Arquivo do mês: outubro 2013

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Davi versus Golias

Giordana Bonifácio

Nós caminhamos sem qualquer direção.

Vamos seguindo por estas estradas,

Pontes e ruas, em que a voz é uma agressão.

Sabemos que a força está em mãos erradas.

 

Mas como gritar? Livros são queimados.

Fahrenheit 451? Repúdio à sabedoria.

Será que não há aqui mesmo reais culpados?

Será que sempre está correta a maioria?

 

Aqui não mais se lê O Senhor das Moscas.

Os homens são reféns da televisão.

Governam nosso mundo mentes toscas.

 

Mas ainda existem vozes sibilantes.

Seres que, dentre os cegos, possuem visão,

Que, tal qual Davi, lutam com gigantes.

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Inventário 

Giordana Bonifácio

O que me restou deste meu coração?

Depois de tanta dor, ousa palpitar?

Não lhe havia dito para o amor evitar?

Será que não percebe sua condição?

 

O que me restou, o pouco que tenho ainda?

O que não perdi, o que salvei de mim?

Este soneto roto e um botão carmim;

Uma moeda e esta paixão que não finda;

 

Uma bala, alguns clipes e esta dor.

E um cartão um tanto velho e já sem cor.

É tudo que possuo e tenho comigo.

 

Trago no bolso os cacos de minha alma.

Meus sentimentos cabem sobre a palma.

São os bens que me seguem ao jazigo.

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JesusCristo

O verdadeiro significado do Natal

Giordana Bonifácio

As crianças do orfanato São Domingos Sávio estavam eufóricas com a chegada do natal. Faziam listas enormes dos brinquedos que iriam ganhar e não paravam de falar sobre as comidas tradicionais desta data. Salivavam ao falar dos tenderes, perus e outros assados. O arroz à grega e o salpicão, que comiam sempre em época de festa, eram aguardados com muita ansiedade. Não paravam de cogitar os presentes e Papai Noel era citado com frequência em suas conversas. A única coisa que temiam era ganharem roupas ao invés dos divertidos brinquedos. Apesar de serem repreendidos pelas freiras, pois o mais importante era o nascimento de Jesus e não a conversão desta data numa prerrogativa para acirrar o consumo das pessoas, as crianças davam mais valor ao aspecto capitalista da festa de Natal do que ao seu caráter santo. Sem mais saber como lidar com as crianças, as freiras resolveram chamar a Madre Superiora. Madre Filipa era uma mulher de oitenta anos, dos quais sessenta e quatro foram dedicados à Igreja Católica. Ela dizia ter se casado com Jesus por um chamado de sua fé. Em seis anos comemoraria 70 anos de serviços aos mais necessitados. Seu sorriso afetuoso e sua simplicidade era o que mais se destacava em sua personalidade. Além do que, Madre Filipa tinha um jeito muito especial de tratar com as crianças. Era amada e respeitada por todos e também era um último recurso para fazer as crianças entenderem o real significado do Natal.

Quando Madre Filipa chegou ao quarto, a criançada estava numa grande algazarra. Queriam todos falar sobre sua lista de presentes e sobre a festa de Natal aguardada o ano inteiro. Madre Filipa pegou a bengala que usava para ajudar-lhe a caminhar e bateu levemente três vezes contra a porta. A criançada estacou. Ninguém queria desrespeitar uma alma tão boa e sábia como o era Madre Filipa. A Madre sorriu e falou com sua habitual amabilidade:

-Vejo que estão todos ansiosos pela festa de Natal.

As crianças responderam em coro:

-Siiiiiimmm!

A Madre, então, com sua perspicácia tão tradicional quanto sua humildade, ajuntou:

– Mas vocês todos compreendem o real sentido do Natal, crianças?

 -É o nascimento de Cristo, respondeu Diogo, que não queria parecer tão ambicioso à velha Madre.

Carlos, mais sincero, gritou:

-É ganhar um monte de presentes!

Luzia, sempre muito gulosa, já emendou:

-É comer um monte de comida gostosa! Hummm! Disse lambendo os lábios.

A madre sorriu e sentou-se numa das camas e pediu para que as crianças sentassem em círculo que ela iria contar-lhes uma história.

As crianças ficaram muito contentes, pois Madre Filipa era a melhor contadora de histórias de todo orfanato. Sempre havia lições importantes a serem aprendidas com esta doce senhora. O mais incrível é que, Madre Filipa, como fazia o filho de Deus, milênios antes, gostava de ensinar mediante parábolas. As crianças, sempre eram levadas a pensar com as maravilhosas narrativas de Madre Filipa, que nesse dia, havia preparado uma especial para as crianças.

Todos se sentaram e Madre Filipa respirou fundo, mais para criar uma pequena expectativa nas crianças, já que a Madre tinha uma saúde de ferro. Depois de alguns minutos, iniciou a parábola, que iria ensinar para as crianças o verdadeiro significado da alegria que o Natal trazia.

– Quando eu era criança, assim do tamanho de vocês, meu pai foi para a Guerra que ocorria na Europa. A Segunda Guerra Mundial foi uma das mais horríveis. Muitas pessoas morreram. Eu ficava ao lado do rádio escutando as notícias sobre a Guerra na esperança de ter informações do meu pai. No Natal daquele ano, eu acho que era o de 1940, eu tinha sete anos de idade, estava ansiosa pelos presentes que iria ganhar, igual a vocês, não é meninos? Bem, eu já tinha em mente uma bela boneca de cabelos castanhos e olhinhos azuis, de uma porcelana bem branquinha que havia visto numa loja no centro da cidade. Além do que, a festa de Natal era muito bonita na minha rua, todos se uniam para fazer uma grande ceia. E tinha muita comida gostosa, ouviu Luzia? Mas aquele ano seria o primeiro que iria passar longe de meu pai. Ficava imaginando como estaria ele lá na gelada Europa, sem o calor da família e a segurança de nossa casa. Mas já havia alguns meses que não recebíamos qualquer notícia. Mamãe estava, é claro, muito preocupada, mas tentava disfarçar para não nos deixar aflitos.

E toda noite de Natal, como estou fazendo agora com vocês, papai contava-nos uma história. Mas parecia que não haveria histórias aquele ano. Mamãe era muito devota de Maria e rezava o terço, toda a noite, pedindo para que seu esposo voltasse em segurança para casa. Eu juntava-me a mamãe, pois já me sentia, desde aquela época, tocada pela fé. No dia de Natal, enquanto minha mãe preparava todos para a festa, (éramos quatro filhos e o aroma dos assados já pairava no ar), meu pai chegou inesperadamente. Ele tinha sido ferido na Guerra e teve de retornar. Quando ele chegou, dando três batidas na porta com a bengala, que foi forçado a usar pelo resto da vida, todos nós ficamos muito felizes. Mamãe agradecia a Nossa Senhora a graça alcançada e, muito emocionada, chorava abraçando o papai.

Quando o perguntamos sobre nossos presentes, ele, muito triste, disse que naquele ano não teríamos presentes, pois estávamos sem dinheiro e deveríamos economizar, além do que, por estar ferido, seria muito difícil para ele voltar a trabalhar. Nós ficamos desolados, é claro: Natal sem presentes é a mesma coisa que festa de aniversário sem brigadeiro. Mas ele nos contou uma história que nos fez entender o que era realmente importante naquela data. Ele disse que há muito tempo, na Itália, havia um menino, filho de pais muito ricos que tinha de tudo: boas roupas, empregados, brinquedos, uma casa espaçosa e mesmo assim não se sentia feliz. Os pais não sabiam o que fazer, pois o menino estava sempre muito triste. E naquela época, crianças, não existiam psicólogos para ajudar a entender a tristeza do menino. Os pais desdenhavam a igreja e a fé. Não rezavam e nem mesmo celebravam as festas religiosas. Era uma família muito rica, porém desprovida do amor por Deus. Até que, um dia, o filho de um dos empregados caiu doente. Não havia o que ser feito, os pais foram desacreditados por todos os médicos. O mais triste é que era época de Natal e, como de costume, o menininho rico havia recebido muitos presentes, mas continuava sentindo-se muito infeliz. Andando por sua bela mansão, foi até os quartos dos empregados e encontrou o menininho convalescente que murmurava uma oração. O filho dos donos da casa achou isso muito estranho, pois nunca havia visto ninguém rezando. E perguntou o que o fraco garotinho fazia. O doentinho respondeu que pedia a Deus para que lhe concedesse mais alguns dias de vida, pois não queria estragar o Natal, data de alegria, de sua família. O menino rico, intrigado, perguntou como um filho de empregados, que jamais recebia presentes, ainda vítima de uma doença tão grave, poderia pensar que o Natal era uma data tão feliz. Ao que o menino doentinho respondeu que o Natal era uma data feliz, pois significava a esperança trazida por Cristo nosso Senhor, que se fez homem para salvar os homens. No dia de seu nascimento, todos deviam alegrar-se, afinal, mais uma vez, Deus presenteava o seu povo com o que tinha de mais precioso: seu próprio filho. O que o fazia feliz era a fé, que é mais importante que presentes caros, ou uma casa espaçosa, ou mesmo a saúde da qual ele não gozava, pois sabia que em breve estaria ao lado do Senhor, num lugar muito melhor que qualquer oásis na Terra.

A fé do menininho doente era tão grande que contagiou o seu pequeno patrão. Este pediu para rezar ao lado do seu novo amigo, a fim de ajudá-lo a pedir a Deus para conceder mais uns dias de vida àquela alma tão devota. Rezando, o menino rico foi tocado por uma sensação boa e sentiu-se muito feliz. Não sabia da história de Jesus Cristo e quando o menininho doente contou-lhe que o filho de Deus, o Salvador, nasceu numa manjedoura, o garoto, para quem nunca faltaram os bens materiais, entendeu que o mais importante do Natal não são os presentes, nem mesmo uma festa regada a finas iguarias, mas a fé que anima o homem. Pois é esta que nos auxilia a seguir o exemplo de Cristo. Naquele dia de Natal, o menino rico recebeu de presente algo que não existe para se comprar em lugar algum: a alegria da fé. O Natal é a própria alegria da fé. É a nova aliança proposta por Deus aos homens. Um Deus que nos ama tanto que nos enviou seu filho para ensinar-nos essa importante lição. Quando meu pai terminou sua história, não mais estava triste por não ganhar presentes de Natal naquele ano. Pois já havia entendido que ganhara duas grandes dádivas, a fé que minha mãe semeou em mim e o retorno de meu pai para junto de sua família. Naquele Natal, festejamos muito, pois a alegria brota da fé. Uma sementinha muito pequena que faz nascer uma árvore grande e frondosa.

-Então, crianças, disse a Madre Filipa após terminar a história que deixou os meninos, miraculosamente, vidrados por horas, agora compreendem o significado do Natal?

– O significado do Natal é reacender a fé no coração dos homens. Não é, Madre? Atalhou Silvio que demonstrara ter aprendido uma importante lição.

-Isso mesmo, pois a fé é o maior presente que nós podemos conceder ao aniversariante de hoje. Agora vamos todos cear, sem nos esquecermos, entretanto, do verdadeiro sentido do Natal.

As crianças, em polvorosa, saíram do quarto para o refeitório, onde uma bela ceia celebrava o nascimento do Filho de Deus e reafirmava a fé dos homens.

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Lehitra’ot

Giordana Bonifácio

Adeus, pois já é chegada a marcada hora.

Seguem os homens todos para a morte.

Não sabem quem lhes ditou esta sorte.

Só têm a fé que pela vida implora.

 

Corpos passivos cumprem seu destino.

Mas não perguntam para onde vão afinal.

Não possuem nomes só no pulso um sinal.

Pobre etnia, pobre povo peregrino.

 

Seis milhões de almas, corpos apagados.

E no fim, como lixo, despejados.

Por que na Terra tal dor persevera?

 

Corpos famintos, corpos raquíticos.

A morte segue às leis dos políticos.

Corpos que não verão outra primavera.

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Vinho-Derramado

Vinho, mágoa e dor

Giordana Bonifácio

Eis esta nova canção: “Sangue e vinho.”

(De que me valem estas belas rosas?

Se delas só me restam os espinhos?)

Vejo que tem intenções acintosas.

 

(Não me é possível sentir, não sei mais…

Talvez esteja triste, pois lembro ainda.)

A culpa é só sua, não olha para trás?

Mas esta dor é pesar que não finda!

 

(Como esquecer anos de desprezo?

Não pode ver que a mim não está preso?)

Tem o meu perdão, mas não mais o meu amor.

 

(Esperei muito secou meu coração.)

Da minha mágoa compus esta canção,

É isto: somente vinho, mágoa e dor.

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estrelas

“Tenho de procurar nas estrelas

aquilo que me é negado na Terra.”

Albert Einstein

Ouvindo estrelas

Giordana Bonifácio

Foge minha alma, longe vai de mim.

Não sabe que o vazio já não tem fim?

Guardo em meu peito toda dor do mundo.

Antes eu fosse vago e não profundo.

 

Há muito perdi todos os meus sonhos.

Restam-me só lamentos enfadonhos.

Por isso vaga minha alma distante.

Pois eu não posso mais seguir adiante.

 

Astros remotos, onde está a verdade?

Pois entre os homens só achei falsidade.

Lindas estrelas, para onde devo ir?

 

Se aqui na Terra não confio em um porvir?

Só no silêncio encontro o que procuro:

Uma esperança tênue de um futuro.

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Poderia ser… 

Giordana Bonifácio

Poderia ser a chuva que lhe molha a pele. Para poder lançar-me sobre você. (Será que me aceitaria?) Poderia ser a toalha que lhe seca a pele para afagar seu corpo. (Será que me permitiria?) Poderia ser o pijama que você veste para poder dormir junto a você. (Será que consentiria?) Poderia ser o cobertor que lhe acolhe nesta noite chuvosa, para lhe esquentar o corpo com o meu. (Será que me deixaria?) Poderia ser os sonhos em que navega. (Será que continua a sonhar comigo?) Poderia ser a luz do sol que aos poucos penetra pelas janelas entreabertas para poder despertar-lhe docemente com um beijo em seu rosto. (Seria possível?) Poderia ser os pássaros que pela manhã cantam para lhe agradar os ouvidos. (Poderia cantar sua canção favorita, o que acha?) Poderia ser a torrada com mel que come no café da manhã. Nutrir-lhe-ia o corpo com meu amor. (Você quer um pedaço do meu coração?) Poderia ser o café que toma, cujo aroma tanto lhe apetece. (Ainda quer sentir meu perfume?) Poderia ser o jornal em que seus olhos se atêm. (Será que pode ver-me?) Poderia ser a gravata que se enrosca em seu pescoço. (Pode sentir-me?) Queria ser o carro que, com as mãos, guia. (Para onde me levaria?) Poderia ser o computador no qual seus dedos deslizam. (Pode sentir a textura de minha pele?) Poderia ser o cachorro-quente que come apressado no horário do almoço. (Será que gosta de meu sabor?) Poderia ser o mundo que lhe cerca para ter-lhe sempre junto a mim. (Será que posso estar sempre consigo?) Poderia ser o tempo que decorre, pois nunca mais estaria sem você. (Nunca mais me abandonaria?) Poderia ser a música que escuta no rádio e que acompanha num assovio, para estar em seus lábios. ( Posso provar de seu beijo?) Poderia ser a casa em que habita, para qual retorna após um dia longo de trabalho. (Quer morar em mim?) Poderia ser a televisão que lhe entretém à noite quando está tão cansado que apenas recosta-se no sofá, para assistir ao noticiário. (Estamos ainda em sintonia, pode ver?) Poderia ser a sua companhia para manter-lhe a salvo da solidão. (Por que é necessário estarmos sós?) Poderia ser o relógio que lhe avisa ser muito tarde para telefonar. (Mas, se quiser, ainda estou esperando sua ligação.) Poderia ser a cerveja que lhe refresca, pois a primavera costuma ser sempre muito quente. (Posso aplacar sua a sede com minha saliva. Tenho lábios frios, recorda-se?) Poderia ser o silêncio da noite que chega ameaçadora pela janela. (Ligue-me…) Poderia ser o medo que lhe toma. (Também estou apavorada…) Poderia ser seu refúgio. (Ligue-me…) Poderia ser a mão que lhe acaricia a face. (Ligue-me…) Poderia ser a lágrima que teima em correr pelo seu rosto. (Por que reluta?) Poderia ser seu porto seguro. (Não reprima seus sentimentos!) Poderia controlar o clima. (Chove novamente). Estamos numa tempestade perpétua. (Por que não é possível estarmos juntos?) Em flashes, a noite torna-se assustadora. (Por que procura o retrato sobre a estante?) Poderia ouvir-lhe apesar dos trovões. (Por que não me liga?) O telefone permanece mudo. (Ligue-me…) Poderia inventar uma desculpa. (Que tal perguntar pelo meu cachorro? Ele ficava desesperado em tempestades.) Poderia ser mais forte que seu orgulho. (Não vamos desistir de nosso rancor.) Poderia ser os galhos que dançam ao sabor da ventania. (Estamos à deriva, barcos sem rumo, que não chegarão jamais ao porto.)  Poderia ser a tristeza que lhe assalta. (Um telefonema, é só um telefonema…) Poderia ser a dor que persevera em nós. (Por que nos magoamos tanto?) Poderia ser o nunca que se fez mais forte que o sempre. (A eternidade foi muito curta para nós.) Poderia colar-lhe os cacos do que resta de seu coração. (Estamos tão feridos…) Poderíamos superar todas as mágoas. (Ainda é tempo.) Poderíamos dizer sim ao invés de não. (Não, não desista…) Poderia ser mais fácil sobrepujar os obstáculos que nos separam. ( O que aconteceu conosco?) Poderia ser o que não foi, mas não foi porque não poderia ser, pois, se fosse, seria fantástico, mas não foi. Não será. Será? (Parece confuso, mas é mais simples do que parece.) O celular vibra. (Ainda é tempo?) Não, não sou eu. Mas poderia ter sido se não fosse uma voz desconhecida perguntando por outro alguém.

Poderia ser a dor que sente, mas você não sabe que eu também sinto. (Vamos revelar o que há por trás das máscaras?) Será que poderíamos baixar nossas defesas? Quem hasteará primeiro a bandeira branca? Poderia ser a insônia que lhe afasta do leito. (Talvez eu seja.) Também estou aqui a velar por você. Poderia ser a saudade que tanto dói. (Por que o amor machuca tanto?) Poderia ser tudo o que não dissemos um para o outro. (Ainda é tempo?) Poderia ser a madrugada que tanto se delonga. (Onde foram parar todos nossos planos?) Poderia oferecer-lhe a mão… (Vamos voltar a caminhar juntos?) Poderia haver um recomeço quando tudo aponta para o fim? (Seguir-se-á uma continuação desta película?) Poderia escutar aquelas canções que ouvimos juntos. (Não foi há tanto tempo atrás…) Haveria ainda soluções para os problemas que criamos? (Poderia haver, mas desistimos… Por quê?).  Poderia ser o livro que procura. (Eu que o indiquei, recorda-se?) Poderia concentrar-se na leitura. Mas não lhe é possível. (Ainda pensa em mim?) Poderia ser a chuva que agora cai mais fraca sobre os vidros das janelas. (É como se a madrugada chorasse por nós). Poderíamos fugir e buscar outras emoções fugidias. (Há tanta gente no mundo…) Contudo, ainda estamos presos um ao outro. Poderia ser a poesia que a dor escreve. (Por que não me dedica esta epifania?) Poderíamos estar mais próximos. (O que nos separa?) Poderia procurar algo para beber. (Acabou a cerveja, será necessário fazer café.) Quantas horas são? Que dia é hoje? (Poderíamos não estar tão perdidos. É que não sabíamos quem estava no controle do leme.) Poderia ouvir minha voz lhe chamando. Mas não a pode ouvir. (Também roga por mim, mas não o ouço…) O que vamos fazer? Poderíamos resolver nossos dilemas. Mas apenas criamos outros mais intrincados. Poderíamos alcançar a felicidade. (Minha mãe dizia estar no fim do arco-íris, junto com um pote de ouro.) Não queríamos riquezas. Não amealhamos fortunas, pois queríamos um sentimento verdadeiro. (Poderia ter sido verdade, não?)

 Poderia agora entender por que restamos tanto tempo neste labirinto. (Pode sorver o café, a dor é amarga, não?) Poderia ser o sol que em seu mundo irradia. (Será que a esperança também surge com o amanhecer?) Pode escutar meu coração? Poderíamos ter sido felizes. Muitos sonhos ainda não brotaram em nosso jardim. Vamos arrancar as erva-daninhas e regar as flores? Temos muitos sentimentos guardados em nós. (Poderíamos acreditar numa derradeira tentativa?) Se soar a campainha tão cedo nesta manhã de sábado, poderia receber-me em seus braços? (Poderíamos, em silêncio, responder a todas as dúvidas que nos mantiveram acordados por toda a madrugada?) Poderia ser mais que uma mera possibilidade. (E se fosse eu do outro lado da porta? Você a abriria?) Poderia ser que eu ainda o amasse. Poderia ser que você ainda me amasse. Poderia ser que nós disséssemos sim. (E poderia ser verdade. Sim, poderia…) Poderia ser que não quiséssemos mais chorar. Poderia ser que o presente fosse um acerto das dívidas do passado. Você olha a porta. A campainha soa. (Quem seria?) Suas mãos tremem. (Seria um sonho?) Por que procurar respostas? Poderia ser apenas o vizinho. (Da última vez haviam lhe roubado o jornal.) Poderia ser um parente. (Por que não?) Poderia arrumar mais desculpas para não enganar o coração. (Poderia ser mais fácil, não?) Poderia ver minha imagem pelo olho mágico. Mas é apenas o entregador. O vizinho está viajando e pediu-lhe para deixar o jornal na casa ao lado. Não poderia ser diferente? (Talvez não). Poderia escrever um soneto. Poderia chorar o verão inteiro. Poderia não ser mais uma desilusão. Poderia tudo. Mas esse tudo se converte em nada. Poderia ser apenas mais uma história de amor. Poderia? (Sim, poderia). Mas, se eu for “seu pão e sua comida e todo amor que houver nessa vida”? (Ligue-me…) É hora. Por que nossos corações estão tão fechados? Poderia ter sido real. Poderia? (Sim, poderia). Mas nossa história se estendeu demais. A paixão é um curta-metragem. O amor um longa, que assombra os homens por toda a vida. O celular vibra novamente. De repente, um sorriso.  (The end? Really?)

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