Arquivo do mês: agosto 2013

Promessa

Promessas

Giordana Bonifácio

Por toda minha vida eu prometo:

Não sofrer mais por um amor insano;

Não criar de minhas mágoas um soneto;

Não chorar depois de outro desengano;

 

Não crer amarga tão doce solidão;

Não ouvir o que me dizem as estrelas;

Não penar porque os sonhos muito tardam;

Não esquecer que na dor há coisas belas;

 

E se houver, ainda, “nãos” a serem ditos,

Prometo que nada irá me comover.

Nem mesmo juras de amor infinito.

 

Ou seu olhar em que vejo as ondas do mar.

Nem seu perfume num velho pulôver.

Ou meu coração que não posso domar.

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Marcas

Giordana Bonifácio

Algumas marcas que trago comigo,

Fruto de imensas mágoas e feridas,

Sei que não serão jamais esquecidas.

Por mais que tente, sei que não consigo.

 

É bem difícil, meu prezado amigo,

Pois a dor é às vezes salva-vidas,

Para que não ocorram falhas repetidas.

Ouça bem tais palavras que lhe digo:

 

A dor, tão amarga, vai passar um dia.

Pobre daquele que muito a repudia.

Eu não lamento minha alma marcada,

 

Pois temer sofrer é simples covardia.

Saiba que penei bem mais do que podia,

Ainda assim, eu prossigo nesta estrada.

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O exercício dos sentimentos indizíveis

Giordana Bonifácio

Fazia frio, mesmo assim ela abriu a janela para apreciar a madrugada. Sentia alguma coisa indefinível dentro de si. Um desejo que machucava e adentrava-lhe nos sonhos. Desejo de quê? Ela não sabia. Uma sensação de falta, um vazio interno que lhe corroía e sugava como um buraco negro. Pensava que a vida poderia ser muito mais. Porém, era-lhe impossível vencer neste jogo. Em silêncio, fechou a janela e seu coração. A verdade é que não estava preparada para o mundo. Nunca esteve. Era-lhe muito difícil ser quando viver é algo que não deveria ser. Desceu as escadas. Não se ouvia qualquer barulho. Ainda estavam todos adormecidos. Ela sempre era a primeira a despertar. O sol avermelhado da madrugada penetrava pelas janelas de vidro da cozinha. O amanhecer é a primeira poesia do dia. É certo que ela tinha uma alma era lírica, contudo seu coração tinha o peso arrastado da prosa. Algo que dói sobremaneira. Mas ela não queria pensar no significado das coisas. É mais fácil ignorar os sentimentos indizíveis. Não sentia fome. Mesmo assim, colocou pão na torradeira, fritou ovos e encheu de leite um copo. “O desjejum é a principal refeição do dia”. Não é o que dizem? Ela mastigou seus sonhos com ovos no café da manhã. Ninguém acordou. Ela lavou a louça. Não havia necessidade de correr para o chuveiro e vestir-se, pois era sábado e não necessitava ir para o trabalho. Ligou a televisão. Os jornalistas repetiam as notícias de ontem. Era como se o mundo vivesse num  passado eterno que se repete no presente. O amanhã era o ontem convertido em hoje. Tudo tende a ser tal qual um dia foi. Como empurrar uma enorme rocha para o topo de uma montanha e vê-la rolar  para baixo e chegar a mesma posição eternamente. A pena de Sísifo, às vezes pode se assemelhar à pena que o escritor tem em suas mãos. É o exercício dos sentimentos velados. A possibilidade de dizer algo que há muito se manteve em segredo, pois, como artista, sua voz está protegida pela licença poética.

Os fins de semana são uma concessão da sociedade capitalista ao desejo do homem de ser livre. É a possibilidade de, ao menos nesses dias, não ter de comparecer ao trabalho, de ir para a escola e todas as obrigações que acorrentam os homens à sua árdua rotina. Ela queria compreender os mistérios que sua vida envolvia. O exercício das coisa banais. A procura de definições que não existem. Nem tudo tem significado. É difícil compreender isto. Os homens querem respostas às suas perguntas. Era um desejo que ela também nutria. Mas desistiu de suas dúvidas. Deixava-as guardadas junto à esperança que um dia abandonou. O dia nascia bonito. O céu de Brasília era o azul dos que sonham com o mar. O som do oceano ainda ressoavam em seu espírito: ondas com suas sensações vagas que lambem a areia da praia. Ainda seria possível fugir? Libertar-se como alguém que já não suporta o peso das amarras? Por que dizer sim, quando a vida responde-lhe que não? Desde cedo aprende-se o sentido de tudo. Mas um anjo gaiato aproxima-se dos bebês pressiona o dedo contra seus lábios para não revelarem a verdade que deve permanecer escondida. Ela sabe que suas emoções são o que tem de mais sincero. Um tesouro perdido num navio naufragado. Talvez algum dia possa ser descoberto por exploradores, mas ela não crê muito nessa possibilidade. É que não acredita em milagres impossíveis. Há muito abandonou sua fé. Fé é uma palavra muito curta para explicar todas as dúvidas que nutria. Era-lhe necessário algo mais palpável. Pois os sonhos são diáfanos, não se pode creditar a eles a força do real. Não é possível justificar uma falta com base em ilusões do nosso inconsciente. Memórias recalcadas da nossa infância, trazidas à tona quando nossa consciência não pode conter o nosso ego. E, assim, o onírico faz-se presente quando dormimos criando imagens sem sentido que são simples pedaços do passado que sempre retornam. Era muito cedo ainda, todos continuavam a dormir. Ela assistia ao noticiário, não atentava muito para o que os repórteres diziam. Ela só ouvia o que lhe era interno. A mágoa que persevera depois das decepções. As memórias a confirmar a teoria que formulara para confirmar a força que o ontem tem sobre o hoje.

“Era uma vez, há muito tempo atrás, um coração que vivera muitas vidas, mas uma única solidão. Um dia resolveu desfazer-se do que possuía, pois carregava muito peso dentro de si. Doou seus sonhos e alegrias, que foram recebidos prontamente por outros corações. Sobraram-lhe somente as desilusões que não quiseram levar, por serem muito tristes, as pobrezinhas. Assim, só lhe restaram as emoções mais doloridas que em si se fazem presentes desde então.” Ela inventara aquela fábula naquele mesmo instante. Perdida no vazio da cozinha, acompanhando o lento caminhar do relógio de parede. O tique-taque acompanhando o passo do tum-tum de seu coração. “Nem sempre a vida é como esperamos. Na maioria das vezes, não”. Murmura, com medo. Sem saber que o que na verdade a apavorava era a noção do infinito que havia dentro de si. Há muitas galáxias no universo para estarmos sozinhos. Aqui isolados em nossas vidas mesquinhas, sentimo-nos abandonados por um Deus que nos deu as costas. Fomos expulsos do paraíso e entregues à  nossa própria sorte. Ela estava perdida em meio a divagações. Entre o físico e o etéreo, querendo ser algo mais que lhe permitia a realidade, aquilo que só era possível em seus sonhos. Os comerciais da televisão instigavam-lhe a comprar coisas das quais não necessitava. Pois o que realmente precisava era impossível alcançar. Não há dinheiro que compre o amor. Pode-se ter uma paliativo deste, um remédio genérico, bem mais acessível. Mas o amor, como realmente é, não… Isto, é mais difícil de conseguir-se. Aos poucos, sua família despertava, corpos ruidosos chegavam felizes à cozinha. Conversavam e brincavam numa doce balbúrdia. Preparavam ovos fritos, comiam torradas, cereais matinais e sorriam avessos às emoções que a tomavam naquela manhã de sábado. Agora havia algo mais que o silêncio, algo mais que a dor, um sentimento mais profundo, talvez até alguma alegria. Sentia-se, isto era o mais importante, pois até aquela hora não se reconhecia. Sabia que estava lá, mas era tudo. Já que as emoções iam e viam fugidias no sentido das vagas.

O sol já estava alto. A vida despertava. Sem mentiras, a realidade mostrava sua face. E não era tão feia como se esperava. Tinha a imagem desafiadora de um toureiro, que para executar o touro interpretava uma verdadeira dança. Não eram feições cordiais, é claro, eram cruéis, mas havia uma certa beleza, poesia até. Ela tinha um espírito lírico. Tudo ao final resumir-se-ia num soneto, lançado no ar como aviõezinhos de papel. Um dia chegará ao seu destino. Mesmo que leve muito tempo e que haja muitos obstáculos no caminho. Ela pouco entendia dessas sensações estranhas e indefiníveis que lhe inspiravam a continuar escrevendo. Mas sabia ao menos que quando escrevia o pesar diminuía sobremaneira. Arrancava assim, o espinho que tinha encravado do coração. Sem medo, sem pudor, sem máscaras ou disfarces. Sua família não era a mais perfeita. Não era composta de personagens de um comercial de margarina. Era tão propensa a falhas como qualquer outra. Mas era a força que lhe animava o espírito. Trazia luz para sua vida tão conturbada. Não importava o sofrimento, nem as lágrimas derramadas, havia muito caminho ainda à sua frente. Perguntavam-lhe a razão de ter acordado tão cedo em pleno sábado. Sem ter o que dizer, ela apenas respondeu que gostaria de ver o dia que acontecia. No fundo, pretendia mesmo falar sobre o que descobriu nessas horas infinitas. Pois é evidente que eles não sabiam que o presente já foi vivido no passado e será repetido no futuro. Desconheciam que ainda haverá tristes manhãs de sábado e saudades, e dor, e mágoas, e solidão. Mas preferiu esconder de todos seus sentimentos. Mais uma vez, aliás. Ela era uma concha que guardava a mais bela e rara pérola dentro de si. Composta de afetos reprimidos sedimentados no fundo de seu coração. Era apenas de madrugada que ela vivia o exercício dos sentimentos indizíveis, a aurora de todos os desejos.

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O-BRASIL-COLONIA

Brasil, a terra das oportunidades.

Giordana Bonifácio

-Francisco! Gritou o homem de trajes simples, com um sorriso nos lábios, com um ar bonachão de alguém que não tinha nada a perder na vida. Talvez, porque ele não tinha nada realmente. Vivia de pequenos golpes e sua fama o precedia. Não havia mais em todo Portugal quem caísse em suas frequentes tramoias. Em razão disso, havia emagrecido muito, como não tinha dinheiro nem mesmo para comprar um cinto, usava uma corda amarrada na cintura para segurar as calças muito mais largas que seu corpo franzino. Passando as mãos sobre os cabelos, tentando inutilmente organizá-los, aproximou-se do homem que por suas feições não estava muito feliz em ver o amigo.

– Já sei o que queres Luís, mas não tenho dinheiro, não posso ajudar-te. Antecipou Francisco Artur Nóbrega, que vendia frutas no centro da Cidade do Porto. O ambulante apesar de constantemente reclamar do assédio do amigo, sempre o ajudava de alguma forma, nem que fosse com uma fruta fresca que acabava por ser a única refeição que Luís Veloso teria no dia. Ao contrário do amigo, Francisco era gordo e usava uma barba espessa e negra. Era um homem rude, mas muito bom. Provavelmente, o único a se apiedar das condições de vida de seu amigo.

-Assim tu insultas-me, meu amigo. Como se apenas te procurasse em busca de dinheiro. Retrucou Luís caprichando na representação de homem ofendido. – Pois saibas que não estou aqui para pedir-te dinheiro.

-Graças a Deus, pois a última quantia que me pediste, tu não ma pagaste ainda. Respondeu Francisco organizando as frutas sobre um estrado de madeira.

– Eu vim aqui para avisar-te de um bom negócio, um negócio da China como se diz. Pegou uma maçã vermelha do estrado e desferiu-lhe uma mordida.

– Não caio em teus golpes Luís, admira-me que tentes engabelar-me com tuas falcatruas. Logo eu, que tento auxiliar-te de todos os meios possíveis.

– Francisco, é justamente em razão de tua valorosa amizade que venho dar-te esta notícia: estão recrutando homens destemidos para comporem a tripulação de uma caravela com destino ao Brasil. Dizem que é fortuna certa, quem vai para a colônia volta rico! Além de, é claro, as índias serem muito afetuosas com os navegantes que aportam nas praias brasileiras. E estou convidando-te para embarcar comigo nesta aventura, pois sei de seu espírito intrépido e que não deixarias de aproveitar semelhante negócio!

– Luís, tu és louco? Sou casado! Como abandonaria minha esposa e filhos aqui em Portugal e seguiria com a cara e a coragem para o Brasil?

 -Imagina as oportunidades! Riquezas naturais e minerais. Especiarias e ouro! Tanto dinheiro que nunca mais terás de trabalhar!

-E quem cuidará de minha família aqui, ó gajo?

-É, tens razão, mas eu irei hoje mesmo. Como não tenho vínculos que me prendam na Europa, embarcarei nesta viagem rumo ao meu futuro. Mas não temas, quando voltar não me esquecerei do teu precioso auxílio.

– Boa viagem então, meu amigo. Aguardo-te rico nestas paragens. E quando retornares, não te esqueça de mim.

 Naquela tarde, a caravela seguia para o Brasil. Em poucos dias, Luís descobriria que a viagem não era tão rosa como faziam crer seus sonhos. Era, na verdade, mais semelhante a um terrível pesadelo. Muitos homens morreram de botulismo antes de chegar à colônia. Além das tempestades aterradoras que ameaçavam constantemente o futuro desejado por Luís. Outro fato preocupante era o racionamento de comida que conseguiu deixar ainda mais mirrado o corpo deste valente Português. Seguiram-se assim os meses em que se desenrolou a viagem. Sob tais condições adversas, nosso herói quase passa dessa para melhor antes de fazer fortuna em terras brasileiras. Quando o imediato anunciou aos gritos: “atenção marinheiros: terra à vista!” Ele ajoelhou-se e agradeceu à divina providência a graça alcançada. Havia prometido doar boa parte de sua futura fortuna a igreja de Nossa Senhora de Lourdes, caso chegasse vivo ao Brasil.

Quando aportou na colônia, foi recebido por um grupo de índios educados no português pelos jesuítas. A beleza das nativas deixou o nosso explorador entusiasmado e cheio de expectativas para o que lhe aguardava no futuro na colônia portuguesa das Américas.

No primeiro dia, conheceu um pajé que vendia baratinho umas ervas que ajudavam a relaxar. “É tudo natural”. Garantia o velho índio. Mas o preço que cobrava por seus “produtos” milagrosos era bastante salgado. E ele que pensava que bastava somente oferecer espelhinhos e outras bujingangas aos nativos em troca de seus préstimos, foi surpreendido pelo nascente comércio na antiga Terra de Santa Cruz. Como não tinha dinheiro, nem mesmo para alimentar-se e não poderia contar com o auxílio de seu amigo Francisco, Luís Veloso, que jamais trabalhara em Portugal, teve de procurar uma ocupação no Brasil. Primeiro, tentou auxiliar os jesuítas na educação dos índios. Aproximou-se de Anxieta, jesuíta muito famoso no Brasil. Disse-lhe que tinha muita didática que era mestre na cidade do Porto e que nada lhe alegraria mais que trazer luz à escuridão da ignorância e do pecado em que viviam os nativos. Foi contratado. Na primeira semana já se engraçou com uma bela indígena a quem deveria ensinar o caminho da religião e dos bons costumes. Na verdade, ela que lhe ensinou mil formas de pecar que ele ainda não conhecia. Foi expulso da congregação.

Mas não ficou abandonado, a sua preceptora em assuntos da carne, levou-o consigo a tribo. De início, foi bem educado nos costumes das nativas, para as quais não existiam as questões morais que tanto atormentam as mulheres européias. Poderia usufruir das mais belas índias da tribo, pois não praticavam o enfadonho celibato entre eles. Os índios aceitaram-no entre os seus, mas logo o cacique lhe determinou: “teria de caçar e pescar como os outros homens”.

Tomado de uma terrível preguiça, resolveu “ajudar” a tribo de outras maneiras. Pois cria ser mais rentável e menos trabalhoso comerciar as especiarias locais, do que gastar suor de sol a sol em busca de alimento. Seu lema era: “deixe que o alimento venha até você”. Na verdade, ele seria um interceptador, faria a ligação entre a tribo e os portugueses. E, claro, recebia por fora uma bela comissão pelos produtos vendidos. Luís Veloso inaugurou a prática do caixa dois no Brasil. Uma herança feliz para os futuros políticos de nosso país. Luís conseguiu, desta forma, amealhar uma grande fortuna. Em pouco tempo já era denominado de Doutor Luís, título que angariou sem jamais ter estado nos bancos de uma universidade. Senhor do comércio entre Portugal e a colônia, foi agraciado com uma profícua sesmaria. Anos depois de sua chegada ao Brasil, já possuidor de grande fama em Portugal, resolveu passar algum tempo na Europa, a fim de selecionar uma esposa. Pois, um homem de posses como ele, não poderia ter seu bom nome ligado a nativas. Sua estada em sua terra natal seria curta, haja vista os negócios demandarem muito sua atenção. Passeando pelas ruas do Porto com sua pretendente, a herdeira do Duque da Cornuália, deparou-se com o seu amigo Francisco, que há longa data tanto lhe ajudou. Lembrou-se de todas as benesses que seu amigo havia lhe promovido, bem como da antiga promessa que lhe havia feito, de quando da sua volta, já um homem de posses, não se esquecer de ajudá-lo a vencer na vida. Emocionou-se ao lembrar-se de seu antigo corpo mirrado, exaurido de forças e sempre faminto. Muito diferente do homem corpulento que agora era. Suas roupas também mudaram bastante, vestia tecidos finos e bem acabados, que contrastavam com os trapos que no passado usava. Pensando em tudo que conquistara mediante seu trabalho árduo na colônia, chegou à conclusão que havia crescido por mérito próprio e que tudo que hoje possuía seria seu mesmo sem o pequeno auxílio do antigo amigo Não querendo ser reconhecido por seu passado, pois ficaria muito embaraçado de ser lembrado por sua vida anterior de pequenos golpes, cruzou a rua com a dama que lhe acompanhava.

-Mas, por que cruzaste a rua? Perguntou a linda dama, que trajava um dos mais belos vestidos da Europa. Com tal delicada voz que acentuava seu caráter de gente que nunca teve necessidade de gritar para ter seus direitos reconhecidos.

-Não fica bem uma dama da vossa estirpe cruzar com ignóbeis ambulantes. Esse tipo de gente não presta, está sempre tentando passar pessoas de nossa estirpe para trás.

No mês seguinte, Luís Veloso retornava ao Brasil levando consigo a sua jovem esposa e o título de nobreza de marquês da Cidade do Porto. Deixando várias promessas perdidas no caminho. Entre elas, aquela que havia feito à divina providência de doar boa parte de sua fortuna à Igreja de Nossa Senhora de Lourdes caso chegasse vivo ao Brasil em sua turbulenta viagem para o futuro. O estranho, que não importa quanto tempo os separe, o futuro sempre repete o passado. O Brasil de ontem e o de hoje pouco se diferem: ainda é uma terra de oportunidades para aqueles que buscam vantagens por vias escusas e não querem valer-se de um trabalho justo para ascender socialmente. Seria este o nosso fim?

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Criador e Criatura

Giordana Bonifácio

Risca algo em um caderno. (Um poema?) Enquanto isso, ele balbucia uma canção. Não sei por que criei esse personagem. A imagem dele apareceu em minha mente. Vejo-o com os jeans gastos e rasgados, camisa de punhos puídos, barba por fazer e uns tênis que andaram muito mais que seus pés. Há algo nele que me atrai. Devem ser seus cabelos longos e revoltos reclamando um corte. Seu desleixo por sua imagem deve ser o que me intriga mais. Penso nele triste. Murmurando consigo uma canção… Que música é essa? Acho que devo aproximar-me mais, pois aqui do outro lado da folha de papel não posso escutar-lhe bem. Ele parece estar perdido. Talvez seja somente eu que me sinta assim. Não posso evitar transferir minhas próprias emoções aos personagens.  É que eles são-me tão próximos que me parecem extensões do que sou. Somos uma confusão de sentimentos. Algo tão bagunçado que não conseguimos nos desvencilhar. Posso dizer o que penso deste homem? Não, melhor não. Talvez fosse mal interpretada por quem se dedicasse a ler esse pequeno conto. É que ele faz-me ouvir uma voz que sibila dentro de mim. Vai cochichando-me coisas que não gosto de admitir. Nós estamos presos, eu e ele, algemados a nossa identidade. Querendo desvencilhar-nos do que somos. Mas somos tão estranhos, quisera entender-me, mas preciso de um mapa para encontrar a saída do labirinto que é meu coração. Ele também.  Pensa que se conhece profundamente. Mas, na verdade, só consegue enxergar a superfície do que ele é. Somente a ponta do iceberg.  O restante está em águas profundas demais onde ninguém se aventura a ir. Um silêncio aterrador cai sobre mim. Também sobre ele. Por isso ele tenta quebrá-lo com a música que ele canta num murmúrio triste. Nós somos a conjunção de forças desconexas. Ele quer se fazer ouvir, mas não consegue gritar. Eu também. Por que somos assim? Vivemos tão ligados à dor que não conseguimos notar o colorido do mundo. Vemos uma vida em preto e branco. De repente, a ponta do lápis quebra-se. Ele ainda não havia terminado. Será que havia um apontador em algum lugar? Ele não me permite ver o que fazia. Penso que produzia um poema. Talvez uma canção. Aquela que ele murmurava. Talvez não. Acho que não o compreendo tão bem assim. Ou não entenda a mim.

Dobra o papel e guarda no bolso da camisa. Não vai permitir mesmo que veja o que fazia. Continua a cantar a canção à meia voz. Tento ouvir-lhe:  “And if you look/You look through me/And when you talk/Is not to me/And when I touch you/You don’t feel a thing”.  É um trecho de uma velha canção do U2. Traduzindo-se é mais ou menos assim: “E se você olha/Você olha através de mim/E quando você fala,/Não é para mim/E quando eu te toco/Você não sente nada”. Acho que sabe que estou a observá-lo. Ou, ao menos, sente minha presença. Na verdade, a música traduz o que sentimos. Talvez, somente o que eu sinto. Ele não me vê. Mas eu o vejo. Ele está presente dentro de mim. Queria que pudesse segurar minha mão e levar-me para algum lugar seguro. Ele não teme o mundo que o cerca. Contudo, eu estou tão assustada. Tremo frente aos perigos que me cercam. Mas ele coça barba rala e pega um maço de cigarros no bolso. Escolhe um e pede um isqueiro para o garçom. Fuma com gosto. Não havia percebido: ele está num bar, sentado numa mesa frente à entrada. As pessoas passam por ele indiferentes. Esse é o século da indiferença, dos homens individualistas e egoístas. A chama incandescente do cigarro consome-o aos poucos. Como nossa chama interior vai consumindo-nos lentamente. Não sei dizer algo bonito para gravar aqui. Quem me dera poder expressar-me com poesia. Mas minha dor é uma enxurrada de sentimentos que leva tudo indistintamente. Na verdade, nem sei o que escrevo aqui. Ele pede mais uma cerveja. Agora está em silêncio olhando para o nada. Penso que está com a mente num passado distante de que sente saudades. Não consigo saber o que se esconde atrás de seus olhos. Uma emoção fugidia se apodera de mim. Acho que o amo mais que a mim mesma. Mas não sei quem ele é. Não sei seu nome. Ele é-me um estranho íntimo. Alguém que consegue entender-me mais que ninguém, mesmo também não sabendo quem sou.  Ele consegue transpor os oceanos que o separam do meu coração. Mas não o permito entrar. Tenho medo de amar um sonho. Prefiro conviver com meus conhecidos pesadelos.

Ele bebe a cerveja sozinho. Não canta mais. Observa o mundo a sua volta. Não sei como lhe é possível suportar uma realidade exterior a si mesmo. Vivo tão enclausurada em mim, que não consigo aceitar o mundo externo. Sinto-o desvencilhando-se de mim e isso me dói.  Por que não pode mais ser parte de mim? Como lhe é tão fácil conseguir uma independência que não possuo? Luto para mantê-lo preso. Não suporto sua rebeldia. Eu o criei, eu o possuo. Não pode minha criatura ganhar vida própria fora de meus desígnios. Vivo muitas solidões. São muitas facetas do que sou. A maioria vira personagem e, no final, despregam de mim. Não suporto esse tal de livre arbítrio. Assumo a responsabilidade sobre meus personagens, eles são pequenas sementes de mim que transponho para a folha em branco. Mas alguns são mais fortes do que eu. Tornam-se senhores de sua vontade. E quando percebo, já não mais os controlo. Estão livres. Ele termina a garrafa de cerveja. Pede a conta que paga em dinheiro. Sorri para o garçom, diz algo que não consigo ouvir devido o barulho da avenida. Estou distanciando-me dele. Ele repele-me. Não me aceita mais perto de si. Luto para aproximar-me. Ele é bem mais forte. Oponho-me ao seu desejo de liberdade. Sigo-o com olhar pelas ruas da cidade. Ele caminha devagar, mas confiante. Como consegue estar calmo diante das circunstâncias? Eu estou perdendo a batalha contra seu exército. Mas sinto que preciso dele. Não vou desistir. Nem que me seja necessário matá-lo.  Isso me doeria bastante. Mas agora vejo como extremamente necessário. É minha criatura. Não pode simplesmente arrebentar os grilhões que o prendem a mim. Vou tomar o curso da história. Domar todas as forças que me desafiam. Eu queria somente entender o que sinto. Minha dor que não pude jamais explicar. O peso que sinto envergar-me as costas. O tempo que me devora a cada segundo. Como não tive filhos, fui dando vida com palavras aos mais diversos tipos. Porém, eles foram tornando-se mais poderosos que eu. Não me é possível conceber tamanha afronta.

Mas não posso matá-lo. Não depois de ter me afeiçoado tanto a ele. Fico presa num terrível dilema. Minhas mãos tremem. Um crime passional? Teoricamente, ele pertence-me. Assim dita a lei de direitos autorais. Então, é-me dado o direito de fazer-lhe o que bem entender. Ele para diante de uma vitrine. É tempo. Minhas mãos ainda tremem. Onde está a coragem de ferir-lhe? Não posso, simplesmente não posso. Doer-me-ia deveras. Só agora compreendo que ele não me pertence mais. Ele venceu, conseguiu sua independência. Não fui eu que lhe expulsei do paraíso, mas ele que saiu por vontade própria. Ele pega o papel que rabiscava no bar. Desdobra-o, olha-o com ternura e desfaz-se dele. Lança-o no chão. Como se não mais precisasse do que fez. Algo que não mais lhe é necessário. Eu apenas assisto a sua partida. Nada mais me é possível fazer. Vejo-o caminhar para longe de mim. Acho que nunca mais o verei novamente. Sem nem mesmo um adeus, ele abandona-me. Sinto-me destruída. Os olhos marejados já não distinguem mais as palavras no papel. Agora faço parte da história. Faço menção de correr atrás dele. Mas seria inútil. Ele não retornaria. Caio de joelhos no chão. Os passantes não se ocupam de meu desespero. Ninguém se aproxima. Vejo-o já muito distante. Indo para um lugar em que não posso o alcançar. A saudade rasga-me como uma adaga. Sem saber o que fazer, eu fico algum tempo chorando. Por quê? Não sei. Talvez, porque me sinta extremamente dispensável. Alguém sem nenhuma importância, da qual todos podem desfazer-se com grande facilidade. Minha alma extravasa em lágrimas, já não quero mais fazer parte desta história. Recolho os cacos do que fui para tentar reconstruir-me. Antes de levantar-me percebo um papel ao meu lado. Reconheço-o. Minha curiosidade faz-me desdobrá-lo. E vejo que o meu rosto está gravado em sua superfície. Um desenho não terminado que nada me diz. Ele amava-me? Gostaria de perguntar-lhe. Mas sei que jamais o verei novamente. Perdemo-nos um do outro, para sempre.

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Amor-acabou

Cruel solidão

Giordana Bonifácio

Meu corpo sente, meu coração pulsa.

Não quero ser um ser, talvez, humano?

Sei que meu corpo frágil à alma expulsa.

Sei que mentiras não existiam no plano.

 

Mas aqui sinto meu estranho presente.

Não há como entender toda esta procura?

Sou um poeta louco que seu penar mente.

Não se preocupe, minha dor não dura.

 

Talvez termine com uma sinfonia.

Eu só sonhava com uma companhia.

Mas o dia finda num silêncio triste.

 

A vida é apenas mais uma mentira.

Um grande penar que na morte espira.

Só esta solidão cruel, no fim, resiste.

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Minha mãe, a supermulher.

Giordana Bonifácio

Desde que nasci, décadas atrás,

Que vejo minha mãe sempre ao meu lado.

Está comigo quando estou angustiado

E, na dor, ela seca-me as lágrimas.

 

Porém, com minha heroína, algo se passou:

O tempo, a mais temível Kriptonita,

Um mal que a todos nós homens visita,

De todos seus poderes lhe despojou.

 

Agora que de mim ela precisa,

Pois não tem mais o ânimo de outrora,

Não vou lhe deixar nessas horas finais.

 

Ela para mim será a eterna poetisa,

Cujos mais belos versos a alma chora.

A supermulher que amo sempre mais.

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agonia

Agonizando

Giordana Bonifácio

Estou aqui, nesses momentos finais, tentando agarrar-me aos meus últimos segundos de vida. Diziam que nesse derradeiro instante reveria minha história como um filme. Porém, não penso em nada. Pudera arrepender-me de meus pecados. Mas, quem consegue pensar em algo quando está lutando contra a morte? Quero viver! Não posso desistir, esses longos anos foram-me muito curtos. Não fiz nada que planejei. Na verdade, fiz muitos planos. Objetivos a cumprir que não cheguei jamais a alcançar. Queria esquadrinhar a minha vida, de modo que tudo acontecesse dentro do previsto. Contudo, nossa existência é imprevisível. Não esperava que todos meus sonhos restariam como esboços mal acabados num papel. Enquanto isto, eis-me aqui lutando, debelando-me contra a dama inexorável. Esta cujas vestes negras encobrem-me a visão, esta que tenta levar-me consigo, esta que carrega a foice mortal. Não posso deixar-me ir. Não com tanto ainda a ser feito. Poderia ter sido de um jeito que nunca fui. Eu seria muito melhor se me fosse dada mais uma chance. Não me entregaria a esperas sem fim. Na realidade, eu faria o momento. Pois ele existe e deve ser aproveitado. Muitos anos escorreram com a areia da ampulheta. Não pude detê-los. O tempo é nosso inimigo mais atroz. Devemos aprender a lidar com esse Titã. Cronos devora seus próprios filhos. E somos mastigados por seus dentes implacáveis. Sem perdão… ou piedade. A morte acontece sem que estejamos preparados. Ela é a visita indesejada que nos surpreende quando menos esperamos. Nessa luta desigual saímos sempre derrotados. Como vencer o destino? Será que deveria agir de outro modo? Será que tudo que fiz foi pouco? Agora que meu último suspiro se aproxima, não me julgo merecedor do Paraíso. Estive muito tempo enfurnado em salas e quartos fechados tentando aumentar minha fortuna. Não valorizei aqueles que estavam ao meu redor: minha família e amigos. Negligenciei minha relação com eles. E tudo que queriam de mim era um pouco de meu afeto. Mas eu era por demais apegado a bens materiais. Queria enriquecer e ser importante a todo custo. Perdi a infância de meus filhos. Quantos sorrisos eu não vivenciei… É que eu estava perto, mas, mesmo assim, tão longe…

E agora? Não posso pedir mais alguns minutos, horas, dias, meses, anos? Mais algum tempo… Quero consertar meus erros. Foram tantas falhas… Fui tão egoísta. Lembro-me de uma noite que minha irmãzinha tremia por medo da tempestade. Ao invés de consolá-la, fui mau e zombei de seu pavor. Eu deveria ser seu herói. Mas fui seu bandido. Eu ria-me dela com os outros meninos. Não a salvei quando mais precisava de mim. Não mereço que Deus se apiede de mim. Foram tantas faltas. Minha covardia impediu-me de ir mais além muitas vezes. Tive medo. Não consegui prosseguir no que deveria ser meu momento. Não tive outras chances. Fui assentando tijolos, construindo muros que me separavam de todas as pessoas. Estava protegido do mundo, mas separado dele. Enfurnado nos ambientes profanos do capital, não me dediquei a quem mais precisava de mim. Não conheci meus filhos. Não da maneira que deveria. Perdi fatos importantes de suas vidas, pois estava muito ocupado com assuntos a que releguei maior importância. Agora penso que fiz escolhas erradas. Aumentei minha fortuna. Mas para que? Se não levo comigo mais que duas moedas de ouro para pagar a travessia do Aqueronte… Meus anos foram desperdiçados numa procura infindável de poder. Não sabia que, no final das contas, frente à morte não se tem poder algum. Fui tolo. A vida se encarregou de me mostrar isto. Perdi muito tempo em buscas erradas. Agora, acuado e com medo, vejo que estava cego. Não enxergava a minha família. Não percebia meus verdadeiros amigos. Pensava que tinha o mundo nas mãos. Mas não tinha nada. Por que amealhar tanto dinheiro? A única fortuna que levamos conosco é nossa alma. Por isso temos de alimentá-la com bons sentimentos, pois a ganância apenas nos envenena. A inveja aprisiona-nos. O rancor tortura-nos e o ódio corrompe-nos. Deveria ter cultivado flores no meu jardim. Mas estava ocupado demais para pensar em ser bom.

Quero respirar, não pode escapar de meus pulmões esse doce oxigênio que nos garante a vida, mas, ainda assim, nos mata aos poucos. Fui recolhendo cacos de felicidade. Queria ser mais, esquecendo-me que a maior das virtudes é a humildade. Não perdoei aqueles que me feriram, pois acreditava que eram meus inimigos. Quando deveria somente lhes estender a mão num gesto de compaixão. Se Jesus pregava que deveríamos oferecer a outra face, por que queria vingar-me e não conceder o meu perdão? Estava preso a sentimentos mesquinhos, era eu quem sofria. Eu que não sabia remir minhas falhas e nem aceitava as desculpas dos demais. Eu não soube o que eram feriados, nem mesmo os vivi quando estava vivo. Por isso, fazendo uma recapitulação do que foi minha existência chego à conclusão que não venci na vida. Na verdade, fui o grande derrotado. Porque fui sustentando meu castelo sobre frágeis bases. Estava claro que tudo um dia iria ruir. Mas eu não suspeitava que isso viesse a ocorrer realmente. Fui rico, fui um homem importante. Todavia, minha relevância vai se perder num belo jazigo cujo epitáfio o tempo vai corroer. Dentro em breve, nada mais restará de meu corpo além do pó a que todos retornarão. Serei devorado por vermes que comerão da podridão de minha carne, sem se importarem com o odor nauseabundo que expelirá. Minha grande importância sob sete palmos de terra. Meu caixão requintado também apodrecerá como a carne que antes cobria meus ossos. Nada do que fui, restará para ser lembrado. Fotografias apagar-se-ão e o tempo encarrega-se de fazer perderem-se as lembranças. Nada ficará da minha história nessa terra. Não restarei marcado nos livros de história. Serei como todos os homens. Tão pequenos frente ao destino. Tão fracos frente à morte. Ante os mistérios irresolúveis da criação, a morte é nossa maior certeza.

Queria apenas dizer que me arrependo. Sim, estive errado por muito tempo. Mas agora é tarde. “Inês é morta”. Nada mais resta a se fazer. Meus braços enfraquecem e as pernas esmorecem. Não posso mais lutar. A vida desfaz-se de mim. Tombarei como a estátua cujos pés de barro não lhe garantiam fundação. Não pude redimir-me por minhas incontáveis faltas. Não pude sequer me despedir daqueles que realmente amava. Meu tempo foi curto. Longos anos que se transcorreram numa velocidade impressionante. Onde estive todo este tempo? Por que me deixei seduzir pelas riquezas materiais? Eu deveria suspeitar que, no fim, nem toda fortuna que acumulei seria o bastante para conceder-me mais tempo de vida. Aqui estou eu despedindo-me do mundo. Dizendo um adeus agonizante aos que me cercam. Sem poder alertá-los para que não cometam as mesmas falhas que cometi. A derrota tem um sabor amargo. Principalmente para aqueles que se julgavam vencedores. Fui derrotado no jogo de xadrez que cada homem disputa com o destino. Estava em jogo minha vida, mas, com lances desastrados, rifei minha existência. Perdi a rainha cedo demais, dos bispos fui desfalcado logo em seguida. As torres foram dizimadas pelo adversário, sem defesas, lancei meus cavalos que tiveram o mesmo destino. Fiquei acuado com um rei e poucos peões.  Sem saídas, entreguei o reino. Cheque-mate. Uma profunda escuridão recai sobre meus olhos. Chega o momento de entregar-me. Não há escapatória. Gostaria de poder dizer algo marcante. É chegada a hora. Fim de jogo. Eis que me resta um pouco de ar nos pulmões. Não posso falar nada que já não saibam. Todos conhecem de minhas faltas, mas, mesmo assim, ainda choram por mim. Emocionado por esta demonstração de afeto, somo as forças que me restam para balbuciar aos que assistem minha agonia um pedido trôpego de perdão. Eles escutam-me comiserados. Eu não lhes merecia a compaixão. Mesmo assim, eles ainda rezam por mim. Pedem a um Pai misericordioso que se apiede de minha alma. A reza das mulheres chega-me aos ouvidos. Quero acreditar que pode ajudar-me. O mundo escapa-me e, no fim, já não vejo mais nada.

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