. Ela sentiu vontade de cantar, mas nenhuma canção lhe ocorria. Puxou pela memória, deveria haver alguma letra que ela conhecesse bem… Fez um esforço, até que uma música da Legião Urbana chegou-lhe aos poucos, preguiçosa como aquela manhã de sábado:
“Mudaram as estações/Nada mudou/Mas eu sei que alguma coisa aconteceu,/Está tudo assim tão diferente…/
Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar…/ Que tudo era pra sempre,/Sem saber,/ que o ‘pra sempre’, Sempre acaba …/” E se o mundo acabasse, para ela, naquela nota?

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“As orações dos homens
Subam eternamente aos teus ouvidos;
Eternamente aos teus ouvidos soem
Os cânticos da terra.”
Fé – Machado de Assis

Um discurso pela verdadeira fé

Giordana Bonifácio

Falarei aqui de fé e vidas perdidas,
Também de intolerância, dor e morte.
Falarei de liberdades já esvaecidas,
Por armas que cruéis tornam quem as porte.

Falarei, mesmo que ninguém se importe.
Falarei de famílias e almas destruídas,
De crianças feridas e sem norte.
Falarei por tais pessoas sofridas,

Pois creio que padeceram o bastante.
Falarei do vermelho sobre o chão:
Sonhos destruídos num rápido instante.

Falarei de homens que se acham senhores
do que pregam a Bíblia, a Torá e o Alcorão,
Mas que visam só a guerra e seus terrores.

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A humanidade contra o Tempo

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Giordana Bonifácio

Segue a embarcação contra mares revoltos e monstruosas tempestades. Noé ou os Lusíadas? A humanidade, é a esta a que me refiro, que segue contra a corrente, sempre em frente, tendo o tempo como seu maior inimigo. O presente é um agora que corre veloz. Assusta-nos o fluxo incansável do tempo, fazendo o futuro chegar antes do esperado. Num átimo, o tempo se foi. Não é possível reter as horas, os relógios desfazem-se como numa tela de Dali. Somos abatidos por ponteiros, flechas certeiras em nossos corações. Cronos alimenta-se dos filhos, devora a humanidade com apetite voraz. Somos perecíveis. Seres destinados à morte. Tal certeza cruel consome-nos. O passado pesa sobre os homens e o presente é sua incontestável consequência. Confio-lhes um mistério: a vida é o que sabemos aproveitar do que o mundo nos oferece. Mesmo que seja pouco. Há tanto ao nosso redor, um infinito vazio repleto de possibilidades. O universo aumenta continuamente e o homem preso em seu mundinho azul, vivendo eternamente em situação de emergência. Salve-se quem puder, ou quem quiser, ou quem não saiba o que queira. Mas se salve, agarre-se à razão como um bote salva-vidas em meio ao oceano. Dias melhores virão. Mas, cá para nós, ainda que não venham, não teremos escolha. Contudo, é importante não nos quedarmos imóveis, mover-se é essencial. O movimento faz os fatos assentarem-se melhor. “Ainda bem, há uma esperança!” Doce ilusão: a dúvida ainda nos amargará na boca. Sigamos tentando. A vida é feita de nossas escolhas, mas sempre nos há a possibilidade de voltar atrás. Não é vergonhoso arrependermo-nos. Ainda que o tempo seja fugaz e não espere por nossa decisão, temos o direito de errar. No passado, quantos foram os homens tentaram predizer o futuro? Quantas vezes o mundo já deveria ter acabado antes de chegarmos ao presente? O certo é que não existem certezas. Por isso, as falhas são inevitáveis. Reergamos nosso castelo de areia ainda que as ondas destruam-no infinitamente. Sorvamos as lágrimas de imensidão. De olhos marejados, assistimos e vivemos o espetáculo da vida. Sem desculpas, sem medo, coloquemos a sela em nosso cavalo e sigamos contra as tropas inimigas. É isso que o mundo quer nos ensinar, mas é difícil, num primeiro momento, aprender. Mas no fim, a gente compreende. Ou talvez não, vai saber… Estou sentindo-me um tanto Chapeleiro Louco: a minha função é confundir. A pétala diz insensível: “mal-me-quer”. Castigo para quem busca uma solução amorosa numa simples margarida. Para que refazer o teste e discutir com os arcanos da sorte que se pronunciaram naquela flor? A flor morreu despetalada pelas mãos cruéis e apaixonadas dos homens. Sua previsão foi sua vingança contra seus assassinos. Já o zodíaco faz-nos relatos detalhados de uma vida que nos é estranha. Parece que alguém do signo de Gêmeos deverá saber “atuar contra estímulos externos que o desafiarão a agir de forma equilibrada”. Mais agradável é o que prediz para o signo e Áries: “é tempo de poder vivenciar momentos de plenitude emocional”. Podemos trocar de signo? Talvez, se mudarmos a ordem das constelações celestes que regem a astrologia, poderemos converter o universo a uma forma que nos seja mais favorável. Enquanto isto, cartas de tarô dizem que “é hora de conter os gastos”. Mas as questões que gostaríamos de ver respondidas ainda permanecem fora do alcance das artes divinatórias. O oráculo não parece favorável hoje, devemos nos atrever a encarar o dia? Mostremos nossa coragem capaz de desafiar o destino. Não importa o que contra nós conspire. Sejamos imbatíveis, soldados hercúleos em seus dozes trabalhos. Enfrentar e vencer Cérbero de mãos limpas, para nós, é fichinha. Quero ver o semideus duelar, sem auxílio, contra os males que assombram os mortais. Caro amigo mitológico, você perderia feio o desafio. Estaremos sensíveis ao mundo, desprotegidos ante a maldade que nele impera? A dor é a única armadura que possuímos, mas não é capaz de suportar os golpes afiados da espada que ora pesa sobre nós. Mais uma vez, é-nos essencial e superar a força do herói grego, fazendo-nos invencíveis frente às adversidades. Na linguagem dos jovens: “Chupa, Hércules!” Ser-nos-ia possível dominar o tempo? Cronos é anterior ao universo. Quando nada havia, talvez, só o tempo corria. Até que, para movimentar as coisas, houve uma explosão imensa de matéria e surgiu o universo. Será que Cronos ficou entediado com a mesmice do vazio? Só a partir de algumas dezenas de milhares de anos, surgiu o homem. Nesse interregno, ele começou a contar o tempo. Ele o mede, mas não o domina. Na verdade, estamos inteiramente subjugados pelas horas inefáveis. Nessa luta, sempre saímos derrotados. A vida é um suspiro fugaz entre o vazio e o nada. É necessário apressarmo-nos, pois há ainda muito a ser feito. Há muitos planos que jamais foram postos em prática. Admitamos: o homem errou muito e bastante. Talvez o suficiente para não conseguir ir a diante. Mas somos guerreiros, Aquiles cujo calcanhar não está à mostra. Vai que encontram justamente esse nosso ponto fraco? Sejamos estrategistas, imitemos Ulisses com seu cavalo de madeira. Presente de grego? Sim, nem sempre seremos bem-vindos. Sei o que estão pensando: não conseguiremos nunca. Eu já tive essa certeza, pensava que nunca era nunca. Mas, já dizia minha mãe: “nunca é muito tempo”. Para falar a verdade, prefiro o sempre, apesar de ele não existir. Sempre é um desejo que não se concretiza nunca. Nunca é sempre ao contrário. Assim, se formos julgá-los como grandezas antagônicas, se um não existe tampouco o outro. Vou dominar minhas palavras, dizem que me estendo demais em conceitos. É que quero entender o mundo de alguma forma. Mesmo que ele jamais tenha tentado assimilar os desejos da espécie humana. Estamos seguindo na contramão da história. O nosso relógio estaria caminhando no sentido anti-horário? A tecnologia e a evolução seguem em direções opostas. Expressam-se em línguas diversas, uma fala: sonho, já a outra diz: fatos. Aquela diz: imaginação. Esta responde: realidade. Seguem num eterno embate. Sem nunca enfim entrarem num acordo. Havia um homem que via a realidade por meio de sombras numa caverna. Quando foi libertado, pode conhecer a verdade. Ao tentar transmiti-la aos demais, foi severamente castigado. O homem enxerga a vida por lentes embaçadas e não permite que lhe façam ver claramente. O pior cego é o aquele que não quer ver. A humanidade é este cego, aprisionada por tabus e ideias antiquadas, que há muito deveriam estar superadas. A questão é: quem será capaz de mudar o mundo? Quem teria o direito de fazê-lo? Há uma fábula de Monteiro Lobato, “O reformador do mundo”, da qual minha mãe sempre fez uso como ensinamento. Ela dizia que, para mim, o mundo estava sempre errado e que a natureza fazia todo tempo só asneiras. Minha mãe repetia-me na minha infância “preferes que te caia uma jabuticaba ou uma melancia na cabeça?” Com esta pergunta, eu sempre me recolhia em minha incomensurável ignorância e deixava o mundo da maneira que ele era. Mas, ainda assim, é necessário admitir, este mundo em que vivemos reclama por mudanças. Em certos aspectos, vivemos numa sociedade avançada, em outros, parecemos trogloditas vindos da idade da pedra lascada. O futuro que desejamos para hoje, fica confinado numa quantidade reduzida de países enquanto em outros, não há nem mesmo água encanada ou saneamento básico. O que será do futuro quando uma criança pobre na África chora de fome? Nesse instante, sinto que em certos lugares, o tempo parou e recusa-se a voltar a correr. Nem precisamos usar da máquina de H.G. Wells para visualizar o passado: ele está à nossa frente e recusamo-nos a enxergá-lo. O que será de uma humanidade onde o porvir segrega os povos? O tempo, hoje, é uma grandeza física que discrimina a miséria. Será que as velas do futuro, algum dia, apontarão para uma nova realidade? Como nos será possível saber, quando a nossa única certeza é o fim que, um dia, a todos chegará inevitavelmente?

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Feliz Ano Novo!

ANONOVO

Giordana Bonifácio

Vai cara, um passo de cada vez, não tente abraçar o mundo. Se preferir, vá devagar. Se está com medo, eu lhe ofereço a minha mão e vamos juntos. Sei que é difícil, pois à frente há uma incógnita tão grande, que é compreensível ficarmos assustados. Mas não vá atropelar as coisas. Sei de sua ansiedade. Corre o tempo inteiro e não aproveita, perfeitamente, as boas oportunidades. Não vá sofrer em demasia: coloque um sorriso neste rosto! Temos de enfrentar os perigos com um sorriso na cara. Sem medo: verá que não é tão feio quanto parece. Erga-se desse sofá, não vá esperar pela felicidade. Se quiser ser feliz, você tem de correr atrás. Não pense que será fácil, pois nada que é bom de verdade vem sem esforço. A gente tem de sofrer para conquistar. É matar um leão por dia. Às vezes, a gente tem de matar um zoológico inteiro. Mas é assim mesmo. Coisa estranha esta, né? A vida ser tão complicada… A gente está o tempo todo (literalmente), construindo-a e reconstruindo-a. E, de vez em sempre, surge uma surpresa (nem sempre boa) para demolir tudo que fizemos. Mas o essencial é não desanimar. É levantar, sacudir a poeira e começar tudo de novo. Sem essa de desistir agora. Não esmoreça. Não me diga que vai nadar até aqui para morrer na praia? Sabe, também pensei muitas vezes que estava tudo muito difícil e que não valia a pena. Porém, a gente tem de respirar fundo e seguir em frente. Não há estrada de tijolos amarelos para trilhar nosso caminho. A gente segue aos trancos e barrancos por caminhos de espinhos. Mas ninguém disse que seria fácil… Na verdade, tudo é tão difícil, complicado e dolorido que, muitas vezes, a gente quer tentar outro caminho, mais confortável e menos sacrificante. Contudo, o mais fácil, muitas vezes, não é o melhor. Se queremos mesmo, a gente tem de lutar com unhas e dentes. Não importa o apoio que nos falta. É necessário respirar fundo e seguir contra tudo e todos. Mas eu estarei com você sempre. Pode confiar.
Vai cara, sem esta de estar deprimido e sem esperança. A esperança é um bichinho verde e frágil que invade nossa casa no verão. A gente não é agraciado de fé. Ela tem de nascer no nosso espírito. Sei que tudo isto é meio estranho. Seria mais simples, se tudo fosse mais simples. Entretanto, meu caro amigo, não é. Sabe aquela história de “aprender japonês em braile?” É bem assim. Eu não vou lhe abandonar no meio do caminho. Na verdade, como sou seu amigo, não lhe abandonarei jamais. Vamos, meu caro, coloque força nessas pernas que a caminhada é longa e traiçoeira. Não fuja à luta. Leve consigo só o que vai precisar. Não vá amealhar coisas que não poderá levar. A vida não é como planejamos. É uma confusão. Não caminhamos em planos cartesianos. É tudo imprevisível e louco, como um emaranhado de fios sem começo ou fim. O que a gente tem de fazer é conduzir o barco pelas correntezas. Em frente, sempre há a promessa de calmaria. “Levanta-te e anda!” enquanto há vida em seu peito e ar nos pulmões. Sei que há milhares de portas muito mais tentadoras, mas lhe garanto que esta, apesar de mais ameaçadora, é bem melhor para você. Sabe, a mãe de Jesus sempre confiou nele, ela não o afastou de seu caminho apesar de saber que lhe causaria um enorme sofrimento. Ela sabia que tudo estava escrito e não poderia ser mudado. Não pela vontade de Cristo e nem mesmo pela dela. Sua mãe deve pensar o mesmo quanto a você. Creio que ela enxerga as ameaças em sua estrada, mas sabe que você não poderá simplesmente desviar delas sem as enfrentar. O caminho é um deserto cheio de infinitas tentações. A gente tem de ser forte para não sucumbir a elas. Não vamos vencer sempre. Esteja certo. Há batalhas em que seremos humilhantemente derrotados. O que devemos fazer é continuar lutando. A vitória virá mais cedo ou mais tarde. O importante é não ficar encolhidinho no canto da parede sentindo-se a pior pessoa do mundo. Não é fácil, eu sei. Mas não há outra maneira. Tem um cara, chamado Sísifo, que foi condenado a rolar eternamente uma pedra para o topo de uma montanha para, depois de terminado, vê-la rolar para baixo, forçando-o começar tudo de novo. Nossa vida é mais ou menos assim. Nos somos Sísifo subindo a montanha, levando conosco nossos projetos de vida.
Não é certo invejar a vida alheia. Sei que a grama é mais verde no quintal vizinho. Contudo, só quem a carrega, sabe o peso de sua cruz. A gente tem de percorrer a nossa própria Via Crucis. Não adianta fugir de nosso destino. Haverá quem nos abandone sozinhos, quem nos negue e quem tripudie sobre o nosso sofrimento. Mas também haverá quem nos ajude a segurar a nossa cruz e nos siga por nos nossos caminhos tortuosos. Deixe aí suas preocupações e segue-me. Vamos juntos que o jogo é de decisão. A gente consegue, cara. Não vamos esmorecer. Sabe, queria lhe dizer que tudo serão só flores. Porém, estaria mentindo. Nada será fácil. Quer o quê? A vida nunca foi “mamão com açúcar”. A vida não é uma loteria que depende de sorte. Viver é trabalho, é suor e lágrimas. A gente colhe o que planta. A vida sempre nos recompensa com algo. O importante é não ficar parado. Vai, cara, levanta. Não se derrote. É você quem está se deixando vencer. As “coisas” estão difíceis, mas confiem em mim: vai melhorar. Só a gente ter um pouquinho de fé e ela alimenta nossa alma completamente. Sabe: a esperança não morre. Ela ressuscita ao terceiro dia, para nunca mais se deixar vencer pela morte. Não devemos é esperar contra a esperança. Esperar, sem nada fazer. Quedarmo-nos imóveis, aguardando o maná dos céus. Cara, viver não é simples, pois não vem com manual de instruções. A gente descobre com o tempo como devemos proceder. Ocorre que a gente nem sempre acerta de primeira. Aprendemos com o tempo e, também, com nossos erros. Quantas vezes a gente não dá com a porta na cara? O importante é não desistir e não desanimar com nossas falhas. É estranho: a gente sabe que vai errar, sabe que vai sofrer, sabe que tudo vai machucar de alguma forma, mas ainda assim, temos de continuar. Mas a regra é clara: só o Cara lá de cima que pode dar o apito final. Quando ele finalmente erguer os braços, a gente nem vai querer ir. Temos medo. O que será de nós? Não se preocupe, Ele sabe.
Será que agora você vai parar de dar uma de bebezão e finalmente vai levantar deste sofá e saldar comigo o Ano Novo? Imagina quanta coisa que espera pela gente no futuro? Quantas decepções e alegrias vamos sentir, quanto amor inundará nossos corações? Vamos, coloque um sorriso neste rosto e vamos celebrar. A vida imprime a necessidade de viver, o homem só cumpre o determinado. Vê quantos fogos colorem o céu nesta noite mágica? Os homens estão felizes por terem mais uma chance. Vamos recomeçar, pois, tal qual Penélope desfazia a manta que passava o dia cozendo, para refazê-la no dia seguinte, aguardando Ulisses. Assim é nossa vida, estamos construindo e reconstruindo-nos, pois todo ano temos uma nova oportunidade de sermos melhores do que fomos. Só depende de nós. Não é tão difícil como parece. A gente consegue, com um pouquinho de coragem e muito esforço. Esse novo ano trará consigo uma enxurrada de oportunidades. Vamos aproveitá-las e reconstruir, mais uma vez, nossa vida. Vamos brindar com nossos sonhos, a mais inebriante das bebidas. Vamos festejar com nossos amigos e familiares, pois serão estes que jamais nos deixarão, sozinhos, carregar nossas cruzes. A gente não só tem uma oportunidade de ser feliz. Mas várias, que surgem e ressurgem, prometendo-nos uma nova realidade. O ano nos promete sementes de realizações, cabe a nós cuidarmos da plantação, para, no tempo certo, colhermos tudo o que plantamos. As sombras ameaçadoras no horizonte serão vencidas, pois a nossa nau é forte e bem guarnecida de tripulação. A vida é nosso maior presente, ainda que não venha isenta de mágoas, tristezas, decepções e todos os demais maus sentimentos. Na verdade, em toda nossa existência estamos sempre lutando contra o mal. Temos de ser fortes para não sucumbir a ele. A mudança em nossa vida começa em nós. Então, convenci-lhe finalmente? Isto, assim que gosto de lhe ver, cara! Venha aqui, tome uma taça de champanhe e repita comigo: Feliz Ano Novo!

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