O-BRASIL-COLONIA

Brasil, a terra das oportunidades.

Giordana Bonifácio

-Francisco! Gritou o homem de trajes simples, com um sorriso nos lábios, com um ar bonachão de alguém que não tinha nada a perder na vida. Talvez, porque ele não tinha nada realmente. Vivia de pequenos golpes e sua fama o precedia. Não havia mais em todo Portugal quem caísse em suas frequentes tramoias. Em razão disso, havia emagrecido muito, como não tinha dinheiro nem mesmo para comprar um cinto, usava uma corda amarrada na cintura para segurar as calças muito mais largas que seu corpo franzino. Passando as mãos sobre os cabelos, tentando inutilmente organizá-los, aproximou-se do homem que por suas feições não estava muito feliz em ver o amigo.

– Já sei o que queres Luís, mas não tenho dinheiro, não posso ajudar-te. Antecipou Francisco Artur Nóbrega, que vendia frutas no centro da Cidade do Porto. O ambulante apesar de constantemente reclamar do assédio do amigo, sempre o ajudava de alguma forma, nem que fosse com uma fruta fresca que acabava por ser a única refeição que Luís Veloso teria no dia. Ao contrário do amigo, Francisco era gordo e usava uma barba espessa e negra. Era um homem rude, mas muito bom. Provavelmente, o único a se apiedar das condições de vida de seu amigo.

-Assim tu insultas-me, meu amigo. Como se apenas te procurasse em busca de dinheiro. Retrucou Luís caprichando na representação de homem ofendido. – Pois saibas que não estou aqui para pedir-te dinheiro.

-Graças a Deus, pois a última quantia que me pediste, tu não ma pagaste ainda. Respondeu Francisco organizando as frutas sobre um estrado de madeira.

– Eu vim aqui para avisar-te de um bom negócio, um negócio da China como se diz. Pegou uma maçã vermelha do estrado e desferiu-lhe uma mordida.

– Não caio em teus golpes Luís, admira-me que tentes engabelar-me com tuas falcatruas. Logo eu, que tento auxiliar-te de todos os meios possíveis.

– Francisco, é justamente em razão de tua valorosa amizade que venho dar-te esta notícia: estão recrutando homens destemidos para comporem a tripulação de uma caravela com destino ao Brasil. Dizem que é fortuna certa, quem vai para a colônia volta rico! Além de, é claro, as índias serem muito afetuosas com os navegantes que aportam nas praias brasileiras. E estou convidando-te para embarcar comigo nesta aventura, pois sei de seu espírito intrépido e que não deixarias de aproveitar semelhante negócio!

– Luís, tu és louco? Sou casado! Como abandonaria minha esposa e filhos aqui em Portugal e seguiria com a cara e a coragem para o Brasil?

 -Imagina as oportunidades! Riquezas naturais e minerais. Especiarias e ouro! Tanto dinheiro que nunca mais terás de trabalhar!

-E quem cuidará de minha família aqui, ó gajo?

-É, tens razão, mas eu irei hoje mesmo. Como não tenho vínculos que me prendam na Europa, embarcarei nesta viagem rumo ao meu futuro. Mas não temas, quando voltar não me esquecerei do teu precioso auxílio.

– Boa viagem então, meu amigo. Aguardo-te rico nestas paragens. E quando retornares, não te esqueça de mim.

 Naquela tarde, a caravela seguia para o Brasil. Em poucos dias, Luís descobriria que a viagem não era tão rosa como faziam crer seus sonhos. Era, na verdade, mais semelhante a um terrível pesadelo. Muitos homens morreram de botulismo antes de chegar à colônia. Além das tempestades aterradoras que ameaçavam constantemente o futuro desejado por Luís. Outro fato preocupante era o racionamento de comida que conseguiu deixar ainda mais mirrado o corpo deste valente Português. Seguiram-se assim os meses em que se desenrolou a viagem. Sob tais condições adversas, nosso herói quase passa dessa para melhor antes de fazer fortuna em terras brasileiras. Quando o imediato anunciou aos gritos: “atenção marinheiros: terra à vista!” Ele ajoelhou-se e agradeceu à divina providência a graça alcançada. Havia prometido doar boa parte de sua futura fortuna a igreja de Nossa Senhora de Lourdes, caso chegasse vivo ao Brasil.

Quando aportou na colônia, foi recebido por um grupo de índios educados no português pelos jesuítas. A beleza das nativas deixou o nosso explorador entusiasmado e cheio de expectativas para o que lhe aguardava no futuro na colônia portuguesa das Américas.

No primeiro dia, conheceu um pajé que vendia baratinho umas ervas que ajudavam a relaxar. “É tudo natural”. Garantia o velho índio. Mas o preço que cobrava por seus “produtos” milagrosos era bastante salgado. E ele que pensava que bastava somente oferecer espelhinhos e outras bujingangas aos nativos em troca de seus préstimos, foi surpreendido pelo nascente comércio na antiga Terra de Santa Cruz. Como não tinha dinheiro, nem mesmo para alimentar-se e não poderia contar com o auxílio de seu amigo Francisco, Luís Veloso, que jamais trabalhara em Portugal, teve de procurar uma ocupação no Brasil. Primeiro, tentou auxiliar os jesuítas na educação dos índios. Aproximou-se de Anxieta, jesuíta muito famoso no Brasil. Disse-lhe que tinha muita didática que era mestre na cidade do Porto e que nada lhe alegraria mais que trazer luz à escuridão da ignorância e do pecado em que viviam os nativos. Foi contratado. Na primeira semana já se engraçou com uma bela indígena a quem deveria ensinar o caminho da religião e dos bons costumes. Na verdade, ela que lhe ensinou mil formas de pecar que ele ainda não conhecia. Foi expulso da congregação.

Mas não ficou abandonado, a sua preceptora em assuntos da carne, levou-o consigo a tribo. De início, foi bem educado nos costumes das nativas, para as quais não existiam as questões morais que tanto atormentam as mulheres européias. Poderia usufruir das mais belas índias da tribo, pois não praticavam o enfadonho celibato entre eles. Os índios aceitaram-no entre os seus, mas logo o cacique lhe determinou: “teria de caçar e pescar como os outros homens”.

Tomado de uma terrível preguiça, resolveu “ajudar” a tribo de outras maneiras. Pois cria ser mais rentável e menos trabalhoso comerciar as especiarias locais, do que gastar suor de sol a sol em busca de alimento. Seu lema era: “deixe que o alimento venha até você”. Na verdade, ele seria um interceptador, faria a ligação entre a tribo e os portugueses. E, claro, recebia por fora uma bela comissão pelos produtos vendidos. Luís Veloso inaugurou a prática do caixa dois no Brasil. Uma herança feliz para os futuros políticos de nosso país. Luís conseguiu, desta forma, amealhar uma grande fortuna. Em pouco tempo já era denominado de Doutor Luís, título que angariou sem jamais ter estado nos bancos de uma universidade. Senhor do comércio entre Portugal e a colônia, foi agraciado com uma profícua sesmaria. Anos depois de sua chegada ao Brasil, já possuidor de grande fama em Portugal, resolveu passar algum tempo na Europa, a fim de selecionar uma esposa. Pois, um homem de posses como ele, não poderia ter seu bom nome ligado a nativas. Sua estada em sua terra natal seria curta, haja vista os negócios demandarem muito sua atenção. Passeando pelas ruas do Porto com sua pretendente, a herdeira do Duque da Cornuália, deparou-se com o seu amigo Francisco, que há longa data tanto lhe ajudou. Lembrou-se de todas as benesses que seu amigo havia lhe promovido, bem como da antiga promessa que lhe havia feito, de quando da sua volta, já um homem de posses, não se esquecer de ajudá-lo a vencer na vida. Emocionou-se ao lembrar-se de seu antigo corpo mirrado, exaurido de forças e sempre faminto. Muito diferente do homem corpulento que agora era. Suas roupas também mudaram bastante, vestia tecidos finos e bem acabados, que contrastavam com os trapos que no passado usava. Pensando em tudo que conquistara mediante seu trabalho árduo na colônia, chegou à conclusão que havia crescido por mérito próprio e que tudo que hoje possuía seria seu mesmo sem o pequeno auxílio do antigo amigo Não querendo ser reconhecido por seu passado, pois ficaria muito embaraçado de ser lembrado por sua vida anterior de pequenos golpes, cruzou a rua com a dama que lhe acompanhava.

-Mas, por que cruzaste a rua? Perguntou a linda dama, que trajava um dos mais belos vestidos da Europa. Com tal delicada voz que acentuava seu caráter de gente que nunca teve necessidade de gritar para ter seus direitos reconhecidos.

-Não fica bem uma dama da vossa estirpe cruzar com ignóbeis ambulantes. Esse tipo de gente não presta, está sempre tentando passar pessoas de nossa estirpe para trás.

No mês seguinte, Luís Veloso retornava ao Brasil levando consigo a sua jovem esposa e o título de nobreza de marquês da Cidade do Porto. Deixando várias promessas perdidas no caminho. Entre elas, aquela que havia feito à divina providência de doar boa parte de sua fortuna à Igreja de Nossa Senhora de Lourdes caso chegasse vivo ao Brasil em sua turbulenta viagem para o futuro. O estranho, que não importa quanto tempo os separe, o futuro sempre repete o passado. O Brasil de ontem e o de hoje pouco se diferem: ainda é uma terra de oportunidades para aqueles que buscam vantagens por vias escusas e não querem valer-se de um trabalho justo para ascender socialmente. Seria este o nosso fim?

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