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O exercício dos sentimentos indizíveis

Giordana Bonifácio

Fazia frio, mesmo assim ela abriu a janela para apreciar a madrugada. Sentia alguma coisa indefinível dentro de si. Um desejo que machucava e adentrava-lhe nos sonhos. Desejo de quê? Ela não sabia. Uma sensação de falta, um vazio interno que lhe corroía e sugava como um buraco negro. Pensava que a vida poderia ser muito mais. Porém, era-lhe impossível vencer neste jogo. Em silêncio, fechou a janela e seu coração. A verdade é que não estava preparada para o mundo. Nunca esteve. Era-lhe muito difícil ser quando viver é algo que não deveria ser. Desceu as escadas. Não se ouvia qualquer barulho. Ainda estavam todos adormecidos. Ela sempre era a primeira a despertar. O sol avermelhado da madrugada penetrava pelas janelas de vidro da cozinha. O amanhecer é a primeira poesia do dia. É certo que ela tinha uma alma era lírica, contudo seu coração tinha o peso arrastado da prosa. Algo que dói sobremaneira. Mas ela não queria pensar no significado das coisas. É mais fácil ignorar os sentimentos indizíveis. Não sentia fome. Mesmo assim, colocou pão na torradeira, fritou ovos e encheu de leite um copo. “O desjejum é a principal refeição do dia”. Não é o que dizem? Ela mastigou seus sonhos com ovos no café da manhã. Ninguém acordou. Ela lavou a louça. Não havia necessidade de correr para o chuveiro e vestir-se, pois era sábado e não necessitava ir para o trabalho. Ligou a televisão. Os jornalistas repetiam as notícias de ontem. Era como se o mundo vivesse num  passado eterno que se repete no presente. O amanhã era o ontem convertido em hoje. Tudo tende a ser tal qual um dia foi. Como empurrar uma enorme rocha para o topo de uma montanha e vê-la rolar  para baixo e chegar a mesma posição eternamente. A pena de Sísifo, às vezes pode se assemelhar à pena que o escritor tem em suas mãos. É o exercício dos sentimentos velados. A possibilidade de dizer algo que há muito se manteve em segredo, pois, como artista, sua voz está protegida pela licença poética.

Os fins de semana são uma concessão da sociedade capitalista ao desejo do homem de ser livre. É a possibilidade de, ao menos nesses dias, não ter de comparecer ao trabalho, de ir para a escola e todas as obrigações que acorrentam os homens à sua árdua rotina. Ela queria compreender os mistérios que sua vida envolvia. O exercício das coisa banais. A procura de definições que não existem. Nem tudo tem significado. É difícil compreender isto. Os homens querem respostas às suas perguntas. Era um desejo que ela também nutria. Mas desistiu de suas dúvidas. Deixava-as guardadas junto à esperança que um dia abandonou. O dia nascia bonito. O céu de Brasília era o azul dos que sonham com o mar. O som do oceano ainda ressoavam em seu espírito: ondas com suas sensações vagas que lambem a areia da praia. Ainda seria possível fugir? Libertar-se como alguém que já não suporta o peso das amarras? Por que dizer sim, quando a vida responde-lhe que não? Desde cedo aprende-se o sentido de tudo. Mas um anjo gaiato aproxima-se dos bebês pressiona o dedo contra seus lábios para não revelarem a verdade que deve permanecer escondida. Ela sabe que suas emoções são o que tem de mais sincero. Um tesouro perdido num navio naufragado. Talvez algum dia possa ser descoberto por exploradores, mas ela não crê muito nessa possibilidade. É que não acredita em milagres impossíveis. Há muito abandonou sua fé. Fé é uma palavra muito curta para explicar todas as dúvidas que nutria. Era-lhe necessário algo mais palpável. Pois os sonhos são diáfanos, não se pode creditar a eles a força do real. Não é possível justificar uma falta com base em ilusões do nosso inconsciente. Memórias recalcadas da nossa infância, trazidas à tona quando nossa consciência não pode conter o nosso ego. E, assim, o onírico faz-se presente quando dormimos criando imagens sem sentido que são simples pedaços do passado que sempre retornam. Era muito cedo ainda, todos continuavam a dormir. Ela assistia ao noticiário, não atentava muito para o que os repórteres diziam. Ela só ouvia o que lhe era interno. A mágoa que persevera depois das decepções. As memórias a confirmar a teoria que formulara para confirmar a força que o ontem tem sobre o hoje.

“Era uma vez, há muito tempo atrás, um coração que vivera muitas vidas, mas uma única solidão. Um dia resolveu desfazer-se do que possuía, pois carregava muito peso dentro de si. Doou seus sonhos e alegrias, que foram recebidos prontamente por outros corações. Sobraram-lhe somente as desilusões que não quiseram levar, por serem muito tristes, as pobrezinhas. Assim, só lhe restaram as emoções mais doloridas que em si se fazem presentes desde então.” Ela inventara aquela fábula naquele mesmo instante. Perdida no vazio da cozinha, acompanhando o lento caminhar do relógio de parede. O tique-taque acompanhando o passo do tum-tum de seu coração. “Nem sempre a vida é como esperamos. Na maioria das vezes, não”. Murmura, com medo. Sem saber que o que na verdade a apavorava era a noção do infinito que havia dentro de si. Há muitas galáxias no universo para estarmos sozinhos. Aqui isolados em nossas vidas mesquinhas, sentimo-nos abandonados por um Deus que nos deu as costas. Fomos expulsos do paraíso e entregues à  nossa própria sorte. Ela estava perdida em meio a divagações. Entre o físico e o etéreo, querendo ser algo mais que lhe permitia a realidade, aquilo que só era possível em seus sonhos. Os comerciais da televisão instigavam-lhe a comprar coisas das quais não necessitava. Pois o que realmente precisava era impossível alcançar. Não há dinheiro que compre o amor. Pode-se ter uma paliativo deste, um remédio genérico, bem mais acessível. Mas o amor, como realmente é, não… Isto, é mais difícil de conseguir-se. Aos poucos, sua família despertava, corpos ruidosos chegavam felizes à cozinha. Conversavam e brincavam numa doce balbúrdia. Preparavam ovos fritos, comiam torradas, cereais matinais e sorriam avessos às emoções que a tomavam naquela manhã de sábado. Agora havia algo mais que o silêncio, algo mais que a dor, um sentimento mais profundo, talvez até alguma alegria. Sentia-se, isto era o mais importante, pois até aquela hora não se reconhecia. Sabia que estava lá, mas era tudo. Já que as emoções iam e viam fugidias no sentido das vagas.

O sol já estava alto. A vida despertava. Sem mentiras, a realidade mostrava sua face. E não era tão feia como se esperava. Tinha a imagem desafiadora de um toureiro, que para executar o touro interpretava uma verdadeira dança. Não eram feições cordiais, é claro, eram cruéis, mas havia uma certa beleza, poesia até. Ela tinha um espírito lírico. Tudo ao final resumir-se-ia num soneto, lançado no ar como aviõezinhos de papel. Um dia chegará ao seu destino. Mesmo que leve muito tempo e que haja muitos obstáculos no caminho. Ela pouco entendia dessas sensações estranhas e indefiníveis que lhe inspiravam a continuar escrevendo. Mas sabia ao menos que quando escrevia o pesar diminuía sobremaneira. Arrancava assim, o espinho que tinha encravado do coração. Sem medo, sem pudor, sem máscaras ou disfarces. Sua família não era a mais perfeita. Não era composta de personagens de um comercial de margarina. Era tão propensa a falhas como qualquer outra. Mas era a força que lhe animava o espírito. Trazia luz para sua vida tão conturbada. Não importava o sofrimento, nem as lágrimas derramadas, havia muito caminho ainda à sua frente. Perguntavam-lhe a razão de ter acordado tão cedo em pleno sábado. Sem ter o que dizer, ela apenas respondeu que gostaria de ver o dia que acontecia. No fundo, pretendia mesmo falar sobre o que descobriu nessas horas infinitas. Pois é evidente que eles não sabiam que o presente já foi vivido no passado e será repetido no futuro. Desconheciam que ainda haverá tristes manhãs de sábado e saudades, e dor, e mágoas, e solidão. Mas preferiu esconder de todos seus sentimentos. Mais uma vez, aliás. Ela era uma concha que guardava a mais bela e rara pérola dentro de si. Composta de afetos reprimidos sedimentados no fundo de seu coração. Era apenas de madrugada que ela vivia o exercício dos sentimentos indizíveis, a aurora de todos os desejos.

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