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Um presente para Madiba

Giordana Bonifácio

Mais um dia terminava naquele presídio, em que já estava há tanto tempo, pelo único e simples motivo de ter ousado lutar contra a injustiça, contra a irracionalidade do Apartheid. Ainda contava o tempo em riscos feitos com um pedaço de telha que achara uma vez no pátio em seu o banho de sol. Restava apenas um pequeno caco, que era economizado ao extremo. Mas não desistiria da luta. Não poderia. Aquele povo fora da prisão, que agora lhe cerceava, precisava de uma voz. Ele não se furtaria a ofertar a sua vida por seu país enquanto ainda a possuísse. É certo que quase morreu em razão de uma tuberculose adquirida na prisão. Mas era forte para suportar todas as privações e encalços. Não somente a África do sul, mas todo o mundo necessitava de um representante para gritar contra o racismo. Chega de discriminar-se um homem ou mulher em razão da cor de sua cútis. Não descansaria jamais. Nada lhe demoveria da ideia de lançar-se contra um governo imposto pelos colonialistas Europeus que queriam incutir numa sociedade, de grande maioria negra, que deveriam obedecer e submeter-se aos brancos por serem menos qualificados para gerir sua própria nação. Mesmo que passasse vinte anos preso, jamais desistiria de seus ideais.

Sabia que não o matariam. Não queriam criar um mártir. Seria muito pior. Sabia por conversas entre os presos que a população insurgia-se contra o governo e que sua voz ecoava para além das grades que inutilmente tentavam lhe calar. Não existe força maior do que a daqueles que não se valem dela para fazerem-se ouvir. E isso ele sabia perfeitamente. Não era um covarde, não seria derrotado por grades. Tinha uma missão muito maior a cumprir. Não por honrarias, mas por justiça. Pela igualdade que há tantos séculos foi negada aos de sua cor. Afinal, o que a tonalidade da epiderme representa? Se quando sangramos partilhamos o mesmo sangue, vermelho, quente e salgado. Provou muitas vezes o sabor do seu sangue para saber que a dor de um hematoma é sentido da mesma forma por negros ou brancos. Não se determina o potencial de um homem por sua cor. “Um país se faz com homens e livros”. Como citou um repórter brasileiro que o entrevistara uma vez. Não se lembrava do dono dessas palavras, mas sabia ser um grande escritor brasileiro. Lia muito na prisão. Não sabiam que estavam fornecendo-lhe as armas de sua revolução. “O mundo vai mudar.” Murmurava olhando a lua alva no céu, como uma promessa que lhe acenava distante.  E a noite não lhe atemorizava, nem os dias que passavam lentos e tediosos. Tinha esperança: a sociedade evoluía devagar, porém, ainda assim, evoluía. O dia que tanto esperava chegaria. A fé na humanidade é algo que nunca lhe abandonaria.

Muitos presos comentavam e reprovavam seu idealismo. Alguns diziam não valer à pena perder toda a vida atrás das grades, que nada mudaria e que era apenas um homem contra todo um sistema de atrocidades. Porém, Madiba sabia das histórias de Martin Luther King e de sua luta contra a segregação racial nos Estados Unidos. Havia pessoas que se insurgiam contra a discriminação racial em todo planeta. Chegaria o dia em que negros alcançariam os altos escalões do poder. E quando esse dia chegar, não mais se julgaria um homem por sua cor, mas por seus atos. E que a luta dos que hoje sofriam, seria reconhecida no futuro. A esperança era uma chama que não se extinguia jamais em seu forte coração. Deu uns tapinhas no peito: “ não vá me falhar agora, ein?” Sentou-se no chão da sela. Não tinha sono. Ficou apreciando a lua cheia que premiava essa noite particularmente bela. Faltavam pouco mais de duas semanas para o Natal, estrelas pequeninas piscavam solidão. Ele ouvia o murmúrio de um preso na cela o lado que rezava compassadamente. “Deus, salve minha alma…” A misericórdia divina era imensa e forte o suficiente para superar a perversidade dos seres humanos. Sentiu vontade de cantar uma canção tradicional africana, mas não sabia a letra direito e somente a assobiou. A música era triste, como um réquiem. “Se for dizer adeus”, dizia-lhe seu pai, “que seja com esta música!”.

Como suportava tanto tempo encarcerado sem enlouquecer era o que muitos de seus inimigos perguntavam-se. A força de seu intelecto e saber-se a voz de um povo amordaçado era o que lhe animava. Ele era Mandela. Madiba para o seu povo. Era assim que gostaria de ser lembrado: como o homem que não desistiu jamais. Faria da África do Sul um grande país, mesmo com as adversidades que hoje lhe oprimiam. Ele sabia-se mais forte que o aço das grades e que a pólvora das armas dos que lhe vigiavam. Não seria derrotado pelos maus-tratos já sofridos. Nem pelo tempo implacável, este relógio caprichoso que parecia correr contra si. Os livros a que tinha acesso faziam-lhe compreender o mundo dos seus algozes, bem como sua história e ciência. Devorava os livros, pois sabia que a mais poderosa arma para mudar o mundo é a educação. Fazia uso deste instrumento devastador que é o pensamento. Não abandonaria a causa. Jamais. Ainda se faria ouvir. Nem que permanecesse toda sua juventude na prisão. Um homem sozinho não é nada, mas quando este se torna a força de todo uma raça, ele se torna invencível. Super-herói que não vestia capa e nem tinha super-força para livrar-se daqueles muros que o aprisionavam. Apartheid é uma palavra forte, palavra que representa dor e sofrimento. Quantas mortes não decorreram deste regime segregacionista? Quantos homens não foram humilhados? Isto é certo? É correto valer-se de uma desculpa esfarrapada embasada em um argumento tão fraco e sem sentido como a cor da pele para promover algo tão estúpido quanto este terrível regime?

Gandhi revoltava-se pacificamente, era-lhe um mentor contra as atrocidades perpetuadas pelo Apartheid. Mas para alguém que lutou boxe era difícil não usar a força dos punhos. Era necessário mais do que nunca a população negra fazer-se sólida. Queria acreditar que suas palavras no Julgamento de Rivona não foram proferidas em vão. Repetiu mentalmente parte do discurso: “Eu lutei contra a dominação branca, e lutei contra a dominação negra. Eu cultivei o ideal de uma sociedade democrática e livre, na qual todas as pessoas vivem juntas em harmonia e com oportunidades iguais. Este é um ideal pelo qual eu espero viver e alcançar. Mas se for necessário, é um ideal pelo qual estou preparado para morrer”. Democracia. Liberdade. Igualdade. Palavras bonitas que pareciam hoje tão, mas tão distantes que desanimariam a um homem comum. Não ele. Não o homem que desde muito cedo se uniu aos movimentos políticos em busca de mudanças efetivas na sociedade. Tentou iniciar a luta armada, pois cria ser impossível sobrepujar uma cultura tão embrenhada na sociedade africana como o Apartheid sem utilizar meios mais convincentes. Sua fama estava crescendo mundo afora. Alguns dos novos detentos lhe deixaram escapar uma vez. Ele queria antes da fama, o poder de mudar definitivamente a política racista que hoje se fazia presente no mundo. Nunca, nunca deixaria de lutar! Murmurou, juras à noite: “Não vou esmorecer. Nunca! Jamais! O adversário pode ser forte, mas tenho meios de cansá-lo. E usando minha agilidade e uma sequencia de socos no queixo de vidro, vou levá-lo à lona mais cedo ou mais tarde. Enquanto isto que minha voz dissemine-se entre os povos, que meu exemplo seja levado às demais nações, que todos assistam o penar de um jovem idealista, em prol de sua etnia. O mundo pode ser bem melhor quando não mais existir racismo entre os homens, quando não mais seja preterido um jovem negro em favor de um branco em razão não dos seus méritos, mas, tão somente, da cor de sua pele. Esse dia vai chegar, tenho fé que isso ocorrerá.” A luz da lua iluminava palidamente o seu rosto, não como uma sentença. Mas como a lembrança de que a luz da justiça ilumina a todos indistintamente. E ela um dia, sobre a África, haveria de brilhar!

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