Sobre o tempo…

Time-Management11

Giordana Bonifácio

Ninguém poderia imaginar que algo assim ocorreria: repentinamente, o tempo parou. Estacou no ar a pedra arremessada no lago pelo garoto. O papagaio rodopiante interrompeu o rodopio, pois o vento também não mais soprava. Os namorados congelaram num beijo e as bocas não mais se soltaram. O homem que via o relógio petrificou o tempo no olhar. Os pássaros restaram estáticos como numa fotografia. A fonte, cuja água cristalina jorrava incessantemente, restou paralisada, enquanto o cão que nela saciava a sede, não pode terminar seu último gole. O garoto curioso não pode descobrir o que havia no interior de um cupinzeiro, pois não lhe foi possível continuar explorando com um galho a estranha formação. Os sonhos do velho que dormia no banco da praça também restaram imóveis e ele não mais se via correndo na infância atrás das vacas na fazenda de seu pai. É difícil entender como até mesmo os sonhos quedaram-se imóveis, mas naquele instante, ou melhor, falta de instante, o tempo não mais corria. O tempo é relativo, dependendo do lugar que estejamos no universo, é possível restarmos mais velhos ou mais novos que estaríamos no mesmo intervalo na Terra. Portanto, não questionem a possibilidade desta grandeza física simplesmente se recusar a passar. O mundo inteiro resolveu que não mais converteria o dia em noite, de modo que não mais se contariam os meses e os anos. A primavera se prolongaria por tempo indeterminado, pois o tempo não mais havia como se determinar.
O carteiro que estacionava a bicicleta não mais se moveu e as cartas de amores distantes talvez nunca mais fossem entregues. O silêncio fez-se mais alto que o som das vozes alegres das crianças que brincavam na quadra de esportes. De repente, a paz foi mais forte que a guerra e não havia mais mortes, porém, também não mais existiam nascimentos. O jamais e o nunca se uniram ao sempre e ao eternamente, pois o nunca é o não para sempre. O não é a força poderosa que parou todo o mundo. Quem ousaria desobedecer a semelhante poder? A negação subjuga até os mais fortes adversários. Sodoma e Gomorra foram paralisadas em seus pecados. E os que se voltaram para trás tornaram-se estátuas de sal. O presente perpetuou-se num infinito agora e o futuro deixou de existir. O medo não mais se alimentava da alma dos homens. O que temer num mundo sem ameaças? Os ouvidos não mais eram necessários, pois o som extinguiu-se e a música de uma flauta triste não mais tocaria os corações solitários. O rapaz que se exercitava não completaria aquela última corrida antes do anoitecer, pois a noite restaria tão somente como uma promessa esquecida do dia. Promessa que se uniria às milhões que o futuro abandonou em suas horas perdidas. Sem querer, quando o tempo apagou-se, também deu fim às juras de amor e ódio, sentimentos que cruzaram os corações desde o início da existência da raça humana. A saudade não mais inspirava canções de amor, pois a dor não tinha como se propagar entre os apaixonados. As mentiras sibiladas ao pé do ouvido não mais poderiam magoar os crédulos românticos, caladas pelo misterioso evento que impediu a caminhada veloz da vida. Os velhos não mais sofreriam com os preguiçosos dias dos anos fugazes e as crianças com os dias fugazes dos anos preguiçosos. O artista não mais sofreria com a pressão da tela em branco e os suicidas flutuariam no céu como anjos arrependidos. A noiva não escutaria o sim pelo qual restou meia década esperando e o réu não ouviria a pena que o enclausuraria no tempo. O pedinte não usufruiria dos centavos lançados displicentemente na latinha amassada sobre a calçada. As mãos, outrora trêmulas pela fome, não tocariam o níquel frio tão caro aos mais necessitados.
O feirante não venderia suas maçãs à dona de casa paralisada na sua apreciação tão meticulosa das frutas. Os motoristas não acelerariam seus carros após o sinal vermelho, pois este se perpetuaria indeterminadamente. O sorvete nas mãos da menina não derreteria, pois o calor também depende do tempo. Aliás, as grandezas físicas são todas correlacionadas. A falta de uma implica na ausência de outra. O sino que dobrava, não mais acusaria a amarga morte, pois as badaladas não seriam mais ouvidas e o cortejo não chegaria ao seu destino. A viúva, cujas lágrimas doloridas que não mais umedeceriam o lenço oferecido educadamente pelo amigo, esqueceria as mãos sobre o peito do morto em que a vida deixara de pulsar. O pipoqueiro serviria seu último saquinho de pipoca a um menino que havia conquistado a muito custo duas moedas da mãe. As nuvens retratariam as mesmas formas que os olhos associam teimosamente aos desejos mais recônditos das pessoas. As árvores que estavam num doce balançar, não mais sentiriam o assobiar do vento por entre seus galhos verdejantes. A menina, que lia sob a sombra de uma mangueira, não chegaria ao próximo capítulo do livro, paralisada entre uma página e outra. O amor de verdade não se quebraria num último adeus. O adeus não aconteceria, pois o tempo não permitiria e as mãos não se soltariam nunca mais. O estudante que tropeçara na pedra não torceria o pé que o impediria de jogar no último jogo das olimpíadas estudantis. As formigas não prosseguiriam com sua marcha preparatória para o próximo inverno. Os pães não ficariam prontos na padaria do Português que não era realmente português, mas descendente de pai cabo verdiano e mãe brasileira. A velha não terminaria de fazer o casaquinho de crochê do seu netinho que nascera há poucos dias. O gato, que brincava como novelo da lã da velha, ficaria paralisado com as garras em posição de ataque.

A garota que se via no espelho de mãos dadas com seu reflexo, mais um pobre Narciso apaixonado por sua imagem, não mais enxergaria o mundo além daquela face fria e vítrea. Os olhos do senhor que fumava um cachimbo restariam para sempre hipnotizados pela fumaça cinza e espiralada. A menina, que caíra enquanto andava de patins, permaneceria com o feio arranhão no joelho sobre o qual a mãe, amorosamente, aplicava a gaze com mercúrio cromo. Esta última havia prometido soprar o machucado para não arder, mas, com o mundo paralisado, isto provavelmente não ocorreria. Era como se Deus quisesse brincar de fotógrafo e, subitamente, desse o clique em sua fantástica câmera. Aqui o escritor olha o olhar por trás da lente. O que via o artista em contato com a imagem procurada. São muitos os olhares envolvidos numa fotografia. Há o olhar do fotógrafo, o olhar do fotografado e o olhar do que vê o fotógrafo e o fotografado. Muitos olhos que se cruzam e não se veem. Muitas almas envolvidas numa arte hoje disseminada de forma viral. Mas os olhos de Deus não viam o que eu via. Nem eu via o que Deus enxergava, como também os envolvidos nesta estranha foto desconheciam o que tanto eu quanto Deus estávamos vendo. Mas outras questões estavam envolvidas neste estranho acontecimento. Será que o repentino fim do tempo também significaria o fim do mundo? Tudo o que conhecemos restaria como uma fotografia em que o silêncio fala em lembranças? Mas tão repentino quanto o desaparecimento do tempo, foi seu retorno. Ocorreu assim, como por mágica, quando este escritor que a tudo assistia conseguiu enfim dar um fim ao seu extenso conto. E, como se nada houvesse ocorrido, o tempo voltou a correr em sua marcha cega e inexorável.

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