Arquivo do mês: agosto 2014

sequilho_de_polvilho_doce-506626-51659aacd3f28

Um gole de café com a Dona Morte

Giordana Bonifácio

“Uma frase, só uma frase… É tudo de que preciso!” Resmungou o velho. Quem diria que o tão conhecido contador de causos, agora estivesse sem qualquer história para contar. O que ocorreu? As pessoas não queriam mais escutar histórias… Primeiro, vieram os livros, que chegaram da Europa com histórias fantásticas em inglês e francês… Depois, foi a imprensa que sobrepujou o poder da narrativa com a notícia. Agora o velho nem tinha mais um repertório que valesse a pena ser ouvido. Mas ele sabia que mesmo se o tivesse, ninguém mais se interessaria em ouvir. Resmungou um grupo de palavras intraduzíveis, talvez culpasse o mundo por sua recente solidão. Ou ainda, tentasse lembrar um passado em que caminhava de engenho em engenho contando causos, difundindo o saber folclórico, quando as pessoas ainda o queriam ouvir.
Tentou resgatar ainda mais uma vez a frase que era a ponte para uma história de que não se recordava mais. Também, já fazia tantos anos. Muitos de quando era convidado pelos senhores de engenho. Fazia-se uma roda, geralmente em torno de uma fogueira, e era um acontecimento… Todos se reuniam para ouvir suas narrativas. Causos que enxiam de ideias as cabeças das crianças. Estas eram as que ficavam mais ouriçadas com sua chegada ao engenho. Nessa época, ele tinha um burrinho. Era como se deslocava pelos engenhos, era como conhecia o mundo e era por este conhecido. Ficou deprimido ao se lembrar de seu burrinho de que teve de desfazer-se para pagar a conta do armazém. Foi obrigado a fixar-se numa casa de paredes de barro e chão batido, pois não mais se interessavam por suas histórias. Os senhores de engenho não mais o convidavam e ele restou esquecido naquela ruazinha de uma cidade que não parava de crescer.
Suspirou e desistiu de forçar a memória que aos poucos se perdia. Perdia-se no sentido figurado e concreto da palavra, pois aquelas histórias, fruto da tradição oral, que é a base da cultura de um povo, eram apagadas pelo tempo. Ninguém se interessaria por escrevê-las. Talvez porque não fosse culto tal qual um velho cego de que um dia ouviu falar. Fora o filho de um senhor de engenho que lhe contara a respeito dele. Como se chamava mesmo? Ah… sim, Homero. O doutorzinho chegou a compará-lo a esse tal contador de causos da antiguidade. Ficou muito orgulhoso, chegou a procurar saber mais sobre o sábio grego, mas não sabia ler ou escrever. O doutorzinho até lera para ele algumas partes de suas histórias, mas pouco ficara gravado na memória do velho. Também, o que restava de si? “O tempo alimenta-se de seus filhos”. Onde ouvira isto?
Coisa estranha esta, a gente vive para morrer, e segundo o padre, morre para viver, só que para sempre. Nunca se preocupou com a Morte. Confiava em Jesus Cristo Nosso Senhor. A hora dele chegaria, decerto. Nem tão cedo e nem tão tarde. Não temia. Se a Morte viesse, preta, assustadora, ainda a convidaria para um gole de café: “senta aí, ô Dona Morte. Conte-me a respeito de seu trabalho; deve ser uma chatice só levar um bando de gente que não quer ir embora para o outro lado…” Se houvesse leite e maisena ainda faria uns sequilhos. “Deve-se receber bem gente importante.” Riu-se desta ideia desatinada. Como se a Dona Morte fosse dar-se ao desfrute de tomar um gole de café com ele. Ela certamente tinha muito mais o que fazer. Quem hoje quer ouvir invencionices de um velho? Havia os romances que entretiam os filhos dos doutores e as mulheres acompanhavam as histórias semanais nos jornais. A tradição oral fora abandonada. “É o progresso”. Resmungou o velho.
Fez café com um resto de pó que lhe sobrara. Era pouco, mas o suficiente para dois copos de café. Teve sorte, porque nesse momento, bateram na porta de sua casinha de barro. Estranhou, pois não era comum receber visitas. Ao chegar à porta de casa, o velho viu ninguém mais que a Dona Morte, preta, fria e apavorante aguardando com sua foice afiadíssima.
“-Então, seu Eleotério, aceito aquele gole de café, antes da gente ir embora.” O velho, apesar do assombro inicial, tentou convencer a Morte que não era ainda sua hora. A Morte foi enfática: era o fim. Ainda riu-se do velho: não era o senhor que se gabava de não temer a Morte? Agora que a sua hora chegou, quer agir como todo mundo? Que vergonha, seu Eleotério. Mas chega de conversa, sirva-me aquele gole de café que me prometera no passado.” Seu Eleotério deixou a Morte passar e levou-a para dentro daquele minúsculo cômodo onde o café fumegante os aguardava. A Morte era agradável. Uma entidade simpática até. Não era como os homens em geral a descreviam. Tomou o café em copo americano e lamentou por não haver sequilhos. Seu Eleotério disse-lhe que não tinha maisena, já que era um homem muito pobre. A Morte não se fez de rogada. Afirmou que tinha lá uns poderes. Mas não era para ele contar para ninguém.
Num gesto, eis que um prato dos sequilhos mais gostosos que o velho uma vez havia provado estalavam quentinhos sobre a mesa. Seu Eleotério saboreou os sequilhos numa boa conversa com a Inevitável. A Dona Morte questionou-lhe sobre um bom causo, para animar o bate-papo. Seu Eleotério puxou pela memória e a frase do causo de que minutos antes queria se recordar surgiu-lhe como por magia. Era uma velha história sobre uma mulher que se apaixonara pelo padre e que por castigo fora transformada em mula-sem-cabeça. A Morte ouviu tudo com muita atenção e ria-se das frases engraçadas que o velho acrescia à narrativa para animar a conversa. Quanto tempo fazia que seu Eleotério tinha uma plateia tão compenetrada, ele não sabia precisar.
A Morte sempre exigia mais histórias e assustado com o fim que parecia cada vez mais próximo, seu Eleotério resolveu agir como aquela tal de Sherazade. Se pudesse, passaria mil e uma noites a engabelar a Morte, para não a acompanhar ao outro mundo. Narrou-lhe histórias de fantasmas, lobisomens, de onças embrenhadas pelas matas e toda a sorte de causos que um dia já contou, devido às circunstâncias, foram rememorados. A Morte não parecia ter pressa. Ouvia tudo com muitíssima atenção. Até que, olhando um relógio estranho que trazia consigo num saco amarrado a sua cintura, a Morte anunciou: “bom, já são horas. Vamos seu Eleotério?” O velho tentou dialogar, queria mais uma chance. Não estava pronto. Mas a Morte, mais uma vez, enfática, disse que teria de levá-lo. “Ou isso, ou..”.
“Ou o quê pelo amor de Deus!” Clamou o velho. Numa última esperança de safar-se da Morte. Como fugir do fim de que a cada segundo mais próximo se está? A Morte lhe disse que lhe poderia conceder mais uma semana. Isto porque havia gostado muito de suas histórias e seria uma pena que não ficassem de algum modo registradas. Assim, deu ao seu Eleotério uma derradeira chance, para que procurasse alguém que registrasse todos os seus relatos. Não foi difícil encontrar, o professor da escola da cidade ficou muito interessado nos causos do velho. De início, não acreditou. História fajuta de um velho gagá. Mas resolveu registrar em cordel os causos de Seu Eleotério. O último deles foi Um gole de café com a Dona Morte. Tendo escrito tudo, Seu Eleotério aprovou o resultado final. Apresentaria tudo a sua mecenas. O professor não cria de modo algum nas invencionices do velho. Mas cuidou de apresentar as histórias fantásticas do contador de causos nas suas aulas que ficaram muito mais divertidas.
Findo o prazo concedido ao velho. O professor foi certificar-se da autenticidade das informações prestadas. Foi à casa de Seu Eleotério. Encontrando a casa aberta, adentrou no cômodo que era ao mesmo tempo, sala, cozinha e quarto. Chegando lá encontrou o velho, rígido, sentado à mesa, numa posição que insinuava estar conversando com alguém. Não mais havia vida naquele corpo, mas na mesa, um prato cheio de sequilhos fumegavam, estalando à frente do corpo que ainda conservava um nos lábios.

Categorias: Uncategorized | Deixe um comentário

3764_artigo_guerra_gaza

Em nome da fé

Giordana Bonifácio

Ouço a morte sibilar ao meu ouvido.

Memória de um passado fúnebre?

Quantas tragédias ainda vamos viver?

Meu Deus, por que nos abandonastes?

Uma tempestade de pó e ferros retorcidos

 caem sobre o mundo.

Tenha piedade de nós…

Um flash retrata a dor sob os escombros.

“Medo, frio, dor, o que mais vos assustais?”

Tenha piedade de nós…

O presente é só uma consequência do passado.

O pior é o futuro que nos espera.

Tenha piedade de nós…

Amarga na boca a hóstia consagrada.

Tenha piedade de nós…

Mísseis cruzam os céus em nome de Deus.

Ou talvez de Alá. Quem estaria certo?

Ruge a metralhadora nossa sentença de morte.

Mortos, mortos, mortos…

Tenha piedade de nós…

Abrace sua fé como à bomba que dilacera.

A fé traz consigo o antigo discurso de modernidade.

Fragmentos de corpos, retalhos de sonhos.

O passado é o presente no espelho.

Rasgue a flâmula que condena.

Vidas inocentes perdem-se em discursos hipócritas.

Tudo em tempo real.

A história instantânea logo esquecida.

Tenha piedade de nós.

Erguem-se aos céus as mãos dos inocentes.

A culpa de sua morte escapa-lhes.

Em nome de Deus.

Em nome da fé.

Mortos, mortos, mortos…

Ó, meu Deus, Tenha piedade de nós…

 

Categorias: Uncategorized | Deixe um comentário

coração+ferido

Soneto de um coração selvagem

Giordana Bonifácio

Ó coração selvagem, aonde vais?

Não vês que outra vez erras o caminho?

Será que seguirás sempre sozinho

Nesta estrada que não termina mais?

 

Ó meu coração, quantos sonhos irreais…

Não sabes que da rosa o amor é o espinho

Cujas mágoas não findam como o vinho?

Ó tolo, o passado já não volta mais!

 

Não lamentes as noites mal dormidas,

Nem mesmo cubra tuas muitas feridas.

Pois vai brilhar-te a luz clara do dia.

 

Ó coração, tão doce e torturado,

Tu choras num soluçar murmurado,

Tua dor amarga, a tua imensa agonia.

Categorias: Uncategorized | Tags: , , , , | Deixe um comentário

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: