Brasília-Nathalia-Prates

“Bom dia, Brasília!”

Giordana Bonifácio

“Bom dia, Brasília!” Vociferou o locutor da rádio. E a cidade, atendendo ao chamado, foi despertando aos poucos de seu sono. As pessoas começaram a sair de seus blocos e o fluxo de carros foi aumentando. Muitos já passeavam com seus cachorros pela manhã. As lojas foram abrindo, já alguns bares bem movimentados da capital não tinham sequer fechado. O sol, que subia no horizonte anil, trazia de volta à vida a cidade adormecida. Muitos engravatados chegavam para mais um dia de trabalho, nos prédios do centro de Brasília. Ônibus lotados traziam da periferia os brasilienses que aceitaram a cidade como sua mesmo se originando em outras regiões do Brasil. As escolas abriam suas portas, crianças eufóricas trocavam confidências e brincavam entre si. Os Dragões da Independência hasteavam a bandeira da república, pombos voavam de um lado a outro em busca de alimento e os engarrafamentos já se formavam nas vias de entrada da cidade. Não se ouvia buzinas, tão somente o ronco dos motores cobrados nos longos engarrafamentos nos horários de pico. Pessoas apressavam-se para não se atrasar no trabalho e o frio da madrugada já se dissipava com a chegada do sol. Bicicletas e pessoas disputavam lugar nas calçadas, uns fazendo exercícios matinais, outros seguindo mesmo para mais um dia de serviço. Alguns portavam sacos de pães para o desjejum. Mas o mais comum era mesmo portarem bolsas, mochilas e maletas. Pois o brasiliense desperta muito cedo para suas obrigações diárias. Entre os carros, policiais tentavam dar ordem ao caos do tráfego viário da cidade. Sabiás voavam entre os galhos das árvores cantando sem se preocupar com as pessoas que passavam. Ouviam-se sinais sonoros assinalando a passagem de pedestres e de um lado a outro a cidade cobria-se de pessoas. Isto, para uma cidade, é fundamental, já que o fluxo de carros e pessoas é como o sangue que corre em suas veias de concreto e asfalto. Agora já desperta, Brasília aproximava-se mais do aspecto frenético das grandes cidades.  No coração do Distrito Federal, que curiosamente tinha o aspecto de um grande avião, os passageiros eram realmente pessoas de passagem que viviam nas ditas Cidades-satélites que contornavam o Plano Piloto.

Sentindo-se ainda sonolento, um pai levava seus filhos à escola reclamando do alto preço dos combustíveis. Depois, seguiria para o trabalho num dos Ministérios de Brasília. Morava em uma cidade-satélite e estava atônito com o enorme engarrafamento que enfrentara. Dizia que dentro em breve não se poderia mais usar carros no Distrito Federal, tal era a situação dos engarrafamentos. Quando chegou à L2 Sul já era quase sete e vinte da manhã, mas saíra mais cedo para evitar atrasos. Chegaria em cima da hora ao trabalho. Mesmo assim, amava aquela terra em que tinha nascido. Amava até as terríveis secas que todo ano duravam seis meses, também o tempo gélido do inverno que implicava em temperaturas baixas o suficiente para obrigar todos a usarem casacos. As ruas numeradas e sem esquinas traziam certa originalidade àquela cidade nascida no meio do Cerrado. Algo que amava era o som das cigarras anunciando o fim do inverno e da seca, e a chegada da chuvosa primavera. Também gostava de certas expressões que surgiram em meio a essa gente que se ressente de não habitar em uma cidade banhada pelo mar, mas que ama Brasília incondicionalmente. Mesmo o fato de não haver uma tradição bem formada de festas como o Carnaval e o Ano novo, não são razões suficientes de o Brasiliense ojerizar sua cidade natal. Tomado de muita preguiça e com os músculos ainda enrijecidos de frio, o homem seguiu para o trabalho certo que sentia algo muito especial pela modernidade de Brasília que contrastava com os conservadores governantes e habitantes que se sentiam donos do país apenas por sentarem nas cadeiras do Congresso e dos Palácios. Gente que se acreditava importante, mas que desconhecia a força do povo que poderia a qualquer momento retirá-los de sua cômoda posição. O problema é que este povo também desconhecia seu poder. Chegou ao trabalho e conversou com os porteiros. Muitos o chamariam de burocrata, mas ele preferia acreditar que era simplesmente um funcionário público.

Uma mulher descia na estação do metrô na Rodoviária. Seguia para o trabalho numa loja no Conjunto Nacional, o primeiro shopping de Brasília. Era certo que não era um dos melhores empregos do mundo, mas ela acreditava que em breve passaria num concurso público e ascenderia socialmente. Subindo a plataforma superior da Rodoviária era possível ver, à frente, a Torre de tevê e, ao fundo, o Congresso Nacional e os Ministérios. Um pouco acima, avistava-se o Museu Nacional e a Biblioteca Nacional. Seria uma imagem belíssima, para quem estivesse com espírito desarmado de dores e menos acostumado às obras de Niemeyer. Os azulejos de Athos Bulcão do Teatro nacional, não conseguiam vencer as dificuldades daqueles que não nasceram em berço de ouro e tiveram de lutar pela vida desde muito cedo. Ela trabalhava desde os dezesseis anos. E seus olhos tristes já não enxergavam a beleza que havia a sua volta. O Conjunto Nacional sofrera inúmeras mudanças desde que começara a trabalhar naquele lugar. Antes era coberto de luminosos de neon e brilhava entre os monumentos da cidade. Hoje, mudaram a fachada para placas de outdoors que modificaram bastante seu layout. Talvez porque ela gostava dos neons brilhantes, mas achava que antigamente era muito mais bonito. O incomum é geralmente o diferencial no ramo do comércio. Quando se valia dos luminosos para se destacar entre os shoppings da capital provavelmente atraia mais consumidores, hoje está sujeito a ser considerado apenas mais um dos muitos shoppings de Brasília. E nem podia mais usar do slogan: “onde brilha a cidade”. Era isso que pensava, porém, ninguém sequer perguntara sua opinião sobre aquela mudança. Ela não foi consultada, nem mesmo a população, os lojistas preferiram daquela maneira. O que se poderia fazer afinal? Chegou à loja de sapatos exatamente às sete e meia, adiantada para o trabalho que só iniciava às oito horas.

Um estudante, no ônibus, enquanto seguia para a Universidade de Brasília, apreciava as belezas do cenário da capital. Gostaria de mudar as disparidades que havia em sua cidade, onde ricos e pobres retratavam o abismo social que existia no Brasil. Mas sabia que era apenas uma voz sibilante frente a gigantes. Uma simples e solitária voz descontente contra um país inteiro que se acostumou a viver com a miséria que o governo assistencialista oferecia. Um povo que não sabia que poderia mudar essa nação com sua força, que não sabia mais gritar, cuja serenidade frente aos escândalos de corrupção chegava a irritar. E os monumentos de Niemeyer retravavam uma modernidade das instituições que inexistia. Um país atrasado cuja política sempre foi um jogo de cartas marcadas, era a realidade que se apresentava na nação desde muito cedo. No Congresso Nacional, uma corja de ladrões que vestem ternos (lobos em pele de cordeiro) contestava até mesmo o poder do Supremo Tribunal Federal e suas decisões. À frente do prédio do Supremo, uma Tétis sentada, quer se fazer de cega num país em que a justiça enxerga tudo, mas se omite. No Palácio do Planalto, Dragões da Independência, vigilantes, faziam a guarda do mais alto posto do país. A Esplanada dos ministérios já não comportava todos os ministérios criados para servir de cabide de emprego. Enquanto isso, aqueles que não gozavam de privilégios partidários eram forçados a prestar concursos concorridíssimos para ascender a um emprego público. Era essa a realidade da cidade: poucos com muito e muitos com pouco. Em meio a estas imagens contrastantes, havia uma guerra entre poderes que se achavam competentes para traçar o caminho da nação. Quando chegou com uma multidão de estudantes na Universidade, o estudante ainda ouviu no rádio do celular o radialista repetir: “bom dia, Brasília!” E a cidade já estava bem desperta para começar outro dia.

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