Arquivo do mês: dezembro 2014

O senhor da guerra

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Giordana Bonifácio

Quem é este homem ignóbil que vos fala?
“Eu, filho do carbono e do amoníaco,”
Sou o herdeiro deste mundo demoníaco.
Sou aquele que a verdade esconde e cala,

Em prol da fé num céu paradisíaco.
Sobre corpos frios, visto-me de gala.
Sou o que, em palácios, à morte faz sala,
Sob a sorte dos signos do zodíaco.

Sou o homem-verme que dança sobre as ruínas
E se alegra com vis carnificinas.
Sou quem, de minha sala, ordeno a guerra.

Sou a quem a vida causa repugnância.
Sou um homem vazio, mas repleto de ânsia
De, enfim, um dia, dominar toda a Terra.

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Amor em versos brancos

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Giordana Bonifácio

Os seus olhos eram claros,
Sim, feito a luz do dia.
Seu sorriso era sincero,
Diferente do comum.
Escrevia-me silêncios.
Provocava-me vertigens.
Sofria quanto mais amava.
E, de tanto amar,
Tudo perdi.
Hoje,
Não mais me brilham seus olhares.
E seu sorriso não mais me sorri.
As noites tornaram-se infinitas.
Pois o sol
Não mais me ilumina.
Desde que,
Sem querer (querendo),
O seu coração eu parti.

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“O Poeta morre,
mas não cessa de escrever”.
Saúl Dias

O poeta prisioneiro de sua arte

Giordana Bonifácio

Neste mundo, sou tão só um prisioneiro.
Minha pena é esta que trago comigo.
É tanto prisão quanto meu ombro amigo.
A poesia é meu refúgio derradeiro,

Onde, partido, sou um homem inteiro.
Nas linhas tortas, com rimas prossigo,
A escrita traz em si um grande perigo:
Ser imortal num mundo passageiro.

A pena pesa sobre este pobre poeta,
É uma maldição e paixão mais secreta.
Faz-me triste a alma e mais belo meu jardim.

A vida passa e o que resta é poesia.
O fim não importa, tão só, a travessia.
A poesia escreve-me muito além de mim.

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Happy Birthday, Ever Imre!

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Sobre o tempo…

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Giordana Bonifácio

Ninguém poderia imaginar que algo assim ocorreria: repentinamente, o tempo parou. Estacou no ar a pedra arremessada no lago pelo garoto. O papagaio rodopiante interrompeu o rodopio, pois o vento também não mais soprava. Os namorados congelaram num beijo e as bocas não mais se soltaram. O homem que via o relógio petrificou o tempo no olhar. Os pássaros restaram estáticos como numa fotografia. A fonte, cuja água cristalina jorrava incessantemente, restou paralisada, enquanto o cão que nela saciava a sede, não pode terminar seu último gole. O garoto curioso não pode descobrir o que havia no interior de um cupinzeiro, pois não lhe foi possível continuar explorando com um galho a estranha formação. Os sonhos do velho que dormia no banco da praça também restaram imóveis e ele não mais se via correndo na infância atrás das vacas na fazenda de seu pai. É difícil entender como até mesmo os sonhos quedaram-se imóveis, mas naquele instante, ou melhor, falta de instante, o tempo não mais corria. O tempo é relativo, dependendo do lugar que estejamos no universo, é possível restarmos mais velhos ou mais novos que estaríamos no mesmo intervalo na Terra. Portanto, não questionem a possibilidade desta grandeza física simplesmente se recusar a passar. O mundo inteiro resolveu que não mais converteria o dia em noite, de modo que não mais se contariam os meses e os anos. A primavera se prolongaria por tempo indeterminado, pois o tempo não mais havia como se determinar.
O carteiro que estacionava a bicicleta não mais se moveu e as cartas de amores distantes talvez nunca mais fossem entregues. O silêncio fez-se mais alto que o som das vozes alegres das crianças que brincavam na quadra de esportes. De repente, a paz foi mais forte que a guerra e não havia mais mortes, porém, também não mais existiam nascimentos. O jamais e o nunca se uniram ao sempre e ao eternamente, pois o nunca é o não para sempre. O não é a força poderosa que parou todo o mundo. Quem ousaria desobedecer a semelhante poder? A negação subjuga até os mais fortes adversários. Sodoma e Gomorra foram paralisadas em seus pecados. E os que se voltaram para trás tornaram-se estátuas de sal. O presente perpetuou-se num infinito agora e o futuro deixou de existir. O medo não mais se alimentava da alma dos homens. O que temer num mundo sem ameaças? Os ouvidos não mais eram necessários, pois o som extinguiu-se e a música de uma flauta triste não mais tocaria os corações solitários. O rapaz que se exercitava não completaria aquela última corrida antes do anoitecer, pois a noite restaria tão somente como uma promessa esquecida do dia. Promessa que se uniria às milhões que o futuro abandonou em suas horas perdidas. Sem querer, quando o tempo apagou-se, também deu fim às juras de amor e ódio, sentimentos que cruzaram os corações desde o início da existência da raça humana. A saudade não mais inspirava canções de amor, pois a dor não tinha como se propagar entre os apaixonados. As mentiras sibiladas ao pé do ouvido não mais poderiam magoar os crédulos românticos, caladas pelo misterioso evento que impediu a caminhada veloz da vida. Os velhos não mais sofreriam com os preguiçosos dias dos anos fugazes e as crianças com os dias fugazes dos anos preguiçosos. O artista não mais sofreria com a pressão da tela em branco e os suicidas flutuariam no céu como anjos arrependidos. A noiva não escutaria o sim pelo qual restou meia década esperando e o réu não ouviria a pena que o enclausuraria no tempo. O pedinte não usufruiria dos centavos lançados displicentemente na latinha amassada sobre a calçada. As mãos, outrora trêmulas pela fome, não tocariam o níquel frio tão caro aos mais necessitados.
O feirante não venderia suas maçãs à dona de casa paralisada na sua apreciação tão meticulosa das frutas. Os motoristas não acelerariam seus carros após o sinal vermelho, pois este se perpetuaria indeterminadamente. O sorvete nas mãos da menina não derreteria, pois o calor também depende do tempo. Aliás, as grandezas físicas são todas correlacionadas. A falta de uma implica na ausência de outra. O sino que dobrava, não mais acusaria a amarga morte, pois as badaladas não seriam mais ouvidas e o cortejo não chegaria ao seu destino. A viúva, cujas lágrimas doloridas que não mais umedeceriam o lenço oferecido educadamente pelo amigo, esqueceria as mãos sobre o peito do morto em que a vida deixara de pulsar. O pipoqueiro serviria seu último saquinho de pipoca a um menino que havia conquistado a muito custo duas moedas da mãe. As nuvens retratariam as mesmas formas que os olhos associam teimosamente aos desejos mais recônditos das pessoas. As árvores que estavam num doce balançar, não mais sentiriam o assobiar do vento por entre seus galhos verdejantes. A menina, que lia sob a sombra de uma mangueira, não chegaria ao próximo capítulo do livro, paralisada entre uma página e outra. O amor de verdade não se quebraria num último adeus. O adeus não aconteceria, pois o tempo não permitiria e as mãos não se soltariam nunca mais. O estudante que tropeçara na pedra não torceria o pé que o impediria de jogar no último jogo das olimpíadas estudantis. As formigas não prosseguiriam com sua marcha preparatória para o próximo inverno. Os pães não ficariam prontos na padaria do Português que não era realmente português, mas descendente de pai cabo verdiano e mãe brasileira. A velha não terminaria de fazer o casaquinho de crochê do seu netinho que nascera há poucos dias. O gato, que brincava como novelo da lã da velha, ficaria paralisado com as garras em posição de ataque.

A garota que se via no espelho de mãos dadas com seu reflexo, mais um pobre Narciso apaixonado por sua imagem, não mais enxergaria o mundo além daquela face fria e vítrea. Os olhos do senhor que fumava um cachimbo restariam para sempre hipnotizados pela fumaça cinza e espiralada. A menina, que caíra enquanto andava de patins, permaneceria com o feio arranhão no joelho sobre o qual a mãe, amorosamente, aplicava a gaze com mercúrio cromo. Esta última havia prometido soprar o machucado para não arder, mas, com o mundo paralisado, isto provavelmente não ocorreria. Era como se Deus quisesse brincar de fotógrafo e, subitamente, desse o clique em sua fantástica câmera. Aqui o escritor olha o olhar por trás da lente. O que via o artista em contato com a imagem procurada. São muitos os olhares envolvidos numa fotografia. Há o olhar do fotógrafo, o olhar do fotografado e o olhar do que vê o fotógrafo e o fotografado. Muitos olhos que se cruzam e não se veem. Muitas almas envolvidas numa arte hoje disseminada de forma viral. Mas os olhos de Deus não viam o que eu via. Nem eu via o que Deus enxergava, como também os envolvidos nesta estranha foto desconheciam o que tanto eu quanto Deus estávamos vendo. Mas outras questões estavam envolvidas neste estranho acontecimento. Será que o repentino fim do tempo também significaria o fim do mundo? Tudo o que conhecemos restaria como uma fotografia em que o silêncio fala em lembranças? Mas tão repentino quanto o desaparecimento do tempo, foi seu retorno. Ocorreu assim, como por mágica, quando este escritor que a tudo assistia conseguiu enfim dar um fim ao seu extenso conto. E, como se nada houvesse ocorrido, o tempo voltou a correr em sua marcha cega e inexorável.

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“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…
Via Láctea – Olavo Bilac

Ouvindo estrelas

Giordana Bonifácio

Não mais estrelas ouço, estejas certo.
Dirás “reouveste tu o senso, portanto”.
Mas agora, que penso estar desperto,
É que mais me há motivo para o pranto.

Resta-me, observar, só, da noite o manto:
Toda Via Láctea em seu vazio deserto,
Estrelas das quais não mais ouço o canto,
Ainda que o busque com o peito aberto.

Dirás agora, “o que ocorre contigo?
Que ainda lhes queres dizer? Qual sentido?
Estarás transloucado, caro amigo?”

E te direi “pudera ainda entendê-las”,
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir a canção das estrelas.

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Corpo x Espírito

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Giordana Bonifácio

Chegou do trabalho. Exausto, abriu a porta e lançou no sofá a pasta e o paletó. Afrouxou a gravata, foi à cozinha e abriu a geladeira onde encontrou uma cerveja gelada em meio uma confusão de lasanhas prontas, guardadas pela metade, datadas de semanas atrás. Abriu a garrafa posicionando o bico sobre a pia para, com um golpe, fazer voar a tampa longe. Pegou o controle remoto sobre a mesa para ligar a televisão. Estava passando futebol, um time de várzea jogava com um grande time de São Paulo e estava sendo literalmente massacrado. Ele sentou-se, sem qualquer interesse no jogo, na poltrona de couro sintético. Enquanto os jogadores pouco experientes eram destroçados sem nenhuma piedade num jogo totalmente injusto, ele só pensava nas obrigações que tinha para o dia seguinte. “Amanhã, terei de preparar o relatório dos gastos da empresa. Terei de pegar Frida na casa da mãe. É o fim de semana em que ela deve estar comigo. Queria poder estar mais tempo com minha filha, mas tenho tantas atividades… O chefe marcou a reunião para as nove. Não posso atrasar-me. Tenho de levar Frida para o karatê às 19 horas, haverá uma cerimônia para celebrar a mudança de faixa. A conta do celular e o carnê da televisão vencem, também, amanhã, não posso esquecer-me de passar no banco na hora do almoço”. Enumerando todas as questões urgentes do dia seguinte e, ainda, graças à narração do jogo acabou por adormecer na poltrona, sem nem mesmo trocar a roupa com que chegara do trabalho.

Tivera um sonho estranho, em que ele não era ele mesmo. Como se seu espírito saísse do seu corpo e vagasse a esmo por paisagens estranhas às quais ele não conseguia identificar. Então ele pousava, lentamente, sobre um corpo feminino em sono profundo. Era uma bela garota, cujas roupas de dormir pareciam-no um tanto antiquadas, roupas que ninguém mais usaria no presente. Será que, em sonho, ele teria viajado no tempo? De onde viriam tais imagens para sua mente? Ouvira falar que o sonho é produzido pelo inconsciente através de fatos vividos pelas pessoas. Mas ele tinha certeza que jamais havia estado naquele recinto, como, também, nunca havia visto aquela garota antes. Então, de onde viriam tais experiências? A garota parecia estar despertando, quando, abruptamente, seu espírito invadiu o corpo feminino sobre o qual pairava. Foi tudo tão repentino que ele despertara também. Assustado, desnorteado pela estranha experiência vivenciada, andou tonto pelo quarto. Deu-se conta de que, cada canto daquele recinto era-lhe totalmente novo, não reconhecia onde estava. Ficou alguns minutos tentando localizar-se até notar que estava no corpo da mulher que, em sonho, visitara.

“Não era um sonho!” Balbuciou, tocando a face lisa constatando que a barba por fazer não estava mais ali. Olhou para seu corpo, lá estavam as roupas antiquadas com as quais a mulher vestia-se. Não sabia se era possível que algo assim ocorresse, aliás, nunca ouvira falar de alguém que adormecesse e fosse parar numa época desconhecida num corpo que não era seu. Ele, provavelmente, não havia despertado. Era o que imaginava, cria ainda estar dormindo e que tudo não passava de um terrível pesadelo. Dentro em breve, ele iria acordar e tudo voltaria a ser como antes. Mas os minutos passavam e nada mais acontecia. Assustado, já cria que sua alma restaria eternamente presa naquele inesperado invólucro. Tentava encontrar explicações, mas nenhuma ideia ocorria-lhe. Pensou em desesperar-se e correr sem destino até que tudo voltasse a ser como antes, mas, felizmente, decidiu permanecer calmo até que encontrasse uma solução para seu problema. Súbito, alguém bateu na porta. Era a ama da garota, havia vindo banhá-la. Era uma garota morena de olhos servis, vestida também de forma antiquada e simples, com um vestido velho e desbotado, provavelmente, doado pela senhora a que prestava serviços.

-A sinhazinha está pronta para o banho? Trouxe a água quente. Disse a magra ama apontando para o balde com água fumegante.

Ele nem sabia o que responder. Será que a voz dele sairia grossa? Voz de homem? O que esta ama faria caso descobrisse que aquela pessoa no corpo de sua senhora, não era ela, mas um homem vindo do futuro? Teve medo de falar, assim ficou em silêncio encarando a ama com uma terrível expressão de dúvida.

-A sinhazinha está com algum problema? Seria um mal-estar? Quer que chame a vossa mãe?

Sem saber o que fazer, decidiu que teria de falar algo para tranquilizar a ama, antes de ela alertar a mãe da garota, o que poderia piorar aquela já terrível situação.

– Não ama, está tudo bem.  Aquela não era a sua voz, pensou o homem. É a voz da garota. Claro, apesar de estar guardando um espírito estranho, a composição biológica do corpo permanecia a mesma. Sentiu-se quase feliz pelo fato de não falar com voz de homem. Seria uma situação assustadora, a qual, pelo menos, não teria de presenciar.

A ama preparou o banho, retirou as vestes dele que sentiu um forte desejo sexual ao qual teve de refrear, repetindo-se mentalmente: “Agora você é uma garota, pense como garota!” A ama deixou-o nu e pediu-lhe para que ele entrasse no recipiente de banho, uma espécie ofurô, em que ele deveria restar sentado. Enquanto a dama alisava suas costas, mais uma vez foi acometido de um imenso desejo, que tentava com todas as forças subjugar, sem o conseguir, entretanto. Quando não mais lhe era possível aguentar, puxou os lábios da ama para perto dos seus e, por muito pouco, não os beijou. Mas a ama, aterrorizada, saiu correndo, clamando pelos santos e tentando manter-se longe da alma pecadora que tentava levá-la para o inferno.

Então, ele deu-se conta do erro que havia cometido. Ele era uma mulher, não mais devia seguir seus instintos masculinos, o lesbianismo era algo abominável naquela época. Vestiu-se da melhor maneira que conseguira com as roupas encontradas nos armários. Mas o melhor possível para um homem não é o suficiente para parecer normal naquela época. Malvestido perambulou pelas dependências do castelo. Sem saber por onde seguir, ele findou no quarto da mãe, no qual a ama já o denunciava pela malfadada aventura na hora do banho. A mãe chamou a filha para perto de si. Perguntou se havia algo errado. Ela (ou ele, como queiram) disse que fora uma loucura e que não se repetiria. A ama recusou-se a vesti-la de maneira condizente e foi necessário chamar outra empregada, uma corcunda e caolha com a qual ela não tomaria qualquer ousadia. Deveria vestir-se de maneira condizente, pois o seu noivo viria visitá-la hoje. A mãe mandou-a retornar ao quarto e somente aparecer na sala quando estivesse apresentável. Foi então que o homem no corpo feminino pensou consigo: “Agora a coisa ficou feia. Como deveria comportar-se frente ao noivo, ainda mais, suplantar sua aversão pelo sexo masculino, pois, apesar de estar num corpo de mulher, ele era Macho com M maiúsculo. Seria forçado a agir contra si mesmo?”

 Tentou fugir deste encontro o máximo, atrasando-se sobremaneira a aparecer na sala. Mas, por fim, a mãe foi até os aposentos da filha, ordenando que ela seguisse, sem mais demora, para a sala. Lá estava o noivo da garota, um homem bem apessoado que faria qualquer menina suspirar, mas a noiva agora era um homem e de tais efeitos estava imune. A mãe mandou-a sentar ao lado do noivo. Ela encaminhou-se subserviente. O noivo tentou beijar-lhe o rosto, carinho ao qual, com grande violência, foi rejeitado. Pensando tratar-se de uma brincadeira, o noivo riu da ação da noiva, ou noivo, vai-se saber. Comentou o quanto Inocência estava arisca. E mais uma vez tentou acariciar o rosto da noiva e foi rechaçado. A mãe encarava a garota com olhos fuziladores e nosso herói, preso num corpo que não era seu, só tentava imaginar como sair daquela situação, pois já estava deveras insustentável. Não agiria como mulherzinha, ele tinha uma honra a preservar!

A mãe pensando que a filha estava desconcertada pela presença da progenitora, deixou sozinhos os dois pombinhos. Mas quando o noivo tentou roubar um beijo da noiva, levou um cruzado de direita, que lhe deixou o olho roxo. Assustado, o noivo começou a gritar que Inocência só poderia estar louca ou possuída. Todos se encaminharam para a sala e o noivo, tentava fugir da fúria de Inocência, que, por não ser mais a graciosa garota do passado, sabia todos os golpes de boxe existentes, haja vista que, o homem dentro de si, era campeão mundial de boxe peso pena universitário.

Receosa, a mãe mandou chamar um médico e um padre, enquanto isto o noivo escapou, desesperado, pela porta, da fúria incontrolável do Macho com M maiúsculo. Em pouco tempo, todos já sabiam que algo muito estranho acontecia com a sempre delicada Inocência. Falavam de demônio, de loucura e de bruxaria.  A mãe chamara o padre para benzer a filha e um médico para diagnosticar qualquer doença. Mas, nem um nem outro encontraram algo de estranho na garota. Porém, por via das dúvidas, o padre resolveu fazer um exorcismo. “Assim, se expulsa qualquer mal que porventura esteja agindo dentro da menina.” Nosso herói até se animou: e se libertassem a sua alma presa naquela morada adversa? Submeteu-se de bom grado ao processo, mesmo achando-o deveras bizarro e violento. Mas, nem assim, conseguira sair daquela prisão em que sua alma colocou-se, sabe-se lá o porquê.

 Na cidade, o povo em polvorosa já sabia do exorcismo e já se dizia que foram expulsos centenas de demônios do corpo da jovem. A ama contava aos quatro cantos o ataque da garota do qual conseguira fugir por muito pouco. “Graças a Deus!” A magra menina, ferida em sua fé, ainda ressaltava que a “sinhazinha tem olhos de homem agora”. O noivo contava na alta sociedade como fora atacado pela noiva, “uma louca”, cuja investida violenta só não foi vingada por se tratar de uma mulher. Sem sucesso no exorcismo, o padre resolveu reportar toda a história a cúria da igreja. Foi assim que todo o caso chegou aos ouvidos de um padre inquisidor. Logo que soube, o inquisidor gritou aos quatro cantos: “bruxaria!” E mandou uma armada prender o nosso herói que só queria mesmo era voltar ao presente e terminar uma lasanha das que estavam, havia semanas, na geladeira.

Mas, se reuniu a alta guarda da igreja com intuito de prender a garota envolvida com bruxaria.

 – Isso é coisa daquela Joana d’Arc que foi lutar na Guerra e agora todas as garotas queriam seguir o seu exemplo. Mesmo que para tal, tenham de realizar um pacto com o demônio. Resmungava o inquisidor frente à casa da garota.

A ama atendeu a porta, sendo empurrada com força pela guarda que entrou abruptamente e sem qualquer permissão para proteção dos lares tementes a Deus. A mãe da garota chorava copiosamente, o pai, assistia a tudo calado, não admitiria ter uma “mulher-homem” em casa, “melhor que dessem fim a essa desgraçada!” Nosso amigo, vendo que as coisas não estavam lá muito favoráveis a sua pessoa, fugiu pelos corredores do castelo. A armada, logo atrás, seguia arrasadora. Nosso amigo foi trancar-se na biblioteca. Mas, logo percebeu que não havia onde se esconder naquele recinto. Sem alternativas, tomou um livro, abriu-o e sua alma foi parar entre as páginas empoeiradas da obra. (Não perguntem por que razão, só naquele momento, o espírito de nosso herói conseguiu libertar-se, não há explicação, como também não o há para tal aventura). Num salto, entrou numa gravura do livro e por lá permaneceu até que toda a fogueira (literalmente) apagasse. A garota, sem nada entender, foi julgada e condenada à morte na fogueira santa por bruxaria, sem receber qualquer clemência dos familiares.

 O nosso amigo, depois de ver que ninguém mais se encontrava em casa, lamentando ter causado todo aquele rebuliço, saiu da gravura em que se escondera. Mais uma vez, sua alma fora sugada, sabe-se lá para onde. Por sorte, foi acordar em seu apartamento, no dia seguinte, jurando nunca mais comer coxinhas da padaria da esquina. Estavam lhe causando pesadelos cada vez mais estranhos.

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Sinos desafinados

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Giordana Bonifácio

Dobraram os sinos desafinados
A morte que em tua face se fez neve.
Como cantará a pena que ora escreve,
Os meus sonhos no féretro finados?

Amores bruscamente separados
Pela dor que te fez o corpo leve.
Chora a chuva tão triste, fina e breve,
Os planos para todo sempre adiados.

Não mais verão os teus olhos tão claros,
Luzes dos cristais mais azuis e raros,
As cores do céu num púrpura poente.

Quando a tua voz a morte emudeceu,
A felicidade em mim também morreu
E meu amor fez do nunca, eternamente.

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O coleciona-dor

“Sem felicidade também se vive”
Clarice Lispector – Amor

Giordana Bonifácio

Esta é uma história um tanto usual. Um relato ficcional de um colecionador. Colecionar é reunir artigos de mesma procedência em uma coleção. Existem muitos colecionadores por aí. Há quem colecione figurinhas, bolas de gude, revistas em quadrinhos e, posso citar um caso bem conhecido de um cantor de muito sucesso que era dono de uma estranha coleção de calcinhas arremessadas pelas fãs no palco durante os shows deste artista. Pois bem, não contarei aqui nada de novo. Todos já conhecem muito bem. Pois, é certo que em algum período de nossas vidas tenhamos colecionado algo. Também, acredito que muita gente não conseguiu completar sua coleção por esse ou aquele motivo. Então, o que narrarei nesse momento é algo tão comum que dificilmente causará estranheza aos que lerão esse curto conto. Se ocorrer o contrário, solicito que me perdoem, pois quando me inspirei para criar tal história, fui incumbido da certeza que agradaria a todos sem exceção. Porém, é muito difícil agradar tanto gregos quanto troianos. Ulisses que o diga… Tendo feito tais ressalvas, adentremos logo à narrativa.

Ele era um colecionador. (Desculpem, não consegui nomear este personagem, pois julguei pessoal demais designar-lhe uma denominação. Restará como Ele. Por que nomear alguém que pode ser qualquer um? Seja só Ele, então.) O que o diferenciava dos demais? O que o fazia digno de uma história quando há milhões de pessoas com suas próprias coleções de borboletas, de alfinetes, de cartões postais, moedas ou selos? Bom, o que o faz especial são os artigos que colecionava. Ele colecionava sonhos malfadados, amores desfeitos, oportunidades perdidas, músicas jamais cantadas, viagens não realizadas, beijos que nunca chegaram aos lábios a que se destinavam, respostas que não foram proferidas e mágoas recolhidas. O que acham desta inusitada coleção? Todos os dias, ele trazia um novo exemplar ao qual limpava, dava brilho e deixava junto aos demais: mais um luzidio troféu para sua estante. E a todos guardava com todo carinho.  Imagino como seria sua rotina para acumular tais curiosos exemplares consigo.  Provavelmente, estava sempre a engolir o orgulho, a deixar vencer a covardia e a aceitar a injúria, a mágoa, a decepção tudo que gerasse os artigos tão caros de sua coleção.

Era uma coleção bem pesada, mas, quando Ele saía, levava tudo consigo, vai que algum ser inescrupuloso quisesse se apoderar de sua coleção a tanto custo amealhada? Por isso, ele andava com os ombros caídos, as costas curvadas, cabeça baixa, com extrema dificuldade, tão só para levar nos ombros todo o peso do mundo. O nosso Atlas mal conseguia erguer-se pela manhã, tamanha era a carga que levava. Ele não conseguia desapegar-se de sua coleção. Levava-a consigo a todos os lugares, mesmo quando, à noite, Ele se encaminhava para a cama, transportava para o leito toda a sua coleção. É claro que não dormia bem. Era assaltado por insônias sem fim e, nas vezes esporádicas em que dormia, era vítima de um sono agitado mergulhados em terríveis pesadelos. No café da manhã, lá estava sua coleção tirando-lhe o apetite, assim também no almoço e no jantar. Penso que a coleção terminava por fazer-lhe mal, haja vista não lhe permitir dormir ou alimentar-se bem. Mas, como convencê-lo dos custos de ser possuidor de tão sacrificante coleção? Nosso amigo continuava a acumular mais e mais itens e sua carga, a cada dia, duplicava.

Porém, um dia, certo que já muito havia sofrido, resolveu desfazer-se de sua amada coleção. Mas quem aceitaria receber de bom grado uma coleção de sentimentos tão amargos? Não poderia simplesmente jogar fora o que levou anos colecionando. Era preciso encontrar alguém que não se importasse em transportar consigo tamanho peso para todos os lugares. Quem mais suportaria ter de amealhar todos os dias novas mágoas que se somavam às mais antigas e que se tornavam maiores à medida que se alimentavam de sua tristeza? Sabem aquele monstro “a bolha” de um filme de terror trash dos anos 80? Pois bem, essa coleção era mais ou menos assim, crescia quanto mais triste nosso herói ficava. Sua alma era o que fazia crescer este monstro. Ele tivera de suportar muita coisa para ter consigo um ser tão abominável e tão grande, cujo peso tornara-se insuportável. Ele nem mais se levantava da cama. Restava o dia inteiro cuidando de sua coleção. Lavava com lágrimas seus itens de modo deixá-los cada vez mais reluzentes. Não poderia esquecer nenhuma das mágoas que juntara por tanto tempo. Mas estava claro que Ele não mais suportava este mundo que lhe pesava sobre as costas. Os familiares tentavam convencê-lo a simplesmente abandonar e esquecer sua coleção. Mas ele havia se apegado demais ao passado. Era-lhe muito difícil simplesmente deixar para trás o que havia lhe ferido tanto e que agora já fazia parte de si. Mas Ele sabia que era necessário, antes de algo pior vir a acontecer.

Então, quando não mais havia lugar nas estantes de seu coração, Ele resolveu que era tempo. Tempo de o futuro chegar, de apagar-se o passado para sempre, de deixar de alimentar as desilusões e fazer definhar o monstro que crescia dentro de si. Fez uma faxina em sua alma. Abriu as cortinas, juntou a coleção, que tanto lhe pesava, e queimou, para fazer renascer a esperança Fênix do que um dia fora tão só mágoa. Havia muito para destruir, um volume imenso de maus sentimentos, que somente faziam-no sofrer. Nem sabia por que razão juntara tantos itens de dor. Lamentava por não haver feito isto quando era mais jovem. Afinal, toda dor, que colhia e guardava, feria tão só a Ele. Ninguém se importava se Ele sofria, a não ser os que o amavam de verdade. E Ele recusou-se a os ouvir por tantos anos… Cultivava um jardim de pesares que não floria, na verdade, era um jardim de ervas daninhas que lhe enfeavam a alma. Já era tempo de plantar flores de verdade no que antes era mato e vazio. Ele capinou a terra com muito esforço. Tantos anos colhendo tristezas, somente lhe provou que “sem felicidade também se vive”. Mas é chegada a hora de plantar bons sentimentos, jogar fora a amarga coleção de desilusões e começar a colecionar flores de felicidade.

Desfazer-se de tudo que tanto lhe pesava para viver com uma alma livre. Algo que abismou nosso herói fora o fato de uma coleção de bons sentimentos ser bem mais leve. Juntar sorrisos, abraços e vários “eu amo você” não pesava e era muito mais fácil de transportar. Podia levar consigo facilmente e o que é melhor: era possível distribuí-los sem que ninguém os recusasse! O mais impressionante é que não acabavam. Vinham de uma fonte infinita de felicidade. Sua coleção agora era apreciada por todos e ele não mais andava encurvado, muito embora, a levasse consigo todos os dias. Acrescentava a esta sempre mais um “obrigado”, ou um “por favor” ou, mesmo, um “desculpe”. Palavras que percebeu apagarem as mágoas e que passou usar frequentemente. Não precisava nem sequer limpar sua coleção, pois bons sentimentos reluziam sem que fosse preciso banhá-los em lágrimas. Ele percebeu que, às vezes, é bom chorar, mas tão só de felicidade. Quando o sentimento é tão grande que transborda para fora do corpo. Ele descobriu, ainda, que o céu é azul. Tantos anos vivendo encurvado pelo peso da dor, nunca havia antes olhado para o céu. Nele, ele conheceu ainda as estrelas que se escondiam de dia, e à noite, piscavam como se ouvissem as orações dos homens. Ao conviver com outras pessoas, Ele descobriu outra eficaz palavra contra a decepção: o “perdão”. Fazendo uso dela, Ele decidiu perdoar o mundo e a si mesmo, por todas as mágoas amealhadas durante décadas. E, a partir de então, ele soube realmente o que é ser feliz.

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