Arquivo do mês: setembro 2014

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O sapo

Giordana Bonifácio

Aconteceu em uma primavera, há não muito tempo atrás. Talvez, há mais tempo que me lembre ou tenha contado. As datas confundem-se na memória, que a idade, cruelmente, escurece. Não conseguimos simplesmente etiquetar na mente os fatos que se misturam com os sonhos e, às vezes, nem sabemos se vivemos ou sonhamos. Creio que a história que aqui narrarei foi real e não uma simples invencionice que as horas modorrentas de solidão fez-me construir. Sempre fui dotada de uma imaginação muito fértil, meus sonhos sempre foram reais o suficiente para que se misturasse a história vivida à fictícia que se passa nas terras ignotas de Morfeu. Assim, mesmo com a minha fiel garantia que os fatos aqui descritos são reais, não poderia conferir ao leitor desavisado alguma certeza. Espero que confiem na minha narração, mesmo que seja uma fantasia e fuja ao conceito rígido da verdade.

Voltando à história, agora que o leitor assinou comigo um pacto de confiança, (na verdade um contrato em branco que posso preenchê-lo como bem me aprouver. Mais uma vez solicito a fé em minha honestidade aos que forem convidados a lerem esse conto), era uma noite em que a seca interminável do inverno convertia-se numa viva primavera. Quem conhece Brasília, sabe bem do que estou falando, após um inverno em que a vida se esconde sob o solo seco e a paisagem amarelada, com as primeiras chuvas, os vários insetos entram em polvorosa. Invadem a cidade, monstro que antes lhes havia tomado o habitat, os besouros que se julgavam livres para se reproduzirem onde bem os aprouvesse. Milhares desses serezinhos se espalhavam tontos pelas casas à procura de completar um ciclo vital que o homem lhes confiscou. O problema é a vida. Sempre foi. Uns lutando por ela e outros, por muitos motivos, aceitáveis ou não, desprezando-a. Eis que, do que restou de um cerrado devastado pela cobiça do ser humano, escapam para a cidade seres desprezados que vivem sem pedir, que estão compondo uma cadeia alimentícia cujo homem no topo se colocou, fogem para as cidades invasoras que são reais e não invisíveis. Então, estas minúsculas porções de vida se misturam nos quintais e garagens procurando o que seus instintos lhes ordenam. Se realmente o querem, é outra história.

Na garagem de minha casa, muitos besouros ainda perseguiam a sobrevivência de sua espécie, mesmo que disso não tivessem consciência. Tomavam os muros e voavam assustadores sobre as cabeças das pessoas, ameaçando suas rotinas tão importantes, que não podem ser sequer atrapalhadas pela presença de algo que não foi programado ou medido. Já tentei fazer uma estatística dos besouros que tomavam minha casa de assalto nessa época. Mas, depois, considerei um trabalho um tanto estúpido e não concluí meus estudos. Assim, estas espécies provindas de um passado em que não existiam computadores ou tablets, cobriam as porções limitadas de natureza que os homens permitem em suas residências. Provocando, muitas vezes, uma tremenda algazarra entre as crianças que escapam do aspecto horrendo desses besouros, que apesar de sua feiúra incontestável, são inócuos. Eis que lá estão, besouros que não podem ser confundidos com os “reis do iê-iê-iê”, pois enquanto estes arrastavam multidões, aqueles afugentavam os homens que não suportava o incômodo proporcionado por vidas tão minúsculas e desimportantes.

 Lembro que estava escrevendo quando minha mãe eufórica chamou-me para assistir um espetáculo que, citadina como sou, nunca havia vivido. Na garagem, tomada pelos besouros, havia um sapo que se alimentava dos tontos insetos que, nem sequer fugir, tentavam. A língua pegajosa do verrugoso sapo esticava-se e levava-lhe o alimento até a boca. Isto numa velocidade extraordinária. Todos em casa, que não haviam jamais presenciado tal espetáculo, correram para assistir o estranho animal que já se julgava até uma celebridade, tamanha atenção havia chamado para si. Após alguns minutos, já repletos daquele espetáculo repetitivo, em que um besouro desavisado sempre terminava engolido pelo sapo, voltamos todos aos nossos afazeres. Não sei por que razão eu só vim escrever sobre aquelas cenas tanto tempo depois. Estaria amadurecendo uma ideia? Ou, simplesmente, não vi o que teria visto quando pensei melhor sobre o que meus olhos, cegos, viram? Quando retornamos todos para nossas vidas, controladas por computadores, televisões e toda a parafernalha eletrônica que dominou o mundo, não nos demos conta que a porta de casa havia permanecido aberta.

O sapo, desgostoso por não usufruir mais do seu repentino sucesso, resolveu adentrar pela porta da frente das vidas que estavam presas naquele ambiente. Pulou desajeitadamente pela sala, já sem saber qual caminho tomar. Saltou mais alguns metros até ser descoberto pela mulher que primeiramente o havia avistado na garagem. Um grito estridente soou pela casa. Assustados, todos mais uma vez dirigiram-se para o local em que o sapo agora, assustado, encontrava-se. O bicho logo tomou consciência que não deveria permanecer ali. Mas, já não mais sabia por onde escapar. Pulava feito um louco enquanto as crianças, corajosamente, tentavam capturá-lo. Sem remorsos, o mais velho dos meninos sugeriu lançar sal sobre o corpo do anfíbio. Então, tomada de uma profunda compaixão pelo ser saltitante, resolvi eu mesma capturá-lo antes que fosse submetido à crueldade dos seres que pensam, mas, incrivelmente, não amam.

O sapo amedrontado saltava numa fuga desesperada. Cobri minha mão com uma sacola de plástico de supermercado, para não ser envenenada pelas toxinas que a matriarca alardeava que o bicho possuía, e, encurralando-o, capturei-o. As crianças gritavam de alegria. Queriam dissecar o inocente animal. Talvez, na idade delas, também agisse da mesma forma. Mas, os anos conferem ao homem algum tipo de sabedoria. Ou não, vai se saber… Fiquei comovida pelo pavor daquele ser que não tinha culpa de sua feia aparência. Nem mesmo de ser menor e mais frágil que o homem. Na minha posição de capturadora, fiz o que me parecia mais correto naquele momento: salvar a vida do sapo. Iria libertá-lo no quintal onde poderia escapar da mente destrutiva de meus sobrinhos que, tão jovens, já pensavam como homens.

O sapo, ao ver-se livre, saltou alguns metros até se perder entre as plantas do quintal. A família levou algum tempo até recuperar-se da gritaria provocada pelo invasor. Todos elétricos pelo afã da caçada. As crianças ainda lamentavam não terem lhes permitido dissecar o animal. Já eu, sentia-me aliviada por tê-lo libertado. Do sapo, ainda não sei qual fora a sua opinião, nem mesmo se este havia escapado de seus predadores naturais. (Desde que mudamos para aquela casa, nosso quintal era visitado por uma enorme coruja). Mas a história passou-se dessa maneira como aqui narrei, ou como ficou registrado na minha fraca memória. Ainda penso que o sapo está contando aos seus colegas esta aventura. Talvez coache aos outros sapos a história e como conseguiu invadir uma casa dos homens e escapar com vida. Assim, é cumprimentado pelos demais, que vibram devido à grande coragem do animal. Mas não posso comprovar se assim realmente se passou, pois do sapo nunca mais em nossa casa se teve qualquer notícia. E nem mesmo em outras primaveras o corajoso anfíbio voltou a nos visitar.

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amanhecer-no-mar

Alvorada

Giordana Bonifácio

Por onde andam meus medos contumazes?
A dor que antes feria ao meu corpo doente?
Não compreendo a paz que minh’alma sente.
Tempo, por que não mais sofrer me fazes?

Ó passado obscuro, ó mágoas vorazes,
Ontem que se fez sempre tão presente,
Para onde fostes vós, prisões da mente?
Ó sonho, quão grande é o bem que me fazes:

Minha vida, antes, pela dor ritmada,
Não me fazia acreditar em mais nada.
Mas me nasceu um sol todo colorido

Iluminando os meus sombrios caminhos.
Hoje, creio que não estamos mais sozinhos:
Tenho de volta a fé que havia perdido.

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