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Poderia ser… 

Giordana Bonifácio

Poderia ser a chuva que lhe molha a pele. Para poder lançar-me sobre você. (Será que me aceitaria?) Poderia ser a toalha que lhe seca a pele para afagar seu corpo. (Será que me permitiria?) Poderia ser o pijama que você veste para poder dormir junto a você. (Será que consentiria?) Poderia ser o cobertor que lhe acolhe nesta noite chuvosa, para lhe esquentar o corpo com o meu. (Será que me deixaria?) Poderia ser os sonhos em que navega. (Será que continua a sonhar comigo?) Poderia ser a luz do sol que aos poucos penetra pelas janelas entreabertas para poder despertar-lhe docemente com um beijo em seu rosto. (Seria possível?) Poderia ser os pássaros que pela manhã cantam para lhe agradar os ouvidos. (Poderia cantar sua canção favorita, o que acha?) Poderia ser a torrada com mel que come no café da manhã. Nutrir-lhe-ia o corpo com meu amor. (Você quer um pedaço do meu coração?) Poderia ser o café que toma, cujo aroma tanto lhe apetece. (Ainda quer sentir meu perfume?) Poderia ser o jornal em que seus olhos se atêm. (Será que pode ver-me?) Poderia ser a gravata que se enrosca em seu pescoço. (Pode sentir-me?) Queria ser o carro que, com as mãos, guia. (Para onde me levaria?) Poderia ser o computador no qual seus dedos deslizam. (Pode sentir a textura de minha pele?) Poderia ser o cachorro-quente que come apressado no horário do almoço. (Será que gosta de meu sabor?) Poderia ser o mundo que lhe cerca para ter-lhe sempre junto a mim. (Será que posso estar sempre consigo?) Poderia ser o tempo que decorre, pois nunca mais estaria sem você. (Nunca mais me abandonaria?) Poderia ser a música que escuta no rádio e que acompanha num assovio, para estar em seus lábios. ( Posso provar de seu beijo?) Poderia ser a casa em que habita, para qual retorna após um dia longo de trabalho. (Quer morar em mim?) Poderia ser a televisão que lhe entretém à noite quando está tão cansado que apenas recosta-se no sofá, para assistir ao noticiário. (Estamos ainda em sintonia, pode ver?) Poderia ser a sua companhia para manter-lhe a salvo da solidão. (Por que é necessário estarmos sós?) Poderia ser o relógio que lhe avisa ser muito tarde para telefonar. (Mas, se quiser, ainda estou esperando sua ligação.) Poderia ser a cerveja que lhe refresca, pois a primavera costuma ser sempre muito quente. (Posso aplacar sua a sede com minha saliva. Tenho lábios frios, recorda-se?) Poderia ser o silêncio da noite que chega ameaçadora pela janela. (Ligue-me…) Poderia ser o medo que lhe toma. (Também estou apavorada…) Poderia ser seu refúgio. (Ligue-me…) Poderia ser a mão que lhe acaricia a face. (Ligue-me…) Poderia ser a lágrima que teima em correr pelo seu rosto. (Por que reluta?) Poderia ser seu porto seguro. (Não reprima seus sentimentos!) Poderia controlar o clima. (Chove novamente). Estamos numa tempestade perpétua. (Por que não é possível estarmos juntos?) Em flashes, a noite torna-se assustadora. (Por que procura o retrato sobre a estante?) Poderia ouvir-lhe apesar dos trovões. (Por que não me liga?) O telefone permanece mudo. (Ligue-me…) Poderia inventar uma desculpa. (Que tal perguntar pelo meu cachorro? Ele ficava desesperado em tempestades.) Poderia ser mais forte que seu orgulho. (Não vamos desistir de nosso rancor.) Poderia ser os galhos que dançam ao sabor da ventania. (Estamos à deriva, barcos sem rumo, que não chegarão jamais ao porto.)  Poderia ser a tristeza que lhe assalta. (Um telefonema, é só um telefonema…) Poderia ser a dor que persevera em nós. (Por que nos magoamos tanto?) Poderia ser o nunca que se fez mais forte que o sempre. (A eternidade foi muito curta para nós.) Poderia colar-lhe os cacos do que resta de seu coração. (Estamos tão feridos…) Poderíamos superar todas as mágoas. (Ainda é tempo.) Poderíamos dizer sim ao invés de não. (Não, não desista…) Poderia ser mais fácil sobrepujar os obstáculos que nos separam. ( O que aconteceu conosco?) Poderia ser o que não foi, mas não foi porque não poderia ser, pois, se fosse, seria fantástico, mas não foi. Não será. Será? (Parece confuso, mas é mais simples do que parece.) O celular vibra. (Ainda é tempo?) Não, não sou eu. Mas poderia ter sido se não fosse uma voz desconhecida perguntando por outro alguém.

Poderia ser a dor que sente, mas você não sabe que eu também sinto. (Vamos revelar o que há por trás das máscaras?) Será que poderíamos baixar nossas defesas? Quem hasteará primeiro a bandeira branca? Poderia ser a insônia que lhe afasta do leito. (Talvez eu seja.) Também estou aqui a velar por você. Poderia ser a saudade que tanto dói. (Por que o amor machuca tanto?) Poderia ser tudo o que não dissemos um para o outro. (Ainda é tempo?) Poderia ser a madrugada que tanto se delonga. (Onde foram parar todos nossos planos?) Poderia oferecer-lhe a mão… (Vamos voltar a caminhar juntos?) Poderia haver um recomeço quando tudo aponta para o fim? (Seguir-se-á uma continuação desta película?) Poderia escutar aquelas canções que ouvimos juntos. (Não foi há tanto tempo atrás…) Haveria ainda soluções para os problemas que criamos? (Poderia haver, mas desistimos… Por quê?).  Poderia ser o livro que procura. (Eu que o indiquei, recorda-se?) Poderia concentrar-se na leitura. Mas não lhe é possível. (Ainda pensa em mim?) Poderia ser a chuva que agora cai mais fraca sobre os vidros das janelas. (É como se a madrugada chorasse por nós). Poderíamos fugir e buscar outras emoções fugidias. (Há tanta gente no mundo…) Contudo, ainda estamos presos um ao outro. Poderia ser a poesia que a dor escreve. (Por que não me dedica esta epifania?) Poderíamos estar mais próximos. (O que nos separa?) Poderia procurar algo para beber. (Acabou a cerveja, será necessário fazer café.) Quantas horas são? Que dia é hoje? (Poderíamos não estar tão perdidos. É que não sabíamos quem estava no controle do leme.) Poderia ouvir minha voz lhe chamando. Mas não a pode ouvir. (Também roga por mim, mas não o ouço…) O que vamos fazer? Poderíamos resolver nossos dilemas. Mas apenas criamos outros mais intrincados. Poderíamos alcançar a felicidade. (Minha mãe dizia estar no fim do arco-íris, junto com um pote de ouro.) Não queríamos riquezas. Não amealhamos fortunas, pois queríamos um sentimento verdadeiro. (Poderia ter sido verdade, não?)

 Poderia agora entender por que restamos tanto tempo neste labirinto. (Pode sorver o café, a dor é amarga, não?) Poderia ser o sol que em seu mundo irradia. (Será que a esperança também surge com o amanhecer?) Pode escutar meu coração? Poderíamos ter sido felizes. Muitos sonhos ainda não brotaram em nosso jardim. Vamos arrancar as erva-daninhas e regar as flores? Temos muitos sentimentos guardados em nós. (Poderíamos acreditar numa derradeira tentativa?) Se soar a campainha tão cedo nesta manhã de sábado, poderia receber-me em seus braços? (Poderíamos, em silêncio, responder a todas as dúvidas que nos mantiveram acordados por toda a madrugada?) Poderia ser mais que uma mera possibilidade. (E se fosse eu do outro lado da porta? Você a abriria?) Poderia ser que eu ainda o amasse. Poderia ser que você ainda me amasse. Poderia ser que nós disséssemos sim. (E poderia ser verdade. Sim, poderia…) Poderia ser que não quiséssemos mais chorar. Poderia ser que o presente fosse um acerto das dívidas do passado. Você olha a porta. A campainha soa. (Quem seria?) Suas mãos tremem. (Seria um sonho?) Por que procurar respostas? Poderia ser apenas o vizinho. (Da última vez haviam lhe roubado o jornal.) Poderia ser um parente. (Por que não?) Poderia arrumar mais desculpas para não enganar o coração. (Poderia ser mais fácil, não?) Poderia ver minha imagem pelo olho mágico. Mas é apenas o entregador. O vizinho está viajando e pediu-lhe para deixar o jornal na casa ao lado. Não poderia ser diferente? (Talvez não). Poderia escrever um soneto. Poderia chorar o verão inteiro. Poderia não ser mais uma desilusão. Poderia tudo. Mas esse tudo se converte em nada. Poderia ser apenas mais uma história de amor. Poderia? (Sim, poderia). Mas, se eu for “seu pão e sua comida e todo amor que houver nessa vida”? (Ligue-me…) É hora. Por que nossos corações estão tão fechados? Poderia ter sido real. Poderia? (Sim, poderia). Mas nossa história se estendeu demais. A paixão é um curta-metragem. O amor um longa, que assombra os homens por toda a vida. O celular vibra novamente. De repente, um sorriso.  (The end? Really?)

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