Arquivo do mês: março 2013

na multidao

O homem na multidão

Giordana Bonifácio

Saindo de casa acendeu um cigarro e trancou o portão. Pensou em como a cidade pulsava fora de si. A cidade vive. Como o monstro criado pelo Dr. Frankenstein. De repente se lança o homem no mundo, então o mundo se torna homem. O homem do tamanho de um planeta inteiro. “Mas, na verdade somos tão pequenos…” Suspirou. E pensando nisso saiu caminhando pelas ruas, repletas de sonhos, cobertas de mágoas. Sentia que sofria, porém não sabia ao certo por que. Não sabia se era a vida que lhe doía como um punhal encravado no peito. Mas viver não mata. Na maioria das vezes não. Sentir é oposto de pensar. A razão é nossa pequena maldição. Gostava de coisas concretas. O silêncio  é  concreto. Duro, pesado e, às vezes, fere. Talvez porque o silêncio é companheiro inseparável da solidão. Por isso, que, quando só, gostava de ouvir música bem alto. Para esconder de si mesmo que a vida pesava mais quando estamos por nossa conta. Queria muito, mas querer apenas é um erro. Os sonhos são ‘querências’ que adormecem em nós. Nesse longo caminhar, ainda consegue ver o que as pessoas escondem de si mesmas. Gostaria ser um mágico para tirar desilusões da cartola. Lenços coloridos que saem sem fim do nosso peito. “O nosso coração suporta muita coisa.” Suspirou. Às vezes, precisamos ficar quietos para ouvir nós mesmos. “O que eu sou?”  Ele ainda se questiona sem resposta. Não nos conhecemos tão bem quanto imaginamos. Queria encontrar um espelho que mostrasse mais que seu próprio reflexo. Pois não nos queremos ver refletidos, queremos nos ver desvendados. Somos a icógnita da criação. Um grupo de macacos privilegiados com a razão. Mas nem sempre somos racionais. Somos estúpidos, horda de loucos que destroem tudo ao seu redor. Queremos ser livres, mas nos submetemos a um governo porque tememos a nossa própria espécie. Viver é um perigo mortal. Respirar nos mata lentamente. Podemos apressar ou atrasar o processo. Depende da nossa própria vontade. A vontade é nosso livre arbítrio. Podemos escolher. Mas só a experiência nos ensina quais caminhos tomar.

A multidão seguia a correnteza das ruas. Ele enfrentava a força das águas puxando-lhe não se sabe para onde. Se ele deixasse-se levar, aonde chegaria? O corpo é um máquina perigosa e frágil. É necessário sabermos como usá-la, contudo, ela não vem com nenhum manual. Somos lançados na vida à nossa própria sorte. Sem salva-vidas num mar em tormenta. Náufragos desesperados numa luta sem fim contra nós mesmos. Ainda há possibilidade de salvação? Talvez. Pelo menos é o que asseveram as várias religiões disseminadas pelo mundo. Mas, não há certeza absoluta disso. Isso é o que chamam de fé. Ele pensa que certas coisas são um tanto estúpidas, mas no fim das contas é bom acreditar que algo vai nos salvar quando estivermos à morte. Ele ainda tenta caminhar contra o curso das pessoas. Vozes soam desconexas, algumas contam histórias engraçadas, outras reclamam da vida ou falam de futebol. Por que não lhe viam? Seria ele invisível ao mundo? Pareciam ignorar-lhe por completo. Ele sempre contra o fluxo. Contra o mundo. Contra a dor de ser mesmo quando se é. Entretanto, não se quer ser. A vontade conta muito. Mas não é tudo. Ele sabe disso. As pessoas também, todos o sabem. Todavia, ele ainda crê que pode vencer a força inexpugnável da multidão. Ele versus o mundo. Ele com seu óculos quadrados, sua barba por fazer e suas milhares de teorias. Na prática, não contam muito. Afinal, por mais que cultivasse ideias, elas não tinham o poder de debelar a multidão insensata. A multidão que pulsa, que vive e não pode ser vencida. E se ele seguisse a favor da corrente e fosse absorvido por esse corpo de múltiplos corpos, que segue comandado pelas antenas de tevê? Quem poderia culpá-lo por desistir? Saíra de casa com tantas certezas e agora, já absorto pela multidão, vê-se com tantas dúvidas e não entende por que agora começa a pensar como aqueles que lhe cercam. Um sentimento conjunto de pertença. Como se fosse assimilado pela massa. Agora ele era massa. Ele sentia como todos. Tinha time de futebol, torcia pela mocinha da novela e conversava sobre o último reality show.

Jogou todas suas teorias no lixo. Nada mais de ser contra o mundo. Ser como o mundo, ser o mundo, é muito mais fácil. Sem o silêncio aterrorizante da solidão. Sem a autenticidade massacrante de sua individualidade. Agora a multidão o absorve. Ele pensa como o mundo a sua volta. Veste-se como todos. Não precisa mais pensar como um só. Agora ele é como todos. O mundo o percebe agora. O mais estranho é que não mais diverge da monotônica multidão. Como, só agora que se assemelha a todos, conseguem vê-lo? Por que era ignorado até então? Acreditava que poderia manter-se só quando nenhum homem é uma ilha. Ele foi derrotado pela vontade geral. E nossa vontade não é o bastante. Deve-se desejar como todos. Desejar ser, quando não mais se é. Desejar ter quando tudo se tem. Agora, veste-se em tons de cinza. Faz a barba. Gosta de músicas com letras fáceis e cuja melodia leva a dança. Por que ser um só quando se pode ser muitos? “Ainda há tempo?” Foi seu derradeiro pensamento como ser individual. Permitiu-se sua derradeira teoria: “seria mais feliz se pudesse entender completamente a vida”. Mas nada sabemos de nós. Nada sabemos do mundo. Somos uma pequena particula de poeira no universo. E fora de nós há o infinito que se alimenta de nossa fé. Vamos rezar para conseguirmos ser acolhidos em morte. Vamos imaginar que o futuro é uma promesssa quando, na verdade, é nosso infortúnio. Ele faz parte do todo. Ele é o todo. Caminha sem destino, ao sabor das correntes. Levado de um lado para outro. Sentia saudades de suas teorias, mas já se conformara em pensar em grupo. Não tinha medo, mas aceitava um governo que manipulava as massas com esmolas. “Não deveria ser assim”, ainda se ressente. Mas aceita o assistencialismo como modo de calar seus anseios. Por que querer ser diferente? Ele agora é um como todos, não um só. Um na multidão acolhedora. Um que não mais pensa por si. Ele era milhões. Ele era. Foi alguém que se poderia ouvir. Mas desistiu de si.

E quando saiu pela manhã ainda imbuído da coragem de vencer o poder da unanimidade, não teria imaginado que se deixaria derrotar pelo mundo. Sem a mágica da cartola que faz surgir respostas quando todos duvidam. Nesse jogo de cartas marcadas, sabe que não mais será discriminado por suas ideias. Não mais. Já que agora está integrado ao sistema. Deixou-se debelar pela potente massa de pensamentos homogêneos. Nada mais pode extrair-se do homem que foi. Com a multidão, foi sendo levado diretamente contra seus antigos ideais. E, como Pedro, negou três vezes sua antiga solidão. Ainda conseguia visulizar a dor que sentia. Mas agora está mais feliz, anestesiado pela morfina da ignorância. Assiste televisão, sem discordar da voz sonora do âncora do jornal. Não mais consegue se ver, agora só enxerga a massa. Um por todos, mas não todos por um. A dor agora é passado. Ela vive no passado como todas as mágoas. Ele perdeu a memória ou só quer esquecer as lembranças? Chegou em casa, apagou o cigarro. O vazio dizia-lhe um tanto de coisas que não queria ouvir. Preferia ignorar o chamado de sua solidão. Ligou o rádio para ouvir a música curar-lhe as feridas. Ainda lhe restam várias no espírito. Seria uma recaída? Será que ainda pode pensar por si, sem o auxílio da televisão que nos venda os olhos?  Sentiu as lágrimas escorrerem-lhe pela face. E a fé? Será que ela poderia responder porque ele ainda se sentia tão triste? E ainda havia medo. Ainda havia dor. Esquecer de si mesmo não cicatriza as feridas que perseveravam a latejar-lhe no espírito.

Categorias: Uncategorized | Tags: , , , , , , | 1 Comentário

foto-jesus-cristo-10

Cristo

Giordana Bonifácio

Depois de tantos ais,que tal sorrir um pouco?

Eu sei que me tem como um desvairado louco

E que crê que eu sei muito pouco da vida.

Porém, saiba que posso lhe dar acolhida.

 

E secar essas lágrimas tão doloridas.

Saiba que posso curar as grandes feridas

que hoje muito lhe afligem e pesam no peito.

Não acredite que para sua mágoa não há jeito.

 

Não existe dor que não possa ser remediada.

Minha palavra eu sei, muito lhe desagrada.

Pois não confia na cruz a qual levo comigo.

 

Mas tente ouvir as lições que à multidão digo:

“Os que choram são muito bem aventurados.

Pois, por mim serão todos um dia consolados.”

Categorias: Uncategorized | Tags: , , , , | Deixe um comentário

noticia_238458_img1_negros

Julgue-me

 Giordana Bonifácio

Julgue-me pelos meus erros ou meus pecados.

Julgue-me por meus sonhos ou por meus atos.

Julgue-me por ter sempre a tudo isto ignorado.

Julgue-me por não ser por minha sorte grato.

 

Julgue-me por ser fraco diante deste mundo.

Julgue-me pela cruz que meu povo carrega.

Julgue-me por meu corpo leve e moribundo.

Julgue-me por toda esta raiva que me cega.

 

Julgue-me pela fé que na vida guardo ainda.

Julgue-me por meu espírito ou por minha dor.

Julgue-me com seu medo, que na alma não finda.

 

Julgue-me por fomentar no peito a esperança.

Mas, por favor, não me julgue só por minha cor.

Pois é isto que deduzo do olhar que me lança.

Categorias: Uncategorized | Tags: , , , , , , | Deixe um comentário

labirinto_da_vida

Perdido no labirinto

Giordana Bonifácio

Eu não sei ainda como achar o caminho.

Nesse momento creio que estou sozinho.

Parece não haver mais saídas possíveis.

Os sonhos do real estão indiscerníveis.

 

Confuso, tento escapar dos perigos.

Porém, creio que não mais há fé comigo.

Terríveis labirintos ao meu redor,

Mas dessa dor sei que sou merecedor.

 

Um homem que em si mesmo está perdido.

Sei que meus planos já malsucedidos,

São a causa de meus inúmeros temores.

 

Não posso colher mais do campo as flores,

Os lírios são alvos demais para mim.

Mas sei que para toda dor há um fim.

Categorias: Uncategorized | Tags: , , | Deixe um comentário

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: