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A tragédia de Santa Maria

Giordana Bonifácio

Quando acontecem tragédias como a de Santa Maria é que as autoridades param para repensar o que poderia ter sido feito para evitar o desastre. No fim, descobre-se que foi uma soma de erros que, com um pouco de bom senso e moral, não aconteceriam. Na boate Kiss não foi diferente: uma multidão de duas mil pessoas aglomerava-se num espaço com capacidade para apenas mil. Isso demonstra o profundo descaso dos donos da boate com as vidas postas em suas mãos. Pois, é certo que quando qualquer um se propõe a realizar um evento destes tem de compreender que as pessoas que a este comparecerão estão colocando sua segurança sob a tutela dos donos da casa de shows; outro fato escandaloso e reprovável foi os seguranças impedirem a saída da multidão enlouquecida a fim de evitar prejuízos à boate, ao invés de pensar nas vítimas aterrorizadas, levaram a lógica capitalista ao seu ponto mais terrível, quando ela desvaloriza a vida em função do dinheiro; outro erro foi de a saída ser deveras pequena para todos saírem a tempo e a salvo; e, ainda, a banda que se apresentava num local fechado não poderia ter feito um show pirotécnico sem autorização e supervisão dos bombeiros. Todos esses fatores somados provocaram a morte de 245 pessoas e outras várias feridas. Porém, a mais assombrosa foi mesmo a exigência de pagamento pelos seguranças que barrava a saída das vítimas. Em função disso uma montanha de corpos se formou próximo à entrada da boate. Os bombeiros disseram que não conseguiam chegar ao fundo da casa de shows em função dos inúmeros corpos, pessoas que foram asfixiadas pela fumaça do incêndio. Mesmo com a ação rápida dos bombeiros não foi possível dirimir a tragédia. Ocorre que se deveria, desde o início, atentar para os fatores apresentados. Pois só assim não haveria tal contingente de corpos, na maioria de jovens estudantes que não imaginava que perderia a vida de forma tão dramática. É de se imaginar o desespero das pessoas vendo a iminência da morte sem poder fazer absolutamente nada para evitar. Já que a única saída possível estava fechada por seguranças truculentos numa atitude inaceitável.

Resta aos pais somente irem recolher o corpo sem vida de seus filhos. Estudantes que sonhavam com um futuro que nunca chegará. Filas imensas se formam frente ao ginásio usado para o reconhecimento das vítimas. Enquanto isso, na imaginação de seus pais, ainda há uma esperança de seu filho não estar entre os mortos, mas provavelmente ferido em algum dos hospitais da região. Só que o destino é inexorável. Eis que avistam o corpo daquele garoto a quem viram crescer e se tornar um rapaz, sempre bonito arrumado para as gatinhas. Agora jaz ali, o que restou de seu menino. Aquele mesmo com quem o pai ralhou por ter quebrado a vidraça do vizinho, aquele mesmo que lambia a vasilha em que foi feito o bolo. E a mãe daquela bela jovem que marcou para a filha voltar às duas horas da manhã e ela não apareceu. Primeiro, ficou nervosa pela quebra da promessa da garota. Mas ao saber da tragédia, desmoronou. Não encontrou a filha em nenhum dos hospitais. Não queria procurar entre os mortos, pois tinha de alimentar uma esperança infundada que a encontraria apenas ferida. Então, vê ali o corpo da filha com a maquiagem borrada, frio, duro sem aquela aura alegre que sua menina costumava ter. E eles pensam: está tudo acabado. Não sabem como se reerguer após este evento horrível. Sentem uma dor incomensurável.  O governo disponibiliza, então, psicólogos para ajudar a mitigar a dor dos familiares. Mas é pouco. O que deveria ter sido feito, não o foi. Agora, não há como aplacar a dor do descaso, a dor da intolerância, a dor da falta de solidariedade e a dor da morte. Sentados acariciam a cabeça daqueles garoto e garota que lhe deram tantas preocupações e alegrias. Pedem desculpa por não os terem protegido como haviam prometido quando nasceram. Disseram que nada de mal lhes aconteceria. Porém, num simples momento de descuido, a morte ceifou a vida de suas crianças sem poderem ter feito nada para evitar. Agora vão recolher os cacos que não podem ser consertados. É o fim.

E nesse momento, o mundo solidariza-se com as vítimas da tragédia. Os jornais noticiam tudo a respeito para manter todos bem informados da situação. Contudo, o que os espectadores podem fazer senão lamentar e rezar pelos que se foram? Talvez aprendam a lição para que não voltem a ocorrer casos como este, com tantos mortos e feridos. As pessoas, compadecidas, correm para os hospitais a fim de aumentar as doações de sangue para as vítimas. Faz-se o máximo possível a uma sociedade sem ação. Por quê? Porque já é muito tarde. E os mortos não ressuscitarão. Talvez por um milagre como o que ocorreu com Lázaro. Mas já não é tempo de milagres. É tempo de dor e comiseração para com os que hoje choram e precisam de apoio para superar a angústia. Já os que faltaram com a segurança, devem ser punidos. Pois a massa de mortos amontoados na saída da boate só clama por justiça. É necessário atribuir à culpa desse crime vergonhoso aos seus causadores. Imprimir sobre seu nefasto descaso o peso da lei. Para evitar que se repita a cena que hoje não sai das televisões do mundo. As pessoas enlouquecidas tentam encontrar com vida seus rebentos, que faleceram do modo mais banal: em função da ganância dos donos da boate que lhes impediram a saída rápida do local do incêndio. Gente que não é mais gente, são corpos, mas não apenas corpos, são corpos amontoados. Asfixiados pelo capital, mortos pela negligência. O que pode ser feito? Chorar por tantas vítimas inocentes, que deveriam se divertir num show e foram asfixiadas, pisoteadas e queimadas num incêndio que poderia ser evitado por ações simples de prevenção. Agora, as vozes embargadas pela dor perguntam por seus filhos. E seus filhos já não podem ouvir seus apelos. Já não podem responder às suas súplicas. Amontoam-se depois da fuga desesperada. Não havia como sair. Não havia como escapar. Então sua única alternativa foi falecer. O silêncio tomou conta do ar já impregnado de gás carbônico. Não podem mais pedir ajuda. Não gritam apavorados. Aceitaram a morte tal qual aceitaram a vida: sem escolha.

Imagina o que estas pessoas pensaram antes de morrer. Muitas devem ter pensado na dor da família, outras devem ter lamentado pelos sonhos que não concretizariam, e, ainda, há aquelas que pensaram em Deus e clamaram por sua misericórdia ao morrer. Choraram quando se deram conta que não poderiam fugir e que o ar escapava de seus pulmões intoxicados. Pediram por mais alguns minutos de vida que não lhes foram concedidos. Foram caindo, não havia mais dor em seus corpos, agora estavam livres de sua condição humana. Talvez agora estejam compadecidos da dor de suas famílias, querendo auxiliá-los, ao seu lado, sem poder nada fazer. E aquele dia que deveria ser uma data feliz, acabou se tornando o dia de uma das maiores tragédias do país. Os pais vagam sem direção, desnorteados pela dura realidade. Não poderiam mais aconselhar seus filhos a não irem para o show. Não poderiam mais impedir que eles fossem. Só restam cinzas e pó e famílias marcadas para sempre com esta dor. O que há de ser feito? Somente prevenir que outros não morram em desastres desta proporção. O maior crime é o descaso. A vida humana é muito valiosa para ser perdida em função de valores irrisórios. Devem tratar homens como homens e não como coisas. Não são apenas números numa terrível tragédia. Cada um dos que morreram tinha um nome e uma história. Muitos sonhos foram perdidos nessa madrugada de domingo. Foram sufocados pela negligência dos mais ricos. Foram amontoados sob as cinzas da esperança. Em função desses sonhos dourados que nunca mais serão reavidos, uma parte de cada ser humano também morreu hoje. Porque fomos tolerantes quanto a situações inaceitáveis. E em função disso pagamos um preço muito caro. Não são apenas as famílias das vítimas desse desastre que hoje lamentam, mas todo o mundo que nada fez para evitar essa tragédia.

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