Arquivo do mês: novembro 2014

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O maior solitário é o que tem medo de amar,
o que tem medo de ferir e ferir-se…
Vinícius de Moraes

La Solitudine

Giordana Bonifácio

Há maior solidão que a do ser que não ama?
Tal qual um cão sem dono, o amor procura,
Enquanto sofre a mais cruel amargura.
A dor, fruto de tão terrível drama,

Apaga no peito a mais ardente chama.
Almas perdidas que na noite escura,
Afogam-se no mar da desventura.
Também o meu coração o amor reclama,

Mas a tragédia tão funda em meu peito,
Faz-me lembrar do sonho já desfeito.
Ó Esperança, flor que em minh’alma jaz,

Poeira que Eólo, com um só sopro, esvoaça,
Por que também a minha dor não abraça?
Ó Deus, por que só no amor se está em paz?

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Oração Natalina

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Giordana Bonifácio

Ó noite, porque tanto se ilumina?

Que estranha fé inunda-te de luz?

Quem é este infante a quem chamam por Jesus?

Ó franzino menino, ó luz divina,

Como pode ainda crer minha alma em ruína?

É tamanha a tentação que ao homem seduz,

Quem não negaria a Cristo ainda na cruz?

Pobre criança com tão amarga sina…

Ó pequena semente de esperança,

Que se fez viva num corpo de criança,

Aquece a nossa tão fria humanidade,

Faze-Te chama em meio a duros corações,

Faze o céu ouvir dos pobres as orações

E olha por mim com Tua imensa piedade.

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“Quando na mais sublime dor,
A mulher dá à luz,
Há sempre um Anjo Anunciador
A murmurar-lhe ao coração — Jesus!”

António Manuel Couto Viana – Natal cada Natal

Soneto de Natal

Giordana Bonifácio

Ó rei dos reis, tão pobre Nazareno,

Que numa manjedoura foi acolhido,

Tão humilde berço para um rei indevido.

Ó Jesus que se fez fraco e pequeno,

Sei que há tempos repito um só pedido,

Que ora transformo em verso doce e ameno.

Sei que aos poucos a minha alma enveneno,

Com um penar deveras descabido.

Meu Deus, já fostes Tu um homem como eu,

Sabes o quanto neste mundo sofreu,

Livres-me deste sofrer tão adverso.

Neste Natal , concedas-me esperança,

Pois a carne é fraca e já se cansa

E não mais lhe há voz para entoar o verso.

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O último Natal de Charlote

Giordana Bonifácio

O que sinto agora? O silêncio dói em meus ouvidos… Meu corpo não responde. Queria dizer algo, qualquer coisa para quebrar a monotonia. Parece-me que estou aqui há horas. O que deve estar se passando? Vejo uma confusão de cores, vultos fugazes atravessam minha visão. Sinto cheiro de borracha queimada. Mas nada que explique tudo isto. Tudo, o quê? Nem mesmo eu sei. Não me recordo dos minutos anteriores a este momento. Talvez, pelo pavor que inunda meu coração. Queria dizer que estou com medo, mas nem mesmo um som sai por minha boca. Na língua o sabor do sangue acentua-se em minhas papilas gustativas. O mundo finda ou inicia-se agora? A quem devo pedir auxílio? Acho que me recordo de algo. Fui ao shopping… Sim, era véspera de Natal, tinha de comprar o presente das crianças… E depois? Nada? Ou algo que não possa, ou não queira suportar? Havia um urso, felpudo e macio, que daria à Laura; um carrinho colorido de corrida para Jonas e uma boneca de olhos azuis e cabelos castanhos para Sofia. Mas onde estão os presentes? As crianças não suportariam restar sem os presentes do Papai Noel. Não consigo vê-los em parte alguma. Não sei por que o mundo se tornou subitamente numa confusão de cores sem rosto… Sinto água na minha boca. Chove? Parece-me que longe ainda ouço um som estridente… O que seria? Não tenho tempo para charadas. Seja o que for, preciso de significados urgentemente. Tenho de preparar a festa de Natal, receber os convidados e servi-los. Haverá um peru assado com os condimentos que plantamos em nossas janelas. Nós? Sim, Teodoro, meu marido, e eu. Somos uma família feliz, temos tudo de que precisamos. Somos imensamente felizes. Todo Natal, Téo toca canções natalinas no piano e as crianças, eufóricas, cantam aos solavancos, sem conectar a letra à música. É um espetáculo deveras engraçado. Minha vida sempre foi muito abençoada. Sou uma mulher realizada. Tenho uma casa confortável com janelas azuis e largas portas brancas,( é claro que nos foi difícil quitá-la junto à Caixa Econômica, haja vista os juros altíssimos, mas quem se apega a detalhes?) Eu sei: somos uma família feliz…. Como sou imensamente feliz… Ainda fui contemplada com filhos maravilhosos: Laura, a primogênita, tem o gênio do pai, cautelosa, reservada, quase não consigo desvendar o que há por trás daqueles óculos; Jonas o filho do meio, esperto, divertido e extrovertido, é um menino muito afetuoso; já minha caçulinha, Sofia, é uma amável sonhadora. Queria poder abraçá-los neste momento. O que me impede? Onde estou? Oh, meu Deus, onde estou?
Parece-me que ouço algo mais, vozes distantes, perguntam-me … O quê? Como posso respondê-los? No Natal passado, Teodoro chegou atrasado do trabalho. Mas ainda pudemos cear juntos. Nossa família é uma corrente que não poderá ser quebrada de tão sólida, cujo aço é composto do amor incondicional que temos um pelos os outros. Faz dez anos desde que assenti ao pedido de Teodoro, tornei-me sua esposa. Tivemos uma rápida Lua de mel e logo vieram as crianças. Os primeiros anos foram-nos difíceis, suportamos uma barra. Tínhamos pouco e não era sequer suficiente para as celebrações. Nossos Natais e aniversários eram comedidos. Apesar de estarmos explodindo de felicidade, era-nos necessário sopesar os gastos. Não podíamos exceder-nos. Foram anos difíceis, espero que não tenham sido traumáticos para as crianças. Não quero que elas recordem-se apenas das discussões fustigadas pela falta de dinheiro, pois mesmo nesse passado distante, fomos felizes. Não o tempo todo, mas a maior parte das vezes. Tempo, não me pese sobre os ombros… Pois ainda me doem muitas feridas em meu coração. Oh, quantas luzes que piscam sem parar… É de se esperar, afinal é Natal. Tempo de estar com a família e amigos, a época mais bonita do ano… E o que faço aqui, desnorteada e circundada de tantas luzes? As vozes chegam-me abafadas, como se sussurrassem ao meu ouvido… O que me dizem? Ainda chove e as vozes restam mais inaudíveis em função do temporal. Vamos acalme-se Charlote, pense, o que deve estar acontecendo com você? Saiu de casa a caminho do shopping para comprar os presentes das crianças. O carro de Téo não estava na garagem. Deu as últimas instruções à Maria, a babá, beijou as crianças e prometeu levar as cartinhas do Papai Noel ao correio. As cartas! Estão no bolso do meu sobretudo! Devem estar encharcadas. É uma pena, pretendia guardá-las para apresentá-las aos meninos quando mais velhos. Foco, Charlote, foco! Volte ao que aconteceu no dia de hoje! A chuva estava muito forte. As pistas estavam alagadas. Você olhava as lojas iluminadas, nesta noite em que a poesia parecia cobrir tudo com uma aura de paz e alegria. Foi quando você viu. Você viu! O que viu? A realidade que tornava mais negra à tarde chuvosa. Mas não eram as nuvens escuras que e cobriam seus olhos. O que lhe vendava era o amor. Amor que pensava ser recíproco, mas não o era. Você amava numa via de mão única. A mentira de sua vida perfeita desmontou-se como a árvore de Natal levada pelo vento, cujas bolinhas despencavam e quebravam num estampido agudo. Téo, (seria ele?) estava aos beijos sob a marquise de uma loja com uma mulher bem mais jovem e mais bela que você. O espanto foi tamanho, que perdeu momentaneamente o controle do veículo. O carro saiu da pista e bateu de frente com outro que vinha no sentido contrário. Por que não havia colocado o cinto de segurança? Você foi arremessada para fora do veículo. Eis a resposta do sabor de sangue em sua boca. E agora? Para que tantas juras se a eternidade acabara sem eu dar-me conta? Como estariam as crianças? Isto acabaria com o Natal das pobrezinhas…
Os sons foram se tornando um pouco mais audíveis: alguém me pedia para me acalmar, pois o socorro havia chegado. Onde estariam Téo e sua amante? Será que assistiram ao acidente? Devem ter se evadido do local sem prestar socorro. Por que tinha de ver? Por que não permanecer cega para a realidade? Poderia morrer sem se dar conta da verdade. O que os olhos não veem, fica ignorado ao coração inocente. Mas tudo era minha culpa: Téo o acidente, tudo! Se não fosse uma esposa mais gentil e companheira, se fosse menos mesquinha… Mas eram três filhos e havia necessidade de prestar-lhes todo auxílio. Havia escolas, despesas médicas e alimentação. Talvez tenha desviado toda minha atenção às crianças e negligenciado meu casamento… Oh, sim, eu sou a culpada. Agora só me resta a morte. A fatalidade que me sorveria as lágrimas que não tive tempo de derramar. Morreria sem dizer adeus aos meus filhos e sem me redimir com meu marido. Agora já tenho noção que as luzes que piscavam eram as lanternas enlouquecidas das ambulâncias. Como é difícil partir sem qualquer palavra de conforto. Assim, quando de repente, tudo em que eu acreditava revelou-se uma enorme mentira. As nuvens de chuva encobriam um céu estrelado e a minha derradeira esperança. O que fazer com este coração partido, tudo que me resta de minha existência terrena? Mas será que ainda havia tempo para o pranto? Poderia lamentar-me ainda nos ouvidos dos anjos que me chamam ao paraíso? O presente fez-se passado rápido demais. E se eu soubesse que o futuro era agora, teria preparado meu coração. Quem vai segurar minha mão nesse momento tão difícil? As portas do paraíso descerram-se em luz. Mas não poderia partir. O que ocorreria com meus filhos? Sempre que se aproxima, faça este nunca mais leve aos que ficam. A chuva agora estava mais fraca, menos convulsa… Resignada? Eu devia ter restado na confusão dos fatos, quando, por mim, só falavam os sentidos. Agora ei de partir sem qualquer consolo. Levando comigo só mágoa e tristeza. Sorvo a água da chuva como a esperança de um elixir da vida eterna. Meus filhos, só queria ainda rever os meus filhos… A dor do fim é pesada demais para suportar-se sozinha. Morreria notícia de jornal, nome desconhecido vinculado a uma matéria do noticiário das sete horas. Não mencionariam, porém, se Laura receberia seu ursinho, Jonas, seu carrinho e Sofia, sua boneca. E, antes de morrer, era tudo o que eu queria saber.

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