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Os esqueletos no armário

Giordana Bonifácio

Meus segredos são esqueletos no armário da memória. Ninguém pode conhecê-los. A ninguém é dado sabê-los. Restam em mim, para sempre? Não sei, o eterno é um segundo muito longo. Já a vida é uma tediosa espera que dura um átimo. Tudo é tão rápido que até as longas procuras tornam-se uma busca frenética de algo que nem sei… Há ainda algum objetivo a ser atingido? Quando criança arriscava-me a sonhar. Hoje já não consigo fazê-lo… Desaprendi a ter esperanças quando fui submetida a longas esperas. Decidi que deveria fazer o possível para ter uma vida estável. Estabilidade. É o meio para atingir-se um fim. Nem sei mais qual. Quero ser feliz apenas… É pedir muito? Será que devemos ser felizes? Felicidade é permitida? Num mundo de tantas proibições é até estranho que nos concedam o poder de sermos felizes. Se bem que poucos o utilizam. O certo é que temos momentos de alegria. Não se pode jamais se perpetuar este estado. Por quê? Simplesmente porque nos deixaria loucos. Então devemos sorver todo o minuto. Carpe diem. Aproveitem o dia, curtam o que não está apenas na tela do computador. Mesmo que eu faça exatamente o contrário. Os meus medos cerceiam-me as ações. Quisera ser feliz. Pudera ter esperança. Mas tenho comigo muitas cicatrizes, vivo de lembranças dolorosas. Faz muito tempo, mas ainda machucam… Não sei como apagar meu passado. Ele resta como uma tatuagem em minha alma. Tantas mágoas… Eu não devia ter tentado quando era óbvia a resposta. Fiz papel de idiota. Não devo lamentar-me. Nossos erros são o antídoto de nossa estupidez. Não farei de novo. Jamais. Nunca é quando rejeitamos algo para sempre. E sempre foi um futuro que terminou cedo demais. Fui derrotado por meus erros. O fracasso fez-me um homem melhor. Creio que sim. De olhos fechados eu vejo-me melhor, não sou a imagem refletida no espelho. A luz cega à verdade. Todos veríamos melhor de olhos fechados. Mas a vaidade fez do invólucro mais importante que o produto. Sei que guardo sonhos aprisionados em minhas masmorras internas. Mas se foi o dia em que eu tinha coragem de revelá-los. Hoje penso no futuro, mesmo que seja apenas uma fotografia do passado. Nada mais me importa. Não vou me permitir falhar de novo.

Foi escrevendo minhas dores num guardanapo que descobri a minha veia poética. Mas nem sei escrever bonito. Só sei escrever triste. A melancolia é meu escudo. Minha alegria, um segredo. Está escondida na torre mais alta dum castelo distante guardado por uma bruxa malvada. (E se bruxa for eu?) Quem pode libertar esta doce prisioneira? A pena que a condenei é a mesma com que escrevo este texto. A pena é a pena que condena. O escritor foi encarcerado por seus sentimentos. Não quer se revelar, mas o faz. Estranho, não é? Eu escondo-me sob o manto da literatura e revelo-me por suas lentes desfocadas. Mas ninguém poderá jamais me entender. Não podem desvendar as charadas que eu criei. Sou um tanto Esfinge, pobre daquele que ousar errar a resposta!  Coisa estranha, eu sempre proponho uma questão quando para ela não há solução. Talvez eu somente não a queira aceitar. Reluto, luto, sofro, sangro, choro… Mas não consigo conceber. Não, não e não. A negativa faz-se mais forte. A ilusão, tão frágil, fica recolhida em sua Caixa de Pandora. Quando foi que nasceu o dia que não vi? A noite era-me algo tão conhecido. Gostava tanto das sombras e seus mistérios… Não quero a luz do dia iluminando meus segredos! Abomino a claridade, porque nunca tive as ideias claras. Vivo uma confusão de sentimentos. Quando aprendi a sufocar a fogueira crepitante até restarem somente cinzas, surge o dia, revelando o que permanecia escondido, reacendendo a brasa em minha alma. Quero a chuva, lágrimas de chuva para apagar o incêndio iminente. Vou soterrar meus sonhos sob grossas camadas de desilusões. Mas, ainda assim, os fantasmas continuarão a assombrar minhas masmorras.

Ontem sonhei com libélulas, na verdade, tenho medo delas pelo som que emitem. Mas em inglês possuem um nome poético: dragonfly. No sonho, havia milhares de libélulas voando em torno de mim e eu tinha muito medo de mover-me e acidentalmente tocar em alguma delas. Mesmo sabendo serem inofensivos, tenho repúdio a estes insetos. Tenho medo do inócuo. Algo que não pode me prejudicar provoca-me mais pavor que as peçonhas do destino. A vida possui presas perigosas. O veneno, que não mata, deixa-nos marcados para todo sempre. Mesmo que o sempre seja nunca mais. Eu tenho muitos “nuncas” gravados no peito. É que, quando a ferida sangra, a gente sabe que restaram muitas mágoas do passado do coração. Na verdade, o coração nada diz. Bate involuntário e insano. Sempre sujeito às surpresas do destino. Entretanto, consegui domar este selvagem órgão. Hoje o tenho sob meu poder. Não lhe permito ser livre, pois também não me permito. Estamos presos um ao outro, gêmeos siameses que dividem o mesmo corpo. A razão controla a sensibilidade. Não posso deixar-me iludir por fantasias pueris. É que já se foi o tempo em que miragens comandavam minha vida. Os sonhos são para mim souvenires de um passado distante. Coisas que ficaram, como lembranças de viagens, cursos que meu coração fez quando a razão esteve fora. Quando ela chegou, pôs em ordem toda a bagunça.  Agora está tudo de volta aos trilhos. A força motriz da minha locomotiva é o intelecto. Também é outro escudo de que me valho. Quando quero, posso ser um ser comum. Mas só quando eu quero. Na maioria das vezes, prefiro ser o que sou. Espero que não se incomodem. Sou tão estranho… Como um retrato cubista que pretende revelar todos os ângulos de uma imagem. O que tento revelar sai deformado, pois é um retrato tridimensional de mim. Contudo, todos costumam ler em apenas duas dimensões e não me compreendem. Por isso, queixam-se de meu hermetismo. Quero fazer-me mais claro, porém, faltam-me palavras simples.  Como me faltam emoções simples. É que a solidão não é tão lógica quanto parece. Soa um tanto estranho, mas é assim mesmo.

E estas caveiras aprisionadas em meu espírito? O que devo fazer com elas? Vão ficar sorrindo para mim, ou melhor, sorrindo de mim, de meus incontáveis desenganos, por toda vida? (Será que mais que isto? E se o sempre existir, como garantem as religiões?). Como poderei livrar-me daquilo que não posso ser ou daquilo que não posso ter? Será que há algum tira-manchas eficaz para lavar as nódoas no meu espírito? Minha alma já foi pura, eu sei, mas faz muito tempo. E quando eu queria dizer o que sentia as suas palavras feriram-me e tornaram-se tão pesadas que enverguei e, desde então, estou submetido a seu peso. Não é rancor, é mágoa. Rancor é ressentimento que fere quem nos feriu. A mágoa só fere meu pobre coração. Nunca, sempre, jamais: nunca mais vai existir outra oportunidade. Serei para sempre sozinho. E a dor jamais me abandonará. Esteja claro que compreendo todo significado destas palavras e já aceito o que determinam. É que hoje eu sei o que na verdade ocorreu. Foi um faz-de-conta que criei para suprir a carência de realidades que não me era possível viver. Quando desejei ser mais do que poderia ser, quando imaginei que poderia ter algo que não estava ao meu alcance e que tudo poderia ser suprido por emoções ingênuas… Sim, fui um tolo inconsequente! Quero ter nas mãos de novo as rédeas da minha vida. Não deixarei mais que os sentimentos guiem minha carruagem. A locomotiva somente será abastecida pelo combustível de meu intelecto. Porque sou de novo eu quem me pronuncio e não mais meu coração. Amordacei este louco, não mais o deixarei no comando de novo. Desse modo, sei que, enquanto viver, os esqueletos permanecerão em suas masmorras e meus sonhos afogados em melancolia. Para todo o sempre, enquanto a eternidade ainda é menos que o infinito. Um dia, desejo que sejam extintos como a chama de uma vela, a qual um leve sopro apaga. Entretanto, sei que o tempo é o único sopro com este poder, só não se sabe quem produz esse sopro. Deus é a certeza de que muitos duvidam.  Mas sua existência seria a solução da maioria de meus mistérios. Creio que sim. Por enquanto, resta minha alma maculada e a minha fé e esperança enfraquecidas. O fim vem do silêncio das caveiras amontoadas no armário. Só o tempo, um dia, dirá.

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