Arquivo do mês: abril 2013

Para-a-Luz

Epifanias

Giordana Bonifácio

Ainda penso muito. Sabe como é, fico deitado olhando o nada e vendo tudo. Assim que exercito o meu poder de compreender o mundo. Mas ainda não sei muita coisa. Falta ainda muito para se entender. Mas confio em mim. A solidão é minha companheira, estamos juntos há décadas. Não sei mais como viver sem ela. Ela auxilia-me nas minhas elucubrações. Sempre passei muito tempo sozinho, gostava de examinar o mundo. É que queria entender o porquê das coisas. Hoje tenho a solução para os mais intricados problemas. Mas ninguém quer ouvir mais minhas respostas. Então as guardo para mim. Algum dia, eu sei que vou usá-las. Não me importa o quanto demore. Sei que chegará o momento de por em prática o conhecimento amealhado com tamanha dificuldade. Eu tenho outro hobby: perco-me nas páginas convidativas de um bom livro. Às vezes escrevo também. Mas são poucos os que se aventuram nas minhas histórias conturbadas. Eu escrevo para ninguém. Eu escrevo para mim. Eu escrevo para achar as respostas que se escondem profundamente no espírito. Não sou muito de acreditar em alma, destino ou qualquer baboseira religiosa… Porém, até que fica bonito citar o espírito como algo interno, uma condição de que o homem não foge. Iria ficar estranho dizer que os sentimentos estão no interior do cérebro. Muito racional, não acha? A gente tem de aceitar o irracional de vez em quando. Ainda durmo muito pouco. É que quero aproveitar o dia o máximo possível, levantar com as galinhas e dormir com as corujas. A vida dói. Mas ninguém quer desfazer-se dela. Estranho, não é? Eu gostaria de mudar muita coisa no mundo, mas isso não me pesa mais. O quê?  Isso tudo: as maledicências da raça humana, as injustiças que recaem invariavelmente sobre mim, a dor que impinge sua força neste corpo frágil de carne e ossos… Não acredito mais na bondade. Deixei de ser ingênuo. Sabe, entendi que as pessoas não pensam nas outras. Vivem isoladas em seu egoísmo. Sei que posso ser melhor, sei que “posso ser a mudança que gostaria de ver no mundo”, mas estou cansado.  A gente desiste de ser o diferencial quando ninguém liga. Ninguém escuta. A gente grita e grita, mas é como se a nossa voz tivesse a força de um simples sibilar.

Gostaria de ser mais forte. Saber-me importante. Contudo, já estou cansado. Não quero mais lutar. Minhas forças faltam-me. Bati muitas vezes contra o muro da incompreensão. Agora quero dedicar-me apenas às minhas epifanias. Minhas revelações internas. Posso dar-me ao luxo de também ser egoísta? Não sou como os outros. Pode acreditar… Eu queria ajudar, mudar o mundo, mas o mundo me enjeitou como um filhote de pássaro que foi lançado fora do ninho. Sofri demais. E não quero mais restar com feridas que não se curam. Antes eu era tolo. Queria demais ser ouvido, queria demais que me percebessem. Mas hoje, sabe, eu desfiz-me de certas ‘querências’ infantis. Não me importo mais. Nem machuca mais. Eu entendi o mundo e entendi a essência dessa vida fajuta que o homem leva por quase cem anos. Agora estou certo que nem espero dos homens e nem eles esperam de mim. Vivo mais feliz. Verdade! A solidão era meu martírio, agora já a considero uma agradável companheira. Eu já disse, as tolices do passado estão enterradas. Meus desejos agora são simples. É, aprendi ser mais humilde. Eu era orgulhoso e minha arrogância feriu-me inúmeras vezes. A gente não acerta sempre. Eu queria estar no comando de todas as minhas ações. Então, descobri que não governo nem a mim mesmo, quanto mais o mundo. Esse planetinha azul é muito grande para minhas pernas tão curtas. Tenho de ir construindo e reconstruindo-me o tempo todo. Gosto de ouvir o silêncio. Não ria. É que sempre restam alguns sons quando estou no quarto vazio. Então fico tentando desvendar de onde viriam. É muito divertido. Você deveria tentar. Minha fome de justiça? Acho que me saciei com o paliativo da justiça: a compreensão. Resignei-me ao exercício do entendimento. Não quero mais que todos pensem como eu penso.  Não posso cobrar que todos tenham a mesma perspectiva que eu tenho. Já estou muito familiarizado com a técnica de “engolir sapos”. O sabor é amargo, mas dá para descer. Meio parecido com jiló. Perdi muito tempo querendo encontrar pessoas que me fossem semelhantes.  Agora estou certo que a mágoa foi-se embora. Nada mais persiste de dolorido. Sei que posso sobreviver sem a dor. E sei que ela ainda me espreita, mas já consigo escapar de suas terríveis garras.

 A minha verdade é que nem sempre a mentira é pior que a verdade. Eu sei que já confiei demais e não deveria ter-me entregado da forma que fiz. A gente tem de se resguardar. Ficar com um pé atrás. Assim não há decepção que fira sobremaneira. Pode até machucar, mas dá para sobreviver. É só catar os cacos do nosso coração e grudar com supercola. Fica como novo. Outro dia ainda, vi uma moça chorando, não lhe perguntei nada, não invadi seu direito de sofrer, apenas estendi-lhe uma flor. Ela aceitou, mas ficou olhando-me de forma esquisita. Acho que não compreendeu que queria ajudar a remendar-lhe o coração. Sabe, ninguém jamais fez algo assim para mim. E eu achei que ela precisava disto, mas creio que me enganei. Tudo bem. Acontece, não é? Há algumas verdades que devem permanecer escondidas. Eu posso guardá-las para sempre. Há muito espaço dentro de mim. Acho que ninguém pode viver sem seus pequenos segredos. Antes, cria ser necessário dizer sempre aquilo que pensamos. E que todos compreenderiam nossos motivos. Todavia, aprendi que nem sempre devemos nos abrir para um mundo míope. É como se fôssemos um livro. Nem todos nos interpretarão como esperamos. É que cada um vê à sua própria maneira. Não podemos condicionar o ser humano. Adestrá-lo feito um cão. O homem é como um animal selvagem, cujo adestramento não retira a selva de si.  É a natureza de cada um. Sou diferente. Tenho noção disso. Por tal razão, sou o avesso dessa sociedade hipócrita. Mas não me zango mais com esta condição. É esta a minha capacidade de não me misturar à massa de sentimentos inumanos. O homem é o animal mais feroz. Perverso, sabe? A raça humana vale-se de sua racionalidade para ferir. Mas agora estou indiferente ao externo. Só o que me é interior importa.

Sei que lhe parece difícil acreditar. Logo eu que gostaria de mudar o mundo para poder inserir-me nele… Hoje estou inserto nesta sociedade, mas compreendo que lhe sou diferente. E nesta solução sou a fase que não se mistura. Um óleo que permanece acima da água, incapaz de aderir a esta por lhe ser totalmente diferente. Sou orgânico. Tenho átomos de carbono em minha composição. O mundo é insípido. E ele trata-me com desprezo. Eu acordei do sonho de reformar os destroços de uma sociedade dizimada. Deixo a homens com mais força do que eu essa difícil tarefa. Sei que pode parecer estranho, mas já não me preocupo com o que pensam sobre mim. Os outros são os outros apenas. Eu sou eu. Eu sou um complexo de sentimentos e desejos que devem permanecer submersos nesse oceano em fúria que é meu coração. Eu prefiro esquecer as dores, os amores, as feridas (apesar delas ainda existirem) e concentrar-me em coisas mais produtivas em minha vida. Tenho tanto ainda para realizar. Eu ainda tenho sonhos. Sei que são um pouco ridículos. Mas são meus. Agora dou mais valor ao que é meu. Ao que eu sou. Ao que ainda tenho a conquistar. Construí um conjunto de metas nesse período que restei isolado nesses quartos brancos. E prefiro estar de volta a massacrante sociedade que permanecer isolado dela.  Permaneço apavorado com alguns desafios, mas estou pronto para enfrentá-los. É que ainda estou aprendendo a vencer. Depois de tantas derrotas, é estranho superar a si mesmo. Eu estou mais consciente do meu papel nessa peça. E sei que faço parte de um elenco estranho, em que nenhum dos atores decorou suas falas, cujas cenas não podem ser refeitas e que não há um diretor para conduzir o espetáculo. Essa é a maldição que nos acompanha. A gente sabe bem disto. Mas ninguém desiste, não é? Eu penso muito nisto. Eu não estou implorando seu consentimento para voltar a viver. Só queria que soubesse destas coisas antes que me libertasse desta concha que faz os sonhos transformarem-se em pérolas. Ainda que aqui permaneça, não pude deixar de falar o que nesta clausura eu aprendi.

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destino

O destino inexorável

Giordana Bonifácio

Se, no passado, houvesse sido mais maduro…

Se quando disse não, houvesse pensado mais…

Se tivesse pensado melhor no futuro…

Se me fosse possível hoje voltar atrás…

 

Se não tivesse sido demasiado puro…

Se pudesse hoje seguir por outro caminho…

Se tivesse outra chance, mudo tudo, juro!

Se não fizer algo, serei um eterno sozinho.

 

Só, perdido num mundo hostil, sem qualquer saída.

Temendo apenas minha próxima recaída.

Sem poder pedir por um auxílio ou socorro.

 

Sabendo deste meu destino inexorável,

Não me sinto dessa forma muito confortável,

Pois sei que é inevitável, eu, tão logo, morro.

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Lâmina

Giordana Bonifácio

Carrego uma ferida no meu peito,

Pois existe uma lâmina cortante

Encravada na carne de tal jeito,

Que choro a minha dor a todo instante.

 

Esta lâmina é das lembranças o fruto

E também de uma mágoa muito antiga,

Contra a qual há bastante tempo luto,

Porém sua força coíbe que eu prossiga.

 

Pois sou eu mesma o meu mais terrível algoz.

E não há quem vá ouvir minha débil voz,

Num último murmúrio, pedir perdão.

 

Porque ninguém com meu penar se importa.

E a lâmina só à minha carne corta.

Para viver, eu jamais tive aptidão.

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ampulheta

Ainda é tempo

Giordana Bonifácio

Ainda é tempo de flores e, talvez, amores.

Ainda é tempo, era o que o próprio tempo me dizia.

Ainda é tempo, mas ainda havia duros rancores.

Ainda é tempo, a esperança age como a anestesia.

 

Ainda é tempo, repito ainda, confiem em mim.

Ainda é tempo, não pense nesta dor que sente.

Ainda é tempo, não vá desistir fácil assim.

Ainda é tempo, a dor pesa no peito da gente.

 

Ainda é tempo, é possível acreditar ainda.

Ainda é tempo, ouça pulsar a essência da vida.

Ainda é tempo, creia, pois esta fé jamais finda.

 

Ainda é tempo, então esqueça as noites de solidão.

Ainda é tempo, não vá antecipar a partida.

Ainda é tempo, por favor, não me diga não.

 

 

 

 

 

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